EDITORIAL Este número da Revista do NUFEN, percurso da constituição...
EDITORIAL
Este número da Revista do NUFEN,
percurso da constituição das masculinidades
janeiro/junho, oferece textos sobre a condição
visando reforçar a conservação da
masculina a partir de diálogos
masculinidade hegemônica. No Brasil, alguns
interdisciplinares entre a Psicologia, Filosofia,
marcos legais que norteiam a elaboração de
Antropologia, Sociologia, Enfermagem.
políticas públicas para as ações voltadas as
Apresenta meditações sobre o campo da
masculinidades relacionais (com outros
psicoterapia, do cuidado, da saúde, sobretudo
homens, mulheres, filhos, etc), são, por
do HIV-aids em diálogo com as políticas
exemplo, a promulgação da lei 11340/2006 ,
públicas. Reverbera o tema da sexualidade e
conhecida como lei Maria da Penha; a Política
da família indagando o preconceito acerca das
Nacional de Atenção Integral à Saúde do
práticas homoeróticas. É um número
Homem vinculada com a Política Nacional de
complexo e plural. Participam pesquisadores
Atenção básica, proposta em 2008 pelo
de vários programas de pós-graduação do
Ministério da Saúde visando estimular o auto-
País. É o primeiro volume do ano de 2012,
cuidado masculino, a promulgação da lei
após a inserção no Qualis CAPES, em que
11489/2007 que institui 06/12 o dia da
nosso periódico teve atribuida à qualificação
mobilização nacional dos homens pelo fim da
B4 no âmbito dos periódicos de Psicologia e
violência contra as Mulheres.
Serviço Social. Estamos nos preparando para a
Ricardo Pimentel Méllo e Juliana Vieira
Internacionalização já que o LATINDEX é uma
Sampaio analisam em documentos médicos a
das bases de indexação. Nossa equipe foi
concepção de corpo normal, pautada no saber
ampliada e conta hoje, com os editores
médico biologicista e os corpos nomeados
assistentes: professor Lucivaldo Araújo da
como intersex. Ponderam que segundo a
Universidade do Estado do Pará, professor
Sociedade Intersex Norte Americana intersex é
Emanuel Meireles, professora Kamilly Valle e
um termo utilizado para nomear corpos cuja
professor Warlington Lobo, todos da
anatomia não se adequa aos padrões
Universidade Federal do Pará, Instituto de
masculino ou feminino.
Filosofia e Ciências Humanas, Psicologia.
Edyr Batista de Oliveira Júnior e Cristina
O que significa a categoria
Donza Cancela fazem uma apreciação do corpo
masculinidade? E o debate acerca da
do metrossexual como algo "fabricado" e que
psicoterapia em uma compreensão
mescla práticas e valores masculinos e
fenomenológica em tempos de clínica
femininos. Realizam dezesseis entrevistas
ampliada e de inserção social do/a Psicólogo/a
semi-estruturadas e consideram que para
no campo das políticas públicas? Algumas
muitos o metrossexual não é pensado
respostas o/a leitor/a encontrará na leitura
enquanto experiência para si, mas enquanto
dos artigos. Neste tomo, respectivamente, as
lente para analisar o Outro no exercício da sua
réplicas expressas nos artigos 1 a 7
masculinidade, uma vez que há o diálogo com
demonstram que a masculinidade é um signo
os valores e experiências idealmente criadas
plural. O termo aparece pela 1- vez em 1734,
para esse neologismo, mas não
citado no terceiro volume do Dicionário de
necessariamente a vivência tal como
Autoridades da Real Academia Espanhola, e,
alardeada nos meios de consumo midiáticos.
entendemos que não se refere unicamente a
Wladirson CardosoWladirsonCardoso e Ernani Pinheiro
um vocábulo, mas a ideologias veiculadas por
chaves refletem acerca das práticas e do modo
meio de instituições e políticas. Sistema de
de vida gay de homens em envelhecimento.
ideias transmitidas cotidianamente no
Seu texto se inscreve, no horizonte que
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 01-03,2012.

Editorial
entrecruza as diversas sexualidades ou
quando se reafirma uma homossexualidade
sexualidades divergentes e as masculinidades
assentada nos padrões heteronormativos:
num sentido hipermoderno e plural.
familiar, monogâmica, afetiva. Neste sentido,
Robson Cardoso de Oliveira e Cristina
ao lado dos argumentos conservadores, que
Donza Cancela consideram as representações
não estendem aos casais homossexuais o
de masculinidades na propaganda de cervejas,
direito de constituir famílias, soma-se uma
investigando o homem como consumidor em
crítica a percepção de que normas jurídicas
potencial. Discutem como os papeis das
podem limitar a possibilidade de sexualidades
masculinidades vem sendo construídos,
libertárias. A hipótese do artigo é mostrar que
significados e ressignificados na propaganda
estas duas visões podem ser superadas sob a
brasileira de cervejas. A análise baseia-se em
perspectiva tanto da filosofia kantiana quanto
observações realizadas em anúncios
da Teoria do Discurso desenvolvida no final do
vinculados na TV aberta, além de peças
século XX por Ernesto Laclau e Chantal
publicitárias colhidas no ciberespaço; de
Mouffe.
cervejas nacionais e internacionais. Como
Ramon Pereira dos Reis desenvolve um
resultado, percebe-se que os anúncios de
pensamento analítico sobre performances e
cervejas, atualmente, associam os
convenções corporais de gênero de homens
consumidores de cerveja ao gênero masculino
homossexuais frequentadores de dois espaços
e para isso realizam anúncios valorizando o
de sociabilidade homossexual - Lux e Malícia -
homem heterossexual.
em Belém, Pará. Alargando as análises para
Mílton Ribeiro da Silva Filho e Carmem
além dos espaços referidos, entrevistaram 9
Izabel Rodrigues apreciam a construção de
sujeitos para compreender falas de
identidade LGBT, o uso e apropriação do
constrangimento ou medo de se efeminarem.
bajubá, da "política do armário" e dafechação
Consideram que, respectivamente, Lux e
como forma de construção do ethos
Malícia retratam, através dos seus
homossexual. Utilizam a etnografia com o
frequentadores e dos equipamentos
objetivo de construir uma análise centrada na
disponíveis, a produção de performances
dinâmica dos indivíduos com um aspecto da
corporais e de gênero distintas: uma repulsa e
linguagem. Realizam entrevistas não
recusa à uma feminilidade espalhafatosa, e
estruturadas e observação participante com o
uma masculinidade respeitável "produzida".
objetivo de estabelecer uma conexão entre as
Warlington Lobo e Adelma Pimentel
referências simbólicas e a realidade prática do
realizam metodologicamente um
indivíduo homossexual, analisando o
levantamento bibliográfico referente à
"armário" a partir da experiência vivenciada
produção científica de artigos e capítulos de
em Belém. Concluem afirmando que a
livros a respeito do HIV/aids: fazem uma
utilização do bajubá compõe parte do coming
revisão do conceito de adesão masculina ao
out que serve de elemento agregador nos
tratamento ao HIV/aids, entrelaçando o
momentos de sociabilidade
assunto aos desdobramentos das
Alan Michel Santiago Nina e Carlos
vulnerabilidade; intervenção da psicologia
Augusto Silva Souza argumentam acerca do
clínica de orientação gestáltica e da clinica
reconhecimento como ente familiar de casais
ampliada, como uma politica de saúde que
formados por pessoas do mesmo sexo (as
procura humanizar os serviços de diagnóstico
chamadas relações homoafetivas), partindo
e assistência. Após análises e leitura minuciosa
dos julgados do Supremo Tribunal Familiar. O
do material selecionado as principais
reconhecimento de direitos e a construção de
conceituações e conclusões visando esboçar
sujeitos politicamente definidos podem
nossa compreensão. A discussão dos dados foi
revelar o perigo de normatizar a sexualidade e,
realizada na interface com a ciência
nesse sentido, pulverizar parte das
psicológica nas áreas da clínica e da saúde
possibilidades de vivências e arranjos sociais,
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Editorial
Rosa Angela Cortez de Brito & Vilma
atendimento público de atenção à saúde no
Maria Barreto Paiva se debruçam sobre a
sistema brasileiro nas últimas décadas. O
psicoterapia centrada na pessoa e realizam
artigo, ainda, relaciona as ponderações aos
uma pesquisa bibliográfica das obras de
pressupostos teóricos da Abordagem Centrada
Rogers, de Axline e de comentadores. Como
na Pessoa hipotetizando que se trata de uma
resultado, verificam que a ludoterapia de
proposta psicológica que se aproxima
Axline encontra-se entre dois momentos do
teoricamente das diretrizes recomendadas
desenvolvimento teórico da obra de Rogers: a
pelas Políticas Públicas nos serviços de saúde
fase não-diretiva e a fase reflexiva. Portanto,
do Brasil.
consideram que a teoria de Axline é uma
Finalizando este volume, Danielle Leal
transição para a terapia centrada no cliente.
Sampaio apresenta uma resenha sobre o livro
Amanda Morais de Faria & Andréia
Entre Educação e Filosofia: Conhecimento,
Moreira Rocha analisam o livro O Escafandro e
Linguagem Pensamento organizado por Abreu
a Borboleta, obra do escritor Jean-Dominique
& Cols (2011). O livro contém 13 artigos cujo
Bauby, usando o referencial teórico da
tema geral é a Educação em articulação com a
Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl
filosofia. As principais temáticas destacam um
Rogers. O objetivo do artigo foi meditar em
raciocínio crítico e reflexões acerca do
que aspectos a referida Abordagem pode
processo de produzir conhecimento nos
contribuir para o cuidado de pessoas que
campos da linguagem e do pensamento.
apresentem uma limitada capacidade de se
comunicar assim como o personagem central
Bauby.
Adelma Pimentel
Anita Bacellar, Joana Simielli Xavier Rocha
Editora Geral
& Maira de Souza Flôr refletem acerca das
alterações que ocorreram no modelo de
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CORPOS INTERSEX BORRANDO FRONTEIRAS DO DISCURSO MÉDICO
INTERSEX BODIES BLURRING BOUNDARIES OF MEDICAL DISCOURSE
Ricardo Pimentel Méllo
Universidade Federal do Ceará
Juliana Vieira Sampaio
Universidade Federal do Ceará
Resumo
Buscamos analisar de que modo a concepção de corpo normal, pautada no
saber médico biologicista, gerencia os corpos nomeados como intersex.
Segundo a Sociedade Intersex Norte Americana intersex é um termo
utilizado para nomear corpos cuja anatomia não se adequa aos padrões
masculino ou feminino. Utilizamos como principal fonte de pesquisa
documentos médicos, que foram classificados como acadêmicos e jurídicos.
Adotamos a postura de tratar esses materiais documentais como práticas
discursivas, pois estes são produtos e produtores de práticas sociais.
Observamos nos documentos pesquisados as características que permitem
aos médicos classificarem um corpo como feminino ou masculino, quais
intervenções realizadas após o diagnóstico de intersexualidade e como
esses procedimentos são justificados. Concluímos que no campo da
intersexualidade o dispositivo médico se apropria do discurso psicológico a
fim de instituir o binarismo de sexo e gênero como único modo possível de
existência.
Palavras-chave:-chave: intersexualidade; práticas discursivas; dispositivos da
sexualidade; teoria queer.
Abstract
We seek to analyze how the concept of normal body, based on medical
knowledge biologist, manages the bodies named as intersex. According to
the Intersex Society North American intersex is a term used to designate
bodies whose anatomy does not suit to male or female patterns. We used
as primary source of medical research documents, which were classified as
academic and legal. We take the stance of treating these documentary
materials as discursive practices, as these are products and producers of
social practices. We observed in the documents studied the characteristics
that allow doctors classify a body as feminine or masculine, what
interventions after diagnosis of intersexuality and how these procedures are
justified. We concludes that the field of intersexuality the medical device
appropriates the psychological discourse to establish the binarism of sex
and gender as the only possible way of existence.
Keywords:: intersexuality; discursive practices; device of sexuality; queer
theory.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 04-19, 2012.

Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico _
Resumen
Tratamos de examinar cómo el concepto de cuerpo normal, basado en el
conocimiento médico biólogo, gestiona los órganos nombrados como
intersexuales. De acuerdo con la Sociedad de Intersexuales Norte intersex
americano es un término utilizado para designar a los organismos cuya
anatomía no se ajusta al estándar macho o hembra. Se utilizó como fuente
primaria de los documentos de investigación médica, los cuales fueron
clasificados como académico y legal. Adoptamos la postura de tratar a estos
materiales documentales como prácticas discursivas, ya que estos son los
productos y los productores de las prácticas sociales. Se observa en los
documentos estudiados las características que permiten a los médicos
clasificar un cuerpo femenino o masculino, lo que las intervenciones
después del diagnóstico de la intersexualidad y cómo estos procedimientos
están justificados. Llegamos a la conclusión de que en el campo de la
intersexualidad dispositivo médico se apropia del discurso psicológico con el
fin de establecer el binario de sexo y género como el único modo posible de
la existencia.
Palabras clave: intersexualidad; prácticas discursivas; dispositivos de la
sexualidad; la teoría queer.
1. Saber comojogos de poder
águas do lago, das quais ela era rainha, não
permitissem que eles se separassem nunca
mais. Sálmacis foi atendida, e a partir desse
Quando seus membros num abraço forte
dia, todas as pessoas que mergulhassem
se uniram, não são dois, mas uma forma dúplex,
neste lago estariam destinadas a abrigar os
nem rapaz, nem mulher, e que a nenhum parece.
dois sexos em um só corpo.
(Metamorfoses de Ovídio).
São esses corpos muitas vezes
considerados corpos "estranhos",
Antes de iniciarmos a nossa discussão
"fantásticos" e "sem fronteiras" que o foco da
sobre intersexualidade, buscamos a figura de
nossa pesquisa se voltará. A referência a
Hermafroditos, pois nos traz um dos
corpos completos e perfeitos é um dos
primeiros relatos sobre corpos intersex
discursos que
circula sobre a
baseada numa estória mitológica (GRIMAL,
intersexualidade,
mas, em diferentes
1992; FRANCHINI & SEGANFREDO, 2007).
contextos, esses
corpos podem causar
Filho dos deuses Hermes e Afrodite,
desconforto e serem considerados corpos
Hermafrodito herdou a beleza da mãe e a
"ambíguos" ou ainda como "incompletos".
força do pai. De acordo com o mito, durante
Segundo a Sociedade Intersex Norte
uma viagem, Hermafrodito conheceu a ninfa
Americana (ISNA, 2010) intersex é um termo
Sálmacis que reinava sobre as águas da região
utilizado para nomear corpos cuja anatomia
da Cária. Sálmacis se apaixonou
não se adéqua aos padrões hegemônicos de
perdidamente pelo jovem e tentou seduzi-lo
sexo masculino ou feminino. Trazemos para
com os seus encantos, mas não obteve êxito
dialogar sobre esses corpos, a Teoria Queer:
em sua conquista. Um dia, quando
Movimento político e acadêmico questiona a
Hermafrodito foi se banhar em um lago,
heteronormatividade, que pode ser
Sálmacis o surpreendeu e abraçou o rapaz
entendida como o binarismo de gênero e a
fortemente pedindo para que os deuses e as
coerência naturalizada entre sexo, gênero,
desejo, sexualidade e práticas sexuais. Dessa
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 04-19, 2012.

_Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico
forma a Teoria Queer critica os processos de
poderia ser moldado pelos pais, já que este
construção identitária, pois entende que
seria construído socialmente.
esses produzem posições naturalizadas ou
Durante os movimentos feministas da
fixadoras de sujeitos. A criação de um padrão
década de 1970, a categoria gênero foi
possível de vida, forma zonas que pretendem
adotada para criticar a "opressão" sofrida
ser resistentes a ameaças, perturbações e
pelas mulheres e impingidas por homens. As
repúdio. Por outro lado, a desnaturalização de
chamadas teóricas feministas alegavam que o
categorias identitárias é um dos processos
gênero, como categoria construída
centrais para a existência de modos de vida
socialmente, provocava as diferenças entre
mais criativos e libertários.
homens e mulheres (FAUSTO-STERLING,
Esse processo criativo nos impele a
2002; PRECIADO, 2008; SCOTT, 1995).
também questionar antagonismos como:
Consequentemente, ao falarmos sobre
natural/cultural e real/construído, que
gênero deveríamos no remeter aos termos,
acabam sendo fundamentais na constituição
masculino e feminino; e o conceito de sexo
e naturalização do dualismo sexo/gênero.
corresponderia a uma oposição anatômica
Anne Fausto-Sterling (2002) e Judith Butler
entre pênis e vagina. As ativistas feministas
(2008) analisam que o conceito de natureza
entendiam que com a mudança na concepção
deve ser repensado, pois ele não pode ser
de gênero cultural (masculino/feminino) seria
entendido como uma categoria pré-
possível uma ressignificação das relações
discursiva. Para estes autores, a natureza é
entre homens e mulheres.
uma categoria pretensamente a-histórica,
Apenas na década de 1980 algumas
como se existisse antes mesmo das marcas
teóricas do movimento feminista, dentre elas
socioculturais. Por outro lado, não podemos
Teresa de Lauretis e Denise Riley, passaram a
incidir no extremo oposto de entender a
questionar os conceitos de sexo e gênero,
natureza apenas como uma superfície de
compreendendo que estes nos levam a
inscrição que espera passivamente assumir o
percepção do sexo, como algo natural e de
seu significado social. Assim, afirmar que
ordem biológica, ignorando que todas essas
discursos constroem as nossas vidas, não é
categorias, inclusive a natureza, são
alegar que neles elas se originam. Não basta
construídas socialmente. Dentre estas
um foco linguístico sem análise de suas
teóricas feministas temos a filósofa Judith
condições de existências, estratégias e
Butler, que também é uma das percursoras da
efe itos.
Teoria Queer. Ao criticar a separação entre
A compreensão da categoria sexo em
sexo e gênero Butler aponta que o processo
nossa sociedade está atrelada a uma
de diferenciação sexual não se resume ao
materialidade pré-discursiva, assim como a
aspecto material-físico, mas é um conceito
natureza. Desse modo, circula uma
marcado pela construção de práticas
concepção de que o gênero tem origem social
discursivas. Desse modo, o sexo/gênero é
e o sexo tem origem biológica, apesar dos
uma prática discursiva que possibilita o ser
dois conceitos serem construções históricas.
humano adquirir inteligibilidade social.
O conceito gênero foi utilizado pela primeira
Para Butler (2008), o sexo/gênero é
vez em 1947 por Anke Ehrhardt e John Money
anterior ao próprio aparecimento do humano,
que trabalhavam com crianças já
pois são essas categorias que permitem o
caracterizadas como intersex (FAUSTO-
reconhecimento político do sujeito. A autora
STERLING, 2002; PRECIADO, 2008). O termo
afirma que no processo de formação do
gênero, nessa situação, era concebido como o
sujeito, este é "convidado" pela sociedade a
"sexo psicológico". Ehrhardt e Money
assumir uma "identidade" que, no caso do
queriam demonstrar que,
sexo, deve estar inserida na matriz
independentemente do sexo (anatômico e/ou
heterossexual. Alguns corpos que não se
genético) de nascimento do sujeito, o gênero
acomodam no padrão "normal" de
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Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico _
sexualidade, deixam de gozar do status de
construção cirúrgica de um "pênis" são
sujeito. A norma da heterossexualidade, que
consideradas cirurgias de "redesignação
também é discursivamente construída, institui
sexual". O discurso entendido como prática, é
as zonas de exclusão, habitada pelos corpos
um meio de ação do poder e, dessa forma, os
abjetos/não humanos.
procedimentos cirúrgicos, quando nomeados
0 binarismo de sexo e a
de modos diferentes, passam também a
heterossexualidade são naturalizadas e
serem regulados de formas distintas.
ganham materialidade em ações do cotidiano
Enquanto o primeiro procedimento pode ser
como no nascimento do bebê que o médico
realizado de acordo com a escolha do
afirma se é menino ou menina, no uso do
indivíduo, o outro processo é controlado pelo
banheiro público masculino ou feminino, no
Estado, e apenas com a "permissão" e
documento de identidade etc. Para Butler, o
autorização deste, torna-se possível a
sexo/gênero não é considerado como uma
intervenção cirúrgica.
realidade ou atributo da natureza, mas como
A busca compulsória por normalizar a
performance, ou seja, se manifesta em cada
sexualidade é extrapolada no caso da
momento, em cada gesto, em cada ato, em
intersexualidade. O saber biomédico por meio
cada experiência (BENTO, 2007, p. 08). De
de tecnologias fármaco-cirúrgicas corta (por
toda forma, o que podemos concluir é que o
meio de cirurgia) o que supõem existir em
gênero produz, compulsoriamente, corpos
"excesso" e coloca (também por meio de
sexuados, no qual os corpos que atendem
cirurgia) o que supõem "faltar", para que
algumas normas são inseridos no sistema
esses corpos se encaixem (caibam na caixa)
heteronormativo. Ao mesmo tempo, os que
aos padrões "normalizados" de sexo.
escapam do "masculino/feminino" são
Os corpos intersex borram as fronteiras
apresentados como acidentes, exceções e
naturalizadas entre o que é ser homem e
perversões, o que acaba re-naturalizando a
mulher. Isso provoca fissuras no modelo
norma reguladora do sexo/gênero
naturalizado de sexo que oferece apenas duas
(PRECIADO, 2002).
possibilidades de existência, masculino-pênis
O gênero, alerta Preciado (2008), é uma
ou feminino-vagina. Dessa forma, os corpos
categoria necessária para o desenvolvimento
intersex não gozam do status de sujeito, são
de algumas técnicas de normalização e
"abjetos" (BUTLER, 1993/2008). As ficções
transformação do corpo. Esse conceito
construídas do que se espera de um corpo
permite que os corpos sejam transformados
masculino ou feminino não se adéqua ao que
por meio de terapias hormonais, cirurgias de
é lido nesses corpos e os condena a certos
transgenitalização e "definição sexual", no
modos de viver, que nesse caso transita por
caso de pessoas intersexuais. Assim, podemos
hospitais, medicamentos, cirurgias,
entender que os critérios utilizados por uma
hormônios, mutilações etc. Diferentes
equipe médica para designar o sexo do
dispositivos controlam esses corpos, e o saber
recém-nascido, é uma espécie de "ficção
médico é um dos principais actantes1 nessa
política", assim como os "critérios
rede. Os efeitos dessas práticas discursivas
psicológicos" que permitem as pessoas se
podem ser analisados por meio de
autodenominarem como homem/mulher e
documentos, como é o caso da nossa
heterossexual/homossexual. Para
pesquisa.
exemplificar que estamos vivendo uma
"ficção somática" em nossa sociedade,
2. Documentos como práticas discursivas
Preciado (2008) nos indaga de por que a
rinoplastia é considerada uma intervenção
cirúrgica para fins estéticos no nariz,
Conceito utilizado por Bruno Latour e um dos pilares da
enquanto a vaginoplastia, construção
Teoria Ator-Rede. Refere-se a qualquer elemento seja
humano ou não que produzem certo efeito em uma rede de
cirúrgica de uma "vagina", e a faloplastia,
relações. Ver: Latour (1994 e 2001).
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_Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico
Os documentos de domínio público são
discursos produzem saberes e práticas que se
entendidos nessa pesquisa como práticas
tornam acontecimentos.
discursivas2, pois esse material possibilita a
Entendemos que o sexo é um dos
circulação de diversos saberes e práticas que
primeiros discursos que marcam o corpo de
podem reafirmar normas vigentes em nossa
urna enanca. O principal responsável por essa
sociedade ou mesmo colocá-las em questão.
marca é o médico, pois nomeia como menino
Consideramos esse embate entre
ou menina "aquilo" que é visto no exame de
normalização e resistência como constituintes
ultrassonografia, dando legitimidade aquele
do processo de negociação de informações.
ser que antes era apenas um "pedaço de
Os documentos são importantes
carne", sem sexo e gênero. Ao analisarmos os
instrumentos de governo e gerenciamento de
documentos, construídos pelos profissionais
corpos e, por isso, são artefatos fundamentais
que examinam e diagnosticam os corpos
para entendermos os diferentes modos de
antes mesmo do seu nascimento, podemos
viver em nossa sociedade.
visibilizar os jogos de poder que determinam
Esses pressupostos que vimos utilizando
a "anormalidade" das pessoas intersex.
no trabalho nos impelem a um
Não podemos ser ingênuos ao ponto de
posicionamento crítico e ético em pesquisa,
acreditar que as teorias médicas,
no qual estranhamos e questionamos
isoladamente, são os produtores de
categorias tidas como convenções
determinada ordem social, mas também não
naturalizadas socialmente, tornando a
podemos negar a sua importância nesse
pesquisa "um convite a examinar essas
embate de forças. Apenas ressaltamos que o
convenções e entendê-las como regras
poder médico toma forma no ato de
socialmente construídas e historicamente
naturalizar os corpos e instituir modos de
localizadas" (SPINK, 2004, p. 33). Utilizamos,
viver (MENEGON, 2004). Compreendemos a
então, documentos para analisar tanto
medicina como uma construção social, que se
práticas cristalizadoras e normalizadoras,
faz nas categorias e conceitos que lhe
como também, fissuras e resistências que
constroem, incrementando regimes de
borram fronteiras de normalidade.
verdade e, dessa forma, adentrando no
Os documentos ganham destaque em
campo de disputas de poder.
nossa pesquisa à medida que conceitos como
Os documentos médicos escolhidos
sexo e gênero, discutidos na seção anterior,
para serem analisados nesse estudo foram: a)
se naturalizam em diferentes enunciados
artigos de diferentes períodos o mais antigo
(inclusive nos científicos). Por entender que
data de 1968 (KRYNSKI, 1968) e o mais
alguns saberes ganham poder de dominação
recente de 2005 (SPINOLA-CASTRO, 2005); b)
e de verdade, escolhemos o saber biomédico3
um volume especial sobre intersexualidade da
como foco desse estudo, pois em nossa
revista médica de circulação nacional,
sociedade, esse saber está intimamente
Arquivos Brasileiros de Endocrinologia &
ligado não apenas a instituição de um padrão
Metabologia (ABE&M); c) o Parecer N^
normal de sexo, mas também com a
1726/2006 do Conselho Regional de Medicina
construção de tecnologias que permitem
do Paraná (CRM-PR); d) a Resolução N^
"ajustar" corpos que não se adaptam a tais
1.664/2003 do Conselho Federal de Medicina
regras. Assim, compreendemos que os
(CFM). Este último dispositivo jurídico "define
as normas técnicas necessárias para o
Há uma ampla discussão sobre esse uso de documentos em
tratamento de pacientes portadores de
Méllo (2006).
anomalias de diferenciação sexual.".
O saber biomédico passou a ser modelo explicativo aos
processos de saúde-doença, a partir do séc. XVII que passou a
coexistir com outras formas de medicina conhecidas como
"popular", "alternativa", etc. Por sua postura universalista a
biomedicina é o modelo que se tornou hegemônico (BONET,
1999).
8
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 04-19, 2012.

Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico _
Esses documentos foram classificados
critérios diagnósticos para a intersexualidade
em duas categorias4: 1) acadêmicos, e 2)
e na "escolha" do sexo verdadeiro das
jurídicos. Dentro do grupo de documentos
pessoas intersex (MACHADO, 2008; PINO,
acadêmicos propomos duas subdivisões para
2007). O primeiro período, que vai do século
análise: a) os textos que se dedicam apenas a
XIX até a década de 1950, é nomeado com a
explanações sobre os aspectos "biológicos"
"Era das gônadas", pois a presença de
da intersexualidade; b) textos que incluem em
testículos ou ovários iria apontar o sexo do
seus escritos discussões os aspectos
sujeito. São adotados os termos,
"psicológicos" desse tema.
"hermafroditismo verdadeiro" e "pseudo-
Os documentos de origem acadêmica
hermafroditismo". Essa nomenclatura estava
são importantes por divulgarem novos tipos
fadada a ser excluída do campo médico, pois,
de tecnologias e saberes de determinado
indicava a possibilidade de existir um
campo "científico". Torna-se possível
"hermafrodita verdadeiro". Isso é a presença
acompanhar a forma como a problemática da
de dois sexos em um só corpo, o que
intersexualidade é abordada em diferentes
colocaria em questão as diferenças
períodos e quais as técnicas para diagnóstico
naturalizadas entre homens e mulheres.
e intervenção.
O segundo marco é a "Era cirúrgica",
0 documento jurídico foi escolhido por
iniciada na década de 1950, no qual o
ser um regulador de práticas por excelência,
pesquisador John Money é o principal
pois este material aponta os procedimentos
fundador e representante. O surgimento de
que devem ser realizados e orienta as ações
novas técnicas de anestesia e cirurgia
médicas. Utilizar como foco de pesquisa
permitiu que intervenções cirúrgicas fossem
fontes documentais pressupõe "considerar os
realizadas nos corpos de bebês intersexuais.
documentos em sua articulação com: quem
Mas não foi apenas uma "evolução" técnica e
os produziu, em que ocasiões, que interesses
científica que possibilitou as operações em
estavam em jogo, como são lidos, quem os
recém-nascidos. O grande marco dessa época
leem, que propósitos e negociações estavam
foram os estudos de Money sobre o
em jogo etc." (MÉLLO& SILVA & LIMA & DI
desenvolvimento do gênero durante a
PAOLO, 2007, p. 30).
infância. Money afirmava que as crianças
nasciam com uma sexualidade neutra e até os
3. Discurso médico e3.3.Discursomédicoe intersexualidade
18 meses elas poderiam ter seus
comportamentos sexuais modelados. Esse
O controle sobre os corpos intersex
estudioso orientava que as crianças deveriam
pelo saber médico tem início em meados do
ser criadas de acordo com as possibilidades
século XIX: "A medicina das perversões e os
de "re-construção" de sua genitália. A divisão
programas de eugenia foram, na tecnologia
entre sexo e gênero emerge nesse contexto, a
do sexo, as duas grandes inovações da
cirurgia construiria uma genitália masculina
segunda metade do século XIX" (FOUCAULT,
ou feminina (pênis ou vagina) e a criança
1988/2009b, p. 129). É nesse contexto que o
poderia aprender a se comportar de acordo
hermafroditismo (intersexualidade) é
com o gênero correspondente (menino ou
patologizado e a medicina começa a
menina). Segundo Money, as crianças não
questionar em que parte do corpo está o
deveriam saber o motivo das intervenções
sexo.
cirurgias, pois, isso poderia atrapalhar o seu
A construção de novas tecnológicas na
desenvolvimento sexual "normal".
biomedicina marca períodos de mudança nos
As pessoas que nos anos anteriores
foram submetidas, ainda bebês, aos
procedimentos cirúrgicos propostos por
Nesse artigo não detalharemos a discursão sobre a
Money cresceram, e na década de 1980,
classificação desses documentos. Para maiores informações
sobre esse tema consultar Sampaio (2010).
começaram a contestar esse tipo de
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 04-19, 2012.

_Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico
intervenção. Algumas associações foram
informar qual o sexo do feto. A anatomia dos
criadas por pessoas intersex e seus familiares
"órgãos sexuais" é o primeiro local onde recai
argumentando que as cirurgias
o olhar médico, que busca atentamente
"normalizadoras" na verdade construíam
"sinais" que permitam nomear esse corpo
corpos mutilados e sem sensibilidade. Os
como masculino ou feminino. Para isso, é
ativistas em vários países lutam para banir as
necessário descrever detalhadamente o
cirurgias "reparadoras" do protocolo médico.
tamanho do falo, número, calibre, grau de
Essa seria a "Era do consenso", em que a
fusão, rugosidade e pigmentação das pregas
equipe médica designaria o sexo da criança
lábio escrotais. É considerada ambiguidade
com ajuda da família do paciente.
genital todos os casos que apresentem
As mudanças tecnológicas
micropênis e clitoromegalia (Conselho Federal
possibilitaram que não apenas as
de Medicina, 2003).
intervenções nos corpos intersex se
O critério para definir se um pênis é
transformassem como também a localização
"normal" ou um "micropênis" é o seu
do sexo no corpo. O desenvolvimento da
tamanho, mas o parâmetro que define o
biologia molecular permitiu que avaliações
tamanho médio de um pênis varia de acordo
genéticas fossem utilizadas a fim de se atingir
com a literatura pesquisada. Segundo o
um "melhor" diagnóstico (Ver: Méllo, 2012).
Conselho Federal de Medicina (2003) o
As pesquisas mais recentes defendem que o
tamanho mínimo do pênis, em qualquer
"responsável" pelo dimorfismo sexual seria o
idade, deve ser superior a 2 cm. Já Damiani e
cérebro. Damiani e Damiani e Ribeiro e Setian
outros (2005b) e Machado (2008) falam em
(2005a) afirmam que o estudo do cérebro
um tamanho a partir de 2,5 cm. Em sua
será importante para designar o sexo de
pesquisa Machado (2008) faz referência aos
crianças intersex, pois impedirá inadequações
padrões de normalidade que a literatura
sexuais, como a homossexualidade.
médica versa em relação ao tamanho máximo
do clitóris: 0,9 cm. Observamos que os
3.1 O que torna um corpo masculino ou
documentos médicos pesquisados utilizam o
feminino?
termo falo para se referir à genitália do
recém-nascido e pênis ou clitóris apenas
A Resolução N? 1.664/2003 do
quando se tem o sexo definido.
Conselho Federal de Medicina (2003)
O ato de olhar é privilegiado na conduta
considera como anomalias advindas da
médica nos casos de intersexualidade. Os
diferenciação sexual as seguintes situações
médicos que atendem pessoas intersex
clínicas: genitália ambígua, ambiguidade
passam por um "treinamento do olhar" com a
genital, intersexo, hermafroditismo
finalidade de realizar um diagnóstico preciso,
verdadeiro, pseudo-hermafroditismo
ou seja, decidir se a genitália é ambígua e qual
(masculino ou feminino), dispensei-a gônada,
o "verdadeiro sexo".
sexo reverso, entre outras. Para se chegar aos
O uso constante e central de fotografias
diagnósticos citados a Resolução enumera
de pacientes intersex também faz parte do
diversos procedimentos que devem ser
processo de diagnóstico (DORINA, 1980;
obedecidos pela equipe médica. Diversos
NARDAR, 1860 citado por PRECIADO, 2008). A
exames são realizados nos recém-nascidos a
centralidade da visão no diagnóstico de
fim de identificar o sexo "verdadeiro", tais
intersexualidade também é observada no uso
como: avaliações genéticas, de imagem,
constante de fotografias de pacientes em
clínico-cirúrgica, hormonal e psicossocial.
diversos textos sobre o tema (DORINA, 1980;
Sob o olhar "atento" e "treinado" dos
NARDAR, 1860 citado por PRECIADO, 2008).
médicos, o corpo começa a ser examinado
Essas fotos apresentam os pacientes, com os
antes mesmo do nascimento. Durante a
olhos cobertos por uma tarja preta e as
ultrassonografia o médico já deve identificar e
genitálias são fotografas em close, algumas
10
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 04-19, 2012.

Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico _
em dois momentos diferentes: no período do
intersexualidade, e a sua influência é
diagnóstico e após as intervenções médicas.
crescente. Segundo o Conselho Federal de
As imagens dos órgãos internos, também, são
Medicina o exame do cariótipo é obrigatório
analisadas, verificando-se a presença das
na presença dessa patologia denominada de
gônadas (testículos e ovários), útero e o
intersexualidade. Entretanto, a presença dos
posicionamento da uretra. As fotos dão um
cromossomos "X" ou "Y" não é determinante
"valor de realismo" na "representação"
para designar o sexo feminino ou masculino.
desses corpos, pois a verdade do sexo ganha
Damiani e outros (2005b) relatam três casos
um caráter de revelação visual, já que, a
de "homens" com cariótipo "XX"; e o
fotografia expõe uma situação que não
Conselho Regional de Medicina do Paraná por
poderia ser explicitada de outro modo. São
meio do Parecer n- 1726/2006 também
esses critérios somatopolíticos-visuais que
descreve o caso de uma "mulher" "XY".
permitem que a parte do corpo nomeada
Segundo este parecer um caso de Pseudo-
como micropênis seja extirpada e "re-des-
Hermafroditismo masculino pode ser assim
feita" para dar lugar a uma vagina (PRECIADO,
descrito:
2008).
Dentre tantos exames, a avaliação
Estas pacientes apesar de serem
hormonal também ganha destaque no
geneticamente 46, XY, apresentam do
ponto de vista hormonal uma total
diagnóstico. A produção de "hormônios
insensibilidade aos hormônios
sexuais" (testosterona, estradiol,
androgênicos desde a vida fetal até a vida
progesterona, estrogênio, hormônio
adulta. Esta insensibilidade androgênica
antimulleriano etc.) e a possibilidade do corpo
faz com que a genitália externa destas
ser sensível a essas substâncias são
pacientes seja perfeitamente feminina e
não existe qualquer dúvida em se
fundamentais na designação do sexo. A
estabelecer o sexo legal, de criação e
medicina associa os hormônios à
psicossocial (sic). Tratam-se de
menstruação, ao desenvolvimento da
"mulheres" totalmente femininas que são
genitália e das características sexuais
criadas como tal e assim devem
permanecer. Ao nosso ver (sic) não se faz
secundárias (seios, barba, pelos pubianos
necessário criarmos dúvidas ou
etc.). Os hormônios teriam a função de
discutirmos os aspectos genéticos à estas
"confirmar" se o sexo definido pelos médicos,
pacientes. Devemos orientá-las como
durante a infância do paciente foi o "correto".
portadoras de "amenorreia primária" com
A puberdade é entendida pela equipe médica
conveniente desenvolvimento dos seus
caracteres sexuais secundários sendo os
como momento crucial no manejo dos
mesmos totalmente femininos.
pacientes, pois, a mulher precisa menstruar e
(CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO
não pode apresentar pelos na face; e o
PARANÁ, 2006).
homem não pode desenvolver seios ou
apresentar testículos pequenos. Vale lembrar
Como podemos observar o sexo está
que o controle dos hormônios e de outras
em cada parte do corpo e ao mesmo tempo
substâncias por meio do saber médico não
em nenhuma, pois são os conjuntos de
ocorre apenas no caso da intersexualidade,
marcadores do sexo que permitem a
mas também, na reposição hormonal durante
nomeação de um corpo como masculino ou
a menopausa, e no processo de
feminino. A orientação da equipe médica em
transexualização.
relação ao sexo de criação depende do
A designação do sexo acontece tanto
resultado de inúmeros exames e o que se
em um campo macro, com a visualização da
busca é uma coerência entre anatomia,
genitália, como em um campo micro, a
características secundárias, cariótipo,
avaliação genética. Esse último método é
hormônios e comportamento. Uma coerência
relativamente recente nos protocolos
entendida como similaridade ao que se
médicos para o diagnóstico da
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 04-19, 2012.
11

_Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico
considera como "padrão". No caso relatado
Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia,
também é interessante notar que as
fala em urgência mental e social, apesar de
pacientes não seriam informadas sobre seus
criticar as inúmeras cirurgias realizadas logo
aspectos genéticos, para que estes não
após o nascimento dessas crianças. Nesse
causassem dúvidas sobre sua sexualidade.
sentido, a autora parece desconsiderar que
Percebemos em todos os documentos
diagnosticar um corpo como portador de uma
estudados, que o "tradicional" diagnóstico
patologia, logo após o nascimento, é também
médico, tem uma conotação diferente
uma ação intrusiva.
quando se refere à intersexualidade. Em
O diagnóstico precoce, em todos os
casos de outras patologias, geralmente a
documentos pesquisados, é motivo de
equipe médica, só realiza alguma intervenção
preocupação para a equipe médica. O CFM
quando existe risco a saúde do paciente. No
indica que "pacientes com anomalia de
caso da intersexualidade, inúmeros
diferenciação sexual devem ter assegurada
procedimentos são realizados ainda que um
uma conduta de investigação precoce com
corpo intersex não cause danos à saúde, ou
vistas a uma definição adequada do gênero e
que coloque a pessoa assim classificada em
tratamento em tempo hábil" (CONSELHO
risco de morte. O que está em jogo neste tipo
FEDERAL DE MEDICINA, 2003. Grifo nosso).
de diagnóstico é a busca de uma coerência
Percebemos em alguns documentos que se
que sinalize o "sexo verdadeiro",
levanta a possibilidade de se adiar a
instrumentalizada por meio de exames
designação do sexo da criança, mas essa ideia
específicos para ser lido e visto o que está
é logo descartada (DAMIANI e outros, 2005b).
inscrito no corpo.
Ativistas intersex, como os integrantes da
Intersex Society American (ISNA), advogam
3.2 Justificativas para intervenção.
que as intervenções médicas devem ser
adiadas, até o momento em que a pessoa
Os diferentes documentos pesquisados
possa decidir o que fazer (se é que têm algo
expõem o quanto é difícil para medicina
que deve ser feito) com o seu corpo. Sobre o
"tratar" a intersexualidade. O Conselho
adiamento das intervenções o Conselho
Federal de Medicina (2003) afirma que o
Federal de Medicina orienta:
nascimento de um bebê intersex é uma
urgência biológica e social:
Um erro na definição sexual pode
determinar caracteres sexuais
O nascimento de crianças com sexo
secundários opostos aos do sexo
previamente definido. Sempre restará a
indeterminado é uma urgência biológica e
possibilidade de um indivíduo não
social. Biológica, porque muitos
acompanhar o sexo que lhe foi definido,
transtornos desse tipo são ligados a
por mais rigor que haja nos critérios. Por
causas cujos efeitos constituem grave
outro lado, uma definição precoce, mas
risco de vida. Social, porque o drama
inadequada, também pode ser
vivido pelos familiares e, dependendo do
desastrosa. Há quem advogue a causa de
atraso do diagnóstico, também do
não-intervenção até que a pessoa possa
paciente, gera graves transtornos.
autodefinir-se sexualmente. Entretanto,
(CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA,
não existem a longo prazo estudos sobre
2003).
as repercussões individuais, sociais, legais,
afetivas e até mesmo sexuais de uma
A referência ao "social" como maior
pessoa que enquanto não se definiu
causador de sofrimento nesses casos, exclui a
sexualmente viveu anos sem um sexo
medicina do lugar de quem primeiro aponta
estabelecido. (CONSELHO FEDERAL DE
MEDICINA, 2003).
esse corpo como anormal. A médica
endocrinologista Spinola-Castro (2005), em
um artigo publicado na revista Arquivos
A definição do sexo/gênero que
encontramos nos documentos médicos se
12
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 04-19, 2012.

Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico _
refere à adequação de uma sexualidade
construir sua auto-imagem. (CONSELHO
heterossexual. A heteronormatividade e a
FEDERAL DE MEDICINA, 2003).
busca pelo "sexo verdadeiro" estão
interligados. Os diversos documentos
Percebemos nesse trecho da Resolução
apontam o quanto é temeroso para as
do CFM que o saber médico recorre a se
equipes médicas a quebra das congruências
apropria de termos oriundos da área da
binárias construídas:
Psicologia (identidade sexual, autoimagem,
etc.) para assegurar as suas intervenções. A
Se dispusermos de métodos que avaliem
concepção de criança como um ser em
a característica cerebral de pacientes com
desenvolvimento, também funciona como
anomalias da diferenciação sexual
justificativa para molda-la. A finalidade do
teremos aí um elemento importante para
acompanhamento com os profissionais de
a atribuição do gênero e poderemos,
saúde mental é que futuramente as pessoas
talvez, evitar que mudanças de sexo em
idades posteriores ocorram, com grande
diagnosticadas com intersexualidade se
dose de sofrimento para os pacientes e
"enquadrem" no padrão biomédico, não só
para seus familiares. (DAMIANI e outros,
de corpo, como também, de sexualidade.
2005a, p. 43).
Porém, a "equipe de saúde mental", não
participa, frequentemente, da decisão sobre a
As dúvidas em relação à
designação do sexo, em casos de diagnósticos
heterossexualidade dos pacientes, nos casos
precoces. Isso só se modifica quando o
de intersexualidade, sempre são descritas
diagnóstico de intersexualidade ocorre após a
como um momento de "risco", e é nessa hora
primeira infância, porque aí sim os
que a equipe de saúde mental, constituída
profissionais da Psicologia são chamados pela
por psiquiatras e psicólogos, é requisitada.
equipe médica para auxiliar na identificação
São esses profissionais quem devem garantir
(definição) do sexo da criança ou do
que a escolha por determinado sexo pela
adolescente. "O paciente que inicia o
equipe médica, é o "sexo verdadeiro". Tais
tratamento na idade adulta deve sofrer (sic)
profissionais ainda têm de orientar os
uma avaliação psicológica completa. A
familiares das crianças intersex sobre como
identidade psicossexual deve orientar as
estas devem ser criadas, pois isso é colocado
medidas terapêuticas [...]. O
como parte fundamental para que os
acompanhamento psicológico prolongado dos
procedimentos tenham êxito:
pacientes e de seus familiares é obrigatório."
(DORINA, 1980, p. 43). Essas intervenções
O atendimento dos portadores de
devem priorizar um "melhor desenvolvimento
anomalias da diferenciação sexual pela
equipe de saúde mental visa construir
psicossexual" dos pacientes.
uma relação positiva entre os pais e a
Pino (2007) aponta que a
equipe médica. Esta intervenção precoce
intersexualidade não é uma doença, no
é fundamental para maior fortalecimento
sentido que causa danos a saúde do paciente,
emocional e enfrentamento à angústia
mas sim uma condição física que não se
que a situação provoca. Nesta
circunstância, o núcleo social e familiar
insere nos critérios de normalidade corporal
fica ambivalente e com sentimento de
que circulam. Nesse sentido o saber médico
culpa nos primeiros momentos, pois é
utiliza o saber psicológico para explicar as
senso comum que a identidade sexual
cirurgias em recém-nascidos, como indica o
deve ser construída pelos familiares e
sociedade, gerando, assim, forte
trecho abaixo:
ansiedade. Os profissionais em Saúde
Mental devem considerar o paciente
O objetivo inicial da cirurgia é permitir
como um ser em desenvolvimento,
que a criança esteja de acordo com o sexo
minimizando as angústias suscitadas no
e gênero designados e, também, permitir
meio social e familiar, ajudando-o a
aos pais um beneficio psicológico. Por
questões óbvias, a maioria dos pais não
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 04-19, 2012.
13

_Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico
conseguiria suportar essa situação
Álvaro como concerto ou reparo. Os corpos
proposta e a urgência para inserir a
intersex estão no meio desse campo de
criança no contexto social é sempre muito
disputa, entre o saber médico, que tira
grande. [...] Em médio prazo, o objetivo
da cirurgia é permitir um crescimento ao
pedaços do corpo para "concertá-lo" e os que
menos sem os problemas psicológicos
defendem a não intervenção, como os
criados pelas diferenças físicas com outras
ativistas intersex e o Movimento Queer. Os
crianças. Em longo prazo, a cirurgia tem
procedimentos mais indicados nos textos que
como objetivo permitir uma atividade
pesquisamos são cirurgias "reparadoras" e
sexual satisfatória. (SPINOLA-CASTRO,
2005, p. 57).
terapia hormonal (DORINA, 1980; DAMIANI e
outros, 2005b). A outra intervenção
Esse discurso destina os corpos a
recomendada é a psicoterapia, mas só
determinados modos de viver. Ser homem ou
quando equipe médica julga ser adequado
mulher informa o que podemos ou não fazer,
(CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2003).
dizer, viver. Desse modo os "corpos
Percebemos que em todos os
ambíguos" são formados pelo dispositivo da
documentos analisados há uma prevalência
sexualidade, que ao ser pautado no saber
na escolha pelo sexo feminino, no processo
médico, institui regimes de verdade, que,
de designação sexual dos pacientes intersex
retornam legitimando os procedimentos da
(DORINA, 1980; DAMIANI e outros, 2005b). As
própria equipe médica. Nenhum dos
intervenções para a masculinização do corpo
documentos analisados faculta uma não
ocorrem geralmente quando o diagnóstico é
intervenção. Assim, não existe a possibilidade
tardio e a criança nos exames psicológicos
de se viver um corpo "sem sexo" definido. Por
indica uma "orientação psicossocial
isso as equipes se perguntam
masculina". Quando isso ocorre é indicada a
incessantemente qual o "sexo verdadeiro"
mastectomia (retirada dos seios) e o
desse corpo?
tratamento com testosterona injetável. O uso
de hormônio é indicado para a maioria dos
3.3 Quais as intervenções realizadas nos
pacientes, geralmente a terapia hormonal é
corpos intersex?
iniciada logo após a determinação do sexo. Os
hormônios irão garantir, como mencionado
Alex: Já foi alguma vez a sala de cirurgia pra ver como
anteriormente, que as características sexuais
mutilam os corpos?
secundárias sejam "compatíveis" com o sexo
Alvaro: Ele não mutila corpos, os concerta. Ele faz seios
escolhido.
e narizes por dinheiro, mas prefere outras coisas.
Pino (2007) e Machado (2008)
Alex: Como o que?
Alvaro: Não sei, deformações. Os caras que nascem
confirmam em suas pesquisas a preferência
com 11 dedos, meu pai tira.
dos médicos pela construção de corpos
Alex: você disse que ele não mutila, e agora você diz
femininos. O ditado médico, "It's easier to
que tira dedos.
poke a hole than to build a pole." (é mais fácil
(Filme: XXY, 2007).
cavar um buraco do que construir um poste)
é usualmente citado em artigos que
Esse diálogo faz parte do filme XXY
discorrem sobre intersexualidade. Vejamos
(2007) que conta a história de Alex: um jovem
mais um texto biomédico:
intersex cujos pais não permitiram que os
médicos realizassem "cirurgias reparadoras"
A preferência quase que sistemática pela
logo após o seu nascimento. Nesse trecho
criação no sexo feminino baseava-se no
que selecionamos, Alex conversa com Álvaro,
conceito de que, do ponto de vista
filho de um cirurgião plástico que foi visitar
cirúrgico, seria mais fácil construir uma
vagina do que um pênis com
sua família. Os dois jovens têm percepções
funcionalidade sexual futura. Pensava-se
diferentes sobre o trabalho do cirurgião: Alex
na identidade feminina como o resultado
entende as operações como uma mutilação e
apenas de uma socialização adequada, o
14
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 04-19, 2012.

Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico _
que seria alcançado pela reconstrução
precisam ser re-(des)-feitos para que sejam
cirúrgica do genital externo. (SPINOLA-
adequados aos padrões de homem ou
CASTRO, 2005, p. 55).
mulher, como se existisse esse homem ou
essa mulher normal.
A endocrinologista e psicanalista Dorina
O poder produz saberes e técnicas que
(1980) defende que em "crianças com
possibilitam o controle dos corpos. O poder
genitália ambígua, a decisão a ser adotada
exercido sobre os corpos foi o que permitiu
deve pender para a linha feminina, de
segundo Foucault (1988/2009b) a construção
preferência quando houver anuência da
de saberes sobre a anatomia, fisiologia, sobre
família nesse sentido" (p. 43). Em
o organismo:
contraposição a essa postura médica e
socióloga Nádia Pino (2007) questiona a
O controle da sociedade sobre o indivíduo
escolha usual pelo sexo feminino, apontando
não se opera simplesmente pela
que em nossa sociedade seria mais fácil
consciência ou pela ideologia, mas
construir corpos passivos, além da
começa no corpo, com o corpo. Foi no
biológico, no somático, no corporal que,
preocupação com a homossexualidade
antes de tudo, investiu a sociedade
feminina ser menos frequente. Os corpos
capitalista. O corpo é uma realidade bio-
femininos e masculinos são construídos
política. A medicina é uma estratégia bio-
priorizando as características que são
política. (FOUCAULT, p. 80, 1979/2009a).
esperadas culturalmente em cada gênero:
A medicina como estratégia bio-política
Para o sexo feminino, o primeiro fator
dita quais práticas são possíveis e regula a
considerado é a preservação da
sexualidade da população. Esse saber é um
capacidade reprodutiva, depois a
dos poucos autorizados a falar sobre o sexo.
possibilidade em ter relações sexuais
Nesse sentido, alguns corpos são interditados
prazerosas e poder ser penetrada por um
pênis. Para o sexo masculino em primeiro
ao falar sobre a sexualidade, é o caso dos
lugar preserva-se o tamanho e a
intersex e seus familiares. A Resolução do
possibilidade erétil do pênis, depois a
Conselho Federal de Medicina (2003) mostra
capacidade de sentir prazer, associado à
o "novo" posicionamento da equipe médica
ejaculação e à capacidade de penetrar
uma vagina e, finalmente, a reprodução e
que deve ficar disponível para falar sobre o
a possibilidade de urinar em pé. (PINO, p.
caso com os interessados.
04, 2007).
Durante toda a fase de investigação o
A construção de corpos femininos
paciente e seus familiares ou
responsáveis legais devem receber apoio
requer a mutilação da genitália, retirada de
e informações sobre o problema e suas
parte do clitóris e a construção de uma vagina
implicações. No momento da definição
acompanhada de dilatações vaginais (para ser
final do sexo, os familiares ou
possível a penetração de um pênis). Muitos
responsáveis legais, e eventualmente o
paciente, devem estar suficiente e
ativistas intersex protestam contra esse tipo
devidamente informados de modo a
de tratamento, em que o paciente não é
participar da decisão do tratamento
consultado e sofre graves mutilações,
proposto. (CONSELHO FEDERAL DE
perdendo a sensibilidade na genitália. A
MEDICINA, 2003).
normalização dos corpos institui quem está
autorizado a ter determinadas experiências
Fica delimitado nesse trecho quem deve
corporais, quem pode "ser ativo" ou "passivo"
falar sobre a intersexualidade e quem deve
em sua relação (como se isso fosse possível!).
ouvir sobre o assunto. A participação de
No caso dos corpos intersex o processo de
familiares e pacientes durante o tratamento
normatização se torna mais "cruel", pois,
se limita a informação e uma suposta decisão.
esses corpos desde o seu nascimento
O CFM (2003) ainda pontua que se o paciente
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 04-19, 2012.
15

_Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico
apresentar "condições deve participar
Qual seria a diferença entre um clitóris
ativamente da definição do seu próprio sexo".
de 15 cm, caso citado no estudo de Machado
Questionamos quais seriam as condições que
(2008), e um pênis com o mesmo tamanho?
alguém deveria apresentar para poder opinar
Saberes institucionalizados acompanhados de
sobre o seu próprio sexo e corpo, pois
tecnologias ditam qual desses dois órgãos é
percebemos que os documentos médicos
naturalmente constituído para penetrar outro
analisados, apontaram que as crianças não
corpo. Nessa mesma lógica, corpos instituídos
têm as condições necessárias para decidir
como masculinos e femininos compartilham
sobre o seu corpo, ou seja, a infância
os mesmos hormônios, mas apenas alguns
permanece sem fala.
estão autorizados a possuir determinada
0 Parecer 1726/2006 do Conselho
quantidade de hormônio e utilizá-los inclusive
Regional de Medicinal do Paraná, citado
sinteticamente. As intervenções médicas
anteriormente, expõe a orientação sobre a
tentam transformar esse "corpo abjeto" em
conduta médica e as informações dadas ao
um corpo que siga os padrões de
paciente no caso de intersexualidade. A
normalidade. Mas o corpo não é passivo, ele é
paciente não sabe o porquê das intervenções
fluido e está sempre se transformando e há
(extirpação das "gônadas ou hérnias" e
possibilidades criativas de resistência (MÉLLO,
"suplementação hormonal") que serão
2012; GALINDO & MÉLLO & VILELA &
realizadas em seu corpo futuramente,
RONDON, no prelo).
supostamente, segundo o médico, para não
ocorrer nenhum problema relativo à sua
4. Considerações finais
sexualidade. No caso da intersexualidade é
notório que as pessoas intersex e seus
Encontramos nesse caminho, "figuras
familiares em negociação com o saber
fantásticas" (remetendo ao Mito narrado no
médico, não têm o poder de decisão. A
início do texto) que foram condenadas a viver
médica Spinola-Castro (2005) aponta que as
como abjetas, por não terem corpos
famílias, quando convidadas a falar,
reconhecidos em padrões de normalidade.
raramente se contrapõem as decisões
Para questionar as normas utilizamos como
médicas. O saber médico, como detentor de
referência o Movimento Queer (BUTLER,
um status de verdade, não é possível ser
2002, 1993/2008; PRECIADO 2002, 2008),
questionado por leigos no assunto, no caso os
bem como, autores nacionais que propõem
familiares e pacientes.
em seus estudos e pesquisa que
A medicina contribuiu intensamente
desnaturalizamos o sexo, o gênero, o social e
para instituir um padrão de corpo normal,
a própria natureza (MACHADO, 2008;
que estabelece requisitos para considerar um
GALINDO & MÉLLO, 2010; LIMA & MÉLLO,
ser como humano. Isso inclui quantidade de
2012; MÉLLO, 2012).
dedos, localização dos braços, cromossomos
Documentos médicos foram as
etc. Desta forma, também foi instituído um
principais fontes de informações para
padrão de corpo masculino e feminino. São
construção desse caminho, pois, como
medidos e controlados quais hormônios estão
práticas discursivas, fazem parte da
presentes no corpo; a quantidade desses
governamentalidade dos corpos. O saber
hormônios; a presença do pênis e clitóris, o
médico foi escolhido como foco, por ser o
tamanho destes; o crescimento dos seios; o
principal regulador dos corpos intersex e por
surgimento de pelos, sua quantidade e
ter adquirido em nossa sociedade o status e a
distribuição pelo corpo. Todas essas
legitimação de "saber verdadeiro". Desse
características devem estar organizadas para
modo, buscamos através dos documentos
se nomear o corpo como masculino ou
médicos, entender como alguns saberes
feminino e, consequentemente, para ser
instituem-se como regimes de verdades e
inteligível a nossa sociedade.
determinam modos de viver. A medicina
16
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 04-19, 2012.

Corpos intersex borrando fronteiras do discurso médico _
examina, re-des-faz os corpos intersex a fim
Butler, J. (2008). Cuerpos que importan: sobre
de que estes sejam normalizados e passíveis a
los limites materiales y dicursivos del "sexo"
intervenções.
(A. Bixio, Trad.)2-ed. Buenos Aires: Páidos.
Não buscamos apontar a medicina
(Original publicado em 1993).
como vilã e os médicos como carrascos,
contudo mostramos como esse tipo de saber
Conselho Federal de Medicina. (2003)
contribui para a manutenção de
Resolução N? 1.664/2003. Define as normas
determinados padrões de vida em nossa
técnicas necessárias para o tratamento de
sociedade, regulando-os. São também efeitos
pacientes portadores de anomalias de
de dispositivos que nós, humanos, criamos e
diferenciação sexual.
naturalizamos. Mas o modelo biomédico
extrapola o campo da medicina articulando-se
Conselho Regional de Medicina Do Paraná.
com outros campos como a Psicologia
(2006). Parecer N? 1726/2006 CRM-PR:
propondo mecanismos de gerenciamento dos
Estado Intersexual - Pseudo
nossos corpos. Desse modo, o saber
Hermafroditismo.
psicológico circula no discurso médicos e vice-
versa, para justificar intervenções como nos
Damiani, D. & Damiani, D.& Ribeito, T.&
casos de intersexualidade. A nossa intenção é
Setian, N. (2005a) Sexo cerebral: um caminho
que questionemos esses saberes e práticas
que começa a ser percorrido. Arquivo
normalizadores e patologizadores, e no caso
Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia,
intersex, que esse "estranho" possa viver
São Paulo, v.49, n. 1, 37-45.
borrando as fronteiras e padrões
institucionalizados pelo discurso médico.
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Puenzo, L. (Direção). (2007). [DVD]. XXY.
Argentina: Pyramide Films.
Sobre os autores:
Ricardo Pimentel Méllo: Doutor em
Psicologia Social (Pontifícia
Universidade Católica - PUC/SP).
Professor do Departamento de
Psicologia da Universidade Federal do
Ceará (UFC). Contato:
ricardo_pm@ uol.com.br.
Juliana Vieira Sampaio: Psicóloga e
Mestranda no Programa de Pós-
Graduação em Psicologia da
Universidade Federal do Ceará.
Contato:
julianavsampaio@hotmail.com.
Recebidoem: 12/03/2012
Aceito para publicação: 01/11/2012
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 04-19, 2012. 19

QUE CORPO É ESSE? O METROSSEXUAL EM DEBATE
WHAT IS THIS BODY? THE METROSEXUAL IN DISCUSSION
Edyr Batista de Oliveira Júnior
Universidade Federal do Pará.
Cristina Donza Cancela
Universidade Federal do Pará.
Resumo
Este artigo faz uma análise do corpo do metrossexual como algo "fabricado"
e que mescla práticas e valores masculinos e femininos. Com a realização de
dezesseis entrevistas semi-estruturadas pôde-se discorrer sobre o modo de
ser metrossexual presente no cotidiano não apenas dos interlocutores que
se reconheceram como metrossexuais, mas também, daqueles que
procuraram marcar seu distanciamento com essa categoria de classificação.
Para muitos o metrossexual não é pensado enquanto experiência para si,
mas enquanto lente para analisar o Outro no exercício da sua
masculinidade, uma vez que há o diálogo com os valores e experiências
idealmente criadas para esse neologismo, mas não necessariamente a
vivência tal como alardeada nos meios de consumo midiáticos.
Palavras-chave:-chave: metrossexual; masculinidades; corpo;
Abstract
This article analyzes the body of the metrosexual as something
"manufactured" and that merges male and female values and practices.
With the realization of sixteen semi-structured interviews it was possible to
talk about the metrosexual way of being present in the everyday life not
only of the interlocutors self-acknowledged as metrosexuals, but also of
those who tried to delineate their distance from this rating category. For
many of the interviewed people, the metrosexual is not thought as an
experience for themselves, but as lens to analyze the exercise of their
masculinity, since there is a dialogue with the values and experiences ideally
created for this neologism, but not necessarily the experience as touted
through the means of media consumption.
Keywords: metrosexual; masculinities; body;
Resumen
Este artículo es un análisis del cuerpo de los metrosexuales como algo
"fabricado" y combina las prácticas y valores masculinos y femeninos. Con
dieciséis entrevistas semiestructuradas podrían hablar sobre la manera de
ser metrosexual presente en la vida diaria no sólo de los interlocutores que
si reconoce como metrosexuales, sino también, de los que intentó marcar
su distancia con esta categoría de clasificación. Para muchos el metrosexual
no se considera como experiencia para si mismo, sino como un lente para
mirar a la otra en el ejercicio de su masculinidad, una vez hay diálogo con
2 0 Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.

Que corpo é esse? O metrossexual em debate_
los valores y la experiencia idealmente creado para este neologismo, pero
no necesariamente viven como consumo de medios en la tan cacareada.
Palabras clave: metrosexual; masculinidades; cuerpo;
Introdução
do corpo igualmente se modifiquem. Desse
modo, com o peso da obrigação de ser
Durante a sua trajetória de vida as
homem aos moldes pré-estabelecidos pela
pessoas dialogam com práticas e
heteronormatividade1, com o avanço dos
representações múltiplas, hegemônicas ou
movimentos feministas e,
não, pelas quais elas transitam, criando
consequentemente, com a cada vez maior
estratégias de ação em meio aos limites e
inserção da mulher no mercado de trabalho -
possibilidades da dinâmica do cotidiano. Elas
realizando atividades outrora destinadas
se deslocam em meio às classificações
apenas aos homens - e, por fim, com as
identitárias reafirmando, resistindo, re-
mudanças na vivência da masculinidade, fala-
significando marcas sociais e convenções num
se de uma "crise masculina", o que tem
embate contínuo. Deste modo, categorias de
contribuído para novas/outras
classificação centralizadas naquilo que pode
representações do masculino (Garboggini,
ser chamado de masculinidade hegemônica
1999; Silva, 2000; Oliveira, 2004; Beleli, 2005;
podem ser (per) seguidas por aqueles que se
Souza, 2009).
"identificam" com o gênero masculino: "A
Um ponto interessante dessas
masculinidade hegemônica é um modelo
transformações é trazido por Márcio Souza
cultural ideal que, não sendo atingível - na
(2009) quando o mesmo diz que esse homem
prática e de forma consistente e inalterada -
é fruto de uma temporalidade marcada pela
por nenhum homem, exerce sobre todos os
ressignificação constante entre masculino e
homens e sobre as mulheres um efeito
feminino, pois "se vivemos em um novo
controlador" (Vale de Almeida, 1996, p.163).
tempo, um novo padrão de comportamento
Interessante atentarmos para os
em bases não tradicionais e mais flexíveis, se
possíveis embates das pessoas e dos
faz emergente" (p.133). Sendo assim, se
reconhecidos como homens, em particular, a
outrora se construía como ideal a imagem de
fim de disciplinarem os/seus corpos o mais
que os homens não choravam, gastavam com
próximo possível desse modelo ideal. É um
carros e cervejas, por exemplo, não tinham
verdadeiro jogo de "vigiar e punir" - para
nenhuma ou pouquíssima preocupação com a
brincarmos com o título do livro de Foucault -
aparência - qualquer calça, camisa e chinelos
, pois os que não conseguirem adestrar seus
serviam/combinavam - cada vez mais, na
corpos no discurso heteronormativo,
contemporaneidade, essas imagens ideais
controlador, serão vistos como desviantes
têm mudado. A associação do homem com o
(Goffman, 2008), outsiders (Becker, 2008),
cuidado do seu corpo está presente na
anormais (Foucault, 1997)... O que contribui,
atualidade, no que diz respeito não apenas a
também, para o surgimento da chamada
sua forma física, mas também à estética da
masculinidade não-hegemônica, ou dita
subalterna (Connell, 1995; Kimmel, 1998). Ou,
Segundo Richard Miskolci (2009) o termo
melhor dizendo, das múltiplas formas de
"heteronormativo" fora usado, em 1991, por Michael
vivenciar a masculinidade, num jogo de
Warner e "expressa as expectativas, as demandas e as
negociação com os valores e práticas
obrigações sociais que derivam do pressuposto da
construídos como ideais.
heterossexualidade como natural e, por tanto,
fundamento da sociedade" (p.156). Ou seja, refere-se à
No entanto, as transformações por que
tendência de se ver as relações heterossexuais como a
tem passado a sociedade fazem com que
norma e as outras formas de comportamento sexual
certos paradigmas relativos ao adestramento
como desvios.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.
21

_Que corpo é esse? O metrossexual em debate
pele, do cabelo, das roupas. Um estilo mais
entrevistas3 , com base em um roteiro semi-
elaborado da apresentação de si. A
estruturado, sendo que a escolha dos/as
frequência de homens em salões de beleza,
interlocutores/as ocorreu dentro dos nossos
centros estéticos, para que sua (boa/melhor)
laços sociais4. Optamos por executar esse
imagem seja consumida por si e pelas outras
método da pesquisa qualitativa, a fim de
pessoas, passa a ser cada vez maior. O
descobrir perspectivas diferentes sobre os
homem do século XXI consome de carros a
temas aqui analisados (Minayo, 2000; Gaskell,
hidratantes corporais, pode demonstrar
2005). Assim sendo, conversamos com cinco
sensibilidade e chorar diante de um filme
mulheres e com 11 homens, todos residentes
romântico sem necessariamente a mesma
em Belém do Pará, universitários ou formados
repreensão... Ou seja, vivenciar atitudes e
de diferentes cursos. Nossos/as
valores ideais outrora aceitos como exclusivos
interlocutores/as têm em comum, portanto,
das mulheres, como se verá mais adiante.
morarem em Belém, o nível de escolaridade e
Desse modo, é nesse quadro diacrônico,
a questão geracional, pois suas idades estão
de flexibilidade, de um novo/outro
compreendidas entre 18 a 30 anos; e, os/as
(re)ordenamento dos corpos, dos gêneros,
mesmos/as se diferenciam pelo gênero e pela
que se encontra o "Metrossexual".
vivência da sexualidade. Essas entrevistas
Esse termo fora criado pelo jornalista
ocorreram majoritariamente na UFPA; porém,
Mark Simpson, em 1994, quando ele escreveu
dois interlocutores tiveram suas entrevistas
um artigo para o jornal inglês The
realizadas noutros lugares, justamente por
Independent intitulado "Here come the mirror
não serem estudantes da UFPA. Além disso, é
men". No entanto, o neologismo ganha
significativo dizer que três interlocutores,
grande repercussão midiática em 2002
Apolo, Cratos e Zeus, se autodenominaram de
quando Simpson escreve "Meet the
metrossexuais, devido a grande preocupação
metrosexual" para a revista online Salon
que eles têm com o cuidado de si.
(Garcia, 2004, 2005, 2011; Barreto Januário,
Destarte, podemos perguntar: Como
2009)2.
nossos entrevistados definem o
A imagem do metrossexual é construída
metrossexual? Como o corpo do
como a de um homem que se preocupa muito
metrossexual é pensado, ressignificado por
com sua aparência. Assim, ele frequenta
nossos/as interlocutores/as? E, ainda, de que
manicure e pedicure, vai ao salão de beleza,
forma os homens com quem conversamos
faz diversos tratamentos estéticos, gosta de ir
lidam com a questão da forma de se vestir,
a shoppings, modela seu corpo na malhação
cuidar do corpo, da pele, das roupas?
e/ou em outros esportes...
Outrora conhecidos pela
Pensando o(s) corpo(s)
insensibilidade, certa despreocupação com a
forma de apresentar seus corpos, os homens
O corpo fala, expõe nossos gostos,
no século XXI legitimam o cuidado de si,
posicionamentos políticos, a que "tribo"
gastado dinheiro, por exemplo, com produtos
pertencemos... Ele também é escrita e, por
de higiene e beleza; tudo para ficarem mais
isso, passível de (re)apropriação/ões,
apresentáveis e, principalmente, desejáveis.
(re)elaboração/ões e (re)leitura/s.
Para melhor compreender o modo de
Assim, o corpo revela nossa interação
ser e de pensar o metrossexual, realizamos 16
com o mundo, inserindo-nos em
Os nomes dos/as nossos/as interlocutores/as foram
Os textos "Here come the mirror men", "Meet the
trocados para preservar suas identidades.
metrosexual" e outros, sobre esse assunto, de autoria
Este artigo é uma parte modificada da pesquisa de
de Mark Simpson, podem ser conferidos em:
mestrado que realizei no Programa de Pós-Graduação
<http://marksimpson.com/pages/journalism/www.mar
em Antropologia (PPGA-UFPA), orientada pela
ksimpson.com>.
Professora Doutora Cristina Donza Cancela.
22
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.

Que corpo é esse? O metrossexual em debate_
determinados espaços, tempo, cultura, o que
encontrar novas e antigas representações de
contribui para a (re)formulação de nossas
masculinidades e feminilidades sendo
identidades (Goldenberg e Ramos, 2002; Le
veiculadas na contemporaneidade, conforme
Breton, 2007; Castro, 2007).
observou Flailda Garboggini (1999):
Dessa forma, o corpo tem um
importante papel, pois manifesta - mesmo
Apesar de constatarmos um grande
quando esconde - o que é permitido, o que é
número de comerciais com enfoques
tradicionais, nos anos 90, percebemos
aceito na forma de apresentá-lo nas diversas
que, mesmo entre eles, existe uma nova
sociedades. Ele igualmente pode servir como
forma de abordagem. (...). Vemos que um
protesto, subversão da norma que o
novo conceito quanto à masculinidade é
enquadra, escraviza; por isso, é, também,
incentivado pela propaganda. (...) muitos
são, efetivamente, ameaçadores da
objeto de vigilância (Foucault, 1997; 2006).
posição privilegiada dos homens,
Segundo os antropólogos Mirian
sobretudo, daqueles arraigados aos
Goldenberg e Marcelo Ramos (2002), é no
conceitos machistas e tradicionais
final do século XX e início do XXI que o culto
(p.230).
ao corpo, no Brasil, torna-se uma obsessão:
"Assistimos, no Brasil, especialmente nos
Por isso, deve-se pensar o corpo do
grandes centros urbanos, a uma crescente
metrossexual como algo constantemente
glorificação do corpo, com ênfase cada vez
fabricado pela mídia e pelo consumo, pois
maior na exibição pública do que antes era
esse homem pode ser encontrado em uma
escondido e, aparentemente, mais
revista, em um filme, na internet, nas
controlado" (p. 24). De acordo com os
telenovelas... E o mesmo consome produtos
pesquisadores, a exigência de um corpo
como cremes, xampus e hidratantes;
bonito, perfeito, deve-se ao bombardeio de
frequenta shoppings e SPA; além de se utilizar
imagens vindas do cinema, televisão, jornais,
dos serviços de esteticistas, manicure,
revistas e publicidades. Ou seja, como fala
pedicure e cabeleireiros/as.
David Le Breton (2007), o corpo "está sob a
Para nossos/as interlocutores/as, ser
luz dos holofotes" (p.10), uma vez que, mais e
metrossexual é ser muito vaidoso, exagerado
mais, ele tem tido visibilidades.
nos cuidados com a aparência. Eles/elas
Na publicidade, por exemplo, o corpo
destacam ainda o uso de produtos e atitudes
ganha status de agregador de valores. Ele
consideradas femininas, como cremes
direciona o público-alvo, contribui para a
antirrugas, lipoaspiração, sensibilidade,
transmissão de signos que serão cobiçados
"acertar" as sobrancelhas... Para Leila Freitas
pelos/as consumidores/as: sucesso, beleza,
(2011): "... o 'cuidado de si', imperativo
virilidade, confiança... E, desse modo,
outrora meramente feminino, passa a compor
contribui para o consumo do produto vendido
o repertório de práticas destinadas ao
(Garboggini, 1999; Goldenberg & Ramos,
homem (metrossexual)" (p.7).
2002; Garcia, 2005, 2011; Freitas, 2011). Na
Não raro, as dicotomias entre os
verdade, muitas vezes, o que o/a
gêneros são acionadas. Mesmo reconhecendo
comprador/a quer ao adquirir certos
as mudanças de comportamentos masculinos
produtos é produzir em si um corpo
e femininos em nossa sociedade e
semelhante ao/à do/a garoto/a-propaganda.
considerando, algumas vezes, positivamente
Destarte, a publicidade contribui para
os cuidados com a aparência por parte dos
manter e, mesmo, criar hábitos e modos de
homens, para nossos entrevistados esse tipo
vida, pois ela "(...) não se refere apenas aos
masculino ainda é visto como usuário de
produtos, mas remete também, e
"coisas de mulher"; ele extrapola o que se
fundamentalmente, a conceitos, atitudes,
espera de um homem.
valores que patrocinam modos de ser e viver"
(Beleli, 2005, p.153). Assim, é possível
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.
23

_Que corpo é esse? O metrossexual em debate
Atena: [o metrossexual] pega para si
vaidade ou cuidado com o corpo. Deste
atos e modelos que sempre foram das
modo, o "ser vaidoso" ou "ser
mulheres. Por exemplo, se arrumar,
muito/extremamente vaidoso", muitas vezes,
estar "antenado" na moda, arrumar o
não tinha uma fronteira muito fixa para os
cabelo antes de sair de casa, passar
interlocutores. O que para uns poderia ser
creme, fazer sobrancelhas, unhas (...) os
considerado exagero, para outro se
papéis que sempre foram das mulheres,
apresentava como um cuidado naturalizado,
os homens agora pegam...
normatizado. De qualquer maneira em suas
falas, o "exagerado" é sempre o outro. Desse
Apolo: O homem que cuida da sua
modo, todos destacaram a importância de se
aparência, muito da sua aparência, mais
pensar o corpo, a saúde, etc., mas muitos
do que seria esperado por um homem,
criticaram os exageros percebidos no Outro,
entendeu? [PesquisadorPesquisador: E o que é
particularmente naqueles construídos como
esperado?]: Que o homem não se
metrossexuais.
preocupe com essa questão de beleza,
Destarte, pensar o homem enquanto
de estética... Hoje está se mudando essa
metrossexual é ter em mente a elaboração de
ideia, mas a base, a base sólida mesmo
um corpo diferenciado no que tange aquele
da mente humana, aqui na sociedade
incentivado pela heteronormatividade. O
ocidental, é essa de que o homem tem
metrossexual desenvolve e vivencia uma
que ser... não tem que se preocupar
"nova/outra" performance masculina, a qual
muito com questões de estética e que
está também fundamentada na "fabricação"
isso seja coisa de mulheres.
do seu corpo - ideia emprestada e
ressignificada dos trabalhos de Viveiros de
A idade foi um dos fatores que
Castro (1987) e DaMatta (1976) com os
apareceram na fala das pessoas. A maioria
grupos indígenas Yawalapíti e Apinayé,
destacou a adolescência como o período em
respectivamente.
que as preocupações com a aparência
Portanto, assim como o uso de
começam a se intensificar. Contudo, para
determinados objetos e elementos fazem
eles/elas, esses cuidados podem começar na
parte da "fabricação" do corpo Kayapó,
infância e, com o tempo, ir aumentando na
atribuindo-lhe significados e representações
vida das pessoas. Além disso, os/as
sociais, e, deste modo, comunicando sua
interlocutores/as salientaram a questão de se
posição e status à comunidade (Turner,
levar o cuidado com o corpo para toda vida,
1980), o metrossexual, o homem muito
não estabelecendo, portanto, um limite etário
vaidoso, de forma semelhante, lança mão de
final para que uma pessoa possa cuidar de si,
"substâncias" e adereços que comunica à
pois para Maia "(...) você sempre tem que
sociedade sua "nova/outra" maneira de
estar se cuidando, seja pela sua saúde ou pela
vivenciar a masculinidade como, por exemplo,
realização pessoal". Também, segundo
bases e esmaltes nas unhas, maquiagem
Hipnos, essa preocupação com a aparência na
masculina, cremes hidratantes e antirrugas,
velhice seria resultado de uma sociedade
determinadas roupas, marcando seu lugar na
consumidora de imagens na qual vivemos,
sociedade, seu pertencimento5.
além de compreender parte do processo de
valorização dos/as idosos/as,
Servimo-nos dos trabalhos desses autores para
intelectualmente e visualmente, na
pensar a contemporaneidade, assim como, por
contemporaneidade.
exemplo, Margareth Mead que, após estudar a
Quando questionados se se
tessitura da vida social dos Arapesh, Mundugumor e
Tchambuli, pôde refletir sobre a sua própria sociedade.
consideravam pessoas vaidosas, ou se
É simplesmente (se é que se pode chamar o processo
possuíam o cuidado sobre si e seu corpo, as
de reflexão de simples) a aplicação de uma teoria, de
pessoas se apresentavam com algum grau de
uma "lente", para analisar, enxergar outra realidade.
24
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.

Que corpo é esse? O metrossexual em debate_
As pessoas entrevistadas, em sua maior
Égua! Eu achava ridículo! (...) Não tem
parte, não se identificaram como
necessidade. (...) Não acho bonito.
metrossexuais. Uma das marcas que negavam
o enquadramento nessa categoria de
Hipnos: Eu não acho legal... O esmalte
classificação era o fato de eles mesmos
preto quando daquele lance de show de
cortarem suas unhas, ou as roerem. A
rock, enfim, tem toda uma identidade,
"autonomia" aí era justificada por uma
mas fora isso eu não acho nem um
questão de praticidade. Mesmo aqueles que
pouco atrativo. Eu não me interessaria
disseram ter frequentado alguma vez uma
por um homem que usa esmalte.
manicure/pedicure preferem fazer essa
limpeza em casa. O cuidado com as mãos e os
Contudo, o uso do creme no corpo seja
pés, nesse sentido, é considerado mais uma
ele hidratante, esfoliante, protetor solar,
questão de higiene do que de vaidade, motivo
apareceu com mais frequência na fala dos
que resulta na não preocupação, de certa
entrevistados. Visto como vaidade, tanto o
forma, com a unha roída. O medo de se
uso por eles quanto por outras pessoas, foi
machucarem, de contraírem alguma doença
justificado devido ao ar condicionado, quando
derivada da não ou má esterilização dos
há muita exposição ao sol, para hidratar, ficar
materiais usados nos salões, foi igualmente
cheiroso e como tratamento a acnes. Apenas
justificado pelos entrevistados como motivo
Hércules é contra o uso desses produtos. Ele
de não frequentarem salões para o cuidado
coloca em questão sua namorada, sua mãe e
com as unhas. A base configura-se,
até a condição sexual dos homens por usarem
entretanto, como o produto que eles mais
hidratantes e óleos pós-banho. Segundo ele,
usam nas unhas. No entanto, usar esmalte de
essa ação é "uma frescura muito
cores é considerado como "estilo da pessoa",
desnecessária". De qualquer forma, mesmo
mas não isento de críticas:
para aqueles que têm a prática do uso desses
cremes, tal prática não foi lida como própria
Apolo: Eu acho que é estranho... Tem
apenas ao metrossexual. O fato de usar este
homem que coloca a base preta, aí eu
tipo de produto, não necessariamente é
acho que já tem um motivo mais
considerado pelos homens entrevistados
roqueiro assim. Mas, voltando à base
como uma marca que os identifica com o
colorida, eu acho meio estranho. Hoje
metrossexual. As mulheres entrevistadas tão
em dia, ainda para mim, eu acho meio
pouco associaram o uso desses produtos
estranho. [Pesquisador: Pesqui
sador:
Por quê?]: Por
necessariamente apenas aos homens
que não é normal, na nossa cultura,
metrossexuais.
particularmente, eu acho que não é
Para complementar a paisagem
normal. [Pesquisador:Pesquisador: E o que seria
corporal construída como própria ao homem
normal?]: O normal seria não usar
vaidoso, identificando-o como tal, tem-se a
(risos).
questão das vestimentas. O modo como os
corpos são apresentados, "encapados" por
Hércules: Acho que é desnecessário! (...)
tecidos e adereços, por exemplo, diz muito
Eu acho feio na verdade, sabe? Por que
sobre a pessoa; afinal, "A moda, em si, é uma
eu acho que nada a ver o homem que
linguagem" (Portinari & Coutinho, 2006,
pinta a unha... Eu lembro muito quando
p.65). Destarte, a maioria dos interlocutores
o Marcos Mion pintava a unha de preto.
procura adaptar o disponível nas lojas aos
seus gostos. Mesmo aqueles que disseram
Então, por que não utilizar etnologias que, entre outras
"não seguir as tendências" fazem uma
coisas, falam sobre o corpo, para pensar o homem pós-
bricolagem de peças e estilos, pois consumir e
moderno? Claro, as ressalvas são feitas! Que ao
fugir do que está sendo lançado nas
término desta reflexão o/a leitor/a possa ter suas
próprias conclusões dessa apropriação.
passarelas dos Fashions Weeks do mundo é
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.
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_Que corpo é esse? O metrossexual em debate
quase impossível, principalmente porque eles
com características lidas como metrossexuais,
frequentam os shoppings - templo de culto
mesmo que eles não se identifiquem com
ao consumo de todas as espécies e exposição
essa classificação, pois a aparência,
do que está em evidência no setor do
consequentemente o consumo, torna-se
vestuário. Pensando a moda como efêmera
central no universo dos homens vaidosos, e
(Lipovetsky, 2009), a questão do estilo próprio
revela muito sobre a pessoa: "(...)
é fundamental; afinal, a pessoa vaidosa
mercado/mídia reconhece e legitima - por
procura se sentir bem com o que veste:
meio do consumo - quem pode mais, quem
pode menos" (Garcia, 2011, p. 106). Portanto,
Estilo pessoal não é a mesma coisa que
os efeitos serão diferentes se você chega a
moda. Moda é a última oferta da indústria
uma festa de confraternização, da empresa
de vestuário. Seu estilo pessoal é o que
onde você trabalha, vestindo uma calça Calvin
faz você diferente de todos os outros.
Tem a ver com o que fica bem em você,
Klein ou uma Pit Bul l.
como combina as peças, o que o faz se
No que diz respeito a essa questão do
sentir confortável e como escolhe se
"vestir-se", os interlocutores sempre
apresentar para o mundo à sua volta
estabelecem diálogos, mudos ou não, com
(Flocker, 2004, p.114).
terceiros. Afinal, comprar uma roupa é mais
do que usar um tecido, é a construção da
Além disso, com exceção de Perseu,
imagem de si, um certo conceito. Um diálogo
todos os demais falaram que possuíam um ou
de assimilação, resistência e ressignificação
outro produto das seguintes "grifes"6:
com as tendências consideradas
Addidas, Aramis, Brooksfield, Calvin Klein, All
hegemônicas, underground e, mais
Star, Colcci, Hering, Nike, Tacco, Adji, Apple, O
especificamente, com aquelas próprias aos
Boticário, Bunny's, Cavalera, Coca-cola, Dolce
grupos nos quais esses sujeitos circulam. Por
& Gabbana, Fiorucci, Fóssil, Le Potische,
vezes esse diálogo é direto. Ao comprarem
Levi's, Overend, Play Boy, Redley, Renner e
uma roupa, por exemplo, mas principalmente,
Tommy Hilfiger. Dessas, Apolo usa óculos da
quando escolhem algo para usarem na
Calvin Klein, Play Boy ou Fiorucci, sapatos da
universidade, estágio, trabalho, "balada"7...,
All Star e roupas da Coca-Cola; Cratos compra
eles perguntam para alguém se estão bem
perfumes de O Boticário e sapatos da Nike,
"apresentados", bem vestidos. Esse alguém,
Addidas e All Star; Dionísio consome roupas
em todos os casos, são mulheres: mães,
da Levi's e da Bunny's; Hefesto veste Colcci,
irmãs, amigas... E o que acontece quando eles
Clavin Klein e Hering; eletrônicos para
ouvem um "não" como resposta? Eles,
Hércules são os da Apple, tênis da Addidas e
geralmente, trocam!
calças da Tacco; Hipnos compra camisas e
calças da Aramis, Brooksfield, Calvin Klein e
Morfeu: Às vezes, quando eu vou sair
Tommy Hilfiger; Morfeu utiliza roupas da
para alguma festa, pergunto para minha
Renner, Hering, Tacco, Adji e Overend, relógio
mãe: E aí mãe, eu estou bonito? Como é
da Fóssil e mochilas da Le Potische; Nomos
que está? [PesquisadorPesquisador: Se ela disser
usa roupas da Colcci e Cavalera; as calças e
que não?]: Não, às vezes, (...) eu quero
camisas de Poseidon são da Dolce & Gabbana,
só que ela olhe (risos) (...). Só quando
Redley e Addidas; e, finalmente, Zeus usa
eu tenho dúvidas em relação a uma
mochilas e calças da Calvin Klein.
roupa, se vai ficar bacana ou não, aí se
Assim, por meio do que vestem e como
ela falar que não, eu realmente não uso.
vestem, nossos interlocutores, demonstram
"novas/outras" possibilidades de ser homem,
Apolo: (...) eu sempre peço opinião. Às
comunicam seu modo de ser metrossexual ou
vezes eu peço opinião para minha irmã,
Grife está sendo usada aqui como referência a uma
marca ou loja (re)conhecida.
7 Esse termo refere-se a festas.
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Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.

Que corpo é esse? O metrossexual em debate_
para minha mãe para saber como é que
que respondiam "com comida" sempre a
eu estou (risos). [Pesquisador:Pesquisador: Quando
diziam por primeiro. Desse modo, eles gostam
elas falam que não ficou bom...]: Eu vou
de frequentar excelentes restaurantes,
e troco! (risos).
saborear bons pratos.
Quando Mark Simpson e Wilton Garcia
Hércules: Primeiro, eu adoro comer.
falam do metrossexual, eles dizem que os
Então, inevitavelmente, boa parte do
mesmos são homens de alto poder aquisitivo.
meu dinheiro vai para comida, porque
Contudo, a maioria dos homens com quem
(...) eu gosto de comer bem. (...) no
conversamos, mesmo os que se consideraram
início do mês, acabou de sair a minha
metrossexuais, como Apolo, Cratos e Zeus,
bolsa, uma das primeiras coisas que eu
apesar de estagiarem e/ou trabalharem,
faço é ir a um restaurante legal, comer
recebem ajuda financeira dos pais. Seus
aquela comida gostosa...
gastos, desse modo, estão pautados dentro
do que é possível para suas rendas:
Hipnos: Eu gosto muito de temakerias.
Restaurante japonês, eu gosto muito do
Hefesto: Como eu moro só, eu
Kamisama, que não é um restaurante
administro o dinheiro que os meus pais
absurdamente caro, mas é um bom
me dão. Então, eu fico meio assim: Ah,
restaurante. E, eu gosto do Dom
vou comprar isso depois. Mas, às vezes,
Giuseppe, acho legal, e de rodízios de
quando eu vejo algo que me interessa,
carne.
eu procuro pesquisar para ver se
encontro algo mais barato ou, caso a
Também fazem parte da lista de gastos
situação no momento seja possível, eu
deles: roupas, revistas, livros, viagens,
vou e compro...
perfumes, cinema, vídeo game, shopping,
"coisas" para a aparência... Os entrevistados
Hipnos: Olha, eu tenho uma renda
gastam muito com roupas. Se se atentar para
média, entre o que eu ganho e o que os
as "marcas" que eles citaram, elencadas
meus pais me dão, de R$ 2.500 reais
acima, confirmar-se-á isso.
por mês. Eu gasto com roupa (quando
Dos 11 homens com quem
compra) uns R$ 700 reais por mês, mais
conversamos apenas Hércules e Perseu nos
ou menos isso.
disseram não serem vaidosos. Segundo
Christiane Collange (1982): "os homens das
Assim, o modo de ser metrossexual
novas gerações (...) demonstram uma
desses três sujeitos que se identificaram
consciência muito mais aguda das regras de
como metrossexuais têm que ser negociada
bem-estar e, principalmente, da importância
com os limites de renda e condição social na
da aparência. Eles pretendem ser mais sadios
qual se inserem, mostrando que embora haja
para se sentirem mais belos" (p.137). E isso é
um ideal de metrossexual, há um jogo de
algo que deve ser levado em consideração,
negociação com esse ideal, se aproximando e
pois dos oito entrevistados que se declararam
se distanciando de algumas das características
"vaidosos", como dissemos antes, apenas
criadas como próprias àqueles que assim se
Apolo, Cratos e Zeus autodenominaram-se de
classificam.
metrossexuais. Ou seja, a vaidade está além
Um ponto que chamou atenção
de se reconhecer enquanto metrossexual,
enquanto conversávamos sobre dinheiro e
pois ela, cada vez mais, faz parte da
gastos, foi descobrir a importância que os
construção do ser masculino. Podemos nos
interlocutores dão a questão da comida.
perguntar se o uso desse neologismo, como
Quando perguntamos com o quê e onde eles
justificativa para algo, brevemente não será
gostavam de gastar o dinheiro deles, aqueles
apenas um detalhe ou não terá mais
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.
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_Que corpo é esse? O metrossexual em debate
importância fazendo parte do cotidiano e das
orelhas e boca, arrancam as sobrancelhas. Ou
práticas dos homens, se consolidando como
seja, vários procedimentos são tomados para
fazendo parte de novas performances
identificar cada membro na sociedade
agregadas à masculinidade hegemônica.
Kayapó. Esses "procedimentos" podem ser
Afina l, os ideais ditos hegemônicos estão
chamados de marcação corporal, o que para
situados historicamente, transformando-se ao
Le Breton desempenha diferentes funções em
longo dos tempos e das sociedades.
cada sociedade, integrando o/a indivíduo no
Assim, se em sociedades indígenas
interior de certos grupos (Le Breton, 2007,
como entre os e Yawalapíti, há a "fabricação
p.59-60).
do corpo" mediante a intervenção consciente
Com os homens muito vaidosos há
sobre a matéria, como nos lembra Viveiros de
cuidados nesse sentido também. O cuidado
Castro (1987), de algum modo, podemos nos
os insere em um lugar, os situa na sociedade,
perguntar se o corpo do metrossexual
os constroem dentro de determinada
também não é produto de uma intervenção
condição de classe, associa-os a determinados
consciente na matéria? Afinal, essa
grupos, valores e práticas, criando
intervenção ocorre por meio do uso da
expectativas em torno de si. Ao mesmo
maquiagem masculina, do trabalho realizado
tempo em que constroem seu corpo eles
na academia para esculpir o corpo, de
constroem uma imagem de si, um lugar na
procedimentos cirúrgicos, do uso de
sociedade, onde eles esperam serem vistos e
cosméticos e roupas estilizadas.
desejados. "O metrossexual aprecia estar
Para o metrossexual o que importa não
bem aparentemente e uma de suas
é o esconder-se, mas o mostrar-se, o
características é gostar de exibir isso para os
aparecer para ser desejado. Primeiramente,
outros; querer mostrar-se, expor algo em
desejado por si - pois o metrossexual
relação à sua aparência" (Oliveira & Leão,
recorrentemente é identificado pelas pessoas,
2011, p.197). Sendo assim, os metrossexuais
no senso comum, com o termo narcisista - e,
usam cremes antirrugas, fazem depilação,
depois, pelos outros. O metrossexual está no
"acertam" as sobrancelhas, fazem as unhas,
mostrar-se, no expor-se, haja vista que o
têm cuidado com os cabelos. Com isso,
padrão de beleza existente hoje se inscreve
atraem os olhares para si. De algum modo, a
em propriedades fetichistas de um corpo
imagem é a abertura para novas
imagético, sensual, desejado (Garcia, 2004,
aproximações, sociabilidade, um modo de
2005; Freitas, 2011; Barreto Januário, 2009).
estar, de se reconhecer e ser reconhecido
Desse modo, Goldenberg e Ramos
pelos demais.
(2002) chamam a atenção para o fato das
Com exceção de Nomos e Zeus, todos
pessoas terem dificuldades em mostrarem
os demais cortam o cabelo em salão -
seus corpos em determinados contextos,
entendido aqui como um espaço frequentado
devido a grande difusão, segundo os autores,
por homens e mulheres e que além do corte,
de imagens na mídia de modelos cuja
oferece outros tratamentos.
aparência é impecável. Assim, para exibir um
corpo sem receios "é necessário investir na
Dionísio: Sempre cortei em salão.
força de vontade e na autodisciplina" (p. 27).
[Pesquisador: Por qué?]: (...) eu acho
E o metrossexual "aparece", mostra-se, pois
que não me identificaria cortando o
tem confiança no corpo que produz.
cabelo com um barbeiro. Até mesmo
Turner (1980) nos revela que há todo
pela questão dele ser mais prático e tal.
um cuidado por parte dos Kayapó com a
Já no salão é outra coisa, o cabeleireiro
apresentação do seu corpo. As ações que
tem todo um cuidado com o teu
realizam visam "socializar" o indivíduo; fazê-lo
cabelo...
parte da sociedade. Dessa forma, removem os
pelos faciais, furam e utilizam objetos nas
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Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.

Que corpo é esse? O metrossexual em debate_
Morfeu: Salão, salão de mulher. Eu
E os homens que alisam?]: Fica feio
sempre cortei com mulheres, em salões
quando o cabelo obviamente não é liso,
de mulheres mesmo. A maioria que
não é? Forçam para que fique liso e aí
frequenta é mulher (...) às vezes eu
fica esquisito.
chego sábado lá (...) e elas olham um
homem e acham que eu estou
Tirar os pelos das sobrancelhas,
esperando, que sou acompanhante de
aparentemente uma atividade exclusiva
alguém (...) eu vou lá porque eu acho
feminina, revelou-se mais praticada pelos
que ela tem uma sensibilidade muito
interlocutores do que a ida a
grande para o corte.
manicure/pedicure. Sete deles disseram que
já tiraram, em algum momento, pelo menos,
0 consumo do espaço "salão", para os
os pelos que ficam entre uma sobrancelha e
interlocutores, ocorre em decorrência do
outra; e Cratos, que nunca "fez", tem
trabalho ali ser "mais completo", uma vez que
vontade. Se levarmos em consideração que a
não se dará apenas o corte, mas outros
maioria nunca foi "fazer" pé e mão em um
processos estão envolvidos. Dois outros
ambiente que não o doméstico, pelos motivos
fatores que também foram destacados são o
outrora apresentados e, também, que muitos
"preço" e a "distância". Poseidon, por
deles roem as unhas, a modelação do corpo
exemplo, frequenta um salão próximo de sua
via supercílios chama a atenção. Esse é um
casa, o qual é barato.
cuidado feito muitas vezes, em casa, mas
A maioria nunca pintou e nem tem
executado!
vontade de pintar os cabelos, resultado
A questão colocada por eles sobre esse
parecido quando o assunto é alisar, pois
assunto pode ser resumida em uma palavra:
acham que não ficaria bem - no sentido de
excesso. Um homem com bastante pelos
bonito -, nem natural. Discurso semelhante
pode tirar, mas, pouco; uma vez que, só à
quando o referencial é o outro:
mulher é permitido tirar mais. Contudo, essa
ação é considerada, em alguns casos, "um
Hipnos: [Pesquisador: 0 que você acha
pouco demais", ou seja, desnecessária:
dos homens que pintam o cabelo?]: Não
vejo problema algum. Se ficar bonito,
Hefesto: Eu acho assim: não faz mal
não tem problema não. [Pesquisador:Pesquisador: E
tirar a sobrancelha e tudo mais.
os homens que alisam?]: É, eu acho
(Ênfase): Mas, em excesso, deixar a
estranho. Geralmente não fica muito
sobrancelha fina, porque eu já vi
natural, a não ser quando o cabelo do
homens com sobrancelhas mais finas do
homem é um pouco maior que dá para
que de mulheres, eu acho que isso não
fazer um trabalho melhor, uma
fica bem. (...) limpar o rosto é ótimo;
hidratação, não sei o quê... fica um
agora, tudo no seu excesso (...) eu acho
pouco melhor. Mas, quando é curto e o
que não é muito válido.
cara alisa, fica meio artificial (...) eu
acho mais bonito, tanto homens quanto
Hércules: (...) a primeira vista, parece
mulheres, com o cabelo natural.
também uma coisa feminina para mim.
Mas, eu também conheço várias
Apolo: [Pesquisador: 0 que você acha
pessoas que fazem os quais, não
dos homens que pintam o cabelo?]: Eu
necessariamente, são gays ou qualquer
acho que alguns casos funcionam e em
coisa assim. Então, para mim... Já não é
outros não (risos). [Pesquisador:Pesquisador: Como
nada de (bem baixinho): anormal.
assim?]: Em alguns casos fica bonito,
atraente, mas em outros casos eu acho
Hipnos: (...) eu acho exagerado um
que fica artificial, fica feio. [Pesquisador:
homem fazer as sobrancelhas. Eu acho
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.
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_Que corpo é esse? O metrossexual em debate
que a sobrancelha é a marca de
"um pouquinho feio" suas costas peludas e
expressão do rosto (...). E quando o cara
por que a namorada lhe pede muito. Mas, ele
começa a trabalhar muito essa área, fica
acha desnecessário o homem fazer depilação
meio padronizado (...) perde no
no corpo inteiro, pensamento compartilhado
conceito beleza (...) e isso eu acho feio.
com Morfeu e Dionísio, por exemplo.
Feio mesmo!
Diferentemente, Hefesto e Cratos preferem
seus corpos, e de outros, livres de qualquer
Apolo: Eu acho legal quando fica com
pelo.
uma aparência limpa, não é? (...), mas
A vaidade, no contexto aqui
têm homens que eu acho, pelo caráter
apresentada, tem várias nuances. Mesmo que
da sua sexualidade, (...) gostam de
o discurso do "não estou nem aí para isso"
deixar mais fina, com uma aparência
vez ou outra apareça, todos os nossos
mais feminina.
interlocutores demonstraram certa
preocupação com seus corpos, dando mais,
Dionísio: Eu já gosto. Eu acho que dar
ou menos, atenção a determinadas áreas e
uma aparência, também, bem mais
fatores, mas nunca sendo totalmente alheios.
saudável para o rosto do homem,
Desse modo, o Outro é avaliado a partir de
porque têm homens que tem as
minhas experiências. O que eu faço/uso causa
sobrancelhas juntas que, sei lá, fica
menos estranhamento quando analiso o meu
muito estranho (...).
próximo. Assim, muitos deles não se
reconheceram como metrossexuais, a
Quando Hércules diz que conhece
despeito de possuírem certas práticas de
muitos homens que não vivenciam uma
cuidado com o corpo, como o uso de roupas
condição homoerótica e, mesmo assim, fazem
de marca, o corte de cabelo em salão de
atividades pensadas como "coisas de mulher"
beleza feminina, o fazer a sobrancelha e tirar
e nem por isso, ele os considera "anormais"
o excesso de pelos. E, mesmo entre aqueles
por "fazerem" as sobrancelhas ou irem à
que se autodefiniram como metrossexuais,
manicure, sua fala nos permite pensar a
nem sempre a vivência desse modo de ser
reestruturação dos comportamentos de
metrossexual pode estar sonante com os
gêneros experienciado pelos homens que se
valores e práticas tidas como próprias a esses
identificam, ou não como metrossexuais. As
sujeitos. Afinal, alguns deles não possuem
possibilidades de performance são ampliadas.
renda para manter o conjunto de produtos e
As fronteiras são alargadas. É um discurso, um
serviços necessários à manutenção da
tipo de habitus8, outrora não autorizado,
vivência do cuidado com o corpo. Essas
ganhando status de autorizado, de permitido.
pessoas dialogam com os valores e
Destarte, a depilação entra aqui como
experiências idealmente criadas, mas não
uma atitude também masculina e que tem a
necessariamente as vivenciam tal como
ver com a higiene. Ela pode ser tanto a
alardeada nos meios de consumo midiáticos.
extirpação total dos pelos do corpo ou parte
As práticas e valores associadas ao
dele; "aparar" os mesmos também foi
cuidado com o corpo estão presente no
considerado. Sendo assim, exceto Hércules e
cotidiano não apenas daqueles que se
Nomos nunca fizeram alguma depilação;
reconheceram como metrossexuais, mas
contudo, Hércules tem vontade, pois acha
também, daqueles que procuraram marcar
seu distanciamento com essa categoria de
Segundo Bourdieu (2004): "O habitus, como sistema
classificação. Para estes últimos o
de disposições para a prática, é um fundamento
metrossexual não é pensado enquanto
objetivo de condutas regulares, logo da regularidade
experiência para si, mas enquanto lente para
das condutas (...) faz com que os agentes que o
possuem comportem-se de uma determinada maneira
analisar o Outro na vivência da sua
em determinadas circunstâncias" (p.98).
masculinidade.
30
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.

Que corpo é esse? O metrossexual em debate_
bens, produtos e significados. O
Considerações Finais
metrossexual, apesar de algumas resistências,
está cada vez mais visível na sociedade
A ideia de um masculino
brasileira. Desse modo, inicialmente como um
despreocupado com o que veste, que passa
tipo masculino que vai de encontro com os
sabonete nos cabelos para não gastar muito
ditames da masculinidade hegemônica que,
tempo na hora do banho com xampus e
entre outras coisas, prega que os homens não
condicionadores, tem perdido espaço na cena
devem ter grandes preocupações com a
contemporânea.
aparência, o metrossexual aos poucos vai
É possível perceber que os homens, a
saindo de uma condição de "contra-poder"
cada dia, externalizam, mais e mais, o cuidado
para se tornar um "poder", também,
com o corpo. Os sujeitos entrevistados estão
disciplinador dos corpos, pois dita o que pode
constantemente produzindo sua paisagem
ou não ser considerado como
corporal com produtos de beleza e serviços
comportamento e valores metrossexuais,
voltados para os cuidados da aparência. Eles
conforme mostra Wilton Garcia (2011).
se reconhecem assim. Alguns usam cremes no
Em vista disso, mais do que dizer se
corpo e procuram tratar dos cabelos em um
essa vivência da masculinidade é boa ou não -
salão, mesmo que barato, mas que os deixem
devemos superar o maniqueísmo! -, que o
com um corte bonito, diferenciado do
uso da designação fashion-mercadológica
"comum" realizado em barbearias; outros
enquadra os homens, as pessoas de modo
consomem produtos da Tommy Hilfiger e
geral, em classificações que, geralmente, são
frequentam academias - de bairro ou de
ideais, ou seja, nunca atingidas na sua
renome. Ou seja, realizam diversos
plenitude, terminamos este texto - não
procedimentos para fabricarem corpos
exaurindo suas questões (essa nunca foi
desejáveis, que chamem atenção, que sejam
nossa intenção), mas, esperamos que
mais um ponto a seu favor na hora de se
levantando "novas/outras" problematizações
relacionar com as demais pessoas. Afina l, a
-, com uma citação do guia de estilo do
contemporaneidade é imagética!
metrossexual, de Michael Flocker (2004):
Com o intuito de nomear esse homem
"Sua vida é sua própria criação. Faça que seja
que cuida muito da aparência, que não tem
boa" (p.198). Isso basta!
receio de gastar com produtos de beleza,
surge o termo metrossexual, o qual vem
Referências
(de)marcar esse "novo/outro" consumidor,
porque eles compram e como compram! Há
Barreto Januário, S. M. B. (2009). O homem
os que aproveitam a designação "fashion-
contemporâneo e sua representação social
mercadológica" para assumirem a vaidade, o
nos media. Passages de Paris édition spéciale
consumo. Outros preferem manterem-se
(APEB.fr), 1, 223-235.
longe da imagem, embora também façam
algum tipo de uso de equipamentos, serviços
Becker, H. S. (2008). Outsiders: estudos de
ou produtos voltados ao cuidado do corpo.
sociologia do desvio (M. L. X. de Borges,
No final, todos fazem a mesma coisa:
Trad.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
consomem! Mesmo que este consumo
adquira significados e discursos diferenciados.
Bel el i, I. (2005). Marcas da diferença na
Consomem a si na frente dos espelhos,
propaganda brasileira. Tese de Doutorado,
consomem produtos e lugares, refletem
Programa de Pós-Graduação em Ciências
valores, projetam uma imagem de si, enfim,
Sociais, Universidade Estadual de Campinas,
montam sua autorrepresentação,
São Paulo, SP.
(re)constroem sua noção de pessoa e suas
performances de masculinidade articulando
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.
31

_Que corpo é esse? O metrossexual em debate
Bourdieu, P. (2004). Coisas ditas (C. R. da
http://www.cerescaico.ufrn.br/mneme/pdf/m
Silveira & D. M. Pegorim, Trad.). São Paulo:
neme11/097.pdf.
Brasiliense.
_ _ . (2005). Corpo, mídia e representação:
Castro, A. L. de. (2007). Culto ao corpo e
estudos contemporâneos. São Paulo: Pioneira
estilos de vida: o jogo da construção de
Thomson Learning.
identidades na cultura contemporânea.
Perspectiva, 31, 137-168.
_ _ . (2011). O metrossexual no Brasil:
estudos contemporâneos. São Paulo: Factash
Collange, C. (1982). Como vão os homens? (M.
Editora.
C. Marcondes, Trad.). São Paulo: DIFEL.
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Sobre os autores:
Edyr Batista de Oliveira Júnior:
Mestrando em Antropologia
(PPGA/UFPA) e bolsista da Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (Capes).
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 20-33, 2012.
33

ENTRETECENDO DIÁLOGO ENTRE HOMOSSEXUALIDADE E VELHICE: NOTAS
ANALÍTICO-INTERPRETATIVAS ACERCA DO ENVELHECIMENTO GAY
INTERWEAVING DIALOGUE BETWEEN HOMOSEXUALITY AND AGING:
ANALYTICAL-INTERPRETATIVE NOTES ABOUT OLDER GAYS
Wladirson Cardoso
Universidade Federal do Pará
Ernani Pinheiro chaves
Universidade Federal do Pará
Resumo
O presente artigo constitui um breve apontamento teórico acerca das
práticas e do modo de vida gay e objetiva discutir, em particular, a interface
entre os temas do envelhecimento e da homossexualidade masculina. Neste
aspecto, é importante salientar que o presente texto se inscreve, ainda,
naquele horizonte que entrecruza as diversas sexualidades ou sexualidades
divergentes e as masculinidades num sentido hipermoderno e plural.
Destarte, a consignação do tema do envelhecimento - compreendido
enquanto processo circunscrito à existência humana -, no que diz respeito à
análise e interpretação acerca do modo de vida de homossexuais
masculinos, é, por si mesmo, bastante amplo e, por isso, não se levará em
conta, ao menos diretamente, as experiências de mulheres lésbicas e sua
compreensão da velhice, o que exigiria, porquanto, uma observação
específica, das perspectivas de cada grupo, respeitando-se as suas
singularidades.
Palavras-chave:-chave: envelhecimento; homossexualidade masculina; modo de
vida gay.
Abstract
This article is a brief note about the theory and practice of the gay lifestyle
and discusses, in particular, the interface between the themes of aging and
male homosexuality. In this respect, it is important to note that this text is
included, even at that horizon that intertwines the diverse sexualities or
differing sexualities and masculinities in a plural sense and hypermodern.
Thus, the assignment of the subject of aging - understood as a process
confined to human existence - with regard to the analysis and interpretation
about the way of life of gay men, is, in itself, quite wide and therefore not
take into account, at least directly, the experiences of lesbian women and
their understanding of old age, which would require, for a specific
observation, the perspectives of each group, respecting its singularities.
Keywords: aging; male homosexuality, gay lifestyle.
34 Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 34-43, 2012.

Entretecendo diálogo entre homossexualidade e velhice_
Resumen
Este artículo es una breve nota sobre la teoría y la práctica de un estilo de
vida gay y discute, en particular, la relación entre los temas de
envejecimiento y la homosexualidad masculina. A este respecto, es
importante señalar que este texto se incluye, incluso en ese horizonte que
entrelaza las diversas sexualidades o sexualidades diferentes y
masculinidades en un sentido plural y hipermoderna. Por lo tanto, la
asignación del tema del envejecimiento - entendida como un proceso
confinado a la existencia humana - en relación con el análisis y la
interpretación de la forma de vida de los hombres gays, es de por sí
bastante amplia y por lo tanto no tener en cuenta, al menos directamente,
las experiencias de las mujeres lesbianas y su comprensión de la vejez, lo
que requeriría, para una observación específica, las perspectivas de cada
grupo, respetando sus singularidades.
Palabras clave:: envejecimiento; homosexualidad masculina; estilo ::de vida
gay.
1. Da proposigao do tema ou interfaces entre
só pode realizar-se ao nível da experiência1,
velhice e homossexualidade
qual seja, de ser um homossexual em idade
madura adiantada, procurou-se, aqui, abordar
O presente artigo constitui um breve
o assunto em vista da resposta à pergunta o
apontamento teórico acerca das práticas e do
que é ser velho e homossexual?
modo de vida gay e objetiva discutir, em
Compreendemos que esta questão está
particular, a interface entre os temas do
imediatamente relacionada à necessidade de
envelhecimento e da homossexualidade
se investigar uma realidade específica e
masculina. Neste aspecto, é importante
determinada; porém, não em termos lógicos,
salientar que o presente texto se inscreve,
de antecedência e consequência, mas sim em
ainda, naquele horizonte que entrecruza as
termos da crítica de um discurso acerca da
diversas sexualidades ou sexualidades
orientação sexual gay, que, por sua vez,
divergentes e as masculinidades num sentido
carregaria em si o duplo estigma social da
hipermoderno e plural. Destarte, a
velhice e da homossexualidade.
consignação do tema do envelhecimento -
Em seu texto Corpo e sexualidade nas
compreendido enquanto processo
experiências de envelhecimento de homens
circunscrito à existência humana -, no que diz
gays em São Paulo, Júlio Assis Simões (2010)
respeito à análise e interpretação acerca do
destaca que os homossexuais não se
modo de vida de homossexuais masculinos, é,
relacionam com a velhice da mesma maneira
por si mesmo, bastante amplo e, por isso, não
que os heterossexuais. Portanto,
se levará em conta, ao menos diretamente, as
descaracterizando aquela representação
experiências de mulheres lésbicas e sua
sócio-cultural da "terceira idade" como um
compreensão da velhice, o que exigiria,
momento de recolha e isolamento, o autor
porquanto, uma observação específica, das
nos mostra que seus entrevistados encaram a
perspectivas de cada grupo, respeitando-se as
velhice de modo ativo, pois, continuam
suas singularidades.
Todavia, como o debate acerca do
Cf. MOTA, Murilo Peixoto. "Homossexualidade e
envelhecimento de homossexuais masculinos
Envelhecimento: algumas reflexões no campo da
experiência" In: SINAIS - Revista Eletrônica - Ciências
Sociais. Vitória: CCHN, UFES, Edição n.06, v.1, Dez.
2009. pp. 26-51.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 34-43, 2012.
35

_Entretecendo diálogo entre homossexualidade e velhice
transitando pelos espaços de
arquivos, arquivos marginais, dissonantes,
homossocialidade, mantendo os cuidados
que auxiliem na compreensão do assunto,
com o corpo, donde poderem ser chamados
possibilitando abordar o tema com alguma
de envelhecentes.2
novidade, porquanto não se trata apenas de
Considerando, então, que os
reposicionar a questão da sexualidade gay ou
homossexuais correspondem histórica e
de, simplesmente, pensar a velhice enquanto
politicamente ao grupo que mais sofre
"fase" ou "período" do desenvolvimento
preconceitos e discriminações na sociedade
humano. Assim, envelhecimento e
brasileira3, encontrar-se-á, no interior desta
homossexualidade se encontram numa linha
discussão, argumento suficiente que
cruzada, quanto às representações sociais e
justifique uma reflexão e que, também,
culturais acerca da produção do corpo, da
proponha um debate acerca do processo de
beleza e da masculinidade, sinalizando,
envelhecimento de homossexuais masculinos,
estratégias de sobrevivência e resistência,
enquanto um processo sócio-antropológico
seja no que respeita à convivência em uma
que merece, portanto, considerável destaque.
rede social que, ao passar dos anos, tenderia,
Todavia, em artigo sobre a temática do
supostamente, a restringir-se, cada vez mais,
envelhecimento de homens maduros com
ao espaço do lar5; seja mesmo utilizando-se
práticas homoeróticas, Murilo Peixoto Mota
de artifícios para o uso e gozo dos prazeres.
(2009) adverte que:
A problematização da vida de homens
maduros em idade avançada com práticas
"(...) nos últimos anos o estudos sobre
homoeróticas aponta, então, para um
velhice no Brasil tem ganhado amplitude
conjunto de singularidades que tem de ser,
nas ciências sociais. Contudo, pesquisas
necessariamente, encaradas como
sobre a homossexualidade e o
envelhecimento no âmbito das
dispositivos analíticos no interior da presente
experiências cotidianas são ainda
análise. No entanto, para se abordar sócio-
incipientes, aspecto que revela certo
analiticamente o tema da "velhice de homens
silêncio a respeito da extensão e
gays", deve-se partir do mundo
complexidade que envolve o tema". (p.
26)
heterossexista que, por sua vez, define
Isto significa que, no campo das
conservação documental. Trata-se, isto sim, de um
conjunto de normas que sustentam os enunciados em
Ciências Humanas, particularmente da
sua discursividade, regulando o aparecimento histórico
Antropologia Social, não existem muitos
dos acontecimentos, observados em sua singularidade.
arquivos4, ou melhor, outros arquivos, novos
Neste sentido, arquivo não significa nem a transcrição
de pensamentos ou atos de fala e nem o jogo
linguístico das circunstâncias, mas discurso
Cf. SIMÕES, Júlio Assis. "Corpo e sexualidade nas
efetivamente pronunciado, segundo as regras (limites
experiências de envelhecimento de homens gays em
e determinações) da decidibilidade, da conservação, da
São Paulo" In: A Terceira Idade - Estudos sobre
"memorialidade"/legitimidade, da reativação e da
Envelhecimento - Revista Eletrônica - Serviço Social do
apropriação. Cf. verbete "Arquivo" In: EDGARDO,
Comércio (SESC). São Paulo: Edubase (Faculdade de
Castro. Vocabulário de Foucault - um percurso pelos
Educação/UNICAMP), Edição n. 50, v. 22, Jul. 2011, pp.
seus temas, conceitos e autores / Edgardo Castro;
07-19.
tradução Ingrid Müller Xavier; revisão técnica Alfredo
Veiga-Neto e Walter Omar Kohan. - Belo Horizonte:
3 Cf. Brasil Direitos Humanos, 2008: A realidade do país
aos 60 anos da Declaração Universal. - Brasília: SEDH,
Autêntica Editora, 2009.
c. 2008. 285p.: il. color.
5 Para um reposicionamento deste imaginário, conferir:
4 Tomamos de empréstimo aqui a terminologia de M.
SIMÕES, Júlio Assis. "Corpo e sexualidade nas
Foucault com respeito à compreensão de "arquivo"
experiências de envelhecimento de homens gays em
que não está sendo utilizado, porém, em um sentido
São Paulo" In: A Terceira Idade - Estudos sobre
comum, da linguagem corrente; pois, não se trata nem
Envelhecimento - Revista Eletrônica - Serviço Social do
de documentos guardados como memória ou
Comércio (SESC). São Paulo: Edubase (Faculdade de
testemunho do passado e nem, tampouco, significa
Educação/UNICAMP), Edição n. 50, v. 22, Jul. 2011, pp.
qualquer instituição ou prática responsável pela
07-19.
36
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 34-43, 2012.

Entretecendo diálogo entre homossexualidade e velhice_
práticas, saberes e valores de caráter
Deste modo, o envelhecimento gay não
pedagógico e moral, instituindo um tipo altivo
será analisado como um simples fato. É
e definidamente jovem. Ademais, deve-se
preciso avançar e, de uma vez por todas,
compreender o envelhecimento e a velhice
operar uma genealogia da sentença - a
como um processo sócio-político, marcado
condição de velho e gay - para que se
pelos discursos que visam essencializar e
consiga, então, descrever esta ontologia em
naturalizar comportamentos acerca do papel
sua manifestação presente. É assim, por
e do lugar do "idoso" na cultura brasileira e
exemplo, que Mota (2009) propõe que se
ocidental, atribuindo-lhe, pois, os apanágios
estabeleçam "recortes" no tempo, para a
da "ternura" e da "bondade", fundados nas
investigação da temática, destacando, pois, a
representações de "velho" como um tipo
luta pela defesa da identidade e dos direitos
universal e generalizante, "(...) determinado
políticos e civis da população LGBT (Lésbicas,
pela idade ou pela identidade social de
Gays, Bissexuais, Travestis e Trangêneros).
aposentado circunscrito à moral
heterossexual."
(MOTA. 2009:28) Finalmente,
2. As ¡¡minoridades do debate entre
é preciso considerar a sexualidade, não como
homossexualidade e envelhecimento
organização biológica do corpo e, tampouco,
como comportamento sexual pura e
Existiriam três questões importantes
simplesmente.
que devem ser apreciadas, relativamente às
Entendemos sexualidade como um "(...)
categorias envelhecimento e
prolongamento de uma analítica do poder".
homossexualidade, quais sejam: 1) a noção
(REVEL. 2011:136)6 Isto quer dizer que a
sociológica de geração, que "(...) se opõe à
sexualidade é questão política, de
noção de um tempo linear, padronizado e
subjetivação e controle dos indivíduos em
fixado em etapas, tornando-se um campo
suas relações cotidianas, mediante aplicação
para amplas possibilidades de experiências"
de noções e prescrições de uma "medicina
(p. 34), uma vez que a participação em
social" que define o "normal", o "saudável" e
momentos determinados da vida social
o "aceitável". Neste sentido, portanto, a
estabelece um conjunto de práticas
sexualidade torna-se vetor de investigação,
relevantes e comuns; 2) a própria noção de
uma vez que os "jogos de verdade" e o poder
experiência como algo vivido, como
se articulam de tal modo que a nossa "(...)
subjetividade construída "(...) a partir de
civilização [exige] dos homens dizer a verdade
ações sociais heterogêneas, com intensa
a respeito de sua sexualidade para poder dizer
diversidade, pluralidade de estilos de vida e
a verdade sobre si mesmos." (Idem) De
comportamentos implicados na ação do
acordo com Mota (2009), porém, o estudo
indivíduo" (p. 35), de modo que se pode
acerca do envelhecimento de homossexuais
acertar que cada agente social é capaz de
masculinos não pode desconsiderar as
interpretar e explicar sua interação com o
mudanças e as variações de sentimentos e
mundo, visto que participa de um domínio
significados acerca da questão da
público e racional compartilhado, que, a partir
homossexualidade de um certo número de
da linguagem, enseja uma auto representação
indivíduos que vivenciaram transformações
histórica subjetiva, mas que só tem sentido
históricas no estilo de vida das experiências
quando comunicada; e, por fim, 3) o
gays.
pensamento de Foucault que é paradigmático
no que concerne à percepção da sexualidade
como algo que extrapola as "ciências
biomédicas", pois, enquanto tema "(...) não é
Cf. verbete "Sexualidade" In: REVEL, Judith. Dicionário
dispensado so mente a médicos e sexólogos,
Foucault/Judith Revel; tradução de Anderson
mas absorvido por todo um aparato de
Alexandre da Silva; revisão técnica Michel Jean Maurice
Vincent. - Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.
produção de conhecimento. Daí surge um
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 34-43, 2012.
37

_Entretecendo diálogo entre homossexualidade e velhice
critério de valorização do orgasmo, do gozo
(IBGE), baseada nos dados da Pesquisa
não como arte erótica, mas como ciência." (p.
Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)
38)
realizada em 2007, enquanto a população
Para Edgardo Castro (2009)7,
brasileira cresceu 21,6%, entre os anos 1997 e
importante comentador de Foucault, o
de 2007, os idosos aumentaram 47,8%. Em
desenvolvimento histórico da sexualidade nas
termos absolutos, o número de idosos hoje
chamadas sociedades modernas ocidentais,
no Brasil é de 19,5 milhões, o que representa,
em especial, "(...) a partir dos séculos XVII e
percentualmente, cerca de 32,1% da
XVIII, não é a história de uma repressão
população do continente.8 O decréscimo da
contínua, mas, antes, da incitação constante e
fecundidade, provocado pela maior
crescente a falar do sexo, a verter nossa
participação da mulher no mercado de
sexualidade no discurso." (p. 398) Todavia,
trabalho e pela difusão de métodos
para descortinar essa história é necessário
anticoncepcionais, e, ainda, o aumento da
realizar uma "analítica do poder", cuja
esperança de vida tem contribuído para o
finalidade seria desprender-se das categorias
envelhecimento no país. Entretanto, como
jurídico-discursivas que supõem a continência
subscrever estas informações e, assim, refletir
do desejo pela lei. Castro (2009), então,
o modo de vida e as práticas de si de
destaca cinco princípios comuns que se
homossexuais masculinos? Ora, apenas uma
achariam na raiz desta "castidade": 1) a
etnografia das experiências subjetivas,
negação do sexo pelo poder; 2) a prescrição
histórica e antropologicamente
da licitude ou da ilicitude, segundo o regime
contextualizadas, pode oferecer uma resposta
binário do permitido e do proibido; 3) a não
a esta questão. De todo modo, é
experimentação do prazer; 4) a afirmação de
imprescindível ressaltar que:
que algo proibido, não pode ser discutido,
negando-se sua existência & 5) a observação
"[o]bter dados exatos sobre o número de
vigilante (controle) sobre o sexo, operada da
homossexuais no Brasil e conhecer suas
dificuldades e aspirações era quase
mesma maneira em todos os níveis. É por
impossível décadas atrás; mesmo hoje,
isso que Mota (2009), por exemplo, reitera
com todos os avanços comportamentais
que se desenvolveu, na modernidade, no "(...)
na sociedade, ainda continua uma tarefa
campo da sexualidade [...] um saber excessivo,
difícil. Não é a toa que em qualquer parte
do mundo, a luta por visibilidade é um
não para a intensificação do prazer sexual" (p.
dos eixos centrais do movimento de
38), mas para a internalização da vida e das
lésbicas, gays, travestis e transexuais" (p.
práticas sexuais na clandestinidade.
103)
Quanto ao envelhecimento de
homossexuais masculinos, o tabu do silêncio
Estes dados e informações tornam-se
parece ser uma norma rompida somente ao
mais escassos, na medida em que se busca
nível do senso comum pelas representações
identificar a realidade concreta de um
pejorativas que cercam a idade e, também, a
segmento específico no conjunto da
sexualidade "em desvio" para manifestar
diversidade LGBT. Porém, o texto de Júlio
preconceitos estereotipados através de
Assis Simões (2011)9 observa que, nas
chistes e piadas. Todavia, de acordo com a
síntese dos indicadores sociais de 2008 do
Cf. Brasil Direitos Humanos, 2008: A realidade do país
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
aos 60 anos da Declaração Universal. - Brasília: SEDH,
c. 2008. 285p.: il. color.
7 Cf. verbete "Sexualidade" In: EDGARDO, Castro.
9 O texto de Simões (2011) é paradigmático e levanta,
Vocabulário de Foucault - um percurso pelos seus
mesmo que de modo pontual, algumas das principais
temas, conceitos e autores / Edgardo Castro; tradução
ideias que procuro desenvolver aqui, tais como a de
Ingrid Müller Xavier; revisão técnica Alfredo Veiga-Neto
"envelhecimento ativo" e, também, a de "homens
e Walter Omar Kohan. - Belo Horizonte: Autêntica
envelhecentes". Cf. SIMÕES, Júlio Assis. "Corpo e
Editora, 2009.
sexualidade nas experiências de envelhecimento de
38
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 34-43, 2012.

Entretecendo diálogo entre homossexualidade e velhice_
grandes metrópoles brasileiras a presença de
contraposta à noção de sexualidade presente
homossexuais masculinos em idade madura
em Foucault, objetivando-se, destarte,
nos espaços de sociabilidade gay ou
compreender as experiências subjetivas do
homoerótica é bastante comum e visível.10
envelhecimento por homens maduros em
Simões (2011) diz que estes homens mais
idade avançada com práticas homoeróticas.
velhos com práticas homossexuais
O estudo de Simões (2011) demonstra
corporificam "(...) um tipo de personagem que
que a visão que os "coroas" tem do
remetem aos "entendidos" dos anos 1970" (p.
envelhecimento é diametralmente oposta
09) e que, portanto, são homens que, no
àquela imagem do homossexual velho,
geral, valorizavam a aparência masculina e
solitário, isolado, deprimido, emocionalmente
procuram desvincular "(...) suas vivências de
perturbado, desde a meia-idade crescente até
homossexualidade das convenções de
seu ocado. Nesta perspectiva, os
afetação, afeminação e papel exclusivamente
entrevistados encarnam uma "(...) velhice
"passivo" no ato sexual." (idem)
não-vitimizada, sexualizada, orgulhosa, com
Os "coroas", "tiozinhos" ou "tiozões"
disposição para a vida pública noturna e,
como são usualmente chamados encarnam
ainda por cima, associada à
"(...) uma série de disposições associadas a
homossexualidade" (p. 09), podendo-se dizer
representações modernas de envelhecimento
que são muito mais envelhecentes do que
ativo." (SIMÕES. 2011:09) É claro que este
propriamente velhos. Essa imagem do
segmento é apenas um estrato de um
envelhecimento é, para o autor, positivada,
conjunto muito maior. Em sua pesquisa
uma vez que tenta destacar os
Simões (2011) entrevistou, profundamente,
enriquecimentos e vantagens provenientes da
"(...) homens homossexuais de camadas
maturidade, reinventando e reconstruindo o
médias em São Paulo, na maioria brancos,
corpo (sexualidade) e a própria velhice. A
com idades variando entre 59 e 70 anos"
reconfiguração das experiências da velhice na
(idem), o que demostra que, no cruzamento
contemporaneidade é atravessada pela:
das categorias envelhecimento e
homossexualidade, marcadores como
"(...) capacidade de conservar o controle
"gênero", "idade", "raça/etnia" e "classe
sobre movimentos e funções corporais,
sobre as emoções e as faculdades
social" apresentam-se indispensáveis. (MOTA.
cognitivas - atributos básicos que
2009:32) Ademais, como já mencionei
permitem que uma pessoa seja
anteriormente, não se deve perder de vista
reconhecida, valorizada, levada em conta
que a tessitura das representações do
em qualquer relação social." (SIMÕES.
2011:10)
masculino/feminino estruturam-se a partir de
uma lógica heterossexista que deve ser
Simões (2011) afirma que o encontro da
gerontologia com a sexologia vem
homens gays em São Paulo" In: A Terceira Idade -
possibilitando a desconstrução do "mito da
Estudos sobre Envelhecimento - Revista Eletrônica -
velhice assexuada", entendida como um
Serviço Social do Comércio (SESC). São Paulo: Edubase
constructo sócio-cultural, porquanto "(...) o
(Faculdade de Educação/UNICAMP), Edição n. 50, v. 22,
Jul. 2011, pp. 07-19.
declínio da atividade sexual, relacionado à
10 De acordo com Simões (2011): "[n]a cidade de São
idade, tende a ser cada vez menos tolerado,
Paulo, um ponto especial de concentração de homens
sendo visto como uma alteração do bem-estar
mais velhos está no Centro, na avenida Vieira de
corporal passível de tratamento médico" (p.
Carvalho, no quarteirão entre a Praça da República e a
10), permitindo, assim, o "manejo do
Rua Aurora, especialmente na calçada do lado
esquerdo de quem segue na direção ao Largo do
envelhecimento". Nos depoimentos
Arouche. Os mais velhos também estão em algumas
apresentados pelo autor, é possível salientar
boates da região, notadamente "ABC Bailão", que já
tanto um reposicionamento da imagem que
teve os antigos apelidos de "desmanche", "festa baile"
incide sobre a velhice, quanto uma recusa em
e "INPS"." (p. 08)
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 34-43, 2012.
39

_Entretecendo diálogo entre homossexualidade e velhice
abandonar das práticas sexuais e,
mentalidade heterossexista de nossa
consequentemente, a experimentação do
sociedade que estabelece, a partir do
gozo e do prazer. No entanto, as
"dispositivo da sexualidade"11 performances
preocupações mais gerais não são nem tanto
de gênero, calcadas nos binarismos
com a busca de parceiros, mas sim com os
(homem/mulher) que, por sua vez,
"cuidados de si", relativamente ao corpo e à
essencializam identidades sociais, implicando
saúde:
em "violência simbólica"12, própria do
universo sócio-político machista, que
"[a]s referências ao corpo, e às mudanças
desconsidera, ou melhor, descaracteriza a
do corpo, são muito marcantes nas
homossexualidade em sua potência estética
entrevistas. Estamos diante de um
ou estilística como expressão de uma
conjunto de pessoas que demonstra um
grande senso de observação do próprio
existência não-codificada, contra uma vida
corpo e do impacto que o corpo tem na
unitária/totalitária e fascista13. Aliás, é
sociabilidade e nos encontros sociais em
justamente desta maneira que
diversos planos. Os sinais de
compreendemos as experiências de ser-estar
envelhecimento corporal são
gay, que descrevem as "subjetividades
meticulosamente investigados,
reconhecidos e elaborados. Todos se
performáticas"14 homossexuais. E é
assumem como vaidosos, ainda que com
precisamente isto que norteia, enquanto
modulações e matizes. Rugas, queda de
problema gerador, a questão "o que é ser um
cabelos, bolsas nos olhos, flacidez nos
homossexual em processo de
membros, gordura, barriga, nádegas
envelhecimento?".
murchas, dificuldades de manter ereção
são todos motivos de lamento,
preocupação, alguma depressão, mas não
3. Para nao se esgotar esta questao...
conformismo. (...) O cuidado e a atenção
com que vigiam e verificam seus corpos é,
Em Reservados e Invisíveis - o ethos
em parte, correlato ao recurso regular
que fazem dos especialistas médicos.
íntimo das parcerias homoeróticas, Paiva
Consultam médicos regularmente e
(2007) mostra que, a despeito da luta do
adotam, de modo geral, as prescrições
movimento LGBT em prol de visibilidade,
destes com vistas a lidar com a saúde.
direitos e respeito - assim como de todas as
Adoção de dietas, com diminuição ou
conquistas políticas decorrentes disso -, a
eliminação do consumo de café, cigarro,
álcool, refrigerantes, gorduras, carne
questão da homossexualidade permanece,
vermelha foram frequentemente
mencionadas nas entrevistas. Mas os
entrevistados não revelam a mesma
Cf. Verbete "Sexualidade" In: EDGARDO, Castro.
disposição para aderir à prática de
Vocabulário de Foucault - um percurso pelos seus
atividades físicas. Todos mencionam
temas, conceitos e autores / Edgardo Castro; tradução
recomendações médicas nesse sentido,
Ingrid Müller Xavier; revisão técnica Alfredo Veiga-Neto
mas só aderem efetivamente à ginástica
e Walter Omar Kohan. - Belo Horizonte: Autêntica
aqueles que foram completamente
Editora, 2009.
convencidos de que terão
12 Cf. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa:
Difel; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
comprometimentos físicos sérios se não o
13 Cf. PAIVA, Antonio Crístian Saraiva. "Amizades e
fizerem. Todos dizem ter preguiça para ir
modos de vida gay: por uma vida não fascista" In:
á academia, ou mesmo para recorrer a
JÚNIOR, Durval Muniz de Albuquerque; VEIGA-NETO,
aparelhos de ginástica de que podem
Alfredo; FILHO, Alípio de Souza (orgs.). Cartografias de
eventualmente dispor em suas moradias
Foucault. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2 ed.,
ou condomínios." (SIMÕES. 2011:14 -15)
2011. pp. 41-51.
14 Cf. OLIVEIRA, Antônio Eduardo de. "Cartografias
Neste sentido, reitero que a
homoafetivas na espacialidade da urbe: percursos na
compreensão do tema do envelhecimento de
obra de Caio Fernando Abreu" In: JÚNIOR, Durval
Muniz de Albuquerque; VEIGA-NETO, Alfredo; FILHO,
homossexuais masculinos em idade madura
Alípio de Souza (orgs.). Cartografias de Foucault. Belo
adiantada possa ser contrastada à
Horizonte: Autêntica Editora, 2 ed., 2011. pp. 53-67.
40
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 34-43, 2012.

Entretecendo diálogo entre homossexualidade e velhice_
ainda, uma "violência arquival" instituída pelo
único e singular. (PAIVA. 2007:21-47) Em vez
saber-poder dominante. O "tipo"
de uma pesquisa inquisidora que assome
homossexual permanece um rótulo, uma
objetalmente os atores/agentes sociais - à
marca, ou melhor, um estigma que cruza
moda de um juiz ou de algum outro técnico-
vidas, atravessa existências, classificando os
operador de normas (médicos, psicólogos,
same-sex lovers, isto é, os amantes do mesmo
psiquiatras, cientistas sociais, antropólogos,
sexo em esquemas complexos próprios da
etc.) - para "desvelar a realidade" e, com isso,
scientia sexualis que é, portanto, "(...) o
"legislar acerca da verdade", supostamente
conjunto de discursos, práticas, instituições e
oculta nos enunciados declarativos, deve-se,
agenciamentos disciplinares das
antes, mergulhar, intensivamente, no
individualidades em torno da 'sexualidade'"
cotidiano dos interlocutores, e deixar-se
(PAIVA. 2007: 27), localizando em seu
tomar pela multidimensionalidade dos
interior, também ou principalmente, os
encontros que se dão a partir de chegadas,
destinos das vivências/experiências
reconhecimentos, escolhas, numa economia
homoeróticas.
pulsional de afetos que conversam, dialogam,
De acordo com Paiva (2007), na medida
trocam segredos, confidências. (PAIVA.
em que a scientia sexualis impõem interditos
2007:21-47)
e silenciamentos, procurando disciplinar, ou
Portanto, as margens de visibilidade/luz
seja, regular (conter/controlar), normalizar,
(ver) e de dizibilidade/escrever encontram-se
em uma palavra, agenciar a sexualidade; ela
mediadas por uma "topologia da intimidade"
também procura arrancar declarações,
que consubstancia significativamente a
confissões, obrigando a pessoa do
micropolítica estética das vidas de sujeitos
homossexual, por exemplo, a tornar pública a
que, por exemplo, não se apresentam de
cena íntima de sua vida erótica. O movimento
acordo com as normativas reguladoras da
aparentemente contraditório instaurado pelo
conduta e que, por isso, inscrevem-se no rol
"sexo rei", para usar uma expressão de
dos desviantes ou, mesmo, dos anormais.
Michel Foucault, encontra motivos na "lógica
(FOUCAULT. 2001:211-254) Assim,
do assujeitamento", característica do mundo
reconstruindo os argumentos de Antonio
moderno que enquadra a vida a partir de
Crístian Saraiva Paiva (2007), observa-se que a
binarismos que prescrevem identidades
intimidade do modo de vida e das práticas e
sexuais (homem/mulher), à margem das quais
cuidados de si que serão tangenciados neste
os indivíduos gays teceriam biografias de
"contra-arquivo" acerca de homens gays em
"homens infames". Paiva (2007), então,
processo de envelhecimento na cidade de
pergunta-se: "(...) quem pode falar sobre a
Soure deve possibilitar uma escuta-olhar que
homossexualidade, sobre o devir-
resguarde as ambiguidades e tensões da
homossexual? Quem teria os títulos de
existência em sua "política do silencio" e
"distinção" para fazer-se valer como voz
"gestão do segredo" (p. 72),
autorizada?” (p. 39)
desterritorializando a pretensão científico-
Paiva (2007) orienta que, diante dos
epistemológica de tudo dizer, tudo revelar.
arquivos discursivos do "olhar especializado"
Pressupondo-se, então, uma
que subscreve o homossexual como uma
antropologia do envelhecimento, intentamos
"identidade murada", é preciso considerar
que as experiências subjetivas de
uma "ascese gay", isto é, um
homossexuais masculinos em idade
corolário/programa que demanda,
declaradamente adiantada podem indicar a
recursivamente, um modo de ser, uma
maneira como velhos gays se percebem
maneira de viver, uma estilística da existência,
enquanto velhos propriamente; acreditamos,
indicativa de uma pragmática de si, a qual só
pois, que os relatos de indivíduos que se
se observa na concretude poética do dia-a-
encontram neste momento de suas
dia, em seu acontecimento micropolítico,
trajetórias ôntico-existenciais não poderão ser
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 34-43, 2012.
41

_Entretecendo diálogo entre homossexualidade e velhice
desconectados daquele trânsito, daquela
experiência e da ação). Por isso, sustentamos
troca, ou melhor, daquele comércio
que a proposta de uma antropologia do
(simbólico/material) que recorta as
envelhecimento não se possa realizar sem
dimensões pública e privada da vida e que
uma etnografia do envelhecer, que, na
denotam estratégias de
economia argumentativa deste texto,
sobrevivência/resistência na micrologia da
adquirem um valor heurístico correlato, na
intimidade, consubstanciando, tanto uma
medida em que considera uma determinada
homossocialidade, quanto uma série de
coorte geracional em sua trajetória de
técnicas (corporais) de prazer e cuidado de si.
experiências e vida.
Paiva (2007) mostra que o tema da intimidade
é substantivo neste aspecto e, destacando a
perspectiva sócio-analítica de Anthony
Referências
Giddens, ilustra que:
BOURDIEU, Pierre. (1989).O poder simbólico.
"[a] alteração de alguns mecanismos sociais
Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
fundamentais engendrada pelo desenvolvimento do
modelo societal da modernidade (culminada no que
Brasil Direitos Humanos (2008). A realidade
[Giddens] chama de alta modernidade, ou como
preferem outros, pós-modernidade)", [está localizada
do país aos 60 anos da Declaração Universal.
na] origem das transformações da natureza do eu e da
- Brasília: SEDH, 285p.
intimidade: os mecanismos de desencaixe dos sistemas
sociais (1991:25) a partir da separação tempo-espaço
CASSIRER, Ernest. (2001). Indivíduo e Cosmos
radicalizados em termos de ritmo e escopo de
mudança (Idem: 15), de formas que passamos a viver
na Filosofia do Renascimento; tradução do
num mundo em que as relações (intersubjetivas e
alemão: João Azenha Jr.; tradução do grego e
outras) se dão independentemente dos mecanismos e
do latim: Mário Eduardo Viaro. - São Paulo:
das tradições locais. Passa-se, no que se refere aos
Martins Fontes,- (Coleção Tópicos).
relacionamentos sociais, dos compromissos com rosto
(facework commitments) aos compromissos sem rosto
(faceless commitments), ou seja, passa-se da confiança
DURKHEIM, Émile. (1993) "O que é fato
em pessoas à confiança em sistemas abstratos (Idem:
social?" e "A sociedade como fonte do
84, 91), o que evidentemente vai alterar as matrizes
pensamento lógico" In: DURKHEIM (Coleção
nutridoras daquilo que Giddens chama "segurança
Grandes Cientistas Sociais). São Paulo, Ática,.
ontológica" (Idem: 95) dos indivíduos e das
coletividades. Seriam aqueles sistemas abstratos
Pp. 46-52 e 166-182.
(ciências, mídias, tecnologias, etc.) que passariam a
alimentar aquela segurança na medida em que passam
EDGARDO, Castro (2009). Vocabulário de
a merecer a confiança ativa dos indivíduos e das
Foucault - um percurso pelos seus temas,
coletividades." (pp. 57-58)
conceitos e autores / Edgardo Castro;
tradução Ingrid Müller Xavier; revisão técnica
O comentário de Paiva (2007),
Alfredo Veiga-Neto e Walter Omar Kohan. -
demostra, a partir de Giddens, a
Belo Horizonte: Autêntica Editora.
"transformação da intimidade", mediante a
"desterritorialização da sociedade moderna
FOUCAULT, Michel. (1984). Conferência
global", inaugurando, assim, um "projeto
proferida por Michel Foucault no Cercle
reflexivo de eu" que seria, portanto, muito
d'Études Archietecturales, em 14 de março de
mais aberto, crítico, com muitas "(...)
1967, traduzida por Pedro Moura (publicada
possibilidades de transformação da vida
igualmente em Architecture Moviment,
interpessoal e mesmo dos contextos mais
Continuité, n. 5).
amplos" (p. 58). Deste ponto de vista, os
dilemas particulares, as questões de foro
(2000) "A vida dos
íntimo, não escapariam a uma tendência
homens infames" In: FOUCAULT, Michel. O
generalizadora de "auto-reflexão" (da
que é um autor? Passagens. pp. 89-128.
42
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 34-43, 2012.

Entretecendo diálogo entre homossexualidade e velhice_
Sobre os autores:
MOTA, Murilo Peixoto. (2009).
"Homossexualidade e Envelhecimento:
Wladirson Cardoso:: Doutorando em
algumas reflexões no campo da experiência"
Antropologia pelo Programa de Pós-
In: SINAIS - Revista Eletrônica - Ciências
Graduação em Antropologia da Universidade
Sociais. Vitória: CCHN, UFES, Edição n.06, v.1,
Federal do Pará, Mestre em Direitos Humanos
Dez. pp. 26-51.
e Inclusão Social (PPGD/UFPA) e
Bacharel/Licenciado em Filosofia (IFCH/UFPA).
PAIVA, Antonio Crístian Saraiva (2007).
Reservados e Invisíveis - o ethos íntima das
Ernani Pinheiro Chaveshaves: PHD em
parcerias homoeróticas - Fortaleza: Programa
Filosofia, também, Professor Permanente do
de Pós-Graduação em Sociologia da
Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Universidade Federal do Ceará; Campinas:
e Colaborador no Programa de Pós-
Pontes Editores.
Graduação em Psicologia, ambos na
Universidade Federal do Pará (UFPA).
_
_
. (2011) "Amizades e
modos de vida gay: por uma vida não fascista"
In: JÚNIOR, Durval Muniz de Albuquerque;
Recebidoem: 05/02/2012
VEIGA-NETO, Alfredo; FILHO, Alípio de Souza
Aceito para publicação: 27/08/2012
(orgs.). Cartografias de Foucault. Belo
Horizonte: Autêntica Editora, 2 ed., pp. 41-51.
REVEL, Judith (2011). Dicionário
Foucault/Judith Revel; tradução de Anderson
Alexandre da Silva; revisão técnica Michel
Jean Maurice Vincent. - Rio de Janeiro:
Forense Universitária.
SEDGWICK, Eve Kosofsky. (2007). "A
Epistemologia do Armário" In: Cadernos Pagu.
Tradução de Plinio Dentzien. Campinas,
Núcleo de Estudos de Gênero Pagu.
SIMÕES, Júlio Assis. (2011). "Corpo e
sexualidade nas experiências de
envelhecimento de homens gays em São
Paulo" In: A Terceira Idade - Estudos sobre
Envelhecimento - Revista Eletrônica - Serviço
Social do Comércio (SESC). São Paulo:
Edubase (Faculdade de Educação/UNICAMP),
Edição n. 50, v. 22, Jul., pp. 07-19.
ZAGO. Luiz Felipe. (2010). "Homens, Homens
Gays" In: Retratos do Brasil homossexual:
fronteiras, subjetividades e desejos / Horácio
Costa... [et all] (org.). - São Paulo: Editora da
Universidade do Estado de São Paulo:
Imprensa Oficial, pp. 381-390.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 34-43, 2012.
43

DIGRESSÕES HOMOSSEXUAIS
NOTAS ANTROPOLÓGICAS SOBRE COMING OUT, ETHOS LGBT E BAJUBÁ EM
BELÉM-PA
HOMOSEXUAL DIGRESSIONS
ANTHROPOLOGICAL NOTES ON COMING OUT, ETHOS LGBT, AND BAJUBÁ IN
BELÉM-PA
Mílton Ribeiro da Silva Filho
Universidade Federal do Pará
Carmem Izabel Rodrigues
Universidade Federal do Pará
Resumo
Neste trabalho fiz considerações acerca da construção de identidade LGBT,
do uso e apropriação do bajubá, da "política do armário" e da fechação
como forma de construção do ethos homossexual. Utilizei a etnografia com
o objetivo de construir uma análise centrada na dinâmica dos indivíduos
com um aspecto da linguagem, neste caso, com o bajubá. Escolhi realizar
entrevistas não estruturadas e observação participante com o objetivo de
estabelecer uma conexão entre as referências simbólicas e a realidade
prática do indivíduo homossexual, analisando o "armário" a partir da
experiência vivenciada em Belém. Verifiquei que a utilização do bajubá
compõe parte do coming out e que serve de elemento agregador nos
momentos de sociabilidade.
Palavras-chave:-chave: homossexualidade; coming out; bajubá.
Abstract
In this work I have made considerations about the construction of LGBT
identity, use and appropriation of bajubá, the "politics of the closet" and
fechação as a way of building the homosexual ethos. I have used
ethnography in order to build an analysis focused on the dynamics of
individuals with an aspect of language, in this case, with the bajubá. I have
chosen to work with non-structured interviews and participant observation
in order to establish a connection between symbolic references and the
practical reality of the homosexual person, looking at the "closet" from their
experience in Belém. I have found the use of bajubá composes part of the
coming out and it serves as an aggregator in moments of sociability.
Keywords: homosexuality; coming out; bajubá.
Resumen
Este trabajo hice consideraciones sobre la construcción de la identidad
LGBT, uso y propiedad de Bajuba, la "política del armario" y fechação como
una manera de construir el ethos homosexual. Puedo usar etnografía con el
44 Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.

Digressões homossexuais_
fin de construir un análisis dinámico centrada en personas con un aspecto
de la lengua, en este caso, con Bajuba. Decidí realizar entrevistas no
estructuradas y observación participante con el fin de establecer una
conexión entre las referencias simbólicas y la realidad práctica de la
homosexualidad individual, analizando el "armario" de la experiencia vivida
en Belén comprobado que el uso de Bajuba compone parte de la salida que
viene y que sirve como los momentos agregador de sociabilidad.
Palabras clave: homosexualidad, saliendo; bajuba.
Introdução
na construção analítica de um dos principais
paradigmas da teoria construtivista da
Este trabalho teve como base uma
(homo)sexualidade no Brasil: os modelos
incursão etnográfica, realizada nos anos de
hierárquico e igualitário. Nesta chave de
2007 e 2009, na cidade de Belém, a partir das
análise, as relações entre os homens no norte
técnicas de observação direta e participante e
do país seguiriam uma linha em que as
da realização de seis entrevistas no estilo
relações de gênero atravessariam a relação
história de vida, com o objetivo de:
sexual e/ou identidade sócio-sexual dos
compreender as rotinas e atividades
participantes de uma relação homossexual
cotidianas dos interlocutores, as
dependendo da posição adotada no ato
representações acerca da homossexualidade:
sexual, ou seja, "homens de verdade"
absorver e entender um léxico particular, o
poderiam "comer" as "bichas" sem que sua
bajubá, que faz parte de um processo de
masculinidade fosse posta a prova, isto
sociabilidade e de formação de identidades
demonstraria a influência das convenções
lésbicas, gays, bissexuais, travestis e
sociais de gênero na construção da identidade
transexuais (LGBT), que ajuda nas
homossexual nesta parte do Brasil. De
performances pela cidade, esta o locus
maneira diferente, mais ao sul do país, os
privilegiado para a disseminação desta gíria
homossexuais tenderiam a se comportar, por
urbana, entendendo-a como forma ritualística
estarem em contato com um ideal moderno e
de aceitação aos grupos/pares de iguais.
individualista, de maneira mais igualitária, não
Os estudos sobre sexualidade na
importando mais a posição que assumiriam
Amazônia, nas últimas duas décadas, revelam
no ato sexual, mas o sexo do parceiro, ou a
avanços pontuais para os entendimentos e
identidade sócio-sexual, ou a identidade de
construções de saberes sobre as
gênero do mesmo.
sexualidades, principalmente sexualidade que
Depois de um hiato de quinze anos,
escapam à heterossexualidade e/ou
desde a pesquisa de Fry, no final da década
identidade de gênero que se performatizam
de 1980, é realizada uma etnografia pela
fora do binário masculino e feminino, como
antropóloga Telma Amaral Gonçalves (1989),
os trabalhos sobre travestilidade e
estudante do curso de Ciências Sociais à
transexualidade. Porém, numa comparação
época, acerca das representações, do
com a produção do eixo sul-sudeste, as
preconceito e discriminação contra
produções da região Norte encontram-se
homossexuais na capital paraense; sendo
localizadas na Universidade Federal do Pará.
escrita numa época em que os homossexuais
Na década de 1970, a cidade de Belém
ainda sofriam com o atrelamento à chamada
serviu de campo para o antropólogo inglês
"peste gay" (AIDS), que estigmatizava e
Peter Fry (1982) enxergasse as relações entre
marcava as pessoas que mantivesse relações
os cultos afro-brasileiros e a
afetivo-sexuais com outras do mesmo sexo.
homossexualidade masculina; estas ajudaram
Este trabalho é, sem dúvida, um libelo da
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.
45

_Digressões homossexuais
representação da homossexualidade em
publicidade de suas orientações sexuais, com
Belém.
o objetivo de entender como esses sujeitos
Este trabalho continua seguindo as
desviam-se das convenções de gênero,
atuais discussões sobre homossexualidade, no
buscando na linguagem o diferencial que
qual os dois trabalhos anteriores podem ser
faltava na busca pelo rompimento do ethos
inseridos, portanto, optei neste texto por
convencional. E, na parte final, proponho uma
abordar o tema a partir da construção de
breve reflexão sobre as identidades
identidades, ou de processos de subjetivação
homossexuais em Belém, as formas como elas
ou construção de si (numa perspectiva
acabam sendo incorporadas pela sociedade.
foucaultiana), da "política do armário" como
Isto posto, no quadro abaixo,
forma de agenciar essa "sexualidade
demonstro o perfil do grupo pesquisado,
dissidente" e da observação da linguagem,
composto por seis homens, com idade entre
neste caso, do uso de bajubá, como forma de
16 e 26 anos, moradores da área
positivar e driblar a heteronorma.
metropolitana de Belém, em bairros da
Primeiramente, faço algumas
periferia. No que diz respeito à pertença de
considerações sobre as perfomances e
cor/raça, todos se auto-atribuíram a cor
relações de gênero e a homossexualidade em
branca. No que refere o nível de escolaridade,
Belém, mantendo o foco na construção
somente um concluiu o ensino superior
destes marcadores nos sujeitos pesquisados a
completo, um o está cursando, três possuem
partir da apropriação do bajubá (este
o ensino médio completo e um ainda o cursa.
aparecendo como apoio desse constructo
Quanto as formas como descreveram sua
identitário), ou seja, explicando de que
orientação sexual, eles assim se consideram:
maneira o uso intensivo de uma linguagem
"homossexual" e "gay"; mas que em outros
acaba influenciando no processo de
momentos, também, acabavam se
identificação do sujeito individual e sua
considerando "bichas". A "juventude" era o
relação com a comunidade LGBT. Segundo,
estágio pelo qual estão passando, de acordo
privilegiei a discussão acerca da política do
com as entrevista, mas que não serão
armário, as formas que estes sujeitos
consideradas neste trabalho.
encontraram para estabelecer formas de
Quadro 1
Sujeitos da pesquisa
orientação
cor/raça
bairro de
nome1
idade
sexual
escolaridade
(auto-
Belém onde
(auto-atribuída)
atribuída)
mora
XYl
16 anos
gay
ens. médio incompleto
branco
Maguary
XY2
21 anos
gay
ens. médio completo
branco
Guamá
XY3
22 anos
homossexual
ens. médio completo
branco
Marco
XY4
22 anos
gay
ens. médio completo
branco
Marambaia
ensino superior
XY5
24 anos
gay
branco
Pedreira
incompleto
XY6
26 anos
homossexual
ensino superior completo
branco
Pedreira
Fonte: Pesquisa de campo, 2009.
Os nomes dos entrevistados foram substituídos pelas letras "XY" acompanhadas de um número na alusão ao
entendimento que Ludovic faz, no filme Ma vie em rose, sobre a definição dos sexos biológicos, quando ele conclui que
Deus foi "esperto" em deixar cair um de seus "X" no lixo e tê-lo feito menino, mas quando for resolvida a confusão (e a
ele ser devolvido o "X" que falta) então ele poderá se casar com Jérôme (cf. MARQUES FILHO e CAMARGO, 2008).
46
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.

Digressões homossexuais_
Algumas notas sobre as relações e
somente as meninas podiam brincar de boneca,
perfomances de gênero e a homossexualidade
de casinha, dessas coisas de mulher. Então
quando tinha que brincar com meus primos,
e m Belémém-émém-PA
vizinhos, amigos e mesmo quando os meninos
iam brincar ele tinha que ser o pai, o filho,
As considerações de Bourdieu1 (2007) já
nunca a mãe, pois não podia, né? (XY1, 16 anos,
apontam para o fato das mulheres, ao longo
18/09/2009).
da história, terem padecido pela dominação
masculina. E o esquema sinóptico
Como notamos, há uma diferença no
bourdiesiano, como possibilidade de análise
tratamento dado as enancas, que são
das relações hierárquicas de gênero, com
divididas entre meninos e meninas, e que faz
base no feminino como "gênero diminuto",
com que se inicie um processo de
de compreensão do modelo universal de
hierarquização nas relações de gênero e
dominação masculina, onde o ethos político-
comece o processo de assimilação da
cultural está assentado no ideal falocêntrico,
performatividade e da performance
ajuda a elucidar o fato de que a construção da
atribuídas a cada gênero, pautadas em
invisibilidade por que passaram as mulheres,
estruturas binárias e excludentes, porém, é
não só no convívio sócio-cultural, mas
importante ressaltar que essas
também no campo científico foi/é uma
inteligibilidades, que pressupõem uma
construção, também.
heterossexualidade, encontram assento na
Um dos meus entrevistados aponta
construção cultural do indivíduo em
para o modelo de educação familiar no qual
sociedade (Butler, 2003).
foi socializado e nos ajuda a refletir sobre o
Meu intento, neste momento, não é
modelo hegemônico de masculinidade (e da
fazer uma longa explanação sobre os
heterossexualidade compulsória), enquanto
conceitos acerca das relações de gênero, mas
extensão/padrão universal na nossa
demonstrar que as práticas discriminatórias
sociedade, que acaba construindo
sobre a homossexualidade estão assentadas
modalidades de experiências para serem
tanto em uma clara distinção entre os
vividas distintamente entre meninos e
gêneros (e a perpetuação da mesma através
meninas e que apareceria como uma das
das práticas e ligações com certa natureza
causas da dominação masculina e que nossa
distintiva entre eles), onde o masculino ocupa
prática cultural acaba ditando como norma,
uma posição superior nesta hierarquia,
regra, conduta oficial (Butler, 2003; Bourdieu,
quanto na impossibilidade de se pensar uma
2007).
relação de amizade entre pessoas do mesmo
As considerações da entrevista, a seguir,
sexo (Foucault, 2008 [1981]).
apontam para um tipo de tratamento
No ano de 1974, quando o antropólogo
diferenciado que é colocado para as crianças,
Peter Fry veio a Belém e conviveu nos meios
onde os meninos devem externar uma
homossexuais da cidade e, após as quatro
virilidade e as meninas são direcionadas ao
semanas e meia de permanência, escreveu
comedimento, à docilidade.
um breve artigo, considerado hoje como um
dos trabalhos pioneiros sobre a
Quando a gente ia brincar pra rua lá em casa
homossexualidade no país, fazendo uma
tinha esse lance de homem não chora, briga na
relação entre a homossexualidade masculina
rua, bate, nunca apanha e se apanha na rua,
e os cultos afro-brasileiros. A partir deste
apanha em casa também. E quando a
momento foram estabelecidas, em nível
brincadeira era dentro de casa, no quintal,
analítico, bases que, ainda, perduram na
compreensão do comportamento
Não levaremos em consideração a crítica feminista
homossexual masculino (Fry, 1982; Fry 1983).
feita a este trabalho de Bourdieu, pelo menos, não por
enquanto.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.
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_Digressões homossexuais
Os tipos dicotômicos descritos por Fry
como a identidade deteriorada, dissidente,
(1982) como bicha e bofe assentam, em si
portanto, não-aceita, pois para este
mesmos, reflexos marcados pelas
entrevistado o querer ser mulher, querer virar
performances e relações hierárquicas de
mulher é algo que estaria fora da condição
gênero, presentes na sociedade brasileira,
homossexual, ilustrando que sua posição na
onde o primeiro acaba por ser ligado ao
hierarquia das relações de gênero e da
feminino, sendo passivo na relação,
sexualidade estaria um pouco abaixo, ou fora,
manifestando trejeitos afeminados e, até
das características que as localizariam como
mesmo, querendo ser mulher, enquanto que
"homossexual".
o segundo continua a se comportar como
"homem de verdade", mantém seu papel
Identidade(s), sociabilidade(s): conflitos e
ativo e rejeita ser classificado como
soluções
homossexual.
Alguns reflexos das considerações feitas
Durante as entrevistas notei certa
acima, ainda, podem ser sentidos, pois
"fluidez identitária" entre os participantes,
quando questionado sobre sua orientação
pois na medida em que algumas
sexual (auto-atribuído) um de meus
considerações acerca de suas orientações
informantes2 deu a seguinte declaração:
sexuais eram escamoteadas ou
negligenciadas, nos acontecimentos
Pode até tá na cara que eu sou gay, mas as
importantes narrados, e quando era por mim
pessoas geralmente gostam de dizer
percebida, tentava fazer com que eles me
homossexual, entendido, elas querem te
dissessem o motivo do "deslize" (de encobrir,
agradar e acaba que é sempre aquela coisa de
que homossexual é o seu filho e gay é o filho do
por exemplo, que era gay) e a partir desses
vizinho, pois a bichinha nunca é aceita, sempre
pontos percebi que as considerações de
são discriminadas. E isso deve ser pelo fato de
Woodward (2007) sobre identidades se
que muitas querem ser mulher, querem virar
mostram pertinentes, pois
mulher (risos) (XY6, 26 anos, 26/09/2009).
A complexidade da vida moderna exige
O indivíduo homossexual aparece, neste
que assumamos diferentes identidades,
caso, hierarquizado dependendo do indivíduo
mas essas diferentes identidades podem
que "acusa", uma vez que no discurso deste
estar em conflito. Podemos viver, em
entrevistado surgiram quatro categorias de
nossas vidas pessoais, tensões entre
nossas diferentes identidades quando
definição da identidade gay, e que estão
aquilo que é exigido por uma identidade
colocadas como pares distintos: o
interfere com as exigências de uma outra
"homossexual" ou "entendido" como a
(p.31)
identidade aceita e o "gay" ou "bichinha"
Neste complexo jogo de identidades,
em que aparece para alguns sujeitos, como os
Por parte dos informantes, nos momentos das
dessa pesquisa, a difícil tarefa de ocultamento
entrevistas, havia certa preocupação com as respostas
de uma identidade estigmatizada pela
dadas, apesar de anteriormente ter-lhes mostrado o
projeto de TCC e dizer que os relatos seriam destinados
sociedade, como a belenense, por exemplo, e
apenas para fins acadêmicos e que suas identidades
que a isso acarretem uma série de tensões
não seriam reveladas, quase sempre tinham receio de
pessoais, familiares, profissionais, etc. que
como seriam utilizados os dados colhidos por mim,
advém do propósito de sombreamento da
talvez seja por isso que parte das considerações sobre
homossexualidade, percebe-se, claramente,
sua sexualidade às vezes pareça opaco, mas essas são
as considerações que fiz a respeito destas questões,
na autora acima, a proposta de afirmação de
sendo passíveis de interpretações outras. E, ao longo
que a "cultura molda a identidade"
do período de convivência, não cansei de expor-lhes
(Woodward, 2007, p. 18).
quais eram os objetivos da pesquisa e a que fins se
destinavam.
48
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.

Digressões homossexuais_
Ainda que, nesta seção, pretenda
simbólicos (Foucault, 1997; Bourdieu, 2001). E
discutir a formação de uma identidade
isso acaba fazendo com que a sexualidade
homossexual em Belém, reitero que meu
seja considerada como parte do processo de
propósito, também, é verificar a "política do
subjetivação, por isso, talvez, ganhe
armário" enquanto elemento na constituição
importância acentuada na sociedade
desta identidade (a partir de permutações,
moderna e seja referência na identificação
negociações, acertos, comedimentos,
dos sujeitos, de acordo com Foucault (1997).
silêncios, ocultações, omissões e etc.), porém
Apesar de não querer pautar, nesta
farei brevemente nas seções seguintes. E
discussão, o caráter essencialista da
parte de uma das entrevistas, transcrita
homossexualidade e, em via disso, de uma
abaixo, ajuda a desenvolver, em parte, meu
identidade homossexual pura, visto que ela
raciocínio:
não existe, pois as "identidades sexuais
também estão mudando, tornando-se mais
Sempre soube que gostava de meninos, mas eu
questionadas e ambíguas, sugerindo
acabei negando pra todo mundo até que me
mudanças e fragmentação que podem ser
apaixonei pela primeira vez, quando eu tinha
descritas em termos de uma crise de
uns 17 anos, por um menino que conheci na
boate [...] fui lá com amigos e lá descobri que eu
identidade" (Woodward, 2007, p. 31), tenho
era gay [...] tinha muita gente, todo mundo se
que fazer referência às proposições de Hall
pegando, beijando pra todo mundo ver [...] e
(2006) sobre o declínio das velhas identidades
depois só namorei com homens (XY5, 24 anos,
e que faz surgir novas identidades,
09/10/2009).
fragmentando o indivíduo moderno, pois essa
"crise de identidade" é um processo amplo de
Neste trecho, percebemos que não
mudanças, que acaba deslocando as
existe diferença conceitual entre as categorias
estruturas e processos centrais da sociedade
"gay", "homossexual" ou outra qualquer para
moderna.
este informante, tendo ele o entendimento
E mesmo que a vida na metrópole
de que manter um relacionamento afetivo-
possibilite um afastamento dos/das
sexual com outro homem é, portanto, o que o
indivíduos/pessoas, como acentua Simmel
caracterizaria como gay. Mas, também, o que
(1979), com a atitude blasé, especificando
visualizo nesta parte é a percepção que ele
que não podemos interagir emocionalmente
faz da sua própria sexualidade a partir do
com todas as pessoas, mas indo além desta
contato com uma rede de amigos, que
caracterização, percebo que a cidade
acabam por levá-lo à boate, e a experiência
proporciona uma espécie de solidariedade,
um tanto essencialista da percepção de sua
muito próxima do tipo proposto por
orientação sexual: que "sempre soube que
Durkheim, como orgânica, em que: propicia
gostava de meninos"; como se aquilo fosse
uma interdependência entre corporalidades,
parte de uma natureza latente; onde a
vivências, atitudes, linguagens, etc.
"descoberta" só se deu mediante a
Hodiernamente, acaba por ocorrer uma
apresentação a um público, comunidade ou
modificação nas formas de sociabilidade, que
população3 gay.
passaram a ser fluidas, divergindo das formas
Contudo, a homossexualidade
tradicionais, que tendiam a ser mais estáveis,
transcende o âmbito das relações afetivo-
sendo aquelas consideradas mais "abertas e
sexuais posto que, de certa forma, acabou se
movediças", pois na modernidade, os sujeitos
transformando em elemento crucial no
acabam desempenhando uma grande
processo de subjetivação, na sociabilidade e
diversidade de experiências, podendo
na constituição de um mercado de bens
pertencer a uma ou mais coletividades,
simultaneamente ou não, isto é, acabam por
vivenciar várias identidades (Simmel, 1983).
Não farei, ainda, as distinções necessárias aos
conceitos de referência.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.
49

_Digressões homossexuais
O pertencimento e/ou a construção da
Embora, em momento anterior4 , tenha
identidade homossexual não estaria no
atentado para o fato de que é no espaço da
conteúdo da relação, na satisfação de
rua em que o bajubá é falado, trago à
interesses, mas na própria relação, ou seja, no
discussão o conceito de "pedaço", descrito
campo da sociabilidade, do estar junto,
por Magnani5 (1998), e que em Pelúcio6
estabelecendo laços, pois tem em si mesmo a
(2007) e Rodrigues7 (2008) aparece como
sua razão de ser, o fortalecimento de uma
suporte às suas etnografias realizadas em
rede homossocial (Guimarães, 2004):
espaço urbano, como o espaço de interseção
entre o público e o privado, uma vez que esta
Os momentos em que estou com meus amigos
linguagem (e sua performatividade), também,
é pra me divertir. Sempre que encontro com
pode remeter a um continuum público-
eles conversamos sobre ocó, roupa, festa,
privado (ou porque não dizer um continuum
música, essas conversas de bichas [...] [mas] nas
boates quase não dá pra conversar porque é
folk-urbano8) quando notei a disseminação do
muita cassação, muitas linhas e porque o som
bajubá, através repercussão das Paradas do
atrapalha um pouco, é muito alto (XY2, 21 anos,
Orgulho em todo país, nas entrevistas de
26/08/2009).
(tele)jornais, na mídia eletrônica, na presença
de personagens gays em novelas, séries de
Portanto, se não existe outro tipo de
TV, programas humorísticos, etc., ou seja,
interesse, além da própria relação, para que
algumas palavras do bajubá fazendo parte do
ela continue existindo é preciso que se
cotidiano do "mundo heterossexual".
estreitem os laços. E Simmel (1983) acredita
Enquanto suporte às identidades LGBT,
que a realidade social só existe porque existe
o bajubá, acaba encontrando possibilidade na
conflito, pois se as tensões estão presentes
difusão que acontece no meio gay ou no uso
em todas as esferas (individual, grupal e
social), bem como entre as esferas, então, a
investigação do processo de construção da
Silva Filho e Palheta (2008).
intersubjetividade no mundo da vida
Magnani (1998, p. 116) define o pedaço como
cotidiana, seja na busca das formas da
"espaço intermediário entre o privado (a casa) e o
público, onde se desenvolve uma sociabilidade básica,
interação na sociedade, a matéria da sociação
mais ampla que a fundada nos laços familiares, porém
deve ser buscada nas relações entre os
mais densa, significativa e estável que as relações
sujeitos.
formais e indivudualistas impostas pela sociedade".
6 Pelúcio (2007) esclarece da seguinte forma a
... e pitadas de bajubá
apropriação do termo: "Em A casa e a rua, DaMatta
estabelece uma triangulação espacial, simbólica e
moral entre casa/rua/outro mundo, propondo que
Durante a pesquisa, percebi que o
estas categorias espaciais estão moralmente opostas.
bajubá é parte de um processo criativo, tão
Ainda que não sejam estanques só se definem em
somente incorpore uma série de palavras de
oposição umas às outras, ocorrendo o englobamento
línguas alienígenas, como as provenientes do
de um pela outra, mas não o patente trânsito que
proponho. Magnani procurou quebrar essa visão
Iorubá-Nagô, do francês, do inglês, quão
dicotomizada de "casa" e "rua" através da idéia de
esteja atrelado ao uso performático que a
"pedaço" (Nota de rodapé 92, p. 77).
linguagem acaba acarretando, ou seja, faz
7 Rodrigues (2008, p. 235) diz que são "espaços
parte de um constructo da identidade
conhecidos e nominados em um território claramente
homossexual, como observei, pois ele
demarcado e apropriado pelos usuários, lugares de
passagem e de encontro entre vizinhos, conhecidos ou
também aparece como instrumento da
chegados".
sociabilidade, conectando pólos distintos, ou
8 Quando nos referimos à categoria de Redfield (1949)
seja, relacionando duas categorias que não se
para referendar que o bajubá nasce de palavras de
excluem, mas que por vezes aparecem como,
línguas e/ou dialetos tradicionais, como o Iorubá-Nagô,
essencialmente, dicotômicas: a casa e a rua
o francês, o inglês, e que são (justa)postas em outro
contexto, tendo como novo nascedouro o meio
(Pelúcio, 2007; Silva Filho e Palheta; 2008).
urbano.
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Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.

Digressões homossexuais_
do "pedaço" gay: onde o código, que deveria
transposição do caráter litúrgico e ritualístico
ser restrito somente àqueles que vivenciam a
para uma configuração mais "profana": o uso
homossexualidade ou àquele que está
da língua-de-santo no seio da comunidade
inserido no "gueto" gay, como as mulheres
gay.
heterossexuais, por exemplo, é o grande
Mas a glossolalia14 que é o bajubá, no
responsável pela sociabilidade, pelos
qual a entrevista acima deixa claro, quando
encontros com amigos, pela pegação (que
aparecem palavras que antes faziam parte de
neste caso acontecerá, por vezes,
outro repertório, como é o caso da palavra
preferencialmente, com quem não fala o
"bafon" (do francês bas-fond), com
bajubá9).
significação diferente da percebida no bajubá:
E fazer parte de uma comunidade LGBT,
no primeiro caso, significa "baixo", "baixio" e
do "pedaço" homossexual, por exemplo, traz
que, também, está relacionado às classes
conseqüências, seja na luta por manter o
baixas, na França; e no segundo caso, significa
código em sigilo, o mais que puder, seja
" 1 . Lugar do babado; 2. Caso amoroso e/ou
"comprar", "usar" e "difundir" (entre os
sexual; 3. Briga; escândalo; faniquito; piti" (cf.
iguais) as muitas palavras e performances, ou
Aurélia, 2006?), "acontecimento, algo muito
seja, expandir o bajubá, porém, com
importante" (cf. Silva Filho e Palheta, 2008).
ressalvas:
A ( m i c r o ) p o l í t i c a d o a r m á r i o : reflexõespolíticadoarmário:reflexões
Quando minha mãe me viu conversando com
d e si
um amigo lá em casa, depois, numa outra
conversa, disse que não tinha entendido nada
Quando iniciei a série de entrevistas
do que eu tinha falado [...] ela tinha escutado a
gente falar bafon
que comporiam este trabalho já tinha, mais
10, ocó11, neca12, num sei
direito... mas eu disse assim: "não era pra
ou menos, uma idéia do que estaria por vir
entender, porque se fosse [eu] não usava o
quando abordasse o coming out, pois o tema
bajubá [...] e depois, mais tarde, eu tive que
do "armário" é constante nas conversas entre
dizer o que era o bajubá (risos) [...] mas não
disse tudo, algumas coisas eu ensinei errado
pessoas LGBTs, uma vez que em várias
(risos) (XY6, 26 anos, 26/09/2009).
situações há alguém apontando para uma
"evidente" homossexualidade do outro.
E o que antes se encontrava cercado
Então, o "sair do armário" serviu-me como
por uma aura privada e de culto começou a
reflexão acerca da normalidade da conduta
ser utilizado no espaço das ruas, entre as
heterossexual e de acordo com Spargo
travestis (Pelúcio, 2007; Folha On-Line13,
2006), as drag-queens (Souza, 1997),
Declarar-se fora do armário da
sexualidade escondida pode ser uma
portanto, afastando-se da configuração
liberação pessoal, mas implica reconhecer
religiosa "original"; assim sendo, a presença
a centralidade da heterossexualidade,
constante de homossexuais nos terreiros de
assim como reforçar a marginalidade
umbanda em Belém (Fry, 1982), levou a uma
daqueles que ainda estão dentro do
armário. Em suma, é impossível mover-se
inteiramente por fora da
Isso acontece devido o entendimento, por parte da
heterossexualidade (2006, p. 43).
comunidade, de que quem fala o bajubá é bicha, não
homem de verdade.
E, então, encontro em uma de minhas
10 No bajubá significa "Lugar do babado; Caso amoroso
entrevistas a seguinte declaração:
e/ou sexual; Briga; escândalo; faniquito; piti" e também
"Acontecimento; Algo muito importante".
Continuar a agir como homem é muito difícil
No bajubá significa "homem que faz o papel de
para o gay, pois existe muita cobrança, se ele
ativo"; aquele que é "masculino".
12 No bajubá significa "pênis".
13http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u
Encarada aqui um pouco diferente do sentido
60885.shtml; acesso em 20 dez. 2009.
etimológico.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.
51

_Digressões homossexuais
não for assumido [...] tem que namorar uma
portanto, seriam parte de uma rede de apoio
menina, ter filho, mesmo que seja novo [...]
em caso de "alguma coisa dar errada", mas
procurar lugares [bares e boates] em que não vá
que também ajudam a aprender o bajubá,
ninguém conhecido, para poder continuar
viçando... (XY4, 22 anos, 10/08/2009).
protegem de confusões e disseminam as
fofocas, portanto, a rede homossocial serviria
Neste ponto, vemos incerteza na
de apoio à performance "fora do armário".
distinção entre alguns marcadores, como os
Quando fiz referência ao
de gênero e sexualidade, pois Spargo (2006)
comportamento dos familiares, com relação
refere-se a uma saída do armário no que
ao comportamento "diferente" que eles
tange à orientação sexual e XY4, acima, faz
eventualmente poderiam manifestar em casa,
uma ligeira "confusão" entre performance de
como a presença de amigos, a ida às boates, à
gênero, que ligaria a um tipo específico de
parada, que de certa forma os ligariam ao
agir masculino, e a orientação homossexual,
mundo gay, a totalidade respondeu que
que teria conseqüências negativas caso esta
alguém da família tinha conhecimento de seu
pessoa não fosse assumida, como exemplo a
"gosto por homens" (uma prima, irmão ou
perda da credibilidade familiar ou a "ameaça
mãe), pois, de acordo com eles, algumas
de perder certos privilégios que a posição que
características que os identificariam como
ocupam na hierarquia das sexualidades lhes
gays estavam presentes desde a infância e
proporciona" (Saggese, 2006, p. 35).
que em determinado momento a identidade
O que nos faz lembrar das
dissidente necessitava ser revelada, pois
considerações de Fry (1982) e Perlongher
(1987) sobre os tipos descritos como bofe e
Para chegar em "casa", é claro, era
necessário primeiro "sair". Para lésbicas e
michê15, que mesmo mantendo relações
gays, estar "fora" ou "dentro" do armário
homoafetivas mantêm "coerência" com o
tornou-se uma marca crucial de sua
sexo biológico. Além de outra categoria
política sexual. "Sair do armário" sugeria
aparecer como demarcadora na assunção da
emergir do confinamento e da ocultação,
sexualidade, pois o ato de "viçar
realizar um movimento do sigilo para a
16"
afirmação pública (Spargo, 2006, p. 28).
determinaria o sujeito homossexual, haja
vista sua orientação estar voltada para
As reflexões de Spargo (2006) sobre a
pessoas do mesmo sexo e precisar ser
política do armário trazem contribuições
ocultada. É como se, nos dizeres de Foucault
interessantes sobre a maneira como as
(1997), existisse um tipo homossexual, uma
pessoas identificam-se e escolhem construir-
espécie, que necessitasse ser revelada e
se como sujeito político, uma vez que
acusada (e até mesmo estudada) e que
tivesse que sobreviver e ser vivenciada no
A diferença mais óbvia entre "gay" e
anonimato, se não fosse respeitado o coming
"lésbica" e as antigas categorias
out.
existentes era que, ao invés de aceitarem
Em outra entrevista encontro uma
uma posição passiva como um objeto de
motivação para uma "saída ostensiva do
conhecimento, os sujeitos identificados
como gays e lésbicas estavam
armário", pois, de acordo com XY3
ostensivamente escolhendo ou
(19/09/2009), "os amigos são os que mais te
reivindicando uma posição. Ser gay ou
influenciam a frescar, dar close" e que,
lésbica era uma questão de orgulho, não
de patologia; de resistência, não de auto-
Os autores, Fry (1982) e Perlongher (1987) ilustram
ocultação (p. 25-26).
as performances de gênero presentes nestas duas
categorias, indicando que a presença dos traços de
Ainda que Sedgwick (2007) tenha
masculinidades estão presentes para que se faça existir
afirmado ser o problema do armário ou
esses sujeitos.
"regime do segredo aberto" um problema
16 Palavra do bajubá que designa as relações sexuais ou
associado não somente à homossexualidade,
não ocorridas entre pessoas do mesmo sexo.
52
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.

Digressões homossexuais_
expondo que outros marcadores sociais,
O termo descreve um leque diverso de
também, podem criar "armários", este está
práticas e prioridades críticas: leituras de
representação do desejo pelo mesmo
ligado às estruturas de poder-saber vigentes
sexo em textos literários, filmes, música e
em nossa sociedade, que de certa forma
imagens; análise das relações de poder
estariam atadas a um determinador valor,
sociais e políticas da sexualidade; críticas
principalmente moral e religioso, presente na
do sistema sexo-gênero; estudos de
identificação transexual e transgênero, de
sociedade ocidental moderna.
sadomasoquismo e desejos transgressivos
(Spargo, 2006, p. 9).
Um pouco de queer, um pouco de camp
e muita fechação: minhas impressões
O uso da palavra "também", na
entrevista acima, estaria próximo das
Nas entrevistas que realizei, tentava
considerações queer sobre identidade,
interpretar as manifestações, sejam
processo de subjetivação, construção
linguísticas, corporais e performáticas, à luz
identitária, performance, etc. de que estas
das considerações sobre a teoria queer e a
são fluídas, mutantes, processuais, não
estética camp, pois quando perguntava sobre
estanques, não estando inseridas num
a orientação sexual dos entrevistados, quase
processo taxonomista e/ou esquadrinhador
sempre depois das respostas ouvia um tipo de
conformado por normas, principalmente as
referência que não os enquadraria por
determinadas pela heterossexualidade
completo as suas práticas sexuais (ou nas
compulsória, como que as que "delimitam os
convenções ligadas à sexualidade),
padrões a serem seguidos e, ao mesmo
descartando, assim, a restrição de
tempo, [o queer] paradoxalmente, fornece a
relacionamentos afetivo-sexuais somente
pauta para as transgressões" (Louro, 2004, p.
com pessoas do mesmo sexo.
17).
Um dos entrevistados disse-me:
Ainda que, de acordo com Silva (1999,
p. 107), seja necessária uma atitude queer
Já namorei meninas, mulher, enfim... Naquela
para que se radicalize o "livre trânsito entre
época foi mais por conta da pressão da minha
família, dos meus pais, que me pressionavam
as fronteiras da identidade, [e marque] a
pra ter uma namorada, porque o meu irmão já
possibilidade de cruzamento de fronteiras",
tinha tido umas quatro ou cinco e eu [com 19
isto é, a observância da construção identitária
anos] não havia aparecido com nenhuma em
a partir da "hipótese da construção social,
casa [...] Talvez seja por isso que eu, hoje em
[onde] a identidade acaba, afinal, sendo
dia, também me relacione com meninas, mas só
em festas, nada de muito sério. É só beijo
fixada, estabilizada, pela significação, pela
mesmo! (XY5, 24 anos, 09/10/2009).
linguagem, pelo discurso", pois "não existe
identidade sem significação. [E] Não existe
A ênfase mostrada por ele de que
[portanto] significação sem poder" (p. 106).
"também" se relaciona com "meninas"
Olhando os dois conceitos - queer e
mostra que os relacionamentos são
camp - como rompimento com a norma
situacionais, pois ocorrem em momentos de
vigente em relação à sexualidade e à
festas, de "curtição", não sendo levados
identidade de gênero, por exemplo, mesmo
adiante por estarem estabelecendo outro tipo
que o camp apareça para alguns autores
referência, que não o referencial
como uma "forma de exagero
homossexual ao qual eles estariam ligados,
descompromissado, ingênuo, não intencional,
possivelmente. E é esse caráter transgressor
fantástico, apaixonado" (Marques Filho e
da teoria queer, aliado ao estilo e/ou estética
Camargo, 2008, p. 85), acabo por evidenciar
camp, que me parece ser interessante de
seu caráter de "duplo sentido" livre de
abordar, pois
considerações não-políticas, não intencionais,
visto que adotar a estilo camp como parte do
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.
53

_Digressões homossexuais
cotidiano é uma escolha, também, política e
porrada mesmo [...] mas se não sofrer, não é
que, portanto, estaria dentro da atmosfera
viado! (26/09/2009)
transgressiva, da "fuga consciente" proposta
pelos sujeitos queer.
A mamação e o bu, integrantes da
E é nos espaços de sociabilidade (bares,
performance e do fenômeno de acusação, são
boates, saunas GLS, etc.), no famigerado
o reflexo da intolerância pela qual passam os
"gueto gay", que a fechação pode ser
indivíduos homoeróticos: vindo de todos os
vivenciada plenamente, pois, de certa forma,
lados, os insultos, as galhofas, os atos
a rede de amigos, que frequentam estes
discriminatórios se tornam presentes na
espaços com um objetivo comum, permite a
maior parte da vida, seja em casa ou na rua:
extravagância, o close, o "aparecer", a
exposição e publicidade da
O preconceito, no âmbito restrito da
homossexualidade. Mais, até, que outros
família, de acordo com os depoimentos,
pode manifestar pela intolerância
espaços onde a identidade homossexual
declarada e até culminar na expulsão de
encontra-se como parte da poluição e da
casa. Todavia, é mais comum ignorar-se a
sujeira, do não-lugar ou do "des-lugar", do
situação e "fingir que não se sabe de
outsider e aquém do processo civilizador, mas,
nada", ou diante das evidências, aceitá-la.
Esta aceitação, entretanto, exigirá em
é claro, que estas categorias acabam não
contrapartida, que o indivíduo se realize,
existindo como tipos puros, apenas sendo
seja no campo financeiro ou profissional,
conclamadas (ou reclamadas) quando se
como se atestando sua competência e/ou
pretende marcar uma distinção entre a
conformidade aos padrões vigentes em
normalidade e a anormalidade, sendo,
outra área, ele abafasse o seu lado
"negativo" e "desviante". Ademais, foi
também, parte das relações produtivas de
colocado que, mesmo quando há
poder-saber e da
"aceitação" ou "tolerância" por parte dos
ordenação/ordem/organização da
familiares, sempre há uma esperança de
sociedade
que por algum motivo a situação se
17.
reverta e o indivíduos "entre nos eixos".
Mas como agir, dado que existem
instâncias prontas para estabelecer o
Diante da situação de preconceito e
controle, com relação a gestos e atitudes? A
pressão, ficou constatado nas entrevistas,
resposta não parece ser simples de
que os homossexuais se utilizam de
responder, mas ensaio breves considerações,
estratégias de encobrimento, seja através
a partir desta parte transcrita:
do escudo da heterossexualidade, saindo
com parceiros do sexo oposto ou, no caso
feminino, aceitando "cantadas de
[MiltonMilton] É fácil ser gay em Belém?
homens" e, destarte, justificando
[
XY3XY3] Claro que não, né, mana!? Tem
socialmente sua condição (GONÇALVES,
muita mamação, tem muito bu [...] bicha em
1989, p. 20-21)
Belém dá close, mas pena [...] porque a
sociedade ainda é muito preconceituosa [...]
Então, quais as alternativas ao
Lembra do caso dos travestis do Reduto18?
comportamento moralista? E que respostas
Pois é, algumas foram espancadas, levaram
podem ser produzidas pelos sujeitos que
vivenciam essas situações que vão da
"intolerância declarada" à tolerância vigiada,
Douglas, 1991; Augé, 2001; Elias e Scotson, 2000;
ao controle mais direto ou mais sutil de suas
Elias, 1990; Foucault, 2001; Foucault, 2008; Durkheim
escolhas e preferências, enfim, ao risco
e Mauss, 1979.
cotidiano do "segredo aberto" (Sedgwick,
Uma espécie de "limpeza" ocorrida no bairro do
2007) nos diversos contextos de interação
Reduto em Belém, em 2009, tendo apoio do aparato
familiar e social?
policial, os moradores das proximidades dos "pontos"
de prostituição disseram que as travestis atentavam
Entre as alternativas possíveis aos
contra os "bons costumes da sociedade".
indivíduos LGBT, assumir-se pode implicar em
54
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.

Digressões homossexuais_
assumir a fechação como experiência a ser
posto. Evidenciando o desligamento do
vivenciada nos mais diferentes espaços, no
indivíduo com o que denomino como
sentido de produzir uma re-significação do
"manipulações heteronormativas" e que se
ato de "levar bu", da "mamação"; pode
assentam nas formas explícitas e implícitas de
implicar, ao mesmo tempo, em um processo
enquadramento de indivíduos LGBT na norma
político de reconhecimento da diferença
heterossexualmente compulsória, dando
como produtiva (Pierucci, 1999); pode
ênfase ao comportamento masculinizado
implicar ainda em pensar (e viver) a
para os homens gays e feminilizado para as
homossexualidade como uma experiência
mulheres lésbicas, partindo de um
transgressora e não normatizadora, como
entendimento asséptico com relação às ditas
pretendeu Foucault (2008 [1981], p. 1), ao
"minorias" sexuais e de gênero, neste caso,
dizer que o esforço em "tornar-se" é mais
qualquer indivíduo que fuja do padrão
interessante, e por isso mais "perturbador",
heteronormativo (Butler, 2003).
que o reconhecimento de que somos, pois,
Em outro momento, Velho e Machado
para alguns
(1977) já haviam alertado para a questão do
anonimato relativo na grande metrópole, pois
A afirmação passa pela afirmação da
um indivíduo mesmo que em "relativa
radical diferença dos homossexuais e por
segurança" está na mira de ser "descoberto"
marcar nitidamente as fronteiras que os
ou "desmascarado", pois os guetos
separam dos heterossexuais [...] Eles
devem assumir de uma forma agressiva a
(linguísticos ou comerciais) podem denunciar
sua própria condição, devem "fechar"
essa condição "desabonadora", caso seja alvo
para afirmar o seu direito à livre
da curiosidade heterossexual e assim existe
expressão de seu desejo, não devendo
uma constante ressemantização das palavras
aceitar as regras colocadas pela sociedade
heterossexual (Albuquerque Jr e Ceballos,
e vocábulos que compõem o bajubá,
2002, p. 322).
utilizando esta estratégia como forma de
proteção do código lingüístico, da gíria, como
Fry (1983, p. 101) assim define a
forma de torná-la clara apenas para quem faz
fechação: "um tipo de desmunhecação
parte do grupo, do "gueto", da marginália.
proposital e escandalosa" que os
Assim, o bajubá (e todo o jogo
homossexuais utilizam como "forma de
performático que nele se encerra) acabará
humor, expressão de uma identidade grupal e
sob o signo da acusação, uma vez que sirva
meio de agredir os que têm preconceito anti-
para "identificar", para "localizar" o sujeito
homossexuais". Acompanhando um pouco
dissidente a partir de suas práticas sócio-
deste raciocínio, Pelúcio (2007, p. 162), insiste
sexuais, mediante o poder que outro possui
em que "a estratégia de resistência é
em nomear àquele. E sob o signo da
justamente a de se agir ao contrário das
identificação quando o indivíduo utilizá-lo
expectativas sociais"; onde o
para "sair do armário", para manter-se como
"grito/escândalo" como estratégia de defesa
parte de um grupo ou para publicizar uma
(como micro-política) passa a "estender o
homossexualidade que antes era escondida (e
espaço de sua própria abjeção àqueles que
que agora é publicizada e positivada).
comumente as recusam, humilham e
Então, neste jogo do armário, o
oprimem" (Idem, p. 175)
processo criativo ficaria por conta do
estabelecimento de novas linguagens e de
(In)Conlusões
novas performances e, por que não dizer, de
um outro ethos, este ligado a uma
A fechação estaria no âmago do
performance desafiadora, que cada vez mais
rompimento com as normas, com valores
ajudará a desconstruir convenções,
"heterocentrados", ou seja, com o que está
rompendo os contornos da norma, da
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.
55

_Digressões homossexuais
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Sobre os autores:
Horizonte: Autêntica.
Mílton Ribeiro da Silva Filho:
Universidade Federal do Pará,
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millor_ufpa@hotmail.com. Doutorando do
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Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.
57

_Digressões homossexuais
Antropologia, da Universidade Federal do
Pará.
Carmem Izabel Rodrigues:: Universidade
Federal do Pará, cir@ufpa.br. Doutora em
Antropologia, orientadora e professora do
Programa de Pós-Graduação em Ciências
Sociais da Universidade Federal do Pará.
Recebidoem: 10/01/2012
Aceito para publicação: 16/09/2012
58 Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 44-58, 2012.

DE KANT A MOUFFE: DESENVOLVENDO ARGUMENTOS POSITIVOS ACERCA
DO RECONHECIMENTO DE "FAMÍLIAS HOMOAFETIVAS" PELO JUDICIÁRIO
BRASILEIRO
FROM KANT TO MOUFFE: DEVELOPING POSITIVE ARGUMENTS ABOUT THE
RECOGNITION OF "FAMILIES HOMOAFETIVAS" BY THE BRAZILIAN JUDICIARY.
Alan Michel Santiago Nina
Universidade Federal do Pará
Carlos Augusto Silva Souza
Universidade Federal do Pará
Resumo
A proposta deste artigo é desenvolver uma argumentação positiva acerca
do reconhecimento, como ente familiar, de casais formados por pessoas do
mesmo sexo (as chamadas relações homoafetivas), partindo dos julgados do
STF. O reconhecimento de direitos e a construção de sujeitos politicamente
definidos podem revelar o perigo de normatizar a sexualidade e, nesse
sentido, pulverizar parte das possibilidades de vivências e arranjos sociais,
quando se reafirma uma homossexualidade assentada nos padrões
heteronormativos: familiar, monogâmica, afetiva. Neste sentido, ao lado
dos argumentos conservadores, que não estendem aos casais homossexuais
o direito de constituir famílias, soma-se uma crítica cujo principal esteio é a
percepção de que normas jurídicas podem limitar a possibilidade de
sexualidades libertárias. A hipótese do artigo é mostrar que estas duas
visões podem ser superadas sob a perspectiva tanto da filosofia kantiana
quanto da Teoria do Discurso desenvolvida no final do século XX por Ernesto
Laclau e Chantal Mouffe.
Palavras--chave:chave: direito de família; homoafetividade; Kant; Laclau; Mouffe.
Abstract
The purpose of this paper is to develop a positive argument about the
recognition as family, couples including same sex (called relationships
homoafetivas), starting from STF. The recognition of rights and the
construction of politically defined subject can reveal the danger of
regulating sexuality and, in this sense, spraying part of the experiences and
social arrangements, when it reaffirms a seated homosexuality
heteronormative standards: family, monogamous, affectionate. In this
sense, the conservative side of the arguments, which do not extend to gay
couples the right to form families, adds to a critique whose mainstay is the
perception that legal rules may limit the possibility of libertarian sexuality.
The hypothesis of this paper is to show that these two views can be
overcome both the perspective of Kantian philosophy as the Discourse
Theory developed in the late twentieth century by Ernesto Laclau and
Chantal Mouffe.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012. 59

_De Kant a Mouffe: desenvolvendo argumentos positivos
Keywords: family law; homoafetividade; Kant; Laclau, Mouffe.
Resumen
El propósito de este trabajo es desarrollar un argumento sobre el
reconocimiento positivo como familia, pareja incluida mismo sexo
(relaciones llamadas homoafetivas) a partir de Magistrados de la Corte
Suprema de Justicia. El reconocimiento de los derechos y la construcción del
sujeto político definido puede revelar el peligro de la regulación de la
sexualidad y, en este sentido, la pulverización parte de las posibilidades de
experiencias y acuerdos sociales, cuando se reafirma en estándares
homosexualidad sentados heteronormativos: familia, monógamas, cariñoso.
En este sentido, el lado conservador de los argumentos, que no se
extienden a las parejas homosexuales el derecho a formar una familia, se
suma a una crítica cuyo pilar es la percepción de que las normas jurídicas
pueden limitar la posibilidad de la sexualidad libertaria. La hipótesis de este
trabajo es mostrar que estos dos puntos de vista pueden ser superados
tanto en la perspectiva de la filosofía kantiana como la teoría del discurso
desarrollado en el siglo XX por Ernesto Laclau y Chantal Mouffe
Palabras clave: derecho de familia; homoafetividade; Kant; Laclau, Mouffe.
Introdução
a questão, não apenas em relação às práticas
jurídicas e seus avanços às pessoas
Em 05 de maio de 2011, o Estado
homossexuais, mas principalmente à inter-
brasileiro presenciou uma decisão histórica
relação entre Estado e sexualidade de uma
promovida pelo Supremo Tribunal Federal: o
forma mais ampla. Isto porque, tomando
reconhecimento da união estável passa a ser
apenas estes dois eixos, isto é, a "instituição
legítima para casais do mesmo sexo1. Esta
Estado" e o "dispositivo da sexualidade"2,
decisão tem sua importância por aumentar o
temos um percurso, no mínimo, instigante:
leque interpretativo da Constituição
1) Os grupos LGBT's formam um
Brasileira, especialmente o artigo 226, onde
complexo movimento de minoria, assentado
são enumeradas três formas diferentes de
na influência do discurso feminista, onde se
família: casamento, união estável e famílias
opta por uma desconstrução do sujeito
monoparentais, além do controverso
(BUTLER, 2009) e por uma busca de
parágrafo 3°: "Para efeito de proteção do
identidades fluidas, dinâmicas e instáveis
Estado, é reconhecida a união estável entre
(HALL, 2006), sintetizada na ideia de
homem e mulher como entidade familiar,
"diversidade";
devendo a lei facilitar sua conversão em
2) No entanto, é central adotar a
casamento", o que, a partir da ótica do
perspectiva de garantia de direitos; nesse
Judiciário, passa a ser extensivo também a
sentido, a articulação entre as demandas do
casais formados por homens ou por
movimento LGBT e o papel do Estado ganha
mulheres.
um novo enfoque (o próprio movimento
A decisão então proferida pelo STF pode
feminista preconiza que o "pessoal é político",
apontar alguns elementos interessantes para
isto é, há certa necessidade em levar à arena
pública e das decisões políticas questões que,
Arguição de Descumprimento de Preceito
Fundamental n^ 132 e Ação Direta de
Tomo o termo "dispositivo" a partir da ótica de
Inconstitucionalidade nQ 4277.
Foucault(1979).
60
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.

De KantaMouffe: desenvolvendo argumentos positivos__
a princípio, estariam restritas ao mundo
instituições democráticas, num sentido mais
privado, como a sexualidade);
holístico, o que, em nossa visão, é feito com
3) No entanto, paralelamente à lógica
maior destaque por Kant.
de se estender direitos, a homossexualidade
Antes de iniciarmos a discussão é
ressignifica conceitos até então intocados,
preciso apontar alguns elementos
sendo posta com facilidade no universo da
fundamentais sobre o desenho Institucional
transgressão (SEDGWICK, 2007). São
onde se insere a rena pública da luta pelo
discursos que desestabilizam a noção de
reconhecimento de direitos LGBT's.
público e privado, confrontando-se com
Primeiramente, destaca-se o papel pró-ativo
símbolos tradicionais como família,
do Judiciário em relação ao âmbito do
parentalidade e conjugalidade.
Legislativo e do Executivo, o que leva ao
Em termos mais gerais, o que será
questionamento até mesmo da clássica
discutido neste artigo parte da seguinte
divisão de poderes: estaria o judiciário
questão norteadora: a normatização da União
extrapolando o seu limite de atuação e
Estável (com seus desdobramentos no âmbito
desequilibrando a ideia de "freios e
do Direito de Família) entre "casais
contrapesos" dos Poderes? Evidentemente,
homoafetivos" seria um elemento limitador
este não é o espaço e nem é a proposta do
ou libertador para o sujeito que vivencia
artigo discutir a harmonia (ou não) entre as
sexualidades transgressoras?
três esferas de Poder; basta, por ora,
No intuito de discutir acerca dos pontos
pontuarmos um detalhe, que à primeira vista
favoráveis e desfavoráveis que a
parece escapar: a noção clássica elaborada
regulamentação de certos direitos provoca
por Montesquieu4 sobre "o poder que
em relação à construção de uma visão crítica
controla o poder", leva em conta não apenas
e ampla da sexualidade, o referencial teórico
as funções típicas de cada esfera de poder,
aqui discutido encontra assento em algumas
mas, principalmente, como estas atuam na
indicações da filosofia kantiana, sem deixar de
conformação de um aparato estatal legítimo,
considerar aspectos mais contemporâneos da
isto é, como o poder passa a ser dividido para,
filosofia política, expressos pelo pensamento
em seguida, serem criados instrumentos de
de Chantal Mouffe e sua Teoria do Discurso.
controle mútuo visando a preservação da
Ora, o resgate a Kant justifica-se por
engenharia institucional até então construída.
dois motivos principais: o primeiro devido a
Nesta interpretação, Montesquieu estaria
intersecção entre as demandas dos grupos
mais acertadamente preocupado com a
LGBT's e a questão dos Direitos Humanos, o
organicidade do poder - explicou porque as
que, como evidencia Bobbio3, encontram
funções não podem ser concentradas nas
respaldo numa "visão cosmopolita", termo
mãos do mesmo titular, explicou que o titular
kantiano que será discutido mais adiante; em
não é necessariamente uma pessoa, mas um
segundo lugar, Kant resgata o Direito a partir
grupo social, mostrou como os órgãos
de elementos morais, o que nos fornece uma
estatais devem interagir, quais devem ser
ponte interessante para discutir a questão da
fortalecidos, quais devem ser enfraquecidos,
legitimidade dos direitos das minorias.
quais os instrumentos de controle e o grau de
Neste último ponto, seria bem mais
estabilidade e legitimidade do sistema. A
provável (e talvez mais óbvio) adotar a
organicidade da "engenharia institucional"
perspectiva de Stuart Mill, uma vez que ele
também foi o objeto de seus sucessores mais
discorre diretamente sobre a representação
conhecidos, os chamados "federalistas", os
das minorias. No entanto, o objetivo do
quais realçam a necessidade da existência de
trabalho é justamente realizar um resgate de
uma soberania compartilhada, assentada num
princípios morais tangente à lógica das
pacto federativo cujos pressupostos são um
3Bobbio (2004).
Na obra "Do espírito das Leis" (1973).
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.
61

_De Kant a Mouffe: desenvolvendo argumentos positivos
sistema de freios (Check and balances),
surpreendentemente, como um forte ranço
autonomia delimitada na constituição e um
de tradicionalismo e conservadorismo, não
harmonioso relacionamento com o poder
em sua forma clássico de retrocesso, mas sob
central, assegurando dessa forma uma
uma nova perspectiva muito mais
adequada divisão de recursos que visa o
interessante. Explica-se: em que pese uma
fortalecimento das diversas unidades
série de reivindicações promovidas pelo
componentes da federação.
movimento LGBT5, como direito à adoção,
0 resgate destes pressupostos talvez
criminalização da homofobia, a questão da
seja importante para compreendermos que a
transexualidade (ainda encarada de forma
engenharia democrática, numa discussão
patológica), ou mesmo a adoção de práticas
como essa (em que divergem opiniões), não
na educação infantil direcionadas à
parece estar abalada. Há uma vasta literatura
diversidade, tem-se, no entanto, a
que discute o "ativismo judicial" (ou seria
predominância e um avanço maior do
"politização da justiça"?), e o que resta é que
reconhecimento de demandas nas questões
a forma permanece intacta, isto é, o Estado e
ligadas direta e indiretamente ao Direito de
as esferas de poder permanecem como
Família (com forte protagonismo do
instituições legítimas, soberanas, pelo menos
judiciário, especialmente em questões de
no que tange à sua forma institucional. Neste
herança e direitos previdenciários). Ora, é
sentido, o Estado aparece como um canal
justamente na família que vem se assentando
legítimo das demandas LGBT's, e a proposta
esse novo "olhar" sobre a homossexualidade,
do artigo é justamente dialogar com a crítica
carregando valores como monogamia,
que se faz sobre este canal, em especial ao
afetividade e continuidade. É instigante
seu aparato normativo. É por isso, também,
pensar que a homossexualidade se faz
que fazemos o diálogo entre Kant e Moutffe,
"reconhecida" através de uma instituição por
pois este último resgata o sentimento político
vezes mais do que tradicional: a família.
de nosso tempo a partir de um "Estado
Parece desconcertante, mas é possível
Democrático Pluralista", ou seja, discute uma
perceber, mesmo sem desconsiderar os
série de questões e de valores divergentes
importantes ganhos para os indivíduos que
dentro de uma complexa arena política de
diferem do padrão heterossexista, que a
tomada de decisões.
homossexualidade cada vez mais se aproxima
De fato, o que parece inaceitável diante
de um modelo de sexualidade "limpo",
do olhar de muitos conservadores e pessoas
"aceitável". Ao realizar análise sobre os
contrárias à decisão do STF, parece ser muito
discursos emitidos pelos ministros do STF em
mais o conteúdo da interpretação jurídica, os
suas decisões, o eminente juiz Roger Rios6,
valores embutidos nas Leis e julgados, do que
que defende os direitos de homossexuais a
propriamente a forma como se organizam as
partir da ótica dos direitos sexuais e dos
instituições, uma vez que as decisões
direitos humanos, já enxerga este movimento
referentes ao Direito de Família para casais
"assimilacionista" (tanto como conceito
homossexuais não representam nenhum
propriamente jurídico quanto como projeção
perigo para a legitimidade do Estado. E
de certos valores).
quando se percebe que a "forma" do Estado
O percurso metodológico deste artigo é
era o germe da discussão acerca da divisão
partir de percepções de juristas acerca da
dos Poderes, infere-se que, pelo menos neste
decisão do STF e, com base nelas, defender
quesito, não estamos diante de nenhum
escândalo ou ofensa muito grave às "regras
do jogo" institucionais, e isto nos leva a um
5 V e r SIMÕE S & FACCHIN I ( 2 0 0 9 )
segundo ponto: esta decisão do STF sobre o
6 RIOS, Roge r R a u p p ; G O L I N , Céli o & LEIVAS, Paul o
G i l b e r t o Logo. Homossexualidade e direitos sexuaisHomosexuali
ddediretosexuais:
reconhecimento das uniões estáveis entre
reflexões a partir da decisão do STF. Porto Alegre:
casais do mesmo sexo soa,
Sulina, 2011.
62
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.

De KantaMouffe: desenvolvendo argumentos positivos__
que os avanços nas questões jurídicas estão
muito além da sua mera interpretação
A perspectiva histórica de Bobbio o leva
casuística, a qual pode nos fazer perder seu
a defender a tese de que podemos situar
alcance. Logo, retomando uma linha de
certos acontecimentos históricos (como a
raciocínio construída genuinamente por Kant,
Declaração Universal dos Direitos do Homem,
e mais recentemente por Norberto Bobbio,
de 1944) para além do seu tempo, e perceber
para quem "a ética é eminentemente
além da crítica imediatista que se apresenta
política", argumenta-se que as questões
de forma superficial.
jurídicas atingem também os valores morais
Em certo sentido, é este o esforço
pelos quais pensamos e reproduzimos nossas
analítico que se fará neste artigo: a partir de
condutas, sendo basicamente impossível
um caso específico, a decisão do STF para
separar estas esferas. E esta relação é
reconhecer a união estável entre casais do
importante para repensarmos tanto as críticas
mesmo sexo, procura-se identificar discursos
conservadoras quanto a própria crítica dos
favoráveis e desfavoráveis, de forma sucinta,
militantes ao se depararem com os preceitos
e inserir a tese de que não podemos fazer
normativos que supostamente parecem reger
este deslocamento histórico sem deixar de
as condutas típicas do "dispositivo da
discutir o aspecto moral embutido nas
sexualidade", em alusão à crítica
questões que envolvem direito, famílias e
foucaultiana7.
sexualidade.
Diversos autores já discutem esta
Dialogando com a perspectiva moral
relação entre liberdade de vivência da
Kantiana, é possível perceber, no conceito de
sexualidade e direitos8. Além do aparente
"direito cosmopolita", uma ideia arrebatadora
paradoxo que a norma enseja perante a
para a convivência pacífica entre os homens.
possibilidade de viver sexualidades libertárias,
Ora, é certo que Kant (1983) estava mais
certos princípios evocados (como a
preocupado com as controvérsias políticas
"dignidade da pessoa humana") para
entre os povos, portanto, é preciso fazer uma
defender os direitos sexuais, oscilam entre
ressalva: o que nos interessa é como este
um tratamento individualizado, o qual
autor construiu seu argumento e, partir daí,
remonta ao germe do pensamento liberal, e
traçar um paralelo para a questão da
um tratamento mais pluralista e, talvez, mais
sexualidade.
revolucionário, como foi despido por Bobbio
Far-se-á, pois, o seguinte percurso:
(2004), quando de sua tentativa de situar os
apresentação de algumas visões a cerca do
Direitos do Homem não apenas em seu
julgado do STF e, em seguida, o resgate do
contexto de direito negativo. Nas palavras do
debate ético sob perspectiva da filosofia de
autor:
Kant, para tentar compreender, de forma
dialética e crítica, a tensão entre sexualidades
A Declaração Universal contém em germe
e legalidades.
a síntese de um movimento dialético, que
começa pela universalidade abstrata dos
Pontos de vista acerca da decisão do STF
direitos naturais, transfigurava-se na
particularidade concreta dos direitos
positivos e termina na universalidade não
O problema que temos diante de nós não
mais abstrata, mas também ela concreta,
é filosófico, mas jurídico e, num sentido
dos direitos positivos universais. (p.79)
mais amplo, político; não se trata de saber
quais e quantos são os direitos, qual é sua
natureza e seu fundamento, se são

7Foucault(1993)
direitos naturais ou históricos, absolutos
8 Ver o compêndio "ÁVILA, Maria Betânia; PORTELLA,
ou relativos, mas sim qual é o modo mais
Ana Paula & FERREIRA, Verônica (org.) Novas
seguro para garanti-los. (Bobbio, 2004,
l e g a l i d a d e s e democratizaçãodavidasocial:emocratização d a v i d a s o c i a l : f a m í l i a ,
p.25)
sexualidade e aborto. Rio de Janeiro: Garamond,
2005".
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.
63

_De Kant a Mouffe: desenvolvendo argumentos positivos
Evidentemente, é uma tarefa hercúlea
impressa, sites, telejornais, blogs) não
sintetizar as opiniões (convergentes e
hesitavam em acentuar o caráter polêmico do
divergentes) que porventura possam se
julgado, e as posições contrárias, em geral,
apresentar acerca de determinado fato, e
gravitavam em torno de um discurso religioso
certamente este não será nosso objetivo. Vou
e moral. Não raro encontrar artigos de
optar por selecionar posicionamentos de
religiosos escrevendo sobre o tema.
juízes a cerca da questão, o que restringe o
Tomemos aqui o posicionamento do
campo de observação, sem, no entanto,
jurista Ives Gandra da Silva Martins, em artigo
afastar-me do objeto central do artigo. A
publicado na Folha de São Paulo9, em que
fonte em que coletei esses difusos pontos de
apresenta argumentos que justamente
vista são basicamente artigos de jornais
trazem à tona a falta de competência do
(veiculados na Internet) e obras acadêmicas
Judiciário, o qual estaria "tomando as vezes"
lançadas após a decisão do STF, as quais
do Legislativo, já que a Constituição traz
discutem o tema.
expressamente o termo "homem e mulher"
É certo que se corre o risco de deixar de
para definir a união estável. Nas palavras do
lado pontos de vistas medianos ou
próprio:
acentuadamente divergentes, os quais podem
se revelar, inclusive, esclarecedores.
Sou contra o casamento entre
Partiremos de 3 pontos de vista distintos.
homossexuais, não contra a união. A
Como a ideia não é realizar tipologia, muito
união pode ser feita e tem outros tipos
menos tecer considerações pessoais sobre
de garantias, como as patrimoniais.
determinados pontos de vista, dividimos as
Minha posição doutrinária, sem nenhum
categorias em, simplesmente, pontos de vista
preconceito contra homossexuais, é que
1, 2 e 3. O objetivo é apenas tentar clarear a
o casamento e a constituição de família
visão do Judiciário (e, por extensão, do
só acontecem entre homem e mulher10.
Direito), frente às questões aqui levantadas,
uma vez que, como fora exposto, é o
Assim como ele, uma série de juristas e
Judiciário que vem se posicionando de forma
advogados defende a família como reduto
mais contundente sobre tais demandas.
exclusivo do homem e da mulher,
especialmente aqueles ligados às Igrejas
a) Ponto de vista 1:
protestantes e ao catolicismo (como por
Como exposto anteriormente, a
exemplo, evidenciado em declarações de
questão da competência do Judiciário, já que
bisposdaCNBB11).
não põe em risco a engenharia do Estado,
0 professor Paulo Gilberto Cogo Leivas,
quando evocada, o é meramente devido ao
em artigo publicado numa coletânea lançada
seu conteúdo. Logo, não impressiona
especialmente para discutir a decisão do STF,
perceber que a tese segundo a qual o
desconstrói12 o argumento a partir da
Judiciário não tem competência para "criar
direitos" é mais evocada pelos que discordam
da extensão dos direitos de família a casais
A Constituição "conforme" o STF. Folha de São Paulo.
homossexuais, afinal, nesta perspectiva,
São Paulo. 20 de maio 2011.
HTTP://www1. folha. uol.com.br/fsp/opinião/fz2005201
"invalidando a forma se invalidaria o
107.htm, acessado em 20 de junho de 2012.
conteúdo". No mais, sua defesa estaria
10 Idem.
centrada muito mais em um discurso cuja
11 Idem.
linguagem e argumentação é eminentemente
12 Ver "Análise argumentativa dos votos proferidos
técnica, valendo-se de argumentos jurídicos
pelos ministros do Supremo Tribunal Federal no
julgamento que estendeu o regime jurídico da união
específicos.
estável às uniões entre pessoas do mesmo sexo", in:
Além disso, após a histórica decisão do
RIOS, Roger Raupp; GOLIN, Célio & LEIVAS, Paulo
STF, os meios de comunicação (mídia
Gilberto Logo. Homossexualidade e direitos sexuais:
64
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.

De KantaMouffe: desenvolvendo argumentos positivos__
argumentação jurídica de Robert Alexy,
clericatura e nas altas funções
basicamente apontando os elementos
governamentais, visavam exatamente
manter na elite tão-somente os cristãos-
doutrinários que os Ministros do STF usaram.
velhos (p.52).
Como a proposta deste trabalho não é
aprofundar a discussão jurídica a cerca da
Em pleno século XXI, portanto, é
fundamentação do julgado, e sim perceber a
possível perceber que certos setores ainda
sua relação com o dispositivo da sexualidade,
tem dificuldade em conceber a família para
interessa-nos apontar o elemento justificador
além da ótica heterossexista. Reifica-se o
para este discurso anti-homossexualidade
estágio jurídico corrente como forma de
centrado na família. O antropólogo e
preservação legítima. Mais adiante, ao
historiador Luiz Mott13 analisa a influência do
discutir o pensamento kantiano, traremos
discurso judaico-cristão na formação de um
uma resposta mais estruturada a esta visão
ethos de família que exclui as práticas não-
que se pretende hegemônica.
procriativas. Neste sentido, oferece um
elemento importante para compreendermos
b) Ponto de vista 2
a fundamentação religiosa: a quebra da
O presidente nacional do Instituto
hegemonia. Luiz Mott (2001) tenta
Brasileiro de Direito de Família - IBDFAM, o
reconstruir este medo a partir de vários
advogado Rodrigo da Cunha Pereira, publicou,
exemplos históricos, que envolvem a quebra
no começo de 2012, a obra intitulada
de continuidade do modelo de família
"Princípios Fundamentais Norteadores do
tradicional judaico-cristão:
Direito de Família", indispensável para
compreender a fundamentação jurídica
Também no Novo Mundo, como sucedeu
contemporânea que se pode utilizar para
na Idade Média, o amor homossexual foi
duramente reprimido por constituir
decidir acerca dos problemas reais
deletéria ameaça à estabilidade da família
envolvendo o Direito de Família.
tradicional, na medida em que minava
O autor utiliza-se de uma visão que
perigosamente a autoridade patriarcal no
privilegia a família plural, se baseando em
tocante ao controle das estratégias de
aproximação dos sexos e a constituição
uma série de acontecimentos pontilhados, os
de novas unidades familiares. Na América
quais formam o grande mosaico da
portuguesa, assim como na Espanhola, a
configuração familiar atual: a família deixou
endogamia das famílias de origem
de ser essencialmente um núcleo econômico
européia foi a estratégia oficial,
e de reprodução; os filhos estarão melhores
abençoada pela Igreja, instaurada a fim
de evitar que "cristãos-novos" e "gente
com pais juntos ou separados; a Lei do
de sangue impuro" se unissem e
Divórcio acentuou a liberdade dos sujeitos;
infectassem as "famílias limpas". A
diversos tipos de família (entre as quais as
endogamia da oligarquia colonial,
formadas por casais homoafetivos) são uma
evitando a mistura de seus descendentes
realidade; deve-se compreender o indivíduo
com a raia miúda e sobretudo com a
gentalha não-branca, tornou-se uma
como um sujeito de desejo (influência da
obsessão das elites fundiárias, optando
psicanálise) etc. Ou seja, destaca os
muitas famílias, às vezes, pelo
movimentos da própria realidade como
enclausuramento forçado de suas filhas
precedentes a um estudo sistemático dos
donzelas, evitando assim uniões com
indivíduos considerados de condição
princípios jurídicos.
social ou racial inferior. Os famigerados
Tal como Bobbio14 aponta, Pereira
processos de "qualificação de pureza de
(2012) sustenta a passagem do dever para o
sangue", indispensáveis para admissão na
direito, sendo que esta relação ocorre quando
também se desloca o ponto de vista: da
reflexões a partir da decisão do STF. Porto Alegre:
Sulina, 2011.
BOBBIO, N o r b e r t o . AA era dos direitoseradosdireitos. Nova Ed. Rio
13 Ver "Mott (2001)".
de Janeiro: Elsevier, 2 0 0 4 .
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.
65

_De Kant a Mouffe: desenvolvendo argumentos positivos
sociedade ao indivíduo. Há, portanto, uma
elemento privilegiado para compreender o
exigência dos cidadãos por terem seus
bem social (não recai em relativismos). A ética
direitos atendidos, caracterizando exigências
seria, então, um campo de conhecimento que
dos chamados direitos naturais ou morais,
se permite à avaliação e à reflexão, daí a
construídos não a partir de uma sequência
importância (e um acerto apelo), para o
lógico-racional, mas historicamente.
autor, em se retomar o estudo da ética. Ao
Deste modo, Pereira ressalta que a
passo que a moral levaria inevitavelmente a
compreensão e aplicação de uma
posicionamentos individuais.
principiologia no Direito contemporâneo
Neste caso, adotar uma postura
pressupõe a quebra e mudança de uma
contrária ao reconhecimento da
concepção jurídica preponderantemente
homossexualidade seria completamente
positivista, uma vez que muitos dos casos
moral, mas não seria ético, no entanto, os
reais, tomando sempre como análise as
operadores do Direito devem se portar a
diligências no Brasil, ainda não estão
partir de princípios éticos.
positivados na norma jurídica, sendo
Este tipo de argumento, embora
resolvidos pelos princípios, permitido até
favorável à homossexualidade, revela um
mesmo pela própria Lei de introdução às
perigo iminente de justificar a
Normas do Direito Brasileiro (art.4°) e pelo
homossexualidade pelas garantias
Código Processual Civil (art. 126), que
previdenciárias, materiais ou quaisquer outras
preconizam o uso dos princípios na ausência
garantias que não sejam a própria
de Lei regulamentadora.
homossexualidade tomada por si. Nessa
No caso das relações homoafetivas, o
abordagem, privilegia-se o status social e a
princípio da dignidade da pessoa humana é
insituição família, mesmo que seja formada
retomado como forte argumento para
por casais de gays ou lésbicas.
legitimidade de tais relações. Todavia,
pretende-se aqui chamar a atenção para um
c) Ponto de vista 3
ponto citado por Pereira que merece um
A argumentação desenvolvida neste
destaque maior: o autor pretende separar, de
trabalho relaciona-se fortemente a este
um lado, a objetividade de certas
ponto, desenvolvendo um direcionamento
interpretações e, de outro, a "confusão" dos
crítico. Toma-se como ponto analítico o artigo
elementos subjetivos, e este percurso só
de Roger Raupp Rios sobre as uniões
pode ser percorrido se houver o resgate aos
homossexuais e a decisão do Supremo
princípios fundamentais. Pereira, portanto,
Tribunal Federal15.
chama a atenção para a subjetividade no
Rios reconhece o avanço da questão,
Direito frente à objetividade da realidade.
explicitando os fundamentos dos Direitos
Esse posicionamento dicotômico o leva a uma
Humanos e os princípios normalmente
distinção entre ética e moral: neste sentido,
evocados na questão: privacidade, liberdade,
põe em evidência a valorização do sujeito
igualdade, dignidade humana, não-
ético, o qual deve preponderar sobre valores
discriminação, pluralismo e diversidade.
morais. Por exemplo, e aqui é o mais
Entretanto, Rios aponta o seguinte
importante: nos casos em que casais
questionamento: "o reconhecimento civil
homossexuais tentam o reconhecimento
dessas uniões não seria uma oportunidade de
como entes familiares ou mesmo a adoção,
acrescentar novos ingredientes ao direito de
julgar a homossexualidade estaria no campo
da moral, ao passo que compreender a
Ver "Direitos sexuais, uniões homossexuais e a
questão no campo ético é tentar certo grau
decisão do Supremo Tribunal Federal (ADPF n? 132-RJ
e ADI 4.277) in RIOS, Roger Raupp; GOLIN, Célio &
de imparcialidade. Pode-se mesmo afirmar
LEIVAS, Paulo Gilberto Logo. Homossexualidade e
que o autor toma a moral como elemento
direitos sexuais: reflexões a partir da decisão do STF.
centrado no indivíduo, e a ética como
Porto Alegre: Sulina, 2011.
66
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.

De KantaMouffe: desenvolvendo argumentos positivos__
família, ao invés de uma mera repetição dos
determinação. O que quero dizer com
modos tradicionais de pensar e de viver
isso? Que não podemos tratar essa
possibilidade nos moldes da tradição
casamento e união estável?" (RIOS, 2011).
conservadora que instituiu a legalidade
RIOS está preocupado com uma certa
que prevalece atualmente; isto é, não
"naturalização do modelo de família
podemos propor uma legalidade como
heterossexual", expressa inclusive pelo termo
uma forma de nos enquadrarmos nessa
lógica. A busca pela legalidade, sobretudo
"homoafetividade", o qual "propõe a
no caso da união civil, deve ser de fato
aceitação da homossexualidade sem qualquer
um processo de trasnformação da lógica
questionamento mais intenso dos padrões
do legal que prevalece até agora, e não
sexuais hegemônicos" (p.109). Isto é, há uma
um enquadramento nosso a essa lógica
assimilação de práticas afetivas semelhantes
dominante16. (ÁVILA, 2005, p.21)
aos padrões heterossexistas que acabam por
diluir o vigor e o discurso das relações sexuais
O principal objetivo deste trabalho,
heterodoxas.
portanto, é oferecer pistas para avançar na
Neste sentido, o autor utiliza o termo
discussão provocada por esse movimento de
"assimilacionismo familista", como se o grupo
tensão entre liberdade, sexualidades e
mais fraco na relação assimilasse os padrões
legalidades, que está inserido no debate
do grupo mais forte como estratégia para o
crítico do movimento LGBT, seja de militantes
reconhecimento, isto é, "a homossexualidade
em geral ou mesmo de proeminetes juristas
é aceita desde que nada acrescente ou
que defendem e tratam o tema.
questione aos padrões heterossexuais
hegemônicos, desde que anule qualquer
A ética em Kant e sua relacao com a
pretensão de originalidade, transformação ou
ética das minorias
subversão do padrão heteronormativo"
(p.108). Seria, portanto, salutar se questionar
Ora, até aqui vimos posicionamentos
porque o reconhecimento de direitos avança
divergentes e até mesmo contrários entre si,
mais na questão do direito de família, quando
os quais se inserem em uma arena política de
se sabe que há uma série de demandas que,
discussão que só poderia ser viável num
inclusive, expõe mais abertamente a
Estado democrático pluralista17. Ocorre que,
sexualidade, como os direitos trânsgeneros e
para além de uma defesa do indivíduo ou de
o reconhecimento da criminalização da
princípios, a hipótese defendida neste artigo é
homofobia (este último afetando e punindo
que se está diante da defesa de um pluralismo
mais diretamente os discursos hegemônicos
democrático concorrente a uma visão
homofóbicos).
cosmopolita de mundo, tal qual prenunciava
Esta crítica se compartilha a uma série
Kant. Contemporaneamente, uma série de
de pesquisadores e militantes, o próprio
estudos referentes ao direito de minoria e sua
Foucualt já chamava a atenção para o perigo
base em identidades plurais, contingentes e
das normatizações que ele enxergava a partir
precárias vem sendo discutida, em especial a
das demandas do movimento gay.
partir da Teoria do Discurso promovida por
De fato, este ponto de vista, para o
Chantal Mouffe e Ernest Laclau18
movimento LGBT, parece ser o mais
provocador, a julgar pelas palavras da
socióloga Maria Betânia Ávila:
Ver "ÁVILA, Maria Betânia. Prefácio: Liberdade e
Legalidade, uma relação dialética. In: ÁVILA, Maria
O legal deve ser compreendido como um
Betânia; PORTELLA, Ana Paula & FERREIRA, Verônica
instrumento para transformação que, em
(org.) Novas legalidades e democratização da vida
um determinado momento, pode ser
social: família, sexualidade e aborto. Rio de Janeiro:
revolucionário. Mas nós temos que
Garamond, 2005.
querer isso como uma possibilidade
17VerMendonça(2009)
cambiante, e não como uma
18 Idem.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.
67

_De Kant a Mouffe: desenvolvendo argumentos positivos
O Estado democrático pluralista é muito
este se difere de um mero sentimento
bem descrito por Mouffe, que passa a
Universal (como nos princípios);
valorizar a disputa política promovida por
5) Logo, ao tomar como base o
discursos aparentemente antagônicos:
pensamento Kantiano, dá-se um salto
qualitativo ao dispositivo da sexualidade.
Numa relação antagônicaantagônica entre dois
É neste sentido que podemos resgatar o
elementos não existe possibilidade de se
Kant tanto de Ideia de Uma história de um
estabelecer medida comum entre eles:
ponto de vista cosmopolita quanto de
discursos antagônicos representam,
assim, a luta entre inimigos. Já em relação
Fundamentação da Metafísica dos Costumes,
ao agonismoagonismo, apesar da disputa entre
isto por diversos motivos, sendo os mais
diferentes formações discursivas, existe
relevantes o fato de que a ótica cosmopolita
uma medida comum entre elas, um
preserva as particularidades do indivíduo (em
universal mínimo, que é o
reconhecimento da legitimidade da
especial a noção clássica de liberdade e
existência do discurso concorrente. Além
igualdade) a partir de uma perspectiva
disso, em termos políticos, na relação
jurídica, o que vai além do alcance impresso
agônica, a categoria de inimigo - presente
pelo princípio da dignidade da pessoa
na disputa antagônica -é substituída pela
humana: trata-se de um ponto na história que
de adversário, uma vez que o espaço
comum entre adversários reside
apenas nos dá pista (não é, de todo,
justamente na aceitação da disputa
conclusivo), tal qual o entendimento de
política num espaço discursivo
Bobbio sobre a Declaração Universal dos
democrático pluralista. Não há, portanto,
Direitos dos Homens; no caso específico dos
por que se falar em relação antagônica
direitos homoafetivos, assenta-se na premissa
quando estamos diante de um Estado
Democrático de Direito cujas regras são
de que o reconhecimento como ente familiar
inicialmente partilhadas pelos grupos
de casais homossexuais representa um
sociais. Aliás, esse é o projeto político
importante progresso para se pensar a
defendido por Chantal Mouffe: a
liberdade sexual de modo geral.
transformação de relações antagônicas
em agônicas e a superação da relação
Kant formula seu pensamento a partir
entre inimigos (antagonismo) para uma
de uma perspectiva de racionalidade
relação entre adversários (agonismo), já
moderna, sendo de principal importância seu
que as relações de poder são inerentes e
fim teleológico. Esse entendimento é
constituidoras da política. (MENDONÇA,
proveniente das duas primeiras proposições
2003, p.140-141, grifo meu)
desenvolvidas na Idéia de uma história
Universal, quais sejam: a) todas as disposições
Em termos práticos, o reconhecimento
naturais de uma criatura estão destinadas a
de casais homossexuais como ente familiar,
um dia se desenvolver completamente e
revela que:
conforme um fim, e b) no homem (única
1) Este grupo pode muito bem ser
criatura racional sobre a Terra) aquelas
inserido a partir de um contexto
disposições naturais que estão voltadas para
assimilacionista ou com base em princípios
o uso de sua razão devem desenvolver-se
universais, como descrito na análise dos
completamente apenas na espécie e não no
juristas;
indivíduo.
2) O conceito de família, neste sentido,
Essas proposições mostram que o
preserva-se, porém, é ampliado: abre-se a
filósofo está preocupado com uma
disputa para inserir direitos de homossexuais,
perspectiva de longo prazo, em que o casual e
e não restringir direitos de heterossexuais;
contingente, no máximo, pode servir de
3) Tal reconhecimento se dá num
indicativos para um futuro longo. Isso quer
Estado Democrático de Direito Pluralista;
dizer que seus questionamentos morais estão
4) O sentimento plural coaduna-se com
longe de serem conceitos fechados e
um sentimento cosmopolita, uma vez que
acabados, tal como preconiza Mouffe em
68
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.

De KantaMouffe: desenvolvendo argumentos positivos__
relação à política de identidade, para quem o
preservando a faculdade racional e a
indivíduo se constitui de forma precária e
liberdade individual.
contingente.
É este o cerne essencial que é preciso
0 que vale notar aqui é o fato de Kant
resgatar: a importância da preservação do
abstrair a moral para a espécie humana, ao
todo é intrínseca a preservação da moral do
passo que Mouffe, evidentemente, fala de um
indivíduo. J. S. Mill, sob uma ótica liberal, já
sujeito político real. Parecem discursos
chamava a atenção para o perigo da
deslocados, mas a aproximação pode ser feita
democracia da maioria esmagar o interesse
se levarmos em conta alguns pressupostos da
da minoria em nome da representação. Por
Teoria de Mouffe. Segundo Mendonça (2009),
sua vez, o que Kant traz é um elemento
tais são as características da Teoria do
agregador interessante, pois o todo não se
Discurso, em relação às disputas políticas
dissocia das suas partes e do dever moral
contemporâneas sob a ótica dos grupos
desejado pelo homem, como o fim absoluto
minoritários, elaboradas por Mouffe:
de todas suas aspirações. Quando Kant
- o social é discursivamente significado;
formula a questão, "o que devo fazer?" ele
- a teoria do discurso é uma teoria das
fundamenta o conceito da moral relacionado
diferenças;
a um valor de vontade humana autônoma,
toda construção discursiva é
ora, uma ética do indivíduo responsável pela
contingente e precária;
humanidade.
toda constituição discursiva é
Em outras palavras, o filósofo pretendia
antagônica;
preservar a autonomia do sujeito frente a um
- o discurso é efeito, ou resultado, de
mundo de disputas (a tensão entre isolar-se e
uma prática articulatória;
associar-se). Essa construção trazia ao campo
- por fim, a teoria do discurso é uma
moral e ao Direito novas amplitudes, uma vez
teoria da hegemonia.
que, para o sujeito político, o exercício da
Percebe-se semelhança com a quarta
cidadania carrega o peso de sua consciência:
preposição de Kant: "o meio de que a
é um homem moral e social, em essência.
natureza se serve para realizar o
Como Kant se volta para o exercício da
desenvolvimento de todas as suas disposições
racionalidade, segundo ele, as leis não podem
é o antagonismo delas na sociedade, na
ser extraídas da experiência, devem ser
medida em que ele se torna ao fim a causa de
alcançadas a partir de um exercício racional,
uma ordem regulada por leis desta
isto é, a priori. Pode parecer abstrato (e
sociedade". Isto é, do próprio antagonismo
verdadeiramente o é), mas é o cerne da
inerente à natureza humana, Kant faz surgir a
filosofia kantiana, e o que está sendo
necessidade de leis, as quais são
resgatado é justamente o corolário deste seu
eminentemente sociais. Esse jogo de
pensamento: sendo o homem um ser
antagonismos, na visão filosófica de Kant, o
racional, ele deve ser visto como um fim em si
fez cunhar o termo "insaciável sociabilidade",
mesmo, dotado de valor absoluto, isto é,
isto é, forças atrativas e repulsivas, o jogo do
dotado de dignidade. Segundo Bobbio (2004),
isolar-se e associar-se. Kant, assim, atribui ao
a partir daí compreendemos melhor as duas
direito a perspectiva de equilíbrio entre tais
máximas kantianas: a primeira afirma que
forças e, diga-se, para ele, era um desafio
nosso comportamento deve tanger a uma
incomensurável. A partir deste ponto, Kant
ação que se transfigure em lei universal que
centrará em desenvolver o seu pensamento
vai guiar o comportamento de todos; a
na relação entre Estados e não mais a partir
segunda máxima diz que apenas isso não
de uma natureza humana, desenvolvendo a
basta, porquanto seja necessário considerar o
ideia de um sentimento cosmopolita, isto é, a
homem com uma finalidade em si mesma e
importância da manutenção do todo,
não apenas um instrumento para nossas
vontades.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.
69

_De Kant a Mouffe: desenvolvendo argumentos positivos
A família, portanto, deixa de ter uma
quem é diverso por motivos físicos ou
finalidade, abrigando indivíduos que estão
sociais, um problema que põe em
primeiro plano a questão do preconceito
longe de representar o cerne procriativo. A
e da consequente discriminação (BOBBIO,
hegemonia cristã, portanto, com o ideal de
2004, p.186)
família como meio, sofre um golpe, mesmo
que valores como monogamia e família
O pensamento mais radical e de certos
nuclear ainda apareçam. Mas vale reiterar:
setores do movimento corroboram para a
quando afirmamos que a família deve ter um
ênfase na sexualidade como movimento
sentido apenas reprodutivo, estamos
transgressor, como se houvesse discrepância
tomando o indivíduo como um meio, e não
de valores. Mas aqui voltamos ao início da
como fim em si. Aos poucos se abre a
nossa discussão, já com os elementos da
possibilidade da homossexualidade e de sua
filosofia kantiana: o diverso, a natureza
autonomia. Isto é apenas o começo.
humana singular, pode ser preservada, pois
Temos a plena consciência que, mesmo
como vimos a lógica cosmopolita é aquela
quando determinadas configurações
que preserva o todo não no indivíduo, mas na
familiares sejam arranjadas de forma a
espécie, sendo que o elemento moral na
apenas garantir o fim reprodutivo, o fato do
filosofia Kantiana nos fornece a pista para
conceito de família estender-se a casais
preservar a liberdade e a autonomia do
homossexuais em nada excluiria tal arranjo. É
indivíduo (e por consequência sua dignidade).
neste sentido que é preciso distinguir o
Achar que a extensão dos Direitos de
discurso proferido pelas minorias como se
Família a casais homossexuais é um passo
fosse algo de anulação hegemônica: em tese,
para ruir o alicerce moral da sociedade (no
os casais heterossexuais em nada seriam
argumento conservador), ou que este passo
afetados, a não ser que seja considerada uma
seria um retrocesso para as demandas do
pretensa lógica de hegemonia e de exclusão
movimento LGBT (no argumento mais radical
baseada no universalismo.
da militância), é não perceber que tal fato se
Isso quer dizer que o outro é posto a
insere em uma perspectiva de futuro, a qual
todo instante nesta relação. A defesa de uma
Kant já se referia: de forma progressiva, se vai
nova ordem jurídica não é apenas a defesa de
construindo a liberdade e tecendo as noções
seus direitos, mas também uma projeção em
de autonomia por meio do direito, sendo que
direção ao outro, cuja construção mais
o fim último da espécie humana é a
exemplar é o "Princípio da Dignidade
verdadeira instituição do direito cosmopolita,
Humana". Neste caso, a homossexualidade
cuja violação não apenas seria sentida em
não aparece mais como discurso antagônico,
todos os países, mas também na consciência
mas agônico (para usar as definições de
de todos os indivíduos. É pensar o plural e
Mouffe), isto é, se inscrevermos a
inseri-lo em uma nova moral: quem sabe uma
homossexualidade como qualquer outra
moral que acampe de forma menos
relação, como qualquer outra família, não se
problemática a questão da diversidade, para
está reivindicando o desprezo pelo até então
além da família.
hegemônico, mas a extensão dessa mesma
dignidade a um outro diferente. Não há
Conclusões
incompatibilidade. Como bem afirma Bobbio
ao discutir a tolerância:
A grande chave para entendermos a
argumentação aqui apresentada, de que o
Uma coisa é o problema da tolerância de
reconhecimento da união estável para casais
crenças e opiniões diversas, que implica
do mesmo sexo representa um progresso para
um discurso sobre a verdade e a
compatibilidade teórica ou prática de
a sexualidade de um modo geral, já que a
verdades até mesmo contrapostas; outra
perspectiva é de uma moral a longo prazo, de
é o problema da tolerância em face de
70
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.

De KantaMouffe: desenvolvendo argumentos positivos__
aperfeiçoamentos, onde o direito não é o fim,
pelo sexismo e pela heterossexualidade
mas apenas o meio pelo qual vão se
compulsória.
construindo as vontades humanas.
0 debate atual gira em torno de
Referências
compreendermos a tensão entre diversidade
e hegemonia. Como neste trabalho a ideia foi
ÁVILA, Maria Betânia; PORTELLA, Ana Paula
apresentar o problema e resgatar o
& FERREIRA, Verônica (org.) (2005). Novas
pensamento kantiano, a não conceituação de
legalidades e democratização da vida social:
ambos os termos pode ter provocado uma
família, sexualidade e aborto. Rio de Janeiro:
justa lacuna. Contudo, é possível perceber
Garamond.
que a visão cosmopolita de Kant, ao centrar
na projeção da espécie, nos garante um passo
BUTLER, Judith. (2008). Problemas de
além das justificativas centradas no
gênero: feminismo e subversão da
imediatismo do sujeito, o que é suficiente
identidade. Rio de Janeiro: Civilização
para os propósitos deste trabalho.
Brasileira..
Ora, a característica inerente ao
indivíduo, corretamente expressa em sua
FOUCAULT, Michel. (1993). História da
orientação sexual, é apenas um acidente
Sexualidade I: A vontade de saber. Rio de
numa série de direitos a serem reivindicados,
Janeiro: Graal.
como a própria constituição de uma família,
como a livre expressão, como a manifestação
_
_
. (1979). Microfísica d o poder. Rio
livre de gênero e tantos outros. Kant,
de Janeiro: Graal.
portanto, nos fornece elementos chaves para
não subjetivarmos e delimitarmos a busca por
FRY, Peter & MACRAE, Edward. (1991). O que
direitos, mesmo quando essa delimitação é
é homossexualidade. 7- Ed., São Paulo:
historicamente necessária e, portanto, apenas
Brasiliense.
contingente.
Esta conquista do movimento, se olhada
HALL, Stuart. (2006). A identidade cultural na
num percurso histórico de longo prazo, deve
pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da
ser comemorada, e tão somente por ser
Silva, Guacira Lopes Louro - 11 ed. - Rio de
pontual e precária. Não é, nem pode ser, a
Janeiro: DP&A.
construção final dos seus agentes. Afinal,
ainda é preciso preservar a liberdade e a
KANT, Immanuel. (1986). Idéia de uma
autonomia, princípios caros ao movimento
história universal de um ponto de vista
LGBT e de importância incalculável, já que
cosmopolita. São Paulo, Brasiliense.
não encerra a possibilidade de novas
demandas e de contestação crítica do
KANT, Immanuel. (1964). Fundamentação da
presente. De fato, ao conformar a
Metafísica dos Costumes. Tradução e notas
homossexualidade ao modelo de família
de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo:
tradicional, corre-se o risco do
Companhia Editorial Nacional.
"assimilacionismo", mas risco altamente
altruísta, na medida em que é acompanhado
MENDONÇA, Daniel de (2003). A noção de
da quebra da hegemonia heterossexista, do
antagonismo na Ciência Política
prolongamento de direitos e de uma visão
contemporânea: Uma análise a partir da
holística mais próxima à moral Kantiana.
perspectiva da teoria do discurso. Rev. Sociol.
Neste sentido, a autonomia, tão propalada
Polít., Curitiba, 20, p. 135-145.
pelos defensores de uma sexualidade
libertária, tem um terreno muito mais fértil
_
_
. (2009). Como olhar o "político" a
do que em um ambiente familiar dominado
partir da teoria do discurso. Revista Brasileira
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.
71

_De Kant a Mouffe: desenvolvendo argumentos positivos
de Ciência Política, n^ 1. Brasília, pp. 153-169,
Recebidoem: 13/04/2012
janeiro-junho.
Aceito para publicação: 17/11/2012
MONTESQUIEU, Charles Louis de (1973). Do
espírito da Leis. In: Coleção os pensadores.
São Paulo, Abril Cultural.
MOTT, Luiz (2001). A revolução Homossexual:
o poder do mito. REVISTA USP, São Paulo,
n.49, p. 40-59, março/maio 2001.
RIOS, Roger Raupp; GOLIN, Célio & LEIVAS,
Paulo Gilberto Logo. (2001).
Homossexualidade e direitos sexuais:
reflexões a partir da decisão do STF. Porto
Alegre: Sulina.
SEDGWICK, Eve Kosofski. (2007) A
epistemologia do armário. In: Cadernos
PAGU. Campinas, n? 28 (JAN/JUL), p. 65-99.
SIMÕES, Júlio Assis & FACCHINI, Regina. N.
(2009). Na trilha do arco-íris: do movimento
homossexual ao LGBT. São Paulo: Editora
Fundação Perseu Abramo, 2009.
Sobre os autores:
Alan Michel Santiago Nina: Mestrando
do Programa de Pós-Graduação em Ciências
Políticas (UFPA) e graduando do curso de
Ciências Econômicas (UFPA). Formado em
Ciências Sociais pela UFPA e membro do
Movimento em Defesa da Diversidade Sexual
Grupo Orquídeas. E-mail:
alanpotter17@hotmail.com;
Carlos Augusto da Silva Souza: Professor
do programa de Pós-Graduação em Ciências
Políticas (UFPA). Possui mestrado e doutorado
em Ciência Política pelo Instituto Universitário
de Pesquisas do RJ/TEC. (Conceito CAPES 7),
atuando principalmente nos seguintes temas:
democracia, geografia eleitoral,
representação territorial, partidos políticos,
competição política e eleições,
desenvolvimento da Amazônia e urbanização
na Amazônia. E-mail: carlossouza@ufpa.br.
72
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 59-72, 2012.

"EU TENHO MEDO DE FICAR AFEMINADO": PERFORMANCES E CONVENÇÕES
CORPORAIS DE GÊNERO EM ESPAÇOS DE SOCIABILIDADE HOMOSSEXUAL
"I'M AFRAID OF BEING EFFEMINATE": PERFORMANCES AND BODILY GENDER
CONVENTIONS IN HOMOSEXUAL SOCIABILITY SPACES
Ramon Pereira dos Reis
Universidade de São Paulo
Resumo
Trata-se de um investimento analítico sobre performances e convenções
corporais de gênero de homens homossexuais frequentadores de dois
espaços de sociabilidade homossexual - Lux e Malícia - em Belém, Pará.
Alargando as análises para além dos espaços referidos, interessa-me
perscrutar situações em que os entrevistados expuseram falas de
constrangimento ou medo de se efeminarem e, de que a presença em
algum dos lugares supracitados pudesse trazer feminilização na constituição
de si. Para tanto, realizei observações diretas nos espaços e entrevistei nove
homens homossexuais, com aplicação de questionário semiestruturado,
entre agosto de 2010 a agosto de 2011. Pude constatar que Lux e Malícia
retratam, através dos seus frequentadores e dos equipamentos disponíveis,
a produção de performances corporais e de gênero distintas: representadas
pela repulsa e recusa à uma feminilidade espalhafatosa que é "produzida"
pela Lux, em contraponto à uma masculinidade respeitável "produzida" pelo
Malícia.
Palavras-chave:-chave: convenções corporais de gênero; espaços de sociabilidade
homossexual; homens homossexuais; performances;
Abstract
This is an investment analytical on performances and bodily gender
conventions of male homosexuals frequenting of two homosexual sociability
spaces - Lux and Malícia - in Belém, Pará. Extending the analysis beyond
those spaces, I am interested in peer situations where respondents exposed
lines of embarrassment or fear of effeminate and that the presence at some
places above could bring feminization of the constitution itself. Therefore, I
direct observations in the spaces and interviewed nine male homosexuals,
applying semi-structured questionnaire, from August 2010 to August 2011. I
could see that Lux and Malícia portray, through their regulars and
equipment available, the "production" of body performances and gender
distinct: represented by revulsion and rejection of femininity blatant that is
"produced" by Lux, as opposed to a respectable masculinity "produced" by
Malícia.
Keywords: bodily gender convention; homosexual sociability spaces; male
homosexuals; performances;
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012. 73

_Eu tenho medo deficar afeminado": performances e convenções
Resumen
Este es una análisis de las actuaciones y convenciones corporales de género
de hombres homosexuales que frecuentan dos espacios de sociabilidad
homosexual en la ciudad de Belém (Pará/Brasil): Lux y Malícia. Más allá de
pensar esos espacios en específico, estoy interesado en las situaciones en
las cuales los entrevistados mencionaron el miedo de afeminarse o de que
su presencia en algunos de esos lugares pudiera traerles características
femeninas. Con ese objetivo, realisé observaciones directas en los dos
espacios y entrevisté nueve hombres homosexuales, con cuestionarios
semi-estructurados, entre agosto de 2010 y agosto de 2011. Pude constatar
que Lux y Malícia retratan, a través de sus clientes habituales y de los
equipos disponibles, la producción de representaciones corporales y de
género distintos: Lux se caracteriza por la "producción" de una feminilidad
extravagante que es motivo de rechazo por parte de unos, constituyendo-se
como contrapunto a una masculinidad respetable "produzida" por Malícia.
Palabbras chchave:chchave: convenios corporais de género, espacios de sociabilidad,
gay, actuaciones.
O corpo não pode ser visto como uma
Minha proposta aqui é trazer à baila questões
tela neutra, uma tabula rasa biológica na
que envolvem negociações estabelecidas em
qual masculino e feminino possam ser
torno do termo "masculinidade",4 a partir da
projetados de modo indiferenciado.
análise das posturas corporais e falas dos
Elizabeth Grosz (2000 [1994])
entrevistados.
Alargando as análises para além dos
espaços referidos, interessa-me perscrutar
Apresentando o campo...
situações em que os entrevistados expuseram
falas de constrangimento ou medo de se
Neste artigo procuro recuperar o
efeminarem e, de que a presença em algum
debate sobre perfomances e convenções
dos lugares supracitados pudesse trazer
corporais de gênero presente em minha
feminilização na constituição de si. Para tanto,
pesquisa de mestrado (Reis, 2012). Para a
realizei observações diretas na Lux e no
dissertação, a ideia foi compreender como se
Malícia e entrevistei nove homens
estabeleciam as relações afetivo-sexuais entre
homossexuais, com aplicação de questionário
homens homossexuais1 num estudo
comparativo em dois espaços de sociabilidade
homossexual de Belém, Lux2 e Malícia.3
bairro do reduto. A partir do início de 2011, após o
término do contrato, mudou de endereço para a
Avenida Senador Lemos esquina com a Avenida
Não nego a variedade de categorias utilizadas pelos
Almirante Wandenkolk, no bairro do Umarizal.
entrevistados, no entanto me valho desta expressão
Atualmente, a Lux está desativada.
como forma de conferir alguma inteligibilidade aos
3 Sobre informações comerciais a respeito da Malícia,
sujeitos (Facchini, 2008; França, 2012 [2010]).
ver o site:< http://www.maliciapub.com/2012/>,
2 O atual blog da Lux foi desativado, as informações
acesso em 17/07/12. Desde meados de 2008 até os
sobre o espaço estão soltas em vários sites na internet,
dias atuais o Malícia está localizado na Rua Rui
trago informações do site A capa. Fonte:<
Barbosa, entre Manoel Barata e 28 de Setembro, no
http://acapa.virgula.uol.com.br/lifestyle/lux-balada-
bairro do reduto.
classica-de-belem-do-para-e-diversao-
4 O termo "masculinidade" está grafado com o uso de
garantida/1/1/7916>, acesso em 17/07/12. De 2007
aspas para indicar que a movimentação dos sujeitos e
até o final de 2010 a Lux estava situada na Rua Rui
suas performances corporais, nos espaços em questão,
Barbosa, entre Municipalidade e Gaspar Viana, no
são constantemente construídas e reconstruídas.
74
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012.

Eu tenho medo deficar afeminado": performances e convenções__
semiestruturado, entre agosto de 2010 a
de filmes pornô gay e na parte de cima onde
agosto de 2011.
era uma cozinha transformaram em um bar e
Em se tratando do período da pesquisa
um lounge com sofás e tela LCD. Mudanças a
de campo, notei que a presença da Lux, no
parte, é perceptível como a sustentação do
cenário GLS5 da capital paraense, funcionava
espaço é dada pela constante transformação,
como espaço, majoritariamente, frequentado
caso contrário a tendência ao fracasso e
por homossexuais mais novos (bichas new
perda de público é grande, de acordo com os
generation), efeminados (bichas pintosas) e
comentários dos frequentadores e dos
de classe social baixa (bichas pererecas), que
proprietários.
estariam começando a adentrar nesse
Ao longo de quase cincos anos de
universo de casa noturna, (homo)
existência, várias festas temáticas e vindas de
sociabilidades, posturas e linguagens
DJs, principalmente de São Paulo, foram mola
específicas; bem como daqueles que são,
propulsora para o reconhecimento do Malícia
constantemente, alijados do convívio social, a
no cenário GLS paraense. Nesse sentido, aos
exemplo de travestis, transexuais,
poucos a Lux foi "trocada" pelo Malícia, para
transgêneros (homens homossexuais que
um determinado público de homens
praticam cross-dressing e, Drag Queens6).
homossexuais mais velhos (bichas barrocas),
Os homens homossexuais
mais masculinos (monas ocó) e de classe
frequentadores da Lux comentavam que
média / média alta (bichas finas). Apesar de
não tem frescura, não tem bicha que faz
uma grande parte do público de homens
carão, há uma liberdade maior na Lux, tem
homossexuais de Belém serem de classe
shows de Drag's. Acrescenta-se a tais
social baixa, há um pequeno grupo de
colocações dois fatores: distribuição de flyers
homens homossexuais de classe média /
(papel informativo sobre a casa noturna e os
média alta, porém não tive acesso a esse
eventos) que funcionam como cortesias, e, as
grupo, apesar das tentativas em me parecer
constantes promoções de bebidas. O dia de
pertencente a eles, eu não consegui. Minha
maior público é o sábado, onde, pode-se ver
hipótese é que meu porte físico, magro, meus
de forma expressiva: Drag's, bichas pintosas e
traços faciais indígenas e minha performance
new generation, vindas especialmente pelas
corporal efeminada, afastavam-me deles.
apresentações de Drag Queens, que
Não há competição declarada entre
mobilizam torcidas organizadas, em semifinais
proprietários e públicos da Lux e do Malícia, o
e finais de concursos (Drag Number One, Top
que ocorrem são marcações simbólicas e
Blond, Miss Pará Gay).
materiais, principalmente de classe
O Malícia era uma residência que foi
(aparecendo aqui como indicador de
reformada com a intenção de abrigar um casa
desigualdade socioeconômica). Para os
noturna. As atrações se revezavam entre
frequentadores do Malícia, não basta apenas
festas temáticas (Festas de ano novo, Natal,
ter um carro, um celular de última geração,
Festas juninas, Eróticas, Divas, etc.) e a
usar roupa de grife; é preciso saber manejar
presença de DJs, principalmente, de São
tais bens (Bourdieu, 1983), é preciso ter uma
Paulo. De 2008 para 2011 ela passou por
performance de classe que convença os pares
algumas reformas: havia uma loja de roupas
e, em se tratando da busca por parceiros isso
que foi retirada, o número de bares
é aspecto fundamental.
aumentou, adaptaram uma sala para exibição
Sobre a busca por parceiros e a
circulação entre os espaços, nos primeiros
seis meses de incursão pouco notei o trânsito
Sobre a ideia brasileira de GLS (Gays, Lésbicas e
de pessoas entre os dois lugares; conforme a
Simpatizantes) ver França (2007).
intensidade no campo algumas coisas foram
Sobre estudos que tratam de sujeitos que praticam
ficando mais claras. Percebi, aos poucos, que
cross-dressing e sobre Drag Queens, ver os trabalhos
de Vencato (2009; 2002, respectivamente).
precisaria aprender a jogar com o espaço,
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012.
75

_Eu tenho medo deficar afeminado": performances e convenções
produzir minha performance corporal de
exagerada com a imagem e com os
acordo com o que o ambiente e as pessoas
comentários a posteriori.
queriam, usei esta tática como forma de
Quando comecei a entender como se
atrair colaboradores para a pesquisa.
dava a circulação, dos homens homossexuais,
A partir do exposto acima pensei:
entre tais espaços de sociabilidade
comportamentos e vestimentas
homossexual, compreendi que além da busca
diferenciadas, de um lugar para o outro,
por parceiros, havia uma complexa rede de
geram diferentes olhares e investidas; ou seja,
relações repleta de tensões e conflitos. No
para uma maior aceitação e maior simpatia
Malícia, por exemplo, os gestos corporais
dos frequentadores, no Malícia, eu usava uma
espalhafatosos tinham que ser contidos, bater
roupa "da moda", fazia uma make-up
cabelo nem pensar!; Nada de uso de roupas
(maquiagem) babado,7 mantinha um
do vestuário feminino. Lembro, como se fosse
comportamento de discrição, gastava mais
hoje, quando fui ao Malícia usando uma
dinheiro com bebidas e, como não podia
bermudinha. Um dos colaboradores da
faltar, fazia um pouco de "carão"8, porém no
pesquisa viu e veio falar comigo: Que roupa é
momento em que os meus movimentos de
essa?... Eu ri e, em seguida retruquei: Olha!
dança começavam a ficar mais "feminilizados"
As pessoas não são somente as roupas que
(rebolar, desmunhecar, "bater cabelo"9),
vestem, são muito mais que isso. Naquele
automaticamente, eu passava de parceiro em
momento, entendi, claramente, como o
potencial (Meinerz, 2011 [2005]; Facchini,
vestuário destacava e demarcava pessoas
2008) para parceiro recusado.
naquele contexto.
Durante as incursões na Lux sempre
houve a preocupação com a vestimenta, a
Desde a mais tenra infância meninos e
diferença é que eu dava menor atenção ao
meninas vão sendo diferenciados pelo
artifício das roupas e sendo ensinados
uso de roupas de grife e tinha uma liberdade
sobre a forma adequada como cada sexo
maior para compor um visual mais
deve se vestir. As meninas são vestidas
"transgressor" e menos padronizado que no
com roupas em tons rosa ou amarelo,
Malícia: usava bermudinhas, make up
com estampas florais ou de animais
domésticos, podendo ter enfeites
carregada, camisetas com decote maior. Eu
colocados na cabeça (laços) ou nas
percebia que naquele espaço as pessoas se
orelhas (brincos). Já os meninos são
sentiam mais livres para dançar, comprar
vestidos de azul, com estampas de bolas
bebida barata, mostrar o celular que não é de
de futebol ou de animais selvagens, como
última geração; não havia a preocupação
leões ou tigres. Enfeites são impensáveis.
Esse processo se estende por toda a
infância e adolescência e os desajustes no
seu desenvolvimento podem gerar sérios
transtornos (Dutra, 2002, p.362).
O uso da expressão make-up babado procura
evidenciar, de forma êmica, o trato com a maquiagem
e o próprio uso que se faz dela, num espaço onde ter o
Além da roupa, as performances
rosto limpo e sem marcas de expressão ou de acne é
corporais mais masculinas ditam o estilo do
aspecto fundamental no momento do flerte, por
lugar.10 Para atrair parceiros não se deve
exemplo. Por isso, em alguns casos há um exagero na
bater cabelo de forma exagerada, por
maquiagem, ouvi várias vezes a seguinte frase:
"carrega (exagera) na make-up!".
8 Valer-se de uma expressão facial que indica soberba,
Tal como sinalizaram os informantes de Oliveira
arrogância, e a seleção exaustiva de parceiros.
(2006), reconheço que no contexto tanto da Lux
9 Movimentação circular ou ziguezagueada com a
quanto do Malícia, também, há uma representação de
cabeça, recorrentemente, explorada pelas Drag
performance masculina ou feminina por meio do jeito
Queens em suas apresentações, consistindo em
de cada pessoa, como sendo muito mais que a adesão
balançar a peruca, num movimento bastante
a um estilo de vestuário, tem a ver com uma certa
acelerado, como forma de mostrar que a peruca não
'atitude' que seria perceptível em todos os gestos e
sairá da cabeça.
atos da pessoa (p. 66)
76
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012.

Eu tenho medo deficar afeminado": performances e convenções__
exemplo. O que, a meu ver, contribui para
formas variadas de se pensar a
esse tipo de postura corporal, é a ausência de
masculinidade, para a maioria da população,
shows de Drag Queens e, apenas a
"ser homem significaria fundamentalmente
apresentação de DJs e de GO GO boys, no
duas coisas: não ser mulher, e ter um corpo
caso do Malícia. Durante a pesquisa não vi
que apresenta órgãos genitais masculinos"
nenhuma travesti, transexual ou transgênero
(Vale de Almeida, 2000, p. 127). Nesse caso,
(homens homossexuais praticantes de cross-
ao propormos uma análise dessa natureza
dressing, Drag Queens) circulando pelas
corremos o risco de restringir nosso campo
dependências do Malícia. Vi majoritariamente
argumentativo ao simples fato de colocações
homens homossexuais, mulheres
refletidas na figura do pênis. Nosso ponto de
homossexuais e alguns casais heterossexuais.
partida fundamental para investigar a
É importante frisar que de 2010 a 2011 houve
masculinidade deve ser a distinção entre sexo
um aumento do público de casais
e gênero (Rubin, 1986).
heterossexuais nos dois espaços, os casais
O antropólogo Miguel Vale de Almeida
justificam a maior frequência nos espaços de
(2000) em sua clássica etnografia portuguesa
sociabilidade homossexual pelos poucos
sobre uma interpretação antropológica da
índices de violência e, porque a música é
masculinidade na comunidade alentejana de
melhor do que nas baladas hétero.
Pardais, o que fez surgir o livro - Senhores de
No universo de tais conflitos e tensões
si - o autor fornece uma valiosa interpretação
levantados, é imprescindível que se tenha em
sobre o discurso e práticas da masculinidade,
mente as contribuições tanto dos sujeitos
dando ênfase aos aspectos discursivos e
quanto dos espaços. Se nos primeiros meses
performativos; nestas análises o "ser homem"
tive dificuldades em lidar com esta pesquisa,
seria uma construção diária, dada na
em todos os sentidos, tenho plena convicção
de que quando consegui dosar a figura do
Na interação social, nas construções
telespectador com a de pesquisador, não
ideológicas, nunca se reduz aos
caracteres sexuais, mas sim a um
pude deixar de compreender como este
conjunto de atributos morais de
estudo é um empenho em contribuir para a
comportamento, socialmente
investigação de processos de subjetivação.
sancionados e constantemente
Tentei, inicialmente, me focar nos trajetos e
reavaliados, negociados, relembrados. Em
trajetórias individuais, porém fui sendo levado
suma, em constante processo de
construção (idem, p. 128).
a perceber a relação entre espaço e público e,
se isso influenciava na dinâmica das relações
Fazendo analogia ao pensamento de
entre homens homossexuais. Finalizo,
Simone de Beauvoir (1967), poderíamos dizer
chamando atenção para a importância em
então que "não se nasce homem: torna-se
investigar as performances e convenções
homem"? Tomando como ponto de partida o
corporais de gênero, na Lux e no Malícia, pela
contexto da pesquisa e os sujeitos que estão
atmosfera de tensão existente entre
inseridos nos espaços de sociabilidade
homossexuais mais femininos e homossexuais
homossexual, a construção de uma
mais masculinos, leia-se: estigmatizados
identidade homossexual masculina,11 levaria
versus aceitáveis; espalhafatosos versus
respeitáveis; consequentemente.
No caso das relações estritamente sexuais dentro e
fora das boates, ser homem significa ser ativo. A
"Masculinidades"..a
alguns
categoria "homem", nesse caso, abarcaria todos os
apontamentos
indivíduos do sexo masculino que supostamente
mantivessem posição "ativa" em relações sexuais com
mulheres ou homens, indiferentemente. Homens
Embora o caráter interrelacional do
sexualmente "passivos", tratados como "bichas",
gênero dialogue com os mais variados
"viados", etc. seriam percebidos como uma espécie de
contextos e nos faça pensar que deva haver
híbridos, nos quais atributos anatômicos masculinos se
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012.
77

_Eu tenho medo deficar afeminado": performances e convenções
em conta o ato performativo em si, aquilo
dissidentes, indivíduos homossexuais e
que é percebido ao movimento do olhar e
sociedade se movimentavam de maneira
que, é positivado ou negativado dependendo
crítica e política, os primeiros lutariam para
de: gosto, conveniência, aceitação pelo grupo.
que a subjetividade individual fosse
Lux e Malícia são espaços onde não há um
respeitada e encarada como mais uma forma
comportamento homossexual único, o
de sexualidade e, a sociedade estaria
homem homossexual ao interagir com os
encarregada de corrigir os "anormais",
demais, no ambiente interno, estabeleceria
higienizando-os e exterminando qualquer
para si conjuntos de atributos morais de
comportamento fora do padrão
comportamento que validariam ou
heterossexual.
invalidariam a busca por parceiros.
Na construção histórica da
Em História da Sexualidade - a vontade
homossexualidade brasileira descrita por
de saber- Foucault (2007 [1988]) traz à baila,
Peter Fry (1982) três sistemas distintos
através do método genealógico de poder e
regulariam o pensamento sobre a
das arqueologias do saber, um minucioso
homossexualidade a partir da visão de classes
estudo sobre o aspecto discursivo da
sociais distintas. O primeiro diria respeito aos
sexualidade, campo que para muitos estaria
pólos masculinidade / atividade sexual versus
ligado ao âmbito individual e, que, portanto
feminilidade / passividade sexual; o segundo
não deveria ser publicizado. O sistema de
distinguiria orientação sexual de gênero, isto
poder ditaria as leis. O que significa, em
é, todos os indivíduos que mantivessem
primeiro lugar, que o sexo fica reduzido, por
relações sexuais com pessoas do mesmo sexo
ele, a regime binário: lícito e ilícito, permitido
seriam considerados homossexuais, não
e proibido (idem, p. 93).
importando mais a posição "ativa" ou
A partir da leitura da obra acima, foi
"passiva"; e, por fim os sujeitos procurariam
possível perceber que a sexualidade é
se diferenciar um do outro a partir da
composta por meio de um sistema analítico
disjunção entre orientação sexual e gênero,
de discurso-corpo, que grafa nestes a
eles afirmariam sua subjetividade
constituição de formas e subjetividades, tal
homossexual a diferenciado daquelas
pensamento foi certamente de grande
heterossexuais (Carrara e Simões, 2007).
impacto na formatação de uma visão
Em Problemas de Gênero: feminismo e
dessencializante sobre a sexualidade (Weeks,
subversão da identidade (2003) Judith Butler
2000; Carrara e Simões, 2007). Foucault faz
mostra que a matriz heterossexual na qual
uma crítica aos sexólogos, quando mostra que
estamos acostumados a perceber não
a especialização de uma ciência da
corresponde à realidade, quando voltamos
sexualidade não foi, de todo modo, exitosa,
esta discussão aos homossexuais, por
acarretando à sociedade uma área de
exemplo. Para Butler, pensar sexosexo-gênero-
conhecimentos específicos que buscaria, de
desejo numa linha horizontal e seqüencial de
todas as maneiras, ser detentora e
nenhum modo permitiria aos sujeitos
propiciadora de "verdades absolutas". De um
dissidentes exercerem suas liberdades
lado, os cientistas tentando encontrar
corporais, pois se tomarmos como verdade a
respostas para a sexualidade, dizendo o que é
premissa de que: pênis = masculino =
certo e errado; do outro lado avistamos
heterossexual = relacionamento afetivo-
sujeitos, por exemplo, homossexuais que
sexual com mulheres / mulheres = vagina =
cotidianamente eram atacados e criticados
feminino = heterossexual = relacionamento
por manifestarem comportamentos
afetivo-sexual com homens, desta forma não
estaríamos aptos a encarar o gênero
enquanto um efeito performativo.
misturariam a características de gênero femininas (as
famosas almas femininas em corpos masculinos)
(Carrara e Simões, 2007, p. 69-70).
78
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012.

Eu tenho medo deficar afeminado": performances e convenções__
El género es una complejida cuya
mas se aproxima das políticas de
totalidad se posterga de manera
reconhecimento na academia americana e no
permanente, nunca aparece completa en
resto do mundo (idem).
una determinada coyuntura en el tiempo.
Así, una coalición abierta creará
De alguma forma, as percepções a
identidades que alternadamente se
respeito de um quadro conceitual do que
instauren y se abandonen en función de
seria: ser e / ou se comportar como homem /
los objetivos del momento; se tratará de
mulher / gay / lésbica / travesti / transexual /
un conjunto abierto que permita
múltiples coincidências y discrepancias sin
bissexual, vai muito além do simples fato de
obediencia a um telos normativo de
dizermos que somos isso ou aquilo, nosso
definición cerrada (Butler, 2007, p. 70).
discurso se torna conveniente e convincente a
partir do lugar do qual falamos. O discurso
Butler (2003) critica a noção das
que queremos ouvir a respeito de identidades
feministas humanistas, como Simone de
LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
Beauvoir (1967) que coloca a posição da
Transexuais) é formatado, higienizado,
mulher de forma hierárquica e inferior ao
classificado; nesse caso transitar, entre uma
homem, construindo a noção de mulher una.
ou outra identidade, não é o correto /
A crítica de Butler é que essa noção seria boa
aceitável na sociedade brasileira. De certa
para pensar, porém não dá conta de entender
forma, como nos lembra Fry (1982), as
o gênero como um processo relacional,
taxionomias são profecias que se cumprem.
produtor de subjetividades, deixando de
Postula-se, por exemplo, a existência de um
compreender que a mulher se constitui como
tipo natural, o homossexual, com sua essência
processo, com articulações entre gênero,
e especificidade, e logo ele passa a existir
classe e "raça", por exemplo. Mulher e
(idem, p. 89).
homem seriam termos em processos; um
Vimos, ao decorrer deste tópico, que as
devir.
"masculinidades" e "feminilidades" não
A contribuição de Tom Boellstorff
podem permanecer encapsuladas; da mesma
(2007) é significante para situarmos a
forma, os comportamentos gestuais e
discussão, sobre os estudos queer, no campo
discursivos dos homens homossexuais mais
da antropologia, em seu artigo intitulado -
masculinos / mais femininos no que se refere
Queer Studies in the House of Anthropology -
à: bichas finas, bichas pererecas, bichas
ele analisa as pesquisas sobre sexualidades
pintosas, monas ocó, devem ser observados
publicadas, em Inglês, desde 1993, focando
como construções agenciais e negociáveis.
sobre o trabalho direcionado às mulheres
lésbicas, homens gays, e pessoas
"Eu tenho medo de ficar afeminado":
transgêneros, bem como ao uso da história,
performances e convenções corporais de
lingüística e geografia. Boellstorff nos mostra
gênero
como, por meio de questionamentos, como
as questões de interseccionalidade, inclusão,
"Eu tenho medo de ficar afeminado ao
e diferença tem propriciado a emergência de
longo dos tem pos... Querendo ou não eu
uma antropologia queer ou uma antropologia
tenho a minha concepção, só que a
crítica da sexualidade, com especial
sociedade tem um olhar mais repressor
referência às relações entre sexualidade e
contra o afeminado, eu tenho medo por
gênero. Este autor nos mostra que a
conta disso... Pretendo manter esse meu
utilização do termo queer não pode ser
jeito assim... Digamos que nenhum nem
vulgarizada a ponto de ser utilizada em
outro, na minha, tipo, eu to bem na
qualquer contexto, pois as preocupações
minha." (Valentim, Homossexual, 23
sobre a validade e a inclusão do termo queer
anos)
reflete não apenas os conflitos sobre como
interpretar este ou aquele dado etnográfico,
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012.
79

_Eu tenho medo deficar afeminado": performances e convenções
"Não precisa ser assim, tipo aquilo que
femininos ou aparentarem maior
tu vê lá na Lux ou em outros lugares.
feminilidade, esta representação traz consigo
Pode ser um homem normal, sem
um status negativo e soa como pejorativo
feminilidade, sem nada." (Giancarlo,
perante o grupo e, nos flertes: afasta amigos,
Gay, 20 anos)
atrapalha na busca por parceiros; há um
preconceito exacerbado sobre a figura da
"Quando você é um gay estereotipado,
bicha pintosa, o que talvez não aconteça, de
afeminado, afetado, então isso tá: água
maneira mais negativa, com homens
e vinho, melhor do que água e óleo que
homossexuais tidos como mais masculinos.
não se mistura... Mas, assim, quando
De alguma maneira
você é um homossexual que tem um
comportamento mais masculinizado
Associar o homossexual ao passivo; com
isso passa despercebido entre os
raras exceções, o "desmunhecar" é
essencial para qualquer representação
amigos." (Omar, Homossexual, 39 anos)
desse tipo de personalidade. Mesmo
entre homossexuais, as chamadas "bichas
"Eu tenho um amigo que é ex-modelo.
pintosas" - os homens muito efeminados
Ele era ótimo, dava os pitis e gritava.
- sofrem muita discriminação por parte
daqueles que internalizam os
Dois anos depois ele veio em Belém,
preconceitos da sociedade, extravasando-
porque ele morava em Vigia e, quando o
os sobre os indivíduos que veem como
porteiro interfonou e disse: 'Mauro, o
mais escandalosos e cuja companhia pode
fulano tá aqui'. Eu disse: 'Beleza! Pode
ser comprometedora (Macrae, 2005
subir!'. Quando eu abri a porta de casa
[1983], p. 302).
ele tava usando uma melissa feminina,
bermuda masculina, uma blusa

A relação que se estabelece entre
morcegão com o ombro caído e um
homens homossexuais mais efeminados e
sutiã aparecendo, um cabelo
aqueles que se dizem mais discretos, ganha
gigantesco, óculos femininos e de
contornos parecidos às da realidade
batom... Jesus! Eu acho que eu me
estudada. Não cabe generalizar tais
preocupo muito com o que as pessoas
colocações, quero apenas mostrar que essas
vão pensar, também. Mas, na real, me
performances corporais se deslocam para
incomoda, eu não acho legal... Uma
polos hierárquicos: masculino = superior;
coisa que a minha mãe sempre mefalou
feminino = inferior. Circunscrito a esses
foi pra eu nunca me vestir de mulher,
espaços, há uma espécie de modelo político
pra eu nunca me tornar um cara
de gestão dos corpos e dos desejos, o qual diz
feminino, e eu nunca vi necessidade
que: "homens que querem viver sexualidades
disso, quer ser feminino então te
não-heterocentradas são estigmatizados
assume como travesti, vai pra Europa,
como não sendo normais, suspeito de serem
faz peito, faz bunda, mas não existe
"passivos" e ameaçados de serem assimilados
esse meio termo: 'Ah! Eu sou homem e
e tratados como mulheres" (Welzer-Lang,
eu sou feminino, a minha voz é fina.'"
2004, p. 120). Aqueles que possuem uma
(Felício, Gay, 28 anos)
performance corporal mais feminina feminina
são reconhecidos como desviantes,12
Dentro e fora dos espaços notei
classificados como homossexuais afetados,
homens homossexuais "atuando" a partir do
que é mais conveniente a cada um. Muitos se
Aqueles e aquelas que transgridem as fronteiras de
preocupam com o que os outros vão pensar;
gênero ou de sexualidade, que as atravessam ou que,
de algum modo, embaralham e confundem os sinais
talvez o que mais persegue os homens
considerados "próprios" de cada um desses territórios
homossexuais, muito mais no Malícia que na
são marcados como sujeitos diferentes e desviantes
Lux, seja o fato de serem chamados de
(Louro, 2004, p. 87).
80
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012.

Eu tenho medo deficar afeminado": performances e convenções__
pintosas, viadinhos, bichinhas, como se não
rege as sociabilidades: não se vestir com
houvesse performance no lado heterossexual
acessórios e roupas femininas; saber entrar e
e como se a heterossexualidade, também,
sair dos lugares; não se escandalizar; se dar o
não fosse uma invenção.13 Deste modo, cabe-
respeito; não chamar tanta atenção; não falar
nos dizer que a "masculinidade se expressa
fino; não ser uma pessoa alegórica; não andar
como um mito efetivo da sociedade
cheio de anéis; não ter unha grande e pintada;
moderna" (Oliveira, 2004, p. 20).
não usar roupa justa.
Na Lux e no Malícia as performances
corporais e de gênero são as mais diversas
Ramon: Com relação às características
possíveis: homens homossexuais têm
físicas, quais te destacam enquanto um "gay
preferência por usar roupas consideradas
masculino"?
femininas, que gostam de se maquiar, outros
Helano (Homossexual, 25 anos): Eu não
preferem comportamentos mais discretos. "A
uso tinta no cabelo, eu não ando com o cabelo
bicha se protege envergando roupas de
alisado, eu não ando cheio de anéis, minha
mulher; o halterofilista se veste de músculos
unha não é grande, pintada, eu não uso roupa
- 'roupa de homem'. Não há uma 'natureza'
apertada, aquelas extremamente apertadas e
feminina ou masculina - tratar-se-ia de
muito coloridas, cintos e mais cintos e cordões
construções" (Perlongher, 2008 [1987], p.
e alegorias, eu não sou uma pessoa alegórica!
45). Não obstante o contato com homens
E, não é se vestir bem ou se vestir mal, mas é
homossexuais que, em alguns casos, sem se
se valer de alegorias, eu não ando assim, não
perceberem reafirmam padrões de
tenho aquele miado na voz: "E, ai?". Aquelas
"masculinidade" e / ou "feminilidade"
coisinhas na voz, eu não tenho, Então, todas
marcados e delimitados por uma
essas coisas fazem eu me qualificar enquanto
heterossexualidade que se apresenta e é vista
um gay masculino.
como natural e superior à homossexualidade;
contraposto a isso, é possível perceber uma
Ramon: Como você lida com o
maleabilidade identitária, concernente aos
comportamento de "gays afeminados" e
comportamentos que procuram
"gays masculinizados"?
problematizar o gênero e a sexualidade.
Valentim (Homossexual, 23 anos): Têm
As colocações dos entrevistados nos
pessoas afeminadas que são afeminadas, mas
levam a crer que exista uma diferença clara
elas se comportam de uma maneira que elas
entre o comportamento de homens
não precisam, tipo assim, elas não se
homossexuais mais femininos e homens
escandalizam. Agora tem gays afeminados
homossexuais mais masculinos,
que se escandalizam, querem se vestir
desencadeando diversas questões, a saber: o
diferente, botar um negócio diferente, uma
escândalo; o olhar repressor da sociedade
bolsa diferente, e não que ela seja inferior,
contra os afeminados; a relação conflituosa
aquilo é o jeito dela, ela foi criada para usar
homossexuais mais femininos e homossexuais
aquilo...
mais masculinos; comportamentos "normais"
Se dar o respeito; saber entrar e sair; eu
versus comportamentos "anormais";
não sou uma pessoa alegórica!; não se
feminilidade "natural" versus feminilidade
escandalizar. Todas essas falas confirmam a
"forçada". Percebi, na maioria das falas, o
produção de diferenças dentro e fora da Lux e
quão importante é passar uma boa imagem,
da Malícia. Como sustentação das falas acima,
ter uma boa reputação. Ao conversar com
pensamentos essencialistas reverberam na
homens homossexuais tanto de classe baixa
fala de outros homens homossexuais
quanto de classe média/média alta, verifiquei
entrevistados, bem como de outros
a existência de um padrão de aceitação que
frequentadores. Frases como: Nascemos com
o sexo definido!; Mulher é mulher e homem é
Cf. Katz, 2007.
homem!; Ainda continuam a ecoar e ganhar
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012.
81

_Eu tenho medo deficar afeminado": performances e convenções
força nas conversas, nos bares, nas casas
não sei se eu estou sendo hipócrita. Os caras
noturnas, da capital paraense.
masculinos eles têm mais aversão a namoro
por conta de que namorando eles podem se
Ramon: Como você lida com o
expor e se expondo eles podem estar trazendo
comportamento de "gays afeminados" e
alguma feminice pra si, eu vejo dessa forma,
"gays masculinizados"?
também, às vezes. Agora, são relações sociais,
Demétrio (Homossexual, 47 anos): Como
digamos que eu tenho um comportamento
é que eu posso te colocar... Eu não concordo,
"normal". Anormalidade é a sociedade que
mas eu respeito. Porque eu acho que nós
impõe: o que é masculino, o que é feminino.
nascemos com o sexo definido. Você não
Eu sei que é a sociedade que impõe, mas nós
concorda com o quê, exatamente? Com
somos seres sociais, é claro que não importa
afeminação. Com afeminação eu não
de que forma, mas se eu tiver andando com
concordo. Mulher é mulher, homem é homem,
uma pessoa efeminada... Eu não tenho
eu digo assim. Mas essa afeminação está
preconceito, mas eu não quero proximidades,
ligada a quê? Corporal mesmo! Tipo assim... O
eu não quero muita relação, até mesmo pra
cara que quer ser mulher, é isso que eu não
não me efeminar, de certa forma, porque às
concordo muito, mas respeito, é ele que quer
vezes, aí existe uma outra coisa... Tem uns
ser isso, mas eu não concordo muito, não vejo
caras que são efeminados porque eles são
isso com bons olhos.
femininos, tipo, tem cara que é efeminado e
eles, naturalmente, são dessa forma, tem uma
Uma das principais preocupações dos
forma de pegar nas coisas, tem uma forma de
entrevistados diz respeito aos seus
falar, tem uma forma de andar, mas é uma
posicionamentos em espaços públicos. Para a
coisa natural, é uma coisa que tu vê passar e,
maioria deles, a sociedade lança um olhar
é uma coisa natural! Uma coisa que não
repressor/opressor sobre o homossexual,
chama tanta atenção. Agora tem cara que é
com um carga de preconceito maior em cima
efeminado porque ele põe uma calça /
do homossexual mais afeminado. Quando se
bermuda dobradinha [risos], ele põe óculos
pensa nesse olhar repressor/opressor que a
DESTE TAMANHO e sai "piriguetando" no
sociedade lança sobre os homens
meio da rua, aí é diferente! É diferente. Um
homossexuais, principalmente sobre os mais
efeminado que é natural, e um efeminado que
afeminados, é muito comum, nas falas, a
se efemina, que se põe como feminino, que se
questão da presença de comportamentos
rasga, que se veste diferente, tipo, e esse se
"normais" e "anormais", ou mais
vestir diferente é uma coisa que depende do
especificamente numa feminilidade "natural"
ponto de vista, porque tem cara que se veste
e feminilidade "forçada". A própria sociedade
digamos que diferente, mas não
reafirma o discurso sobre o homossexual
completamente, tipo, uma vez eu estava num
aceitável. Ser homossexual e não parecer ser
shopping eu achei bacana o cara que se vestiu
é uma constante nas entrevistas, refletidos
diferente, não era assim tão diferente, ele
nas seguintes expressões: não dar pinta; não
estava com uma camisa básica, uma calça
conviver com gays mais femininos com receio
jeans normal, um tênis e com um cachecol e
de trazer feminice para si eficar afeminado.
combinou, porque ele não estava se
efeminando, dava pra saber que ele era gay,

Ramon: Sobre a questão dos homens
até por conta de que ele estava usando um
homossexuais femininos, o que te deixa mais
cachecol e aqui em Belém usar cachecol não é
constrangido?
da nossa cultura e, lá no shopping não estava
Valentim (Homossexual, 23 anos): Tem
feio, tava legal, pra ele combinou, mas tem
outro motivo que me leva a não namorar. É
gente que já quer se vestir diferente pra
que, tipo, as pessoas que mais querem
mostrar ser diferente.
namorar são as pessoas mais femininas, eu
82
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012.

Eu tenho medo deficar afeminado": performances e convenções__
Pelas palavras acima, pela não relação
relação ao universo dos sujeitos que fazem
entre homossexuais mais femininos e
sexo com sujeitos classificados como
homossexuais mais masculinos e pela suposta
masculinos" (Oliveira, 2006, p. 44). Gostar de
hipótese de que ao se relacionar com homens
homens e não de pessoas afeminadas não
homossexuais mais femininos a pessoa
significa que ele goste de homens
adquiriria algum tipo de feminice, como num
heterossexuais, mas para suas relações
exercício de incorporação de trejeitos, é que
afetivo-sexuais o homem homossexual
acontece um processo que chamei de
precisa ter uma performance de gênero
"guetificação" dos homossexuais mais
masculina.14 A maioria dos entrevistados não
femininos, fenômeno este que se expressa na
concorda com essa tal "afeminação", sob a
fala de outro entrevistado sobre o fluxo de
justificativa de que isso prejudicaria as
femininos da Lux para a Malícia.
relações consigo, com a família e amigos.
Ramon: O que você tem a dizer sobre a
Considerações finais
Lux e a Malícia?
Helano (Homossexual, 25 anos): O fato
de eu não preferir nenhuma das duas, é o fato
assim... Do ambiente, espaço boate mesmo,

Em sua pesquisa de doutorado sobre consumo,
assim como hoje eu já não frequento mais
homossexualidade e produção de subjetividades na
saunas, eu não sei, eu não to mais afim de
cidade de São Paulo, em três espaços de sociabilidade
ficar frequentado como antes, e a terceira
homossexual, França (2012 [2010]) ao analisar os
estilos e performances corporais exibidos num samba
boate que eu comentei (Hache), não é que eu
GLS, aponta os manejos utilizados por alguns
prefira ela, mas entre ir pras três, eu vou
entrevistados para atrair parceiros, na tentativa de
escolher ela (Hache), mas não é que eu
fazer um estilo mais hétero, mais masculino (...) porque
conviva, que eu vá lá com frequência, não.
os homens não estavam querendo mais as bichas;
Como eu te disse, na verdade, a primeira vez
então, ele tinha que se adaptar... (p. 222) Mais adiante
esta autora ressalta que são marcantes a visibilidade e
que eu fui foi esse ano, esse final de semana,
o valor atribuído a gays mais masculinos, tanto no
então a gente já tá no final do primeiro
âmbito do mercado como no do movimento social -
semestre, enfim... Se a Hache for, ao longo do
como evidenciam as críticas de ativistas às bichas que
tempo, agregando um público de homens
aparecem em novelas ou programas de humor da TV,
classificadas como caricatas e estereotipadas, em
homossexuais mais femininos, o que você
contraste com a aprovação declarada de personagens
acha que vai acontecer? Qual seria a minha
que encarnam gays discretos, musculosos e
reação? Simples. Assim como foi com a Lux,
masculinos. Isso não quer dizer, necessariamente, que
assim como foi com a Malícia, seria com ela.
as bichas que bicham não terão mais lugar no mercado
Eu iria parar de frequentar porque eu já não ia
afetivo-erótico (...) Em ambientes gays, entretanto, as
bichas parecem cada vez menos valorizadas, a não ser
encontrar, lá dentro, o perfil de pessoas com
em lugares frequentados pelos profissionais de moda,
quem eu quisesse me relacionar, seja com a
que prezam pela androginia e percorrem itinerários
intenção de ficar, ou simplesmente de
específicos no interior desse mercado. Em outras
conhecer para bater papo. Eu ia buscar outros
situações, também pude observar a valorização das
bichas no interior do mercado segmentado,
ambientes.
especialmente em contextos mais populares que tem
em comum com os lugares frequentados pelos
As próprias relações mais íntimas são
profissionais da moda o apreço pela prática de se
interferidas por conta de performances mais
montar, à qual jovens rapazes se dedicam com esmero.
femininas, como na frase emblemática de um
De modo geral, porém, poucos parecem dispostos a
ocupar esse lugar. Como já observamos, a rejeição à
dos entrevistados: Gosto de homens e não de
bicha parece combinar o desvio do preconceito, o
pessoas afeminadas (Demétrio, Homossexual,
reforço de um modelo em que gênero e sexualidade
47 anos). Dizer que gosta de homem,
aparecem dissociados e a rejeição a um sistema de
basicamente, implica "marcar uma posição de
classificação associado às classes populares e menos
"esclarecidas" (idem) (grifos da autora).
diferença / exterioridade / alteridade com
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012.
83

_Eu tenho medo deficar afeminado": performances e convenções
Quais as compreensões que estas
do lugar, independente da festa e dos sujeitos
etnografias noturnas na Lux e no Malícia me
(dependendo de suas intenções).
trouxeram? Os espaços constituem os
Questiono-me, através das falas que
sujeitos, ou o inverso se confirma? No
reiteram convenções sociais de gênero, leia-
movimento de trânsito entre espaços e
se: homem é homem; mulher é mulher, e das
homens homossexuais se faz necessário um
políticas de gestão das performances
olhar mais adensado, crítico e distanciado
corporais que oprimem gestos afeminados, se
para as performances e convenções corporais
não estaríamos reafirmando padrões
de gênero, como procurei mostrar neste
identitários, nos espaços de sociabilidade
artigo.
homossexual? Padrões que dizem qual a
Os espaços de lazer e sociabilidade
postura correta; qual roupa deve ser usada;
mencionados ainda são vistos, por uma
que bebida deve ser comprada para que os
grande parte de frequentadores, como
sujeitos possam parecer descolados; como
lugares circunscritos à noção, única e
devem se comportar nos momentos de flerte.
exclusiva, de divertimento, este deve ser o
Se durante toda esta pesquisa notei
papel desempenhado por eles. É instigante
convenções que tentavam me convencer de
pensar e refletir na cena espacial que
que naqueles espaços não se deveria
delimita, e identifica que determinado espaço
pesquisar, não poderia deixar de notar as
deve ser frequentado por pintosas, pererecas
convenções que foram estabelecidas para o
e new generation, ou por monas ocó, finas e
lugar e no lugar.
barrocas. No que consiste, de fato, esta
No movimento em que os
separação? Qual o sentido de uma circulação
frequentadores e entrevistados traziam
que, na tentativa de aproximar sujeitos, faz
convenções de gênero, de classe e de geração
elevar conflitos internos nos grupos?
para os espaços, é enfática a fala que coloca o
A lógica prescritiva das relações entre
sujeito na condição de representativo do
homens homossexuais sejam elas de cunho
lugar, ao mencionar que homossexuais mais
social ou afetivo-sexual, promove maior
femininos feminizam o lugar e,
distanciamento que aproximações. Como não
consequentemente, as pessoas que o
distinguir os públicos se há heterogeneidade
frequentam seriam feminilizadas, como uma
entre eles. Os modos de compartilhar ideias e
espécie de disserminador de feminices, um
opiniões possuem formatos de construção
corpo que deve ser "excluído" porque
diferenciados. Neste contexto, o diferente é
"carrega" consigo uma pecha negativa de
aquele fora do padrão (pintosa, de classe
conduta: inferioridade, alegoria, perda de
social baixa - perereca), ele não corresponde
virilidade, falta de respeito. A alcunha
ao aspecto que inclui, é sempre um parceiro
negativa que recai sobre os homossexuais
recusado, nunca em potencial. A analítica que
mais femininos reverbera aos homossexuais
recobre a noção de parceria em potencial
mais velhos e aos de classe baixa,
deixa entrever que o termo ganha força
empurrando-os sempre para a base e nunca
quando coadunado com o espaço. É neste,
para o topo. É bom lembrar que, os que estão
com este, e nunca isolada, que a
na base de sustentação, também, promovem
potencialidade do parceiro se constrói /
processos de alijamento contra os homens
reconstrói, por meio de: estabilidade
homossexuais mais masculinos, de classe
financeira, corpo em forma e performance
média / média alta e mais novos. Posso dizer
corporal masculina. Seguindo esse raciocínio,
que o cenário visualizado é de tensão e de
é correto afirmar que sujeitos e espaços se
conflito.
produzem mutuamente? Há, minimamente,
Nas relações com os amigos e
uma relação mútua entre lugar e pessoa, esta
posturas nos espaços públicos, os
joga com o lugar e vice-versa. O reflexo desta
entrevistados, a partir de um discurso
análise se dá na perspectiva de apresentação
recorrente, expuseram os limites que devem
84
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012.

Eu tenho medo deficar afeminado": performances e convenções__
haver com relação aos comportamentos: ser
Beauvoir, S. de. (1967). O segundo sexo II: a
discreto e se dar o respeito, saber se
experiência vivida. São Paulo: Difusão
comportar nos determinados ambientes,
Européia do Livro.
foram os mais reiterados. Não sei, ao certo, se
sair ou não sair do armário facilita ou dificulta
Boellstorff, T. (2007). Queer studies in the
o convívio social, alguns mostram,
house of anthropology. Annual Review of
enfaticamente, que sim, porém mesmo
Anthropology, 36, 17-35.
aqueles que já se assumiram continuam
impondo limites comportamentais,
Bourdieu, P. (1983). Gostos de classe e estilos
justificando que posturas mais afeminadas
de vida. Em R. Ortiz (Org.). Pierre Bourdieu -
seriam um chamariz para atitudes
Coleção Grandes Cientistas Sociais, 39, São
homofóbicas. Não cabe aqui dizer que os
Paulo: Ática.
homens homossexuais, da Lux e do Malícia,
devem ser mais masculinos para impedir que
Butler, J. (2003). Problemas de Gênero:
atitudes homofóbicas ocorram, a questão é
feminismo e subversão da identidade. Rio de
que há uma relação de constrangimento e
Janeiro: Civilização Brasileira.
"conflito", expressa nas relações entre
homossexuais mais femininos e homossexuais
_ _ . (2007). E l género e n disputa: e l
mais masculinos. Nestas relações ocorrem, de
feminismo y la subversión de la identidad.
maneira clara, convenções generizadas de
Barcelona: Paidos Studio 168.
poder.
Com relação à produção de corpos nos
Carrara, S.; Simões, J. A. (2007). Sexualidade,
espaços, podemos pensar que a circulação de
cultura e política: a trajetória da identidade
travestis, drag queens, transexuais,
homossexual masculina na antropologia
praticantes de cross-dressing, no ambiente da
brasileira. Cadernos Pagu, 28, Campinas, São
Lux traria feminilidade para o local, tal como
Paulo, 65-99.
afirmou um entrevistado? Até que ponto isso
pode ser levado em consideração? Bom, se
Dutra, J. L. (2002). Onde você comprou esta
formos pensar que na Lux há a liberação da
roupa tem para homem?: a construção de
entrada para aquelas pessoas que forem
masculinidades nos mercados alternativos de
montadas (rapazes que se travestem de
moda. Em M. Goldenberg et alli. (Org.). Nu &
mulher), há a promoção de concursos de
Vestido: dez antropólogos revelam a cultura
beleza negra, miss Pará, etc. e onde você
do corpo carioca. Rio de Janeiro: Record.
encontra rapazes homossexuais mais jovens
que estão passando por um processo de
Facchini, R. (2008). Entre umas e outras:
aprendizado de uma (homo) sociabilidade e
mulheres, (homo) sexualidades e diferenças
cada vez mais se "feminilizando", seja pelo
na cidade de São Paulo. Tese de Doutorado,
simples prazer de usar roupa do vestuário
Programa de Pós-Graduação em Ciências
feminino ou para facilitar a entrada, visto que
Sociais, Universidade Estadual de Campinas,
são de classes sociais mais baixas e, isso
São Paulo, SP.
ajudaria a se "encaixar" nesse universo; tais
Foucault, M. (2007). História da sexualidade I:
hipóteses se confirmam na repulsa e recusa a
a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal.
esta feminilidade periférica / espalhafatosa
(Original publicado em 1987).
que é "produzida" pela Lux em contraponto a
uma masculinidade respeitável "produzida"
França, I. L. (2007). Sobre "guetos" e
pelo Malícia.
"rótulos": tensões no mercado GLS na cidade
de São Paulo. Cadernos Pagu, 28, Campinas,
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Sobre o autor
Ramon Pereira dos Reis: Mestre em
Ciências Sociais pelo Programa de Pós-
Graduação em Ciências Sociais da
Universidade Federal do Pará. Doutorando do
Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Social da Universidade de São Paulo.
rpreis18@yahoo.com.br.
Recebidoem: 03/03/2012
Aceito para publicação: 10/09/2012
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 73-87, 2012. 87

POTENCIA E VULNERABILIDADES MASCULINAS NO CAMPO DO HIV/AIDS: A
INTERVENCÁO PSICOTERAPÉUTICA
POWER AND MALE VULNERABILITIES IN THE FIELD OF HIV/AIDS:
PSYCHOTHERAPEUTIC INTERVENTION
Warlington Lobo
Universidade Federal do Para
Adelina Pimentel
Universidade Federal do Para
Resumo
Este artigo é um ensaio teórico que se utilizou metodológicamente um
levantamento bibliográfico referente a producao científica de artigos e
capítulos de livros a respeito do referido tema: fizemos urna revisao do
conceito de adesao masculina ao tratamento ao HlV/aids, entrelazando o
assunto aos desdobramentos das vulnerabilidade; intervencao da psicología
clínica de orientacao gestáltica e da clínica ampliada, como urna política de
saúde que procura humanizar os servicos de diagnóstico e assisténcia. Após
análises e leitura minuciosa do material selecionado as principáis
conceituacoes e conclusoes visando esbocar nossa compreensao. A
discussao dos dados foi realizada na interface com a ciencia psicológica ñas
áreas da clínica e da saúde.
Palavras-chave: masculinidades; psicología clínica; intervencao
psicoterapéutica;
Abstract
This article is a theoretical test that used methodologically a bibliographic
survey regarding the scientific production of articles and chapters of books
regarding this theme: we did a review of the concept of male bonding to
HlV/aids treatment, intertwining the subject to consequences of
vulnerability; intervention of clinical psychology gestalt guidance and
expanded clinic, as a health policy which seeks to humanize the diagnostic
services and assistance. After thorough reading and analysis of selected
material key concepts and conclusions aiming to outline our understanding.
The discussion of the data was conducted at the interface with the
psychological science in the áreas of clinical and health.
Keywords: masculinities; Clinical Psychology; psychotherapeutic intervention;
Resumen
Este artículo es un papel que se utilizó metodológicamente una literatura
relativa a la producción de artículos científicos y capítulos de libros sobre el
tema, dijo: revisamos el concepto de adherencia al tratamiento masculino
contra el VIH /SIDA, entrelazando el asunto a evolución de la vulnerabilidad,
88 Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.

Potencia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS__
la intervención de la psicología clínica y orientación gestáltica clínico
expandido como una política de salud que busca humanizar los servicios de
diagnóstico y asistencia. Después de la lectura y análisis a fondo del material
seleccionado conceptos clave y las conclusiones con el fin de perfilar
nuestra comprensión. El análisis de los datos se llevó a cabo en la interfaz
con la ciencia psicológica en las áreas de clínica y de la salud.
Palabras clave: masculinidades; psicología clínica; intervención
psicoterapéutica.
Introdugao
atencao especializada, pelos servicos de
media e alta complexidade, e por isso, propoe
Este artigo é um ensaio teórico que
fortalecer e qualificar a atencao primaria
metodológicamente utilizou um
"Para que a atencao á saúde nao se restrinja á
levantamento bibliográfico acerca da
recuperacao, garantindo, a promocao da
producao científica de artigos e capítulos de
saúde e a prevencao a agravos evitáveis"
livros a respeito do tema: urna leitura do
(BRASIL, 2008, p. 5). E, sobretudo, esta
conceito de adesao masculina ao tratamento
política objetiva que os servicos de saúde
ao HlV/aids1 , entrelazando o assunto aos
reconhecam os homens como sujeitos que
desdobramentos da vulnerabilidade;
necessitem de cuidados e, assim, incentive-os
intervencao da psicología clínica de
na atencao á própria saúde (BRASIL, 2009).
orientacao gestáltica e da clínica ampliada,
Gomes (2010) em seu estudo sobre
urna política na área de saúde que procura
Representacoes Sociais sobre a aids e a
humanizar os servicos de diagnóstico e
Terapia Anti-Retroviral e Influencias no
assisténcia. Após leitura minuciosa do
Tratamento de Pessoas Vivendo com HlV/aids
material selecionado as principáis
mostrou que no Estado do Para, em cada
conceituacoes e conclusoes visando esbocar
grupo de 100 mil habitantes, 14,7 estao
nossa compreensao. A discussao dos dados
infectados com o virus HIV, segundo dados do
foi realizada na interface com a ciencia
Boletim Epidemiológico DST/AIDS (BRASIL,
psicológica ñas áreas da clínica e da saúde.
2009). O Boletim Epidemiológico do
Segundo o Ministerio da Saúde "Os
Ministerio da Saúde revela que em 2011 esses
homens tém dificuldade em reconhecer suas
números sao 14,1 infectados com a doenca. E
necessidades, cultivando o pensamento
ainda segundo levantamento da Sespa3, nesse
mágico que rejeita a possibilidade de
mesmo ano, o Estado do Para tem a sexta
adoecer" (BRASIL, 2008, p. 6). A Política
maior taxa de mortalidade dentre os Estados
Nacional de Atencao Integral á Saúde do
da Federacao. Sendo que a cada grupo de 100
Homem, (PNAISH)2 evidencia que os homens
mil paraenses no ano de 2010, 7,2 pessoas
utilizam os servicos de saúde por meio da
morreram em razao da aids. No Boletim
anterior, esse número era de 6,6 a cada 100
mil habitantes.
Utilizaremos o termo aids em caixa baixa, seguindo
Ainda no Para segundo a SESPA no
recomendado do Departamento Nacional de Doencas
Sexualmente transmissíveis, pois no Brasil, o processo
período de 1985 a 2010, foram registrados
de dicionarizacao do termo AIDS deixa de ser urna sigla
1.128 casos de aids entre os homossexuais,
e passou a representar urna doenca. Disponível em
enquanto que, no mesmo período, 4.216
URL:http://www.aids.gov.br.
heterossexuais foram diagnosticados com a
2 Política Nacional de Atencao Integral á Saúde do
doenca. Percebe-se mudancas no
Homem, (BRASIL, 2008, p. 05) Disponivel em:
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2009/pr
1:1944 27 08 2009.html
Secretaria Estadual de Saúde do Para. DST/aids,2009.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.
89

_Poténcia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS
comportamento dos homossexuais, hoje eles
colocar as questoes situacionais em novos
se previnem e utilizam o preservativo.
parámetros para que os anseios e desejos
É importante ressaltar que se a partir
sejam viabilizados.
deste panorama, essas estatísticas mostram á
importancia da atencao por meio do governo
Cura, em urna perspectiva sartriana,
á populacao e aplicacao e fiscalizacao das
nunca poderia ser, portante, urna
conformacao ao que o paciente é, um
políticas públicas voltadas para esses sujeitos,
assumir a sua condicao, urna aceitacao de
para que assim possamos acolher e ouvir suas
si mesmo, um autoconhecimento, urna
experiencias com a vivencia do diagnóstico da
adaptacao as circunstancias sociais, como
aids e como isso repercute em suas vidas e
pregam muitas outras psicoterapias. Nao!
A psicoterapia existencialista sartriana só
orientam suas condutas. Além do diagnostico,
faz sentido se possibilitar ao paciente o
o tratamento psicológico é urna das diretrizes
seu estatuto de sujeito, ou seja, enquanto
contidas na política da clínica ampliada.
sujeito que tem de se escolher em
(Secretaria Estadual de Saúde do Para.
situacoes concretas, com clareza de seu
DST/AIDS, 2009)
compromisso ontológico com os outros,
com a sociedade. (SCHNEIDER, 2006, p.
109)
Conceituando a Psicología Clínica
Schneider (2006) afirma que da filosofía
Em urna análise histórica é possivel
sartreana pode-se depreender urna
observar que a psicoterapia é urna das
abordagem clínica com contornos e
estrategias da psicología clínica, o campo
metodologías distintas do modelo médico.
ampio que implica em diferentes métodos,
Embora nao tendo sido um psicoterapeuta e
técnicas e olhares; porém, aquela se insere no
nem realizado atendimento clínico, Sartre
imaginario popular enquanto a principal
contribuiu para a prática clínica, de forma
tarefa do psicólogo clínico. De certa forma,
significativa, com suas proposicoes,
isso denota um grau de estereotipia que pode
principalmente no que tange aos aspectos
estar relacionada ao modelo médico,
epistemológicos.
influenciado pela psiquiatría que deu origem
a prática psicológica. (SCHNEIDER, 2006, p.
Os conhecimentos psicológicos e
102).
filosóficos propostos por Sartre fornecem
Etimológicamente, a palavra
as condicoes necessárias para a
psicoterapia vem do grego psykhé - mente, e
viabilizacao de um momento pós-
therapeuein - curar. O conjunto dos sentidos
psiquiátrico, que supere os impasses
gerados pela dialética entre a tese
mencionados nos faz perceber as
psiquiatrizante e sua antítese
significacoes derivadas da cultura médica
antipsiquiatrizante ou antimanicomial.
presentes nos sentidos. O conceito de
(LEONE, 2000 apud SCHNEIDER, 2006, p.
psicología clínica também faz alusao aos
111).
posicionamentos médicos, já que significa
cama ou leito. Esse tipo de clínica pauta-se
A formacao das práticas clínicas esteve
em estudos de casos (SCHNEIDER, 2006).
ligada ao direcionamento médico para o
Outras significacoes foram agregadas
campo dos signos e síntomas em que os
ao conceito de psicología clínica. Por
primeiros designam os segundos. É
exemplo, em urna perspectiva sartriana, a
primordial, no saber médico, a descricao da
palavra "cura" implica focalizar a situacao da
sintomatologia e o conhecimento da
outra pessoa, o cliente, e favorecer a
enfermidade. E é nesse contexto que a clínica
superacao das situacoes conflituosas que
psicológica esteve (e prossegue) pautada,
estejam inseridas de forma a perceber aquilo
(herdeira) em um modelo médico baseado em
que os outros fizeram dele. Destarte, "curar",
concepcoes curativas dos sintomas
implica transcender os problemas vividos e
(FOUCAULT, 1987).
90
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.

Potencia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS__
No entanto, há mudancas
como verdadeiros. Os discursos médicos
epistemológicas decorridas com a descoberta
incidiram sobre os corpos e os sujeitos,
da anatomía patológica em que a doenca
enfatizando o poder daqueles sobre os
passou a ser conhecida por meio de técnicas
clientes. Assim, o termo biopoder foi
de dominio do corpo que dessacralizado, em
concebido no século XIX para justificar o
adoecimento, em estado cadavérico
processo de controle discursivo sobre o
propiciou sua análise. Dessa forma, morte,
sujeito e a especie humana. É o poder sobre a
vida e doenca passaram a compor urna tríade
vida que se estabelece tanto do ponto de
técnica e conceitual no campo médico.
vista de urna biopolítica, quanto de urna
esfera disciplinar. As práticas discursivas
0 auge da clínica médica se sitúa entre o
passam a exercer um controle social exercido
final do sáculo XVIII e o inicio do sáculo
pela medicina e também pela psicología.
XIX. Esse último foi, sem dúvida, um dos
Criam-se os estatutos do que se é
sáculos mais prósperos para a área,
devido as muitas descobertas no ramo da
considerado normal e patológico e a partir daí
Biología e as invencoes que possibilitaram
o biopoder passa a ter forma. Essa
a instrumentalizacao médica. (MOREIRA e
perspectiva adentra no século XX com todo
cois., 2007, p. 69)
um arcabouco de controle disciplinar, no qual
a medicina passa a ajustar o cotidiano dos
O método anátomo-clínico permitiu
sujeitos, moldando-os, normatizando-os e
urna nova visao acerca dos fatores que
regulando as políticas de saúde através de
geravam as patologías, pois era bem mais
todo um aparato tecnológico.
acessível trabalhar com prevencao e a cura.
Moreira e cois. (2007) afirmam que o
Isso evidenciou novas perspectivas tanto no
conhecimento médico acumulado, aliado as
campo ontológico quanto epistemológico e
novas tecnologías possibilitou revolucoes ñas
também na própria consolidacao da medicina
práticas médicas, tais como: especialidades,
científica.
tratamentos sofisticados. No entanto, a
A constituicao da clínica médica,
clínica médica acabou se fragmentando em
principalmente no século XIX, tornou-se um
¡numeras especializares e ainda delegou ao
marco histórico ñas práticas ocidentais
paciente a decisao sobre que especialidade
desenvolvidas para um corpo doente. Nesse
escolher. É um momento que o paciente vai
sentido, é importante perceber as críticas
até o médico.
elaboradas pelo filósofo francés Michel
A reflexao histórica acerca da clínica
Foucault (apud MOREIRA e cois., 2007, p. 48):
médica é de suma importancia para o
"Articula o discurso médico [...] que evidencia
entendimento da clínica psicológica e sua
as relacoes discursivas que 'fabricam' a
contextualizacao. Moreira e cois. (2007)
doenca e seu tratamento".
ressaltam a importancia de Sigmund Freud,
Em síntese, percebe-se o caráter
médico criador da clínica psicanalítica cuja
discursivo que passou a imperar sobre o
proposicao interventiva deslocou a énfase do
corpo doente e que promoveu urna
método, isto é, a clínica freudiana enfatiza a
reordenacao acerca das práticas que
escuta do sofrimento em detrimento dos
organizam a medicina moderna. Criou-se urna
processos de observacao da doenca
nova praxis de intervencao na direcao á cura
praticados pela clínica médica.
do sofrimento do individuo, como também a
De acordó com Schneider (2002 citado
medicina garantiu que o corpo se torna
por MOREIRA e cois. 2007, p. 28) "A
motivo de controle disciplinar e tecnológico.
perspectiva de tratar o cliente como um
Tal premissa evidencia urna lógica: a
sujeito de sua historia de adoecimento, e nao
coexistencia de articulacoes entre jogos de
como mero objeto" é urna constribuicao da
saber e poder, isto é, os discursos médicos
clínica freudiana. Outra inovacao da clínica
produzidos passaram a ser considerados
psicanalítica é a introducao do segredo clínico
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.
91

_Poténcia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS
enquanto parámetro do processo
ressaltando a interacao, o encontró com o
terapéutico. 0 paradigma da psicoterapia
intersubjetivo, no qual o outro possibilita a
fundamenta-se na proposicao de manter
entrada do eu no mundo social. (MOREIRA,
entre psicoterapeuta e cliente uma relacao de
2004 apud MOREIRA e cois., 2007, p. 615).
confianca e sigilo de modo que estes
elementos funcionam como suportes para a
Psicología, ou melhor, as psicologías,
efetividade para tratar o sofrimento psíquico.
devem encontrar seu compromisso social,
pois o eu nao se constituí sem o outro, ou
Durante a modernidade, a clínica
seja, nao há individualismo que se
psicológica aprimorou-se e a categoría sujeito
sustente na ausencia do social. Se o
adquiriu um status singular e solipsista
paradigma moderno é o da consciéncia
criando ilusao de uma potencia infinita do
que propicia o individualismo, o
paradigma contemporáneo é o da
individuo. Neste cenario, transitavam as
linguagem que pressupoe o encontró
concepcoes de praticas medicas que
intersubjetivo. (MOREIRA e cois., 2007, p.
abordavam o sujeito considerado "anormal",
616)
"desajustado", e a clínica psicológica pautada
na escuta do sofrimento.
A saída do consultorio e a ocupacao de
No contexto histórico adveio á énfase
outros ambientes sociaís se estabeleceram
positivista, a Revolucao Industrial e o
desde o inicio do século passado, em que o
surgimento das ciencias humanas, em que a
psicólogo tornou-se cada vez maís presente
psicología esteve "atrelada" á concepcao
em diversos espacos dos sistemas de saúde
burguesa, o que deu contornos elitistas a
pública, dos asilos e hospitais psiquiátricos,
clínica psicológica. No que tange ao
penitenciarias e de comunidades. Isso
positivismo, por exemplo, observa-se a
possibilitou uma visao de psicología clínica
entrada da quantificacao dos elementos
baseada nao únicamente na figura do
psicológicos, principalmente com a criacao
consultorio, mas na qualidade da escuta que
dos testes psicométricos e o desenvolvimento
se pode dar independente do espaco de
da psicología experimental (SCHNEIDER,
atuacao. Moreira e cois. (2007) deixam claro
2006).
que o profissional reflita em suas praticas
A clínica individual permanecía abocada
sociais, pois novos modos de producao,
a padroes neoliberaís que tornaram o
subjetivacao, formas de se criar a si mesmo e
individual sinónimo de individualista, muitas
o mundo sao deparados constantemente e
vezes perverso, que se esquece do homem
tudo isso incide sobre o espaco social.
em prol da lógica do capital. No entanto, o
Ñas pesquisas de Ferreira Neto (2003),
contexto social também foi entrando no
as questoes das praticas sociais da psicología
consultorio quando pesquisadores e
nao se aplicavam á clínica, principalmente em
psicólogos de orientacao social,
meados dos anos 70, quando já havia grupos
fenomenlógica existencial e hermenéutica e
de psicólogos engajados em acoes sociais e
histórico critica perceberam que na clínica do
reflexoes políticas. O que se observava era
segredo havia limitacoes, portante requería
uma clínica ainda distante do social e
novas formas de intervencoes (MOREIRA e
apolítica. Se de um ponto, um grupo de
cois., 2007). Havía a necessidade de se
psicólogos ia para além das dimensoes
redesenhar uma psicología tradicional para
clínicas, outros, perpetuavam o contexto
que a mesma passasse a ter um engajamento
individualista e indiretamente ligados ás
social e, assim, responder a demandas vindas
concepcoes médicas e ideologías políticas
das relacoes humanas, por exemplo, a da
dominantes.
valorizacao da alteridade. (GENTIL, 2008)
Coimbra (1999 citado por SALDANHA,
Foi introduzido o conceito de
2004), enfatiza que na década de 70, no
subjetividade como uma categoría referencia
teórica que atualizava a psicoterapia,
92
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.

Potencia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS__
Brasil, havia urna psicologizacao do cotidiano,
clínica liberal curativa nao consegue dar conta
em que:
das múltiplas demandas sociais, as quais
sempre emergem. Portanto, é a partir da
Os acontecimentos sociais sao esvaziados
década de 80 que as práticas sociais da
e analisados únicamente pelo prisma
psicología passam a abranger urna demanda
psicológico-existencial. Com essa 'tiranía
popular elevada com suas particularidades,
da identidade', qualquer angustia do
cotidiano, qualquer sentimento de mal-
contudo ao mesmo ainda se observa urna
estar é remetido ¡mediatamente para o
psicología tentando partir para urna
territorio da 'falta', da 'carencia', no qual
politizacao de fato. Algumas acóes voltadas
os especialistas 'psi' estao vigilantes e
para a carnada popular da sociedade se
atentos. Para essa familia 'em crise' e
confundem com a lógica do assistencialismo.
para esses filhos 'desviantes' há que se
ter atendimentos específicos, peritos que
Atualmente, observa-se urna atuacao
Ihe digam como sentir, pensar, perceber,
clínica associada a processos de politizacao e
agir, viver neste mundo. (COIMBRA, 1999,
flexibilizacao cada vez mais crescentes e
p.80)
necessárias frente a toda multideterminacao
de fatores que perpassam a atividade
Em meados da década de 80, quando
profissional nos diferentes campos de
houve urna abertura política e crescimento
atuacao. Nesse sentido, a intervencao
dos movimentos sociais, as práticas da
psicológica deve estar pautada numa base
psicología clínica entraram em confronto com
que busque associar o sujeito psicológico ao
toda a transformacao que pulsava no Brasil,
sujeito político e, consequentemente, chegar
pois até entao os lacos entre profissionais e
ao um sujeito histórico capaz de se envolver
élite/ as classes económicas dominantes eram
com sua própria historia, a historia de sua
muito fortes. As atividades da clínica eram
comunidade e da própria humanidade.
consideradas neoliberais e privadas, portanto,
No contexto da saúde, por exemplo,
de caráter excludente.
temos urna abrangéncia de atuacao
O próprio Conselho Federal de
principalmente ñas unidades básicas de saúde
Psicología, á época, críticava esse tipo de
articuladas com os Núcleos e Centros de
clínica tradicional e hegemónico centrado na
Atencao Psicossocial (NAPS/CAPS), os quais
concepcao individualista.
sao espacos considerados alternativos para o
tratamento manicomial. No desenvolvimento
De acordó com o órgáo, essa atividade
das atividades psicológicas para além do
tem objetivos analíticos,
psicoterapéuticos e/ou psicodiagnósticos,
consultorio, a psicología da saúde constítuiu-
e baseia-se em urna concepcao da clínica
se em um grande campo de atuacao
como um saber/fazer universalizado,
ancorado na perspectiva da psicología social.
associado a urna concepcao de sujeito
universal e a-histórico, metas e
A primeira característica é o
fundamentos que, sem dúvida,
compromisso com os direitos sociais
circunscrevem a clínica como espaco de
pensados numa ótica coletiva. Foge,
reproducao e mantém a cisao entre
portanto, das perspectivas mais
clínica e política. (MOREIRA e cois., 2007,
tradicionais da psicología voltadas á
p. 618)
compreensao de processos individuáis
ou intra-individuais. Dialoga com teorías
A concepcao de urna clínica
e autores que pensam as formas de vida
fundamentada nos moldes tradicionais ainda
e de organizacao da sociedade brasileira
contemporánea. Tende a pesquisar e
predomina entre muitos estudantes e
atuar em servicos de atencao primaria,
profissionais de psicología. Ferreira Neto
em contextos comunitarios, em
(2004 citado por MOREIRA e cois., 2007),
problemas de saúde em que pesa a
afirma que as práticas da clínica social sempre
prevencao á doenca e a promocao da
estao em processo de construcao e que a
saúde ou onde há necessidade de
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.
93

_Poténcia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS
acompanhamento continuado (como as
servicos. (BIANCO et al, 1994 apud
doencas crónicas e a saúde mental).
SALDANHA, 2004, p. 26)
Tende ainda atuar na esfera pública.
(SPINK, 2003 apud SALDANHA, 2004, p.
O campo da saúde tem se construido a
19)
partir de tensoes surgidas no próprio
contexto histórico e na busca de profissionais
É importante perceber a necessidade da
compreenderem seus lugares no espaco das
superacao dos enfoques intra-individuais
práticas em saúde. Tal entendimento se
predominantes em muitas práticas. O campo
compreende porque históricamente a
de atuacao também deve pautar-se na
psicología clínica destacou-se enquanto
discussao acerca dos processos de saúde-
independente e sua insercao recente ñas
doenca partindo-se da premissa de que este é
instituicoes de saúde pública implicou na
um processo histórico e multideterminado.
reproducao das práticas clínicas nesses
Na prática, pensar na possibilidade de superar
espacos, principalmente nos ambulatorios e
tais questoes implica em confrontar-se com
hospitais.
todo um sistema político, social e ideológico
Com a participacao da psicología ñas
mantenedores do modelo centrado no
discussoes acerca da saúde pública, suas
individuo e no próprio atendimento individual
práticas passaram a ter outros contornos,
e superar a idéia de que o "cliente" é aquele
pois passa a trabalhar com outros
que deve ser orientado, tratado e treinado
profissionais, com grupos atendidos em
para aderir as atividades decididas pelo corpo
unidades de saúde. Deve-se destacar a VIII
técnico.
Conferencia Nacional de Saúde ocorrida em
No bojo das reconfiguracoes da
1986 que possibilitou esse novo
psicología clínica e da concepcao de saúde, o
entendimento baseado na política de atencao
Estado Brasileiro organizou O Sistema Único
integral á saúde.
de Saúde (SUS) regulamentando-o pela Lei n-
Segundo Saldanha (2004), quando se
8.080/90 com os principios doutrinários de
trabalha na perspectiva da saúde, nao se
universalidade, equidade e integralidade
pode deixar de compreender a questao da
propós urna atencao integral á saúde, meta
relacao saúde-doenca, em que a visao, o
que subsidiou as Acoes Integradas de Saúde
saber médico potencializou essa dicotomía
(AIS).
transformando a sociedade em duas grandes
A psicología clínica se inseriu nos
carnadas: dos "normáis" e dos "patológicos".
debates sobre políticas de saúde e que
Tais carnadas acabaram se tornando
também comecou a atuar com outros
institucionalizadas e servindo para o
profissionais da saúde. É nesse momento que
direcionamento de muitas práticas da saúde.
o conhecimento psicológico passou a ter
No entanto, com o processo de debates
espaco na discussao da saúde pública.
sobre as políticas de atencao integral á saúde,
o discurso médico direciona o entendimento
Numa trajetória que passa pelo SUDS
(Sistema Unificado e Descentralizado da
sobre saúde e doenca para urna perspectiva
Saúde) e chega á implantacao do SUS
social, canalizando suas atividades para metas
(Sistema Único do SUS) o que se observa
educativas, principalmente com a prestacao
é que o psicólogo vem sendo absorvido
de servicos médicos. É urna proposta
pela saúde pública- ainda em proporcóes
preventista e que se constituí em tres
distantes do desejado- sem urna revisao
mais ampia do seu processo de formacao,
modelos: a prevencao primaria, baseada na
ainda direcionado para a sua atuacao
promocao da saúde e da protecao específica
dentro do modelo 'clássico'. Na realidade,
em relacao a um agravo; prevencao
nao seria erróneo afirmar-se que toda a
secundaria, presente no diagnóstico e
equipe nao se encontra preparada pelos
seus cursos de graduacao, para atuar
tratamento; e a prevencao terciaria,
nesta nova concepcao de prestacao de
relacionada á recuperacao do daño e á
94
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.

Potencia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS__
reabilitacao. Pensar na possibilidade das
de nossa pesquisa, homens com HlV/aids.
práticas psicológicas em saúde de estarem
Vieira (2010) revela que os cuidados paliativos
condizentes com a proposta de atencao
sao segundo a Organizacao Mundial de
integral á saúde mostra dificuldades
Saúde, "Urna abordagem que melhora a
relacionadas aos tensionamentos entre a
qualidade de vida dos pacientes e seus
forma que se pensa a relacao saúde-doenca.
familiares frente a problemas relacionados a
Saldanha (2004, p. 50) esclarece
doencas sem possibilidade de cura, através da
algumas questoes de tensao quando afirma
prevencao e alivio do sofrimento,
que "A existencia de varias 'psicologías' que
identificando e avallando e tratando a dor e
atravessam os encontros entre Psicología e
outros problemas físicos, psicossociais e
saúde demonstram a impotencia da visao
espirituais" sendo as práticas de cuidados
compartimentada". Velhas e novas práticas
paliativos bastante utilizadas em ambiente
psicológicas coexistem em um sistema ainda
hospitalar, objetivando a qualidade de vida
dicotómico entre saúde-doenca.
dos pacientes em situacao de intenso
Entre os anos de 70 e 90, ocorrem no
sofrimento, além do apoio á familia, em
Brasil manifestacoes, como parte da luta pela
internamento ou no domicilio. Ou seja, os
democratizacao do estado. Isso se reflete no
cuidados paliativos destinam-se a doentes
campo da saúde em que transformacoes de
que nao tém perspectiva de tratamento
ordem política possibilitaram a insercao do
curativo, sem possibilidade de cura, com
profissional ñas acoes integráis de saúde. Foi
doenca progressiva, cuja expectativa de vida é
um período de ressignificacoes das relacoes
limitada, sendo o seu sofrimento intenso e
entre saúde-doenca, bem como da
com problemas de difícil resolucao que
possibilidade de se perceber a doenca
exigem apoio específico da equipe que o
enquanto um processo no qual necessita ser
atende o/os pacientes.
visto em suas dimensoes biopsicossociais.
Michelin et al (2010) ressalta que os
O SUS criou a Humanizacao da saúde
cuidados paliativos tem sido um grande aliado
enquanto política transversal, destacando a
de pessoas vivendo com aids, pois segundo os
questao de se perceber o individuo em toda a
autores é possível oferecer urna melhora na
sua complexidade e avultando os aspectos
qualidade de vida, ainda que a doenca nao
subjetivos ñas práticas de saúde e
aprésente possibilidade de cura.
humanizacao dos cuidados, indo desde o
respeito no atendimento, priorizando a
O maior aliado a qualquer paciente é o
atencao primaria. O Ministerio da Saúde
diálogo, porém, em se tratando de um
paciente em cuidado paliativo, isso deve
(BRASIL, 2009), através da Secretaria de
ser muito mais trabalhado. Atender um
Atencao a Saúde, criou a Política Nacional de
paciente que esta sem possibilidade de
Humanizacao, visando á valorizacao dos
cura é urna tarefa para pessoas que
diferentes sujeitos implicados no processo de
estejam dispostas a se envolver
intensamente com o paciente e sua
producao de saúde, sejam eles usuarios,
familia. (MICHELIN et al, 2010, p. 3)
trabalhadores e gestores, o que aumentou a
atuacao da psicología no campo das políticas
Nesta perspectiva a autora ressalta que
públicas no Brasil, na atencao básica
para um melhor entendimento dos
(CAMARGO-BORGES; CARDOSO, 2005), media
profissionais da área da saúde, é necessário
e alta complexidade (TONETTO; GOMES,
que saibam os principios dos cuidados
2007). Percebendo a necessidade de se
paliativos que sao; promover o controle da
humanizar os atendimentos realizados pela
dor e síntomas desconfortantes,
equipe de saúde, outra possibilidade de se
considerando a morte como um evento
humanizar esses atendimentos sao os
natural da vida; e oferecer um tipo de suporte
cuidados paliativos, em especifico para
que possa fazer com que o cliente viva tao
pacientes sem possibilidade de cura, no caso
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.
95

_Poténcia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS
ativamente quanto possível a chegada de sua
pertencente a cada individuo já que a
terminalidade. Sendo o cuidado iniciado
mudanca nao acontece de fora para dentro
precocemente e unindo esforcos juntamente
do sujeito. Parece-nos que urna premisa da
com a equipe multiprofissional oferecendo o
política que se viabiliza pela acao da equipe e
cuidado mais abrangentemente possível.
do usuario da saude é que há necessidade de
Na especificidade do trabalho clínico de
conscientizar-se acerca da importancia que o
base gestaltica para homens vivendo com
outro tem no processo de desenvolvimento
HlV/aids, a psicoterapia breve é a
individual e social.
modalidade que praticamos. Fundamentada
Assim, a humanizacao preconizada pelo
na teoria de campo e na psicología
SUS é um elemento essencial para a prática
organísmica, e nos principios da homeostase
da clínica ampliada, pois colabora com a
e da pregnáncia, e ciclo de auto-regulacao
eficacia desta. Voltando ao texto básico do
organismica. Conforme Perls (1970), é urna
Ministerio da Saúde, percebe-se que a clínica
intervencao que possibilita aos homens
ampliada "propoe que o profissional de saúde
descobrir as próprias habilidades, o potencial
desenvolva a capacidade de ajudar as
criativo e encontrar os meios que Ihe
pessoas, nao só a combater as doencas, mas a
permitirao lidar com a situacao de dificuldade
transformar-se, de forma que a doenca,
existencial. Nesse sentido, compreender a
mesmo sendo um limite, nao o impeca de
gestalt-terapia é compreender o individuo
viver outras coisas na sua vida" (BRASIL, 2004,
dentro dessa totalidade e possibilidades de
p.64).
integracao, restaurar o contato consigo
Dadas as realidades locáis do país, a
mesmo. É o rompimento com as práticas
sistematizado da clínica ampliada pode
terapéuticas tradicionais. (PERLS, 1997)
incidir em um processo dinámico em um dado
Considerando que o objeto deste texto
local e mais lento, em outro. A gestao e as
é urna discussao sobre a potencia e
equipes trabalham com suas próprias
vulnerabilidade de homens que vivem com
singularidades e adaptam suas linhas de acao
HlV/aids a partir da contribuicao da psicología
dependendo do contexto onde estao
clínica e da saúde, na próxima secao do texto
inseridas. Em Centros de Apoios Psicossociais
abordaremos a adesao do individuo ao
(CAP's), por exemplo, os servicos de
tratamento.
psicología sao voltados para a reabilitacao
psicossocial.
Adesao do individuo ao tratamento
Sobre o HlV/aids, os atendimentos
psicológicos em Belém do Para sao realizados
O Documento Base para Gestores e
no Hospital de Referencia. A aids, de acordó
Trabalhadores do SUS - HuamanizaSUS
com Parker (1998) por estar vinculada a idéia
destaca como um dos principios da política o
de morte e a comportamento de risco,
"Fortalecimento de trabalho em equipe
desencadeia nos sujeitos um intenso medo, a
multiprofissional, fomentando a
discriminacao e o preconceito, e mitos que
transversalidade e a grupalidade". É um
colaboram para estigmatizar4 e provocar
momento em que a psicología atravessa o
abalo psíquico e social a pessoa vivendo com
campo da multiprofissionalidade e atua com
HIV e/ou aids, em sua familia e amigos,
outros profissionais sem perder de foco seu
somada a outras discriminacoes aumentando
objeto de estudo: o individuo com toda a sua
o impacto da epidemia. Essas freqüentes
singularidade. Ampliam-se as possibilidades
de atuacao. (MINISTERIO DA SAÚDE, 2010).
Quando se fala em "Humanizacao do
Para Goffman (1988, p. 7), estigma é a "situacao do
individuo que nao está habilitado para a aceitado
SUS" entende-se a valorizacao dos atores que
social plena." Estigma é um atributo que faz com que
compoe o quadro da saúde, no entanto, a
sujeitos sejam enjeitados socialmente, provocando
humanizacao em si pressupoe um empenho
urna segmentacao social.
96
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.

Potencia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS__
ocorréncias geralmente fazem com que
aborda, pois requer toda urna reelaboracao
muitas pessoas continuem, ainda hoje, sendo
de vida.
vitimas de discriminacao em funcao do
É importante perceber que o individuo
diagnóstico de HlV/aids sendo ele positivo, ou
doente requer ser visto e respeitado em
até mesmo por se suspeitar ter o resultado
todos os seus aspectos biopsicossociais e nao
soropositivo para o HIV. A nao aceitacao de
simplesmente ser considerado um mero
sua soropositividade é geralmente a primeira
receptor mecánico de remedios. O homem
figura que emerge acompanhada de serios
vulnerável fica imerso em um contexto
abalos a promocao do acesso universal a
estigmatizante que torna a adesao ao
saúde. Pessoas com HlV/aids expressam
tratamento algo muito mais complexo e
diferentes reacoes psicológicas em relacao a
difícil.
sua condicao positiva para infeccao do virus
O Brasil é um país com diversas
HIV (BRASIL, 2003).
culturas, hábitos, formas de ser e agir, cujas
particularidades incluem a exigencia na
Grandes partes dos problemas suscitados
intervencao da psicología clínica da ¡nclusao
pela epidemia estao relacionadas ao
das questoes decorrentes da pressao, do
preconceito em diferentes esferas do
estigma, que intensificam a vulnerabilidade e
convivio social. O despreparo dos seus
integrantes para responder as questoes
afetam a adesao dos homens ao tratamento.
moráis, éticas e sociais relacionadas á
Por meio da psicoterapia, o individuo
epidemia, a repercussao limitada da acao
consegue encontrar um sentido para o
judicial individual, que provoca mudancas
tratamento que se torna significativo para ele
apenas na vida das pessoas diretamente
envolvidas no processo, e sua
de modo a observar que ele nao é a doenca
impossibilidade de fortalecer os portadores
em si, mas que está vivendo com ela.
enquanto grupo coletivamente organizado.
Atualmente, as pessoas diagnosticadas
(MIRANDA; GARCÍA, 2005, p. 21)
com HlV/aids tém acesso gratuito ao
Tratamento Antirretroviral (TARV), no
Atualmente, o Tratamento
entanto, o abandono é constante. Assim, há a
Antirretroviral (TARV) se estabelece como um
necessidade de reflexao sobre esse assunto.
mecanismo de tratamento, mas ainda nao é
Lima (2012) chama a atencao para as
completamente efetivo dado as dificuldades
motivacoes que implicam da reducao da
que muitos tém de permanecer aderidos ao
adesao, por exemplo: a) a participacao do
tratamento que é praticamente para a vida
próprio individuo; b) o envolvimento dos que
toda.
dele cuidam, tais como o meio familiar, os
Ao descobrir a sorologia positiva para o
profissionais de saúde; c) as políticas e a
HlV/aids, o homem entra em urna nova etapa
gestao pública.
que pode ser decisiva para si. Aderir a um
Históricamente, o Brasil ainda se
tratamento que inclui anti-retrovirais e
destaca em relacao a outros países na
acompanhamentos médicos nem sempre é
questao da adesao aos tratamentos
bem visto por muitos. A rotina muda e o
antirretrovirais. O acesso gratuito as
individuo passa a adotar urna forma de vida
medicacoes foi de suma importancia para que
diferenciada se quiser manter a qualidade de
a gestao pública pudesse tracar novas
vida.
estrategias para tornar os tratamentos mais
Lima (2012, pp. 23-24) enfatiza que "o
eficazes. Entretanto, devido ao abandono
tema adesao constitui-se numa área de
constante dos tratamentos com
grande importancia para a Saúde Pública e
antirretrovirais, as respostas ao combate do
um desafio para a educacao. Aderir a um
HlV/aids se tornam menos eficazes fazendo o
tratamento é bem mais do que simplesmente
governo e o setor da saúde sejam instados a
cumprir as ordens prescritas". Isto significa
estabelecerem mecanismos que possam
toda a complexidade que esta temática
aumentaríais respostas.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.
97

_Poténcia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS
Retomando as contribuicoes da
fazem parte de projetos preconizados pela
psicoterapia, pensamos que a intervencao
Organizacao Mundial de Saúde (OMS) que
contribuí para a qualidade de vida dos
objetivam tratamentos baseados ñas
homens, na medida em que o investimento
realidades individuáis, incluindo limites e
psíquico da pessoa vivendo com HlV/aids
possibilidades de adesao.
para ter urna boa qualidade de vida é intenso.
Compreende-se tal Plano Individual
A carga emocional elevada pode provocar
como um compromisso do individuo e da
sentimentos de desesperanza e baixa
própria rede de saúde no estabelecimento de
autoestima levando-se em consideracao que
acoes efetivas para se chegar numa
a rotina de vida muda com a utilizacao de
significativa qualidade de vida. Na busca por
medicamentos em horarios específicos.
urna almejada qualidade de vida significativa
A relacao profissional de saúde-usuário
ao portador do virus HIV, requer levar em
pode influenciar também positiva ou
consideracao também mudancas
negativamente para a adesao ao tratamento.
paradigmáticas na forma, por exemplo, que
Daí, a necessidade de se repensar questoes
muitos profissionais da saúde tém ainda do
de ordem de saúde pública para que de fato o
individuo. Urna visao de que este é um
individuo se sinta capaz e responsável para
"paciente", ou seja, alguém passivo e sem voz
assumir o compromisso sobre si mesmo.
ativa em seu processo de restabelecimento.
Sobre esta questao, Seidl et al (2007, p.
Nesse sentido, Lima (2012) pondera
2306) consideram que "em HlV/aids, a
que:
relacao com o usuario deve caracterizar-se
por urna postura de acolhimento, para o
Os profissionais nao-médicos tém
atendimento de demandas específicas e sua
participacao fundamental neste processo
de assisténcia na saúde-doenca, desde a
participacao no planejamento e decisao
revelacao diagnóstica ao paciente até a
acerca do seu próprio tratamento". Percebe-
facilitacao da adesao. O paradigma
se, portante, que o processo de adesao ao
médico-centrado, prescritivo, tem sido
tratamento nao é unilateral, algo vindo de um
ampliado e vém incorporando os
conhecimentos específicos dos
poder superior até chegar ao individuo,
psicólogos, nutricionistas, assistentes
todavía, um processo relacional que depende
sociais, educadores, com objetivo de
da pessoa para tornar-se efetívo. Além disso,
oferecer o melhor tratamento possível ao
os autores destacam a necessídade de
pacientes.A aids, dada a complexidade de
estudos mais efetívos relacionados á adesao,
seu tratamento, a longa duracao e (até
como cítam no seguinte trecho:
aqui) a impossibilidade de cura, requer
estrategias ¡novadoras, planejadas,
avahadas para que os pacientes
A existencia de urna política pública de
infectados pelo HIV tenham adesao
acesso universal á medicacao anti-
(LIMA, 2012, pp. 23-24).
retroviral em nosso país faz com que
estudos sobre adesao á TARV sejam de
grande relevancia, para propiciar melhor
Nao há um padrao específico que
compreensao do problema e atuacao
indique se a adesao está sendo eficaz ou nao.
adequada das equipes profissionais,
O que se pode destacar é demarcadores que
visando garantir boas condicoes de saúde
vao desde a ordem biológica, subjetiva até os
e qualidade de vida a pessoas vivendo
com HIV/AIDS" (SEIDL, 2007, p. 2313).
sociais que contribuem para a parada ou
continuidade do tratamento. Assim, dieta,
Lima (2012) reitera que os Programas
excrecao, alimentacao (ordem biológica),
de Tratamento Integral ou Plano Individual de
auto-estima, aceitabilidade da doenca (ordem
Adesao constituem-se como estrategias
subjetiva), preconceitos, estigmas,
importantes para adesoes mais significativas.
participacao social (ordem social) podem ser
De acordó com esta autora, os programas
considerados como alguns desses
demarcadores.
98
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.

Potencia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS__
Ainda o caminho a se trilhar é longo,
outros contextos tem recebido diferentes
mas colhe bons frutos nesse processo
denominacoes, como "clínica ampliada",
complexo que é viver com HlV/aids e as
"clínica social" e "clínica transdisciplinar"
diversas vulnerabilidades e estigmas que
(FERREIRA NETO, 2008). A entrada dos
impedem adesoes de caráter efetivos para o
psicólogos no campo da saúde pública muito
tatamento da síndrome da Imunodeficuencia
contribuiu para tal expansao (SPINK; MATTA,
adquirida (SIDA).
2003).
E a própria clínica também nesse
Consideragoes Fináis
momento de ruptura, tentando sua
articulacao com a política, daí o termo "clínica
Até o momento, o entendimento da
ampliada", cuja proposta é a superacao do
relacao entre as práticas psicológicas,
modelo da clínica tradicional. Obviamente,
principalmente, as da clínica, acabaram se
isso necessitou de urna redefinicao do próprio
moldando as mudancas e necessidades do
objeto, dos objetivos da clínica, bem como
próprio processo histórico. No entanto há que
dos meios de trabalho na assisténcia
se levar em consideracao que o foco é o
individual, familiar e de grupos. A nocao de
individuo que se expressa de múltiplas formas
clínica ampliada deve ser pensada na
e constantemente ressignifica a vida dele.
possibilidade de instrumentalizacao,
Quando se atenta para a questao da
modalidades intervencionistas com objetos,
saúde, preconiza-se o estabelecimento de
palavras, silencios de modo a instigar o sujeito
relacoes significativas entre todas as
em sua capacidade de organizar suas próprias
instancias, como os gestores, os profissionais
práticas psicológicas e sociais de maneira
e os usuarios. Há que se ter urna visao crítica
mais criativa e adaptativa.
para que cada profissional, dentro de sua
Ferreira Neto (2008) afirma que no
especificidade, atue de forma consciente e
processo de trabalho em saúde, o modelo
respeitando o outro enquanto humano.
clínico tradicional, principalmente, o
Um exemplo típico de como a
psicanalítico, acaba perdendo seu apogeu,
"humanizacao" pode ser estabelecido, sao
seu saber absoluto em face de novos
ñas relacoes dos pacientes com doencas
reordenamentos frente a urna realidade
infecto-parasitárias e os "cuidadores" deles
complexa. Desta forma, evidencia-se a
nos hospitais. Essa questao envolve o
relevancia de se teorizar acerca da prática do
rompimento de preconceitos e lógicas pré-
psicólogo em atendimentos no hospital,
estabelecidas que acabam separando o
dentro das especificidades que a instituicao
atendido do profissional de saúde e,
oferece, sempre com respeito e ética para
consequentemente, do mundo.
com o outro e ñas perspectivas através de
Quando se fala dos pacientes com
psicoterapia na modalidade breve com
HlV/aids, muitos estigmas sao levantados e
pacientes sem possibilidade de cura, sendo
necessitam ser superados para que haja de
urna tentativa de facilitar um canal de
fato um atendimento humano.
comunicacao que amenize a dor e o
Bezerra (2001) pensa na interioridade
sofrimento, proporcionando ao cliente falar
psicológica do sujeito, no entanto, lida com
sobre suas experiencias que dao sentido a sua
toda a rede de subjetividade envolta dele,
existencia.
implicando todas as formas de estímulo que,
Leitao (1993) destaca que o trabalho de
no campo da alteridade, apresentam-se para
psicoterapia no ambiente de um hospital
o sujeito. Autores como (COSTA; BRANDÁO,
exige do psicólogo um previo conhecimento
2005; DUTRA, 2004; PÓRTELA, 2008;
da realidade na instituicao, seja do contato
FERREIRA NETO, 2008). Tém discutido a
direto com o novo contexto de trabalho, onde
atuacao do psicólogo clínico para além do
terá que atuar em constante interacao com a
setting tradicional. A atuacao clínica em
equipe multiprofissional de saúde. O
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.
99

_Poténcia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS
psicólogo deverá "hosp¡tal¡zar-se" nao da
producoes. In: JACÓ-VIELA, AM.; JABUR, F.;
mesma forma e sentido que o paciente
RODRIGUES, H.B.C. (org.). In: Clio-Pshyché:
adoentado se encontra, mais da mesma
historia da psicología no Brasil. Rio de Janeiro:
forma e sentido que todos os demais
EURJ/NAPE.
membros da instituicao que ali estao
inseridos.
FOUCAULT, M. (1987). O nascimento da
Nesse contexto, é importante a
clínica. Rio de Janeiro: Forense-Universitária.
incorporacao de homens dentro de urna
perspectiva de género em políticas de saúde e
FERREIRA NETO, J.L. (2003). A formacao do
outras que sejam relevantes para a
psicólogo: clínica, social e mercado. Sao
prevencao, tratamento e acompanhamento
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100
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.

Potencia e vulnerabilidades masculinas no campo do HIV/AIDS__
Sobre os autores:
MOREIRA, J.O.; ROMAGNOLI, L.C.; NEVES, E.O.
(2007). O surgimento da clínica psicológica:
Warlington Lobo: Psicólogo, Mestrando
da prática curativa aos dispositivos de
em Psicologia (PPGP/UFPA) e Bolsista do
promocao da saúde. In: Psicología, Ciencia e
Conselho Nacional de Pesquisa (CNPQ).
Profissao, v. 4, n. 27, p. 608-621.
Adelma Pimentel: Professora Doutora
SALDANHA, O.M.F.L. (2004). Psicologia e
da Universidade Federal do Para (UFPA).
saúde: problematizando o trabalho do
psicólogo ñas equipes municipais de saúde.
Dissertacao (Mestrado) - Universidade
Recebidoem: 11/05/2012
Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre.
Aceito para publicacao: 06/11/2012
SCHNEIDER, D.R. (2006). Novas perspectivas
para a psicologia clínica a partir das
contribuicoes de J. P. Sartre. In: Interacao em
Psicologia, v. 10, n. 1, p. 101-112, Curitiba.
PARKER, R.G. (1998). A construcao da
solidañedade. Aids. Sexualidade e política no
Brasil. Sao Paulo: Relume-
dumará/ABIA/IMS/UERJ.
PERLS, F. (1979). Escarafunchando Fritz:
dentro e jora da lata de lixo. Sao Paulo:
Summus.
SEIDL, E. M. F.; MELCHÍADES, A.; FARIAS, V. &
BRITO, A. (2007). Pessoas vivendo com
HIV/AIDS: variáveis associadas á adesao ao
tratamento anti-retroviral. In: Cadernos de
Saúde Pública, v. 23. n. 10. Rio de Janeiro:
out,. pp. 2305-2316.
SPINK, M.J.P. Psicologia social e saúde.
Práticas, saberes e sentidos. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2003.
VIEIRA. R.W. (2010). Bioética, cuidados
paliativos e qualidade de vida: a importancia
do processo de tomada de decisao.
Dissertacao. Mestrado em Psicologia.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Faculdade de Medicina. Porto Alegre.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 88-102, 2012.
101

PSICOTERAPIA DE ROGERS E LUDOTERAPIA DE AXLINE: CONVERGÊNCIAS
E DIVERGÊNCIAS.
ROGERS' PSYCHOTHERAPY AND AXLINE'S PLAY THERAPY: CONVERGENCES
AND DIVERGENCES.
Rosa Angela Cortez de Brito
Faculdade de Tecnologia Intensiva
Vilma Maria Barreto Paiva
Universidade Federal do Ceará
Resumo
Axline referiu que a sua base teórico-prática em ludoterapia é a psicoterapia
não-diretiva rogeriana. Para compreender a afirmação da autora sobre seu
referencial teórico, este trabalho propõe como estudo a análise das
relações entre a psicoterapia não-diretiva de Rogers e a ludoterapia não-
diretiva de Axline. A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica das
obras de Rogers, de Axline e de comentadores. Como resultado, verificou-se
que a ludoterapia de Axline encontra-se entre dois momentos da evolução
teórica de Rogers: a fase não-diretiva e a fase reflexiva. Portanto, a teoria de
Axline não pode mais ser considerada semelhante à psicoterapia não-
diretiva, mas como uma transição para a terapia centrada no cliente.
Palavras-chave:-chave: psicologia humanista; ludoterapia; terapia centrada no
cliente.
Abstract
Axline referred that her theoretical-practical base in play therapy is the
rogerian's non-directive psychotherapy. In order to understand the author's
statement on her theoretical referential, this paper proposes as study the
analysis of the relationships between Rogers's non-directive psychotherapy
and Axline's non-directive play therapy. The methodology used for the
accomplishment of this work was the bibliographical research of Rogers's,
Axline's and reviewers' papers. As obtained result, it was verified that the
Axline's non-directive play therapy is between two moments of Rogers'
theoretical evolution: the non-directing phase and the reflexive phase.
Therefore, Axline's theory should no longer be considered similar to the
non-directing psychotherapy, but as a transition for the client centered
therapy.
Keywords: humanistic psychology; play therapy; client-centered therapy.
Resumen
Axline dijo que su base teórica y práctica para la terapia de juego no directiva es la
psicoterapia de Rogers. Para entender la declaración del autor sobre su marco teórico,
se propone como el análisis del estudio de la relación entre la terapia de juego
psicoterapia no directiva y Axline Rogers no-política. La metodología utilizada fue la
1 0 2 Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 102-114, 2012.

Psicoterapia de Rogers e ludoterapia deAxline_
literatura de las obras de Rodgers, Axline y comentaristas. Como resultado, se encontró
que la terapia de juego de Axline está entre dos veces la evolución teórica de Rogers
fase fase no directiva y reflectante. Por lo tanto, la Axline teoría ya no puede
considerarse similar a la psicoterapia no directiva, sino como una transición a la terapia
centrada en el cliente.
Palabras clave: psicología humanista; terapia de juego; terapia centrada en el cliente.
Introduçã o
Convergências entre a Psicoterapia não-
diretiva e Ludoterapia não--diretiva
Neste artigo abordamos onde a
Psicoterapia Não-Diretiva, proposta por Carl
Rogers (1942/2005) e Axline
Rogers, e a Ludoterapia Não-Diretiva, de
(1947/1984), ao falarem de suas teorias,
Virginia Axline, convergem e onde estas
informam que têm um ponto de partida:
propostas divergem, trazendo, junto a esse
proporcionar ao indivíduo uma relação sem o
objetivo, discussões sobre os pontos
controle do terapeuta, uma relação sem
apresentados. As obras de base para a
diretividade, onde ele passa a ser o foco da
construção deste trabalho são os livros
terapia, ao invés do seu problema. Segundo
Psicoterapia e Consulta Psicológica, lançado
Gobbi, Missel, Justo e Holanda (2002), a
em 1942 e Ludoterapia - A Dinâmica Interior
noção de "não-direção" diz respeito à
da Criança, lançado em 1947. O espaço de
abstenção do terapeuta de intervenções que
tempo (cinco anos) que separa as duas obras,
possam se interpor ao processo do indivíduo.
as semelhanças entre as propostas e a
O indivíduo dá, portanto, a direção ao
terminologia usada pelos autores nos
terapeuta em sua consulta psicológica. Nesse
possibilita falar que eles compreendem que
contexto, Rogers (1942/2005) entende que,
fazem psicoterapia com as mesmas ideias. No
nessa terapia
entanto, percebemos que existem sutis
diferenças entre as duas propostas, as quais
[...] um dos principais objetivos do
nos permitem falar de pontos de encontro e
psicólogo é ajudar o cliente a exprimir
livremente as atitudes afetivas que estão
de desencontro nas teorias, bem como
na base dos seus problemas de adaptação
repensar o espaço ocupado pela teoria de
e dos seus conflitos [...] o cliente encontra
Axline na Abordagem Centrada na Pessoa,
neste processo uma libertação afetiva dos
tomando como base a evolução da obra
sentimentos até então reprimidos, uma
maior consciência dos elementos
rogeriana proposta por Hart (1961, 1970,
fundamentais de sua própria situação e
citado por Cury, 1987) e por Wood (1983).
uma capacidade crescente para
Não temos a pretensão de abordar aqui
reconhecer seus sentimentos de uma
todos os pontos que se mostrem relevantes
maneira livre e sem receio (p. 173-174).
na proposta trazida por nós. Temos a
intenção de iniciar uma discussão que pode
Axline (1947/1984) trouxe, sobre sua
se converter em estudos posteriores em
proposta teórica, que
relação à Ludoterapia Centrada na Criança,
para que esta prática possa ser melhor
[...] a ludoterapia não-diretiva [...] pode
compreendida, melhor contextualizada e,
ser descrita como uma oportunidade que
se oferece à criança de crescer sob
consequentemente, melhor utilizada pelos
melhores condições. Sendo o brinquedo
profissionais que atendem crianças, incluindo
seu meio natural de auto-expressão lhe é
uma das autoras do presente artigo.
dada a oportunidade de, brincando,
expandir seus sentimentos acumulados
de tensão, frustração, insegurança [...]
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 102-114, 2012.
103

_Psicoterapia de Rogers e ludoterapia deAxline
libertando-se desses sentimentos através
libertação, auto-responsabilidade e
do brinquedo, ela se conscientiza deles,
maturidade.
esclarece-os, enfrenta-os, aprende a
Continuando a abordar as semelhanças
controlá-los, ou os esquece. Quando ela
atinge uma certa estabilidade emocional,
entre Rogers e Axline na psicoterapia não-
percebe que sua capacidade para se
diretiva, enfocamos os critérios que são
realizar como um indivíduo, pensar por si
necessários para o estabelecimento da
mesma, tomar suas próprias decisões,
relação terapêutica. Rogers (1942/2005) os
tornar-se psicologicamente mais madura
e, assim sendo, tornar-se pessoa (p. 28).
denominava de "aspectos fundamentais";
Axline (1947/1984) chamou de "princípios
Estes dois autores seguiram
básicos". Independentemente da
apresentando outros aspectos semelhantes
terminologia utilizada, os dois autores falaram
em suas teorias, que consideramos
de critérios que devem existir numa
importante ilustrar neste artigo.
psicoterapia, com adultos ou crianças.
Sobre as semelhanças entre as ideias de
Com a finalidade de esclarecimento
Rogers e Axline, ambos defendiam a ideia de
destas propostas, expomos abaixo os
que o terapeuta deve confiar na capacidade
aspectos fundamentais descritos por Rogers e
de crescimento do indivíduo, para possibilitar
os princípios básicos de Axline. Rogers
uma relação onde o cliente possa se auto-
(1942/2005) propôs como aspectos
dirigir e esta direção possa ser seguida pelo
fundamentais:
terapeuta, sem receios. Dessa forma, Rogers
informava que a terapia, com esse
1. Calor e capacidade de resposta por
pressuposto, serviria de apoio para que o
parte do psicólogo que torna a relação
indivíduo pudesse desenvolver-se. Rogers
possível e a faz evoluir gradualmente
(1942/2005) afirmou que "a terapia não é
para um nível afetivo mais profundo.
uma forma de fazer algo para o indivíduo ou
[...] porém, trata-se de uma relação
de induzi-lo a fazer algo sobre si mesmo. É
nitidamente controlada, uma ligação
antes um processo de libertá-lo [...], de
afetiva com limites definidos;
remover obstáculos que o impeçam de
2. Permissividade em relação à expressão
avançar" (p. 28, grifo no original).
dos sentimentos;
Axline (1947/1984) apresentava um
3.Existem limites definidos à ação do
posicionamento semelhante sobre a
indivíduo [...], ajudando a criar uma
ludoterapia, afirmando que a confiança na
estrutura que o cliente possa utilizar
capacidade da criança é fundamental para
para conseguir uma melhor
que a terapia possa alcançar êxito. Na
compreensão de si mesmo;
ludoterapia, de acordo com essa premissa de
4. Relação psicológica livre de qualquer
confiança na capacidade da criança, ela pode
pressão ou coerção (p. 87-88).
"descobrir seu caminho, testar a si própria,
deixar revelar sua personalidade, tomar a
Axline (1947/1984) destacou, como
responsabilidade por seus próprios atos [...], a
princípios básicos, as seguintes propostas:
criança adquire a coragem de seguir em
frente e de se tornar um indivíduo mais
1.O terapeuta deve desenvolver um bom
maduro e independente" (p. 32).
relacionamento com a criança para
Pode-se compreender, então, que
o estabelecimento do rapport;
ambos os autores entendiam que a confiança
2. Aceitar a criança completamente;
do terapeuta na capacidade da pessoa à sua
3. Estabelecer um sentimento de
frente, seja urna enanca ou um adulto, serve
permissividade;
de base para uma terapia que promove
4. Reconhecer e refletir os sentimentos;
5. Manter o respeito pela criança;
6. A criança indica o caminho;
104
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Psicoterapia de Rogers e ludoterapia deAxline_
7. A terapia não pode ser apressada;
desenvolvimento da relação terapêutica com
8.O valor dos limites (p. 87, grifo no
a pessoa atendida. É possível confirmar nossa
original).
afirmação em Rogers (2002), em que ele
descreve quais seriam os elementos
Para Rogers (1942/2005), a terapia deve
importantes para o treinamento de um
ser uma relação de calor e afetividade
terapeuta: uma boa base teórica que sustente
controlados pelo terapeuta. Ou seja, "[...]
sua prática; a participação do terapeuta em
trata-se de uma relação nitidamente
grupos de encontro e em acompanhamento
controlada, uma ligação afetiva com limites
psicoterápico - neste último, caso haja
definidos" (p. 87). Dessa forma, esse autor
necessidade; que o terapeuta tenha contato -
entendia que o terapeuta não deve se
o mais cedo possível - com a sua própria
envolver com as questões do cliente a ponto
prática; e a compreensão do terapeuta de
haver identificação com suas questões
que, provavelmente, leva-se uma vida inteira
pessoais.
para o seu aprimoramento.
Axline (1947/1984) também apresenta
Outro critério proposto por Rogers e
a mesma postura, ao apresentar uma postura
que pode ser verificado na obra de Axline é
terapêutica de "sensibilidade [...],
quanto à relação de permissividade que o
compreensão e genuíno interesse pela
terapeuta disponibiliza ao cliente. Segundo
criança" (p. 77). Junto a essa postura sensível,
Rogers (1942/2005), na relação terapêutica,
também estaria presente uma postura
deve haver permissividade sobre a expressão
profissional ao lidar com a criança, sem
de sentimentos do cliente. O psicólogo deve
envolvimento emocional. Isso fica claro
proporcionar ao cliente um lugar onde poderá
quando ela afirma que "o terapeuta não deve
falar de qualquer sentimento, positivo ou
se envolver emocionalmente com a criança
negativo, que ele experimentar e ele será
pois, quando isso acontece, a terapia
compreendido e aceito. Ou seja, "[...] através
desvirtua-se, e a criança não se beneficia
da aceitação [...] da completa ausência de
nestas complicadas circunstâncias" (p. 79).
qualquer atitude moralista ou judicativa da
Compreendemos a visão trazida por
atitude de compreensão [...], acaba por
Rogers e Axline exposta acima. Consideramos,
reconhecer que todos os sentimentos e
inclusive, que o limite da atuação profissional
atitudes podem se exprimir" (p. 88).
do terapeuta ou do ludoterapeuta de
Axline também enfatizou a importância
orientação rogeriana e uma possível
da permissividade e do não julgamento na
compreensão do cliente dessa relação de
expressão de sentimentos da criança. A
calor e segurança como de afetividade, por
profundidade com a qual ela expressa seus
parte do terapeuta, seja tênue. Mas
sentimentos está intimamente ligada à essa
entendemos também que esta postura
permissividade. A aceitação dos sentimentos
suscite mal-entendidos e uma atitude do
da criança, segundo a autora, pode acontecer
terapeuta de não-afetividade extrema,
tanto por meio verbal, quanto por meio não-
gerando o que chamamos de 'distanciamento
verbal. Independentemente da forma de
seguro' entre terapeuta e cliente (a criança),
expressão desse sentimento, a permissividade
de forma que a relação possa ser
possibilita que a criança adquira, pouco a
comprometida pela excessiva preocupação do
pouco, a consciência da sua responsabilidade
terapeuta em não se mostrar afetivo,
quanto às escolhas que faz. Ela poderá, então,
podendo gerar incongruência entre o que o
decidir a direção que a relação terapêutica
terapeuta sente e o que ele expressa.
pode tomar. Dessa forma, Axline (1947/1984)
O terapeuta deve, para minimizar isso,
alerta para o fato de que "o grau de
estar seguro de seu papel de atuação, de seus
permissividade que faz com que a terapia seja
pressupostos teóricos, bem como estar
realmente bem sucedida é diretamente
emocionalmente preparado para o
proporcional à aceitação da criança" (p. 106).
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 102-114, 2012.
105

_Psicoterapia de Rogers e ludoterapia deAxline
A questão da permissividade em Rogers
definidos de maneira clara e que estes devem
e Axline, então, apresenta-se como ponto de
ser poucos, geralmente limitados aos
convergência, no que tange à completa
materiais utilizados ou ao ataque físico sobre
aceitação de sentimentos e atitudes e aos
o terapeuta. Axline (1947/1984) defendia que
efeitos proporcionados por essa postura do
os limites servem para vincular,
terapeuta: o reconhecimento por parte do
minimamente, a psicoterapia à vida cotidiana
cliente de aspectos de si, até então negados;
da criança, para que esta aprenda a canalizar
uma maior responsabilidade sobre as
suas ações sobre o material presente na sala
escolhas realizadas pelo indivíduo; um
de terapia, bem como para que a terapia seja
direcionamento do processo terapêutico cada
construída em torno do respeito entre
vez mais encaminhado ao crescimento. Em
terapeuta e criança. Dessa forma, ela
resumo, um processo terapêutico eficaz.
reorganiza melhor suas experiências e lida de
Outro critério semelhante entre Rogers
maneira mais construtiva com os limites
e Axline a ser enfocado é o da construção de
impostos pelos relacionamentos cotidianos.
limites terapêuticos na relação entre o
Ainda sobre os limites que o terapeuta
psicólogo e o cliente. Rogers (1942/2005)
deve colocar na relação terapêutica, ambos
abordou essa questão, defendendo que os
os autores enfatizaram a necessidade de que
limites na relação terapêutica criam uma
os limites na psicoterapia fossem esclarecidos
estrutura onde o cliente pode compreender-
ao cliente, seja ele adulto ou criança. Rogers
se melhor. Os limites representariam um dos
justificou essa necessidade para a
"elementos vitais" (p. 89) que aumentariam a
manutenção da aceitação incondicional, tão
percepção do cliente da responsabilidade
importante para a eficácia da terapia. Axline
sobre seus atos e sentimentos na terapia. A
compreendia a importância dos limites para
existência dos limites é importante para a
situar a criança de que a terapia faz parte do
manutenção da aceitação incondicional do
mundo de relações em que ela vive. Uma
terapeuta, importante para a manutenção da
relação com características diferenciadas,
relação terapêutica. O posicionamento de
sem dúvida, mas ainda assim uma relação
Rogers (1942/2005) fica claro na citação a
onde o respeito mútuo é fundamental.
seguir:
Mais uma semelhança percebida na
teoria de Rogers e Axline refere-se à
[...] em qualquer situação terapêutica,
capacidade do terapeuta de não apressar o
quer com crianças, quer com adultos,
processo de seu cliente. Rogers (1942/2005)
surgem exigências, exprimem-se desejos,
entendia que a relação terapêutica deveria
em relação aos quais o psicólogo tem que
tomar uma atitude. O iniciante ou
ser livre de qualquer tipo de pressão ou
psicólogo pouco treinado [...] tem
coerção por parte do terapeuta. Ele enfatiza
tendência a ceder a essas exigências [...]
que "o psicólogo competente abstém-se de
até que essas exigências crescem a um
introduzir nas situações terapêuticas os seus
ponto tal que o psicólogo não pode ceder.
Nesse momento, a afeição e o desejo de
próprios desejos, reações e inclinações" (p.
ajudar tornam-se aversão e tentativa de
89). A hora terapêutica pertence ao cliente e
evitar a relação (p. 96).
não ao terapeuta. Rogers compreendia que a
recusa de influenciar o cliente seria "uma
Para evitar essa situação prejudicial ao
base positiva para o crescimento e
cliente e ao terapeuta, este deve ter
desenvolvimento da personalidade, para a
consciência da necessidade de existirem
escolha consciente e para a integração
limites e que estes devem ser bem definidos,
autocomandada" (p. 90).
claramente compreendidos pelo cliente e
Pode-se fazer um paralelo desse
utilizados de maneira construtiva.
aspecto da relação terapêutica de Rogers com
Axline (1947/1984), assim como Rogers,
o sexto princípio de Axline (1947/1984), na
enfatiza que o terapeuta deve ter os limites
Ludoterapia não-diretiva: a criança indica o
106
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 102-114, 2012.

Psicoterapia de Rogers e ludoterapia deAxline_
caminho e o terapeuta o segue. A hora da
criança expressa, reconhecendo-os,
terapia pertence á enanca. As opiniões e
objetivando que a criança clarifique sua forma
sentimentos do terapeuta não são bem-
de pensar e ajude a si própria. Para Axline
vindos naquele momento. A autora entende
(1947/1984) "a terapeuta é sensível ao que a
que "a criança é bloqueada pela intromissão
criança está sentindo e expressando [...]. Ela
da personalidade do terapeuta, no brinquedo.
reflete essas atitudes emocionalmente
Consequentemente, este deve se manter de
expressas, de tal maneira que a ajude a
fora [...]" (p. 129).
compreender-se melhor" (p. 27).
Para Rogers e Axline, a relação
Diante do exposto, sobre a forma de
terapêutica eficaz é aquela na qual o cliente
clarificar os sentimentos expressos pelo
dá o direcionamento. Dessa forma,
cliente, podemos concluir que apesar da
posicionamentos, julgamentos de valor,
terminologia diferenciada, os dois autores
opiniões de qualquer natureza que o
estão se referindo, conceitualmente, ao
terapeuta insistir em inserir na relação
mesmo tipo de resposta.
poderão ser refutadas pelo cliente ou atrasar
Em acordo ao que escrevemos no início
avanços na terapia, por se tratar de uma
deste artigo, abordaremos características que
direção dada pelo terapeuta.
consideramos convergente nas teorias de
O último aspecto que abordamos aqui
Rogers e Axline. Percebemos pontos de
como convergência entre as teorias de Rogers
encontro nestes autores quanto aos objetivos
e Axline diz respeito as respostas do
da terapia, quanto ao pressuposto que
terapeuta aos sentimentos que o cliente
ampara as duas teorias, quanto à importância
expressa na terapia. Ambos os autores
da permissividade, aos limites terapêuticos,
compreendem que o terapeuta deve
quanto à postura do terapeuta de não-
responder não aos conteúdos, mas sim aos
coerção do cliente e quanto ao tipo de
sentimentos que o cliente (adulto ou criança)
respostas que o cliente recebe do terapeuta
coloca nesses conteúdos. Rogers
diante dos sentimentos que ele expressa.
(1942/2005), ao falar de sua teoria não-
diretiva, propõe que o terapeuta mantenha-
Desencontros entre a Psicoterapia não--diretiva
se vigilante para reconhecer os sentimentos
e Ludoterapia não--dire--diretiva
que o cliente expressa, de forma a tornar o
cliente capaz de conduzir-se de maneira mais
Apesar de Rogers e Axline
eficaz para os sentimentos que permeiam seu
apresentarem semelhanças no que tange à
problema de adaptação. Isso fica visível na
psicoterapia não-diretiva, podemos verificar
seguinte afirmação de Rogers (1942/2005):
que os autores têm pontos de divergência ao
"quando o psicólogo está atento à resposta às
abordarem a psicoterapia na perspectiva do
atitudes expressas pelo cliente, reconhece e
método não-diretivo.
clarifica esses sentimentos, a entrevista está
Em Psicoterapia e Consulta Psicológica,
centrada no cliente e os elementos que
sobre a ludoterapia desenvolvida no contexto
surgem são efetivamente relevantes para o
não-diretivo, Rogers (1942/2005) afirmou que
problema do cliente" (p. 139).
não parecia haver outra diferença entre a
Axline (1947/1984) dá ênfase à resposta
terapia de adultos e a ludoterapia, com
reflexiva, um termo mais característico da
exceção à questão da comunicação entre
fase reflexiva do que do período não-diretivo
terapeuta e criança. Segundo o autor, "a
(Wood, 1977, citado por Cury, 1987). No
diferença mais notável está em que na
desenvolvimento dessa resposta, porém,
ludoterapia a relação é definida muito mais
percebemos que ela utiliza o termo
através das ações do que das palavras" (p.
"resposta-reflexiva" para caracterizar uma
95). Ou seja, a diferença não ocorreria nas
resposta que surja de um terapeuta que
atitudes do terapeuta, independentemente
esteja sempre atento aos sentimentos que a
da faixa etária atendida. O terapeuta continua
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107

_Psicoterapia de Rogers e ludoterapia deAxline
tendo uma relação de permissividade, com os
Segundo o autor, "a consulta psicológica pode
limites mínimos e com a noção do seu papel
ajudar apenas quando há um certo grau de
de terapeuta. Para Rogers (1942/2005), essa
mal-estar provocado por uma situação de
diferença se apresentaria forma de
desequilíbrio" (p. 53). Ainda sobre a
comunicação estabelecida com a criança.
psicoterapia e consulta psicológica não-
Nesse contexto, o da Ludoterapia não-
diretivas, Rogers (1942/2005) salientava que
diretiva, as palavras teriam um grande papel
somente no momento de expor os limites.
[...] estas [a consulta psicológica e a
Axline (1947/1984), ao analisar as
psicoterapia] podem ser eficazes apenas
quando existe um conflito de desejos e
semelhanças com o aconselhamento não-
carências que provocam tensão e exigem
diretivo, não enfoca diferenças entre as duas
um determinado tipo de solução.
teorias, nem na sua prática profissional. No
Fundamentalmente, o que de mais
entanto apresenta uma sistematização
rigoroso se pode dizer acerca desta
situação é que, antes de a consulta poder
diferenciada e mais detalhada das atitudes a
ser eficaz, as tensões criadas por esses
serem desenvolvidas pelo terapeuta na
desejos e necessidades em conflito tem
relação com criança. Rogers (1942/2005) faz
que ser mais dolorosas para o indivíduo
uma divisão menos detalhada que a proposta
do que o sofrimento e a tensão de
por Axline.
procurar uma solução para o problema (p.
54).
Axline (1947/1984) também traz uma
discussão que pode se apresentar como
diferença e que está relacionada à
Ainda sobre a questão do estado do
terminologia de sua proposta psicoterápica.
cliente e da eficácia da terapia, Rogers
Ela afirmou que o termo não-diretivo traz
(1942/2005) afirmava que o cliente deveria
uma ideia clara do papel do terapeuta na
estar consciente de que deveria buscar ajuda
relação, mas não deixa muito claro o papel do
e, também, desejar esta ajuda. Isso está
cliente. Ela propôs, então, um termo que
claramente ilustrado na seguinte passagem:
enfatizaria mais o papel do cliente: "terapia
"é certamente mais provável que a consulta
auto-diretiva" (p. 37). Com isso, podemos
psicológica tenha êxito quando [...] o cliente
inferir que Axline tentava focar sua terapia
deseje ajuda e reconheça conscientemente
em termos do cliente, em paralelo ao foco
esse fato" (p. 66). Reconhece, porém, que a
nas atitudes do terapeuta na relação, gerando
psicoterapia pode ser eficaz nos casos em que
uma aproximação com a fase posterior da
o cliente não se perceba precisando de ajuda
teoria rogeriana: a Terapia Centrada no
de maneira consciente.
Cliente.
Para ilustrar a afirmação acima, Rogers
Com base nas questões apresentadas
utilizou como exemplo um atendimento
acima, mesmo que Axline não tenha
realizado com urna enanca. A criança quase
apresentado claramente as diferenças entre
sempre não sabe o que faz na sala de terapia,
as duas teorias, estas diferenças tornam-se
mas reconhece, à medida que o processo
visíveis a partir da sistematização diferenciada
avança que há alguém ali que pode ajudá-la.
á de Rogers e da proposição de uma
Apesar de suscitar semelhança com a postura
nomenclatura desse ênfase ao papel do
que Axline toma e que será demonstrada a
cliente na terapia.
seguir, há diferença nos posicionamentos
Outro desencontro entre Rogers e
pelo fato de Rogers (1942/2005) pouco se
Axline é sobre a eficácia da psicoterapia e sua
deter a essa discussão nessa obra, afirmando
relação com o estado emocional do indivíduo
a necessidade de "analisar mais
que chega ao terapeuta. Para Rogers
adequadamente" (p. 68) essas situações e
(1942/2005) haveria a necessidade de se
mantendo sua primeira proposta no decorrer
verificar a existência de um estado de tensão
do livro. A maneira como Rogers desenvolve
que o "habilitasse" a iniciar a psicoterapia.
suas ideias deixa claro que o cliente deve
108
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 102-114, 2012.

Psicoterapia de Rogers e ludoterapia deAxline_
estar em um grau de sofrimento emocional
Rogers (1942/2005), quando as demandas do
acentuado e ter a consciência de que precisa
cliente estão ligadas ao relacionamento
de ajuda, apesar de ele trazer um exemplo
familiar, a terapia poderia ter uma maior
sobre o processo com a criança.
eficácia, caso o cliente se mantivesse
Axline (1947/1984), em contrapartida,
"afetivamente ou espacialmente liberto do
afirmava que a ludoterapia pode acontecer
controle familiar" (p. 73). A exceção seriam os
mesmo que a criança não esteja num grau
clientes que não tivessem demandas
muito acentuado de tensão ou de
relacionadas a questões familiares. Esse
desajustamento, bem como nas situações
pressuposto deveria ser obedecido, de
onde a criança apresente claramente sinais de
maneira especial, quando o cliente fosse
que encontra-se em sofrimento emocional. A
criança ou adolescente.
psicoterapia poderia servir, então, para
Ainda, segundo este autor, a terapia
prevenir uma situação de agravo do
realizada unicamente com a criança
desajuste. A citação abaixo corrobora essa
fracassaria ou poderia, ainda, trazer maiores
noção:
dificuldades ao indivíduo atendido. Para
Rogers (1942/2005), "a terapia só com a
Não há nenhuma justificativa em esperar
criança pode levá-la simplesmente a fixar-se
até que a criança esteja seriamente
numa oposição radical aos pais, agravando
desajustada para que se tente ministrar-
assim o seu problema" (p. 73). Além disso, o
lhe alguma ajuda. Parece haver uma certa
higiene mental preventiva nas
autor chamou a atenção para a seguinte
experiências de ludoterapia. E a criança,
situação:
mesmo que não esteja seriamente
desajustada, diverte-se muito com a
[...] o tratamento exclusivo da criança
experiência. Isto para ela é uma
também corre o risco de tornar os pais
brincadeira. O fato da própria criança se
ciumentos e hostis quando descobrem
dirigir, fazendo o que quer remove
que o terapeuta sustenta uma relação
qualquer vestígio de medo da situação
íntima com os filhos. Isso acontece
terapêutica, desde o primeiro contato
mesmo com os pais que teoricamente
(AXLINE, 1947/1984, p. 75).
desejam que a criança receba ajuda
psicológica (p.73).
Diante do exposto, acerca da eficácia na
terapia - independentemente da consciência
De acordo com a passagem acima,
do cliente quanto à necessidade de passar por
segundo Rogers, para que a relação
esta terapia - há um avanço em comparação
terapêutica fosse eficaz, em casos que
com a perspectiva não-diretiva. Esse avanço
envolvessem demandas relacionadas à
se deu na medida em que a autora obtinha
família, os pais também deveriam passar por
dados empíricos, a partir de sua prática direta
psicoterapia conjuntamente, para que todos
com atendimento de crianças, ao contrário de
alterassem as formas de relação estabelecidas
Rogers, que apresentou esses dados a partir
entre eles na dinâmica familiar.
dos resultados de pesquisas e dos
Um dos motivos que justificariam o
atendimentos realizados por membros de sua
posicionamento de Rogers (1942/2005) em
equipe de pesquisadores. Não fica claro nos
defesa do tratamento conjunto dos pais e da
capítulos do livro Psicoterapia e Consulta
criança parece ser o fato de que, em muitos
Psicológica que Rogers tenha atendido as
casos, os pais tendem a culpabilizar as
crianças cujos relatos estão ilustrados na
crianças por conta de demandas ou
obra.
dificuldades que são suas e não delas.
O último ponto que consideramos
Segundo este autor, "ao centrar as queixas na
divergente entre as teorias dos autores
criança, o pai ou a mãe está se defendendo
estudados diz respeito à natureza da ligação
de críticas, e normalmente é suficientemente
entre o cliente e a família. De acordo com
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 102-114, 2012.
109

_Psicoterapia de Rogers e ludoterapia deAxline
defensivo para negar que esteja diretamente
crianças ou jovens com algum grau de
envolvido ou que necessite de ajuda" (p. 93).
dependência em relação à família só teria
Sobre a questão entre família, cliente e
sucesso quando se identificasse 'a quem
a relação terapêutica, Axline (1947/1984) tem
pertenceria' a demanda. Caso ela seja do
um posicionamento oposto ao de Rogers.
familiar, este deveria passar por terapia para
Para esta autora, não há necessidade de que
que o indivíduo "afetado" (no caso, a criança
os pais ou responsáveis pela criança passem
ou o adolescente) pudesse obter melhora. Na
por terapia no decorrer do tratamento da
situação em que o indivíduo apresentasse
criança. Contudo, ela não descarta que o
questões emocionais e que existisse um grau
acompanhamento psicoterápico dos pais,
de dependência familiar, o tratamento
aliado ao acompanhamento com a criança
psicoterápico só seria eficaz em situações de
pode potencializar e acelerar o andamento do
afastamento do convívio familiar ou caso os
processo de psicoterapia desta. Isso fica claro
familiares também fossem acompanhados em
na seguinte passagem de Axline (1947/1984):
psicoterapia.
Axline defendia, em contrapartida, que
[...] embora os pais, ou substituto dos
a criança tem a capacidade de alterar as
pais, sejam frequentemente um fator
relações familiares, mesmo que somente ela
agravante no caso da criança mal
faça terapia. Mas apontou que a terapia
ajustada, e ainda possa a terapia
prosseguir mais rapidamente se os
realizada com os outros membros da família
adultos receberem também alguma ajuda
poderia trazer resultados satisfatórios mais
terapêutica ou aconselhamento, não é
rapidamente. Compreendemos, acerca do
necessário que isto aconteça para
exposto, que Axline avançou quanto ao nível
assegurar o sucesso da terapia (p. 81 -
grifo no original).
de confiança na capacidade de crescimento
do cliente, através de uma extensão da
Axline (1947/1984) confirmava a não
eficácia do processo terapêutico: o indivíduo
necessidade de que os pais passassem por
atendido poderia, também, a partir da
terapia com a justificativa de que, em vários
psicoterapia, promover mudança em sua
dos casos que acompanhou, as crianças
dinâmica familiar.
tornaram-se emocionalmente mais fortes e
Com base no exposto acima,
foram capazes de, sozinhas, lidar de maneira
apresentamos e desenvolvemos os pontos
diferenciada com a situação familiar que lhes
divergentes entre a teoria de Rogers e Axline:
era imposta produzindo, dessa forma, alguma
a diferenciação entre a psicoterapia com
mudança no ambiente. Segundo a autora, "se
adultos e a ludoterapia infantil, a eficácia da
a criança torna-se madura e responsável,
terapia e sua relação com o estado emocional
também os adultos se irritam menos e
do cliente e a natureza da ligação entre o
sentem menos necessidade de entrar em
cliente e a família. Apesar de serem poucas,
choque com ela" (p. 81).
estas diferenças são bastante significativas
Quando a criança tem demandas
para compreender a proposta de Axline como
relacionadas a questões familiares Axline
diferenciada da psicoterapia não-diretiva que
(1947/1984) ressaltava que, em muitos casos,
Rogers postulou em Psicoterapia e Consulta
quando os pais passam por psicoterapia e a
Psicológica.
criança não, a compreensão que eles vão
adquirindo a partir de seu próprio processo
Adendo sobre a discussão acerca dos
pode trazer melhorias na relação com a
desencontros
criança e levar a uma consequente melhora
das demandas desta.
Á medida que a nossa leitura sobre o
A partir das questões levantadas acima
período não-diretivo em Rogers e em Axline
verificamos que, para Rogers, a terapia com
avançava, percebíamos a existência de
divergências entre essas duas propostas
110
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 102-114, 2012.

Psicoterapia de Rogers e ludoterapia deAxline_
sobre psicoterapia. Esses desencontros foram
podem facilmente extinguir a terapia [...]" (p.
desenvolvidos no tópico anterior.
79, inserção nossa).
As significativas diferenças encontradas,
Na fase Reflexiva, em Cury (1987), uma
nos levam a inferir que a teoria da autora não
das principais características do atendimento
se encontraria situada no período não-
psicoterápico era a intensa participação
diretivo, tal como Rogers (1942/2005)
subjetiva do terapeuta, assim como o
sistematizou. Lançamos como proposta que a
reconhecimento da importância do que é
teoria da ludoterapia não-diretiva de Axline
vivenciado no encontro com o cliente para a
seja uma transição entre entre a teoria não-
vida pessoal do psicólogo. Axline (1947/1984),
diretiva e a teoria da Terapia Centrada no
em sua teoria, ainda mantém-se presa à
Cliente, desenvolvida por Rogers na obra
noção da relação de limites claramente
Terapia Centrada no Cliente, tomando como
definidos, característica da fase Não-Diretiva.
base a divisão desenvolvida por Hart (1961,
Outro ponto diz respeito ao uso da
1970, citado por Cury, 1987) e Wood (1983).
resposta-reflexo. Esse tipo de resposta foi
Ou seja, a prática de Axline apesar de ser
definido por Kinget & Rogers (1966/1977, p.
denominada pela autora de Ludoterapia não-
53, v. II) da seguinte maneira: "refletir
diretiva, apresenta aspectos que a
consiste em resumir, parafrasear ou acentuar
aproximariam de uma Ludoterapia "centrada
a comunicação expressa ou implícita do
no cliente". A prática e a teoria, porém, não
cliente". A finalidade dessa resposta, segundo
avançam a ponto de poderem ser
os autores, seria manter-se em consonância
classificadas como ludoterapia centrada no
com uma das condições facilitadoras descritas
cliente. Descreveremos a seguir os aspectos
no volume I da mesma obra: "que o ciente
que justificam a proposta.
perceba - mesmo que numa proporção
Acerca da implicação subjetiva do
mínima - a presença de 4 e 5, isto é da
terapeuta na relação com a criança, Rogers
consideração positiva incondicional e da
(1942/2005), afirmava que, no
compreensão empática que o terapeuta lhe
estabelecimento da relação terapêutica, o
testemunha" (KINGET; ROGERS, 1966/1977,
envolvimento afetivo do terapeuta poderia
p. 182, grifos no original).
existir, mas que deveria ser controlado: "será
Apesar de conferir significativa
mais prudente se o terapeuta, evitando os
importância para o reflexo de sentimentos,
extremos da reserva ou da ultra-implicação,
Axline (1947/1984) utilizou essa modalidade
criar uma relação caracterizada pelo calor,
de resposta descontextualizada das atitudes
pelo interesse, capacidade de resposta de
facilitadoras e do ambiente de segurança
uma dedicação afetiva, num grau limitado
promovido por estas, mas mantendo-se
com clareza e precisão" (p. 88).
situada à noção de permissividade: "parece
Axline (1947/1984) apresentava um
que a absoluta permissividade, construída
posicionamento semelhante ao de Rogers.
pela ausência absoluta de sugestões, é mais
Salientava a necessidade da implicação
produtiva para a terapia" (p. 104). A
pessoal do terapeuta para a eficácia da
permissividade, característica da fase não-
terapia afirmando que "o sucesso da terapia
diretiva, é definida por Rogers (1942/2005)
começa com o terapeuta. Ele deve [...] ter
como a "[...] aceitação pelo psicólogo do que
confiança em suas convicções. Deve iniciar
[o cliente] diz, da completa ausência de
cada novo contato com segurança e calma.
qualquer atitude moralista ou judicativa, da
[...] Deve estar verdadeiramente interessado
atitude de compreensão que impregnatoda a
em ajudar a criança" (p. 79). Prosseguia seu
entrevista [...]" (p. 88).
posicionamento afiamando, na mesma obra:
O último aspecto que abordamos
"é preciso [ao terapeuta] conter-se para
refere-se à problematização sobre o termo
evitar os extremos no relacionamento.
não-diretivo proposta por Axline (1947/1984).
Mostrar excessivo afeto, muito aconchego,
Conforme exposto no tópico anterior, ela
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 102-114, 2012.
111

_Psicoterapia de Rogers e ludoterapia de Axline
sugere o nome terapia auto-diretiva, para que
Para desempenhar este trabalho sem
fique claro o papel do cliente nesta relação
perder a noção de um serviço prestado e sem
terapêutica. Essa tentativa de rever o nome
esquecer de promover a manutenção do fluxo
de sua terapia a aproxima do que Cury (1987)
experiencial dessa relação, julgamos
apresentou como característica para a
importante uma consistente sistematização
mudança do termo não-diretivo para o termo
da prática. Também, é possível questionar: de
centrado no cliente na teoria rogeriana:
que maneira a noção de experienciação
tornar o cliente o real foco da atenção do
(Messias & Cury, 2006) e a tendência
terapeuta e não mais focar na atitude do
formativa (Rogers, 1983/2005), conceitos das
terapeuta de não dirigir a terapia.
fases experiencial e coletiva, podem
Diante das justificativas apresentadas,
influenciar a atual prática em Ludoterapia?
tornamos pertinente a ideia de que a teoria
Outra questão que pode ser levantada
da ludoterapia proposta por Axline encontra-
é: como se daria a relação entre a linguagem
se em um momento de transição entre duas
verbal e a comunicação entre a criança e o
perspectivas teóricas da obra rogeriana: a
terapeuta? Axline (1947/1984) argumenta
teoria da terapia não-diretiva e a terapia
que a criança se utiliza dos brinquedos como
centrada no cliente.
meio de "falar" de si para o terapeuta. Rogers
(1942/2005) aponta que a linguagem verbal
Considerações Finais
só seria importante no momento da
comunicação dos limites terapêuticos, na
No momento da escrita deste trabalho,
psicoterapia. Como lidar, dentro dessa
nós nos questionamos sobre a importância de
proposta, com a criança que não brinca? Já
escrever sobre a fase não-diretiva do trabalho
que, na ludoterapia centrada na criança, o
rogeriano (do qual Axline afirmava fazer
terapeuta não deve sugerir atividades para
parte), em detrimento do estudo sobre
serem realizadas ou brinquedos na hora do
práticas mais atuais da Abordagem Centrada
atendimento, como a criança se comunicaria
na Pessoa. Estudar sobre isso, contudo, firma-
caso ela não se utilizasse desses meios?
nos teoricamente para estudos futuros mais
Ainda sobre a questão da comunicação,
aprofundados sobre Ludoterapia.
Axline (1947/1984) sugere quais brinquedos e
Consideramos pertinente levantar
materiais o terapeuta deve ter em sua sala e
alguns questionamentos, mesmo que estes
que possibilitariam á enanca uma melhor
não sejam desenvolvidos neste momento.
expressão de seus sentimentos. Nesse
Essas questões poderão ser sementes de
momento reconhecemos que, apesar de
futuras pesquisas dentro do campo de
jogos como os de dama ou de xadrez (ou
produção científica da Abordagem Centrada
qualquer jogo de regras anteriormente
na Pessoa. As problematizações que
definidas) serem utilizados na terapia com
levantamos no decorrer deste trabalho
algum sucesso, estes não representam o
possuem como base a prática de uma das
melhor tipo de material para que a criança
autoras deste artigo como ludoterapeuta.
possa se expressar. Qual seria, então, o
Nessa perspectiva, tanto o trabalho,
material ideal para uma sala de Ludoterapia
quanto a pessoa da autora estão muito mais
nos dias atuais? A criança de hoje tem acesso
próximos da criança (ou do adulto atendido).
a jogos de regras complexas, tanto no mundo
A implicação pessoal com a criança,
real quanto no virtual, através da Internet.
certamente, é diferenciada. Do ponto de vista
Jogos mais condizentes com o contexto da
do serviço em atendimento psicoterápico, a
criança fariam com que a comunicação,
autora realiza uma atividade profissional. Do
expressão e vivência dos sentimentos
ponto de vista da relação terapêutica, estreita
fluíssem mais facilmente? Ou a criança se
laços com a criança que geram proximidade e
comunicaria melhor com algo que não fizesse
a mobilizam de alguma maneira.
parte da sua realidade de vida?
112
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 102-114, 2012.

Psicoterapia de Rogers e ludoterapia deAxline_
No tocante às contribuições para a
abordagem centrada na pessoa, mais
Gobbi, S. L, Missel, S. T, Justo, H., & Holanda,
especificamente para a teoria da
A. (2002). Vocabulário e Noções Básicas da
personalidade, o avanço dos estudos em
Abordagem Centrada na Pessoa. São Paulo:
Ludoterapia poderia trazer contribuições
Vetor.
relevantes para a compreensão de como o
desacordo entre o eu e a experiência se
Kinget, G. M., & Rogers, C. R. (1977).
desenvolve. Kinget & Rogers (1977, v. I)
Psicoterapia e Relações Humanas. Vols. I e II.
postularam que "a criança percebe sua
Belo Horizonte: Interlivros.
experiência como sendo a realidade" (p. 196 -
grifo no original). Esse autor propõe que a
Messias, J. C. C., & Cury, V. E. (2006).
tendência atualizante é o seu critério de
Psicoterapia Centrada na Pessoa e o Impacto
avaliação. A partir da necessidade de
do Conceito de Experienciação. Recuperado
consideração positiva do organismo e
em 15 de agosto de 2008, de
intervenção das pessoas-critério, pode-se
http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/188/1
possibilitar uma correta simbolização ou levar
8819303.pdf.
a um desacordo entre o eu e a experiência,
por parte da criança. Essa noção do processo
Rogers, C. R. (2002). Training the Therapist.
que, segundo Kinget & Rogers (1977, v. I),
Em: Rogers, C. R., & Russell, D. E. Carl Rogers
levaria uma pessoa ao desacordo e à
The Quiet Revolutionary: An Oral History.
consequente deformação de sua experiência
Roseville: Penmarin Books.
para manter a sua estrutura de eu, poderia
ser acrescida de mais algum aspecto, levando-
Rogers, C. R. (2005). Psicoterapia e Consulta
se em consideração a perspectiva da noção
Psicológica. São Paulo: Martins Fontes.
de experienciação (Messias & Cury, 2006)?
(Original publicado em 1942).
Com a realização deste trabalho,
acreditamos ter aberto portas para novos
Rogers, C. R. (2005). Um Jeito de Ser. São
estudos em Ludoterapia e na Abordagem
Paulo: EPU. (Original publicado em 1983).
Centrada na Pessoa. Estudos que exijam
implicação pessoal, para que possam se
WOOD, J. Terapia de Grupo Centrada na
desenvolver de maneira mais viva, assim
Pessoa. Em: FONSECA, A. H. L. etal. Em Busca
como sugeriu Rogers, em vários momentos de
de Vida. São Paulo: Summus Editorial, 1983
sua obra.
(Original publicado em 1980).
Referências
Nota sobre as autoras
Axline, V. M. (1984). Ludoterapia: A Dinâmica
Interior da Criança. Belo Horizonte:
Rosa Angela Cortez de Brito: Psicóloga.
Interlivros. (Original publicado em 1947).
Mestre em Psicologia pela Universidade
Federal do Ceará. Atua na área clínica e como
Axline, V. M. (1991). Dibs Em Busca de Si
docente do curso de psicologia da Faculdades
Mesmo. Rio de Janeiro: Agir. (Original
Nordeste (FANOR) e da Faculdade de
publicado em 1964).
Tecnologia Intensiva (FATECI). Continua
desenvolvendo estudos sobre a Ludoterapia
Cury, V. E. (1987). Psicoterapia Centrada na
na Abordagem Centrada na Pessoa. Contato:
Pessoa: evolução das formulações sobre a
rosabrito@ymail.com
relação terapeuta-cliente. 89 f. Dissertação de
mestrado. Mestrado em Psicologia Clínica.
Vilma Maria Barreto Paiva: Psicóloga.
Universidade de São Paulo, São Paulo.
Doutora em Educação pela Universidade
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 102-114, 2012.
113

_Psicoterapia de Rogers e ludoterapia deAxline
Federal do Ceará (UFC) e docente do curso de
Psicologia da mesma Universidade. Contato:
vilmabarretopaiva@gmail.com.
Recebidoem: 10/03/2012
Aceito para publicação: 15/09/2012
114
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 102-114, 2012.

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA: UM OLHAR SOB O ENFOQUE DA ACP
THE DIVING BELL AND THE BUTTERFLY: A LOOK UNDER THE FOCUS OF PCA
Amanda Morais de Faria
Andréia Moreira Rocha
PUC Minas Arcos
Resumo
Este artigo consiste em uma pesquisa bibliográfica a partir do livro O
Escafandro e a Borboleta, de Jean-Dominique Bauby, à luz do referencial
teórico da Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers. Bauby, editor
chefe da revista francesa Elle, em dezembro de 1995, aos 43 anos de idade,
sofreu um acidente vascular cerebral, permanecendo em coma por vinte
dias e se tornando portador de uma síndrome rara, chamada pela medicina
de Síndrome de Locked in. O objetivo foi analisar em que aspectos a
aplicação de alguns conceitos da referida Abordagem podem contribuir
para o cuidado de pessoas que apresentem uma limitada capacidade de se
comunicar assim como Bauby. O estudo realizado conclui que as atitudes
oferecidas ao autor, por duas profissionais do hospital, favoreceram o seu
desenvolvimento e crescimento interior, no sentido da sua maturidade,
autonomia e responsabilidade como pessoa.
Palavras----chave: chave:psicologia existencial humanista; o escafandro e a borboleta;
abordagem centrada na pessoa; síndrome de locked in.
Abstract
This article consists on a bibliographic research from the book The Diving
Bell and the Butterfly by Jean-Dominique Bauby, from the viewpoint of the
theoric referential of Person Centered Approach by Carl Rogers. Bauby,
editor-in-chief of French magazine Elle, in December 1995, 43 years old, had
a stroke, remaining in coma for twenty days and becoming the bearer of a
rare syndrome, called, by medicine, of Locked-in syndrome. The objective
was to analyze in what aspects the application of some concepts of the
Approach can contribute to the care of people who present a reduced
capacity of communication like Bauby. The study concludes that the
attitudes oferred to the author, by two workers of the hospital, favored his
development and inner growth, in the sense of his maturity, autonomy and
responsability as a man.
Keywords: humanistic approach to psychology; the diving bell and the
butterfly; person centered approach; locked-in syndrome.
Resumen
Este artículo consiste en una revisión bibliográfica del libro La escafandra y
la mariposa de Jean-Dominique Bauby, a la luz del marco teórico del
Enfoque Centrado en la Persona de Carl Rogers. Bauby, editor en jefe de la
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 115-126, 2012. 1 1 5

_O escafandro e a borboleta: um olharsob o enfoque daACP
revista francesa Elle en diciembre de 1995 a los 43 años de edad, sufrió un
derrame cerebral y permaneció en coma durante veinte días y convertirse
en el portador de un síndrome raro llamado por la medicina Bloqueado en
el síndrome. El objetivo fue analizar qué aspectos de la aplicación de este
enfoque algunos conceptos pueden contribuir a la atención de las personas
que tienen una capacidad limitada para comunicarse, así como Bauby. El
estudio concluye que las actitudes que ofrece el autor, por dos
profesionales del hospital, favoreció su desarrollo y crecimiento interior
hacia la madurez, autonomía y responsabilidad como persona.
Palabras clave: psicología humanista existencial; la escafandra y la mariposa;
enfoque centrado en la persona; síndrome del Locked in.
1. Intro1.1.Introdução
pessoas que possuem limitações em se
comunicar, apresentem atitudes que possam
Imagine-se estar na seguinte situação:
tornar essa vivência não só menos dolorosa,
em uma cama de hospital, paralisado dos pés
mas que proporcionem condições que
a cabeça. O único movimento possível de ser
favoreçam o seu crescimento pessoal.
realizado é com a pálpebra do olho esquerdo.
Acredita-se, ainda, que agindo tal como a
Você ouve e entende tudo à sua volta, no
Abordagem Centrada na Pessoa nos propõe,
entanto, é tratado como se não estivesse ali,
isso seja possível, tendo em vista que essas
simplesmente porque você não consegue se
condições podem ser oferecidas em
comunicar verbalmente. Afinal, quem se
quaisquer contextos e relações que não sejam
importa em prestar atenção no seu olhar?
a psicoterapia.
Ninguém se preocupa em lhe dar informações
O presente trabalho está dividido em
ou pedir sua opinião, você se tornou apenas
três momentos: no primeiro, será
um corpo presente. Agora, imagine alguém
apresentada uma síntese do livro O
que verdadeiramente vivenciou tal
Escafandro e a Borboleta, para proporcionar
experiência. Pois bem, essa é a história de
ao leitor uma maior proximidade com as
Jean-Dominique Bauby, editor chefe da
experiências de Jean-Dominique Bauby. No
revista francesa Elle, que em dezembro de
segundo, por sua vez, explicitar-se-ão alguns
1995, aos 43 anos de idade, sofreu um
conceitos da Abordagem Centrada na Pessoa
acidente vascular cerebral, permanecendo
que fundamentam esse trabalho, e, no
em coma por vinte dias se tornando portador
terceiro momento, será realizada a
de uma síndrome rara chamada pela
articulação entre os conceitos citados e as
medicina de Locked in syndrome1.
experiências de Bauby por meio de
Diante dessa experiência, percebe-se a
fragmentos do livro. Dessa forma, será
necessidade de que aqueles que lidam com
possível fazer uma reflexão acerca de como as
atitudes propostas pela ACP podem facilitar o
desenvolvimento das potencialidades de
Trata-se de uma rara síndrome caracterizada pela
pessoas que passam por condições
paralisação de todos os músculos voluntários, exceto
semelhantes às de Bauby.
do movimento ocular e o movimento de piscar. O
indivíduo, na maioria das vezes, depende da ajuda de
Para se chegar ao objetivo deste
aparelhos para respirar, comer, apresenta prejuízos
trabalho, foram realizadas leituras
visuais, como borrões ou visão em dobro. Contudo, as
aprofundadas acerca da Abordagem Centrada
funções cognitivas ficam preservadas, fazendo-o estar
na Pessoa, assim como uma leitura minuciosa
consciente do que se passa ao seu redor, capaz de se
lembrar do passado e ainda, pensar e raciocinar
do livro O Escafandro e a Borboleta, para que
normalmente. (BRASSENS, 2009).
pudesse ser realizada uma compreensão da
116
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 115-126, 2012.

O escafandro e a borboleta: um olharsob o enfoque daACP__
história à luz do referencial teórico em pauta.
Bauby se comunicava piscando uma vez para
escolher sim e duas vezes para escolher não.
2. Jean Dominique Bauby: a vida com
Tal código foi instaurado por Sandrine, uma
outros olhos
ortofonista do hospital de Berk. A partir do
momento em que Sandrine percebeu que
Bauby era um homem influente, pavio
Bauby era capaz de estabelecer um contato
curto, ativo e boêmio. Era redator-chefe da
mais direto com as pessoas, ela lhe
revista francesa Elle, divorciado e pai de dois
apresentou o alfabeto francês em uma
filhos, Théophile e Céleste. Vivia em um
determinada ordem de frequência das letras,
mundo de riquezas, era apreciador de livros,
para que facilitasse a comunicação de Bauby.
bons pratos, carros luxuosos e mulheres
Essa foi a forma encontrada para que ele
bonitas. Em dezembro de 1995, aos 43 anos
pudesse se comunicar e expressar seus
de idade, Bauby sofreu um acidente vascular
pensamentos e sentimentos, a qual ele
cerebral (AVC), que causou uma drástica
mesmo nomeou de "método de tradução de
mudança em sua vida. Ficou internado no
meus pensamentos" (Bauby, 2008, p.24).
hospital de Berck, na França, e recobrou a
Diante da aceitação de Bauby quanto ao
consciência após permanecer em coma
novo método e da percepção da sua
profundo por 20 dias. No entanto,
capacidade de produzir palavras e frases, ele
encontrava-se com todas as suas funções
vislumbrou a possibilidade de concretizar um
motoras perdidas, não conseguia realizar suas
projeto que tinha em mente antes de sofrer o
atividades de necessidades básicas, como
AVC: produzir um livro. Sandrine, então,
comer ou respirar sem a ajuda de aparelhos.
entrou em contato com o editor de Bauby,
Mesmo com suas funções cognitivas
sendo esse o primeiro passo para a realização
preservadas como a consciência, a
do que seria O Escafandro e a Borboleta. Para
imaginação e memória, Bauby era capaz de se
auxiliar Bauby no processo de construção do
comunicar somente através do piscar do olho
livro, seu editor enviou Claude, a pessoa
esquerdo, pois fora acometido pela Locked in
responsável por ditar as letras do código e
syndrome ou síndrome do encarceramento.
anotar a letra escolhida. Ela ditava letra por
Ao se deparar com sua nova condição
letra, cuidadosamente, e Bauby piscava
como portador de tal síndrome, Bauby fez
quando quisesse escolher a letra dita.
uma reflexão interna a respeito de tudo o que
Diante de tais mudanças, a realidade de
estava acontecendo em sua vida, decidindo
Bauby passou a ser assustadora: de quem dias
contar sua história a partir do seu próprio
atrás conseguia fazer voluntariamente todos
ponto de vista, sendo esta também a forma
os movimentos, podia decidir por si mesmo
como ele encontrou para expressar para os
tudo o que quisesse, para alguém que deixou
outros como era a sua vivência estando
de possuir as rédeas de sua própria vida. Ter
encarcerado em si mesmo. As palavras
que ser lavado como um bebê não era para
utilizadas pelo autor no título da obra dizem
ele uma situação fácil, pois automaticamente,
exatamente da condição em que ele se
se lembrava dos banhos luxuosos que
encontrava: o escafandro representa o seu
tomava, sentindo a crueldade da sua atual
corpo, seu cárcere, e a borboleta simboliza a
condição.
sua imaginação, viva e livre para voar e criar.
Bauby sentia necessidade de estar em
contato com vidas, talvez para sentir que
2.1 Como dizercom o olhar?
ainda estava vivo. Sentia-se reconfortado
quando se comparava aos pacientes em
O estabelecimento do processo de
coma, que não podiam sequer sair do quarto.
comunicação de Bauby foi lento, exigindo
Mas, ao mesmo tempo, percebia que causava
paciência e dedicação tanto por parte dele
um sentimento de mal-estar e até mesmo de
quanto de seus interlocutores. Inicialmente,
medo aos outros pacientes do hospital, diante
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 115-126, 2012.
117

_O escafandro e a borboleta: um olharsob o enfoque daACP
da sua aparência. Percebe-se em Bauby,
2008, p.88). Assim, se correspondia
sentimentos de tristeza e constrangimento
mensalmente com essas pessoas, e se
diante da reação dessas pessoas ao olharem
surpreendeu com a resposta que encontrou,
para ele. Sentimentos semelhantes também
cartas de amigos nem tão próximos, que
lhe ocorriam nos momentos em que um
"falam do sentido da vida, da supremacia da
padioleiro lhe desejava bom apetite na hora
alma, do mistério de cada existência" (Bauby,
do almoço, mesmo sabendo que ele se
2008, p.89). Relatos de pequenos fatos do
alimentava através de uma sonda.
cotidiano, trazidos nessas cartas, eram para
Contudo, ao mesmo tempo em que
Bauby sopros de vida e lhe comoviam
havia membros da equipe que
profundamente. Questionava-se se havia sido
desconsideravam Bauby, suas capacidades,
preciso ocorrer tal desgraça em sua existência
opiniões e limitações, sendo muitas vezes
para perceber essas pessoas, que algum dia
irônicas, também havia aqueles que
fizeram parte de sua vida. Apreciava, lia e
enxergavam nele a pessoa, fazendo com que
guardava cada carta como se fossem
o seu escafandro não fosse tão solitário. Em
tesouros, que eram, para ele, a prova de
especial, Sandrine a ortofonista, a quem
verdadeiras amizades.
Bauby chamava de anjo da guarda, pois foi
Mesmo com toda a rotina do hospital,
ela quem instaurou o código de comunicação
cheia de barulhos e inconvenientes, Bauby
que lhe possibilitou dar voz às borboletas, que
relatava que seus ouvidos podiam até não
também lhe faziam companhia. Ela
funcionar muito bem, mas que havia um
intermediava os diálogos de Bauby por
silêncio, tanto do hospital, como dentro dele
telefone, permitindo-lhe dessa forma ouvir as
mesmo, em que "posso ouvir as borboletas
vozes das pessoas queridas "e assim apanhar
voando pela minha cabeça" (Bauby, 2008,
no ar fragmentos de vida, como quem caça
p.105). Era quando ele se voltava para si
borboletas." (Bsuby, 2008, p.45).
mesmo. Tais borboletas lhe proporcionavam
Bauby tentava dosar seus sentimentos,
crescimento, impulsionando-o a voar cada vez
para não explodir como uma panela de
mais alto. "Aliás, é espantoso. Minha audição
pressão. Esse, aliás, era o título de uma peça
não melhora, mas eu as ouço cada vez mais.
de teatro que pensava em fazer futuramente,
De fato, as borboletas devem dar-me
contando sua história a partir do seu ponto de
ouvidos". (Bauby, 2008, p.107).
vista: um pai de família na flor da idade, com
Depois de todos os seus relatos e
síndrome do encarceramento, que vivia suas
reflexões, lá estava Bauby, entre a cadeira de
aventuras no universo médico e assistia a
rodas, o leito e os corredores do hospital. Sua
evolução de suas relações com sua família,
vida era ali agora. Então, encerra o livro
amigos e sócios.
descrevendo o seu momento atual. Como era
Mas, sem se entregar aos sentimentos
mês de agosto, aguardava notícias de como
de tristeza que lhe invadiam, Bauby, ao
haviam sido as férias. Escutava Claude reler os
completar seis meses de sua condição como
textos por ele ditados. De uns, orgulhava-se,
portador da síndrome do encarceramento,
de outros, nem tanto. E se perguntava:
começou a escrever para amigos e
"Juntando tudo dá um livro?" (Bauby, 2008,
conhecidos "para contar meus dias, meus
p.138-139). Enquanto escutava Claude,
progressos e minhas esperanças" (Bauby,
observava-a minuciosamente e também tudo
2008, p.87). Bauby experimentou
que estava a sua volta. Parecia comparar os
sentimentos de raiva das pessoas que lhe
objetos que pertenciam ao seu mundo e os
chamaram de legume nos locais que
que não mais pertenciam, como uma chave
frequentava, e percebeu: "Se eu quisesse
de hotel, um bilhete de metrô e uma nota de
provar que meu potencial intelectual
cem francos.
continuava sendo superior ao de um salsão,
Bauby relatava como estava sendo viver
tinha de contar só comigo mesmo" (Bauby,
com a síndrome, transmitindo um ar de
118
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 115-126, 2012.

O escafandro e a borboleta: um olharsob o enfoque daACP__
incerteza de que a sua situação algum dia
experienciais. E visa constantemente
pudesse mudar, recorrendo a todas as
desenvolver as potencialidades do
indivíduo para assegurar sua conservação
possibilidades que fizessem isso acontecer:
e seu enriquecimento, levando-se em
imaginando, fantasiando. Em sua viagem
conta as possibilidades e os limites do
imóvel, Bauby queria expor suas experiências
meio. (p. 41).
para as outras pessoas, torná-las úteis e
provar, para elas e para ele mesmo, que era
Segundo Rogers e Kinget (1977), trata-
possível viver encarcerado, ainda que na
se de um processo de crescimento interior
companhia das borboletas. Escrever talvez
complexo, que envolve um melhor
fosse a forma que ele encontrou para
conhecimento do próprio corpo tanto no
compreender o que essas lhe suscitavam.
sentido físico, quanto no sentido de se
Em sua experiência com a síndrome,
perceber melhor como pessoa
Bauby percebeu que, até então, havia vivido
experiencialmente, através da aprendizagem
uma vida "vazia", sem que cada detalhe
e expansão das capacidades nos âmbitos
tivesse a riqueza que aprendeu a perceber.
intelectual, social e prático.
Durante o seu relato, percebe-se a presença
Como a referida tendência é algo que
da solidão, do estranhamento de si mesmo,
abrange o organismo2 em sua totalidade, ela
de sentimentos de negação, de desespero e
também exerce influência sobre a estrutura
de arrependimento. Entretanto, mais do que
do eu, estrutura essa que se desenvolve na
todos esses, havia ainda, e muito vivos, a
medida em que o organismo se diferencia.
autenticidade, a admiração pela vida, além da
Nesse sentido, Rogers e Kinget (1977)
esperança e da crença na sua capacidade de
definem que:
amar, viver e produzir, mesmo estando preso
a si mesmo e com todas as suas limitações.
A noção do 'eu' é uma estrutura
perceptual, isto é, um conjunto
organizado e mutável de percepções
3. Um pouco da Abordagem Centrada na
relativas ao próprio indivíduo. Como
Pessoa
exemplo destas percepções citemos: as
características, atributos, qualidades e
3.1.3.13.1. Permitindo..Permitindo--se s e r p e s s o a
defeitos, capacidades e limites, valores e
relações que o indivíduo reconhece como
descritivos de si mesmo e que percebe
Para se proporcionar um clima favorável
como constituindo sua identidade. Esta
para o crescimento pessoal, o terapeuta ou,
estrutura perceptual faz parte,
no caso do presente estudo, o facilitador, de
evidentemente - e parte central - da
acordo com Rogers e Kinget (1977) deve
estrutura perceptual total que engloba
todas as experiências do indivíduo em
apresentar três atitudes básicas na relação
cada momento de sua existência (p. 44).
com a pessoa, a saber: consideração positiva
incondicional, compreensão empática e
Ainda de acordo com Rogers e Kinget
congruência.
(1977), quando a tendência atualizante age
Ao receber essas condições,
sobre a noção do eu, há a tendência à
proporciona-se um clima favorável para a
atualização do eu, determinando-se o
manifestação de uma força direcional
comportamento da pessoa. No entanto, para
presente em todo ser vivo, denominada por
que a pessoa esteja de acordo com o que ela
Rogers e Kinget (1977) de tendência
é e com o que ela experiencia, é necessário a
atualizante ou tendência à atualização:
A tendência à atualização é a mais
A significação tradicional, unilateralmente física do
fundamental do organismo em sua
termo, está estabelecida com demasiada solidez para
totalidade. Preside o exercício de todas as
que seja adotada em psicologia, com o objetivo de
funções, tanto físicas quanto
indicar a estrutura da experiência e sua manifestação
no comportamento (ROGERS; KINGET, 1977, p. 42).
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 115-126, 2012.
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_O escafandro e a borboleta: um olharsob o enfoque daACP
ocorrência do que Rogers e Kinget (1977)
maior probabilidade de se adaptar de forma
denominam de liberdade experiencial:
saudável, sobrevivendo em condições de
mudanças que venham a lhe ocorrer e, ainda,
Esta liberdade existe quando o indivíduo
de uma forma criativa.
se dá conta do que lhe é permitido
É bom notar, de passagem, ainda sob a
expressar (ao menos verbalmente): sua
visão de Rogers (2009), que a socialização
experiência, seus pensamentos, emoções
e desejos tais e quais ele os experimenta
com o outro e com o meio é, para a pessoa,
e independentemente de sua
uma de suas mais profundas necessidades.
conformidade às normas sociais e morais
Isso ocorre, quando a pessoa é genuinamente
que regem seu meio ambiente. (p. 47).
ela mesma, permitindo-se expressar os
sentimentos e impulsos que estão sendo
Assim, a pessoa não precisa e nem se
experienciados naquele momento de forma
sente obrigada a negar ou deformar o que
equilibrada e realista. "Quanto mais ele
está experienciando para manter o apreço
estiver aberto à sua experiência, mais o
das pessoas que lhe são importantes ou até
comportamento manifesta que a natureza da
mesmo a sua auto-estima. É permitido à
espécie humana se inclina numa direção de
pessoa expressar livremente o que ela está
vida socialmente construtiva" (Rogers, 2009,
experienciando naquele momento, o que
p.410).
facilita uma relação autêntica consigo e com
Até o momento, foram abordados os
as pessoas e situações à sua volta. (Rogers;
conceitos de tendência atualizante, noção do
Kinget, 1977).
eu, liberdade experiencial, assim como as
Para Rogers (2009), a pessoa, quando
noções de criatividade construtiva e
consegue chegar a esse ponto de percepção
socialização. Mas, como havia sido exposto
da sua experiência, em contato profundo com
anteriormente, segundo Rogers e Kinget
o seu próprio mundo e o que o cerca, seria
(1977) para que o facilitador possa
capaz de viver na condição de criatividade
proporcionar um clima favorável capaz de
construtiva:
proporcionar mudanças na personalidade da
pessoa, no sentido de seu crescimento e
Essa total abertura da consciência àquilo
desenvolvimento de suas potencialidades, é
que existe num determinado momento é,
segundo creio, uma importante condição
preciso oferecer a ela as condições
da criatividade construtiva. (...) Apenas de
necessárias, que consistem basicamente em
uma forma muito geral se poderá dizer
três atitudes que devem estar presentes na
que o ato criativo é o comportamento
relação interpessoal, sendo elas a
natural de um organismo que tende a se
consideração positiva incondicional, a
expandir quando está aberto a todo o
campo da sua experiência, seja ele
compreensão empática e a congruência.
interior ou exterior, e quando é livre para
Em seu artigo "As Condições
procurar de uma maneira flexível todos os
Necessárias e Suficientes para a Mudança
tipos de relações. Dessa multidão de
Terapêutica da Personalidade", Rogers (1992)
possibilidades semiformadas, o
conceitua tais condições, e, ao descrever
organismo, como um grande computador,
seleciona uma que seja uma resposta
sobre a consideração positiva incondicional,
eficaz a uma necessidade interior, ou que
afirma que esta seria uma postura de não
entre numa relação mais efetiva com o
julgar ou impor condições diante do que a
ambiente, ou que invente uma ordem
outra pessoa expressa, seja verbalmente ou
mais simples e mais satisfatória na
não. Significa sentir uma estima diante dos
maneira de captar a vida (p.411-413).
seus sentimentos, desejos, pensamentos e
Dessas palavras de Rogers, parece
temores.
emanar que essa pessoa aberta ao que está
(...) Significa um respeito e apreço por ele
experienciando naquele momento, teria uma
como uma pessoa separada, um desejo
120
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 115-126, 2012.

O escafandro e a borboleta: um olharsob o enfoque daACP__
de que ele possua seus próprios
perceber os sentimentos, medos e angústias
sentimentos à sua maneira. Significa uma
como se fossem seus, deixando de lado seus
aceitação de suas atitudes no momento
próprios valores e ponto de vista. Essa atitude
ou consideração pelas mesmas,
independente de quão negativas elas
por sua vez também age na pessoa de forma
sejam, ou de quanto elas possam
a lhe despertar a promoção de forças internas
contradizer outras atitudes que ele
de crescimento.
sustinha no passado. Essa aceitação de
As atitudes apresentadas pelo
cada aspecto flutuante desta outra
pessoa constitui para ela uma relação de
facilitador em relação a pessoa inserem-se
afeição e segurança, e a segurança de ser
como condições necessárias durante o
querido e prezado como uma pessoa
processo terapêutico ou relacional, para que
parece ser um elemento sumamente
de fato ocorram mudanças construtivas.
importante na relação de ajuda (Rogers,
Portanto, tais atitudes devem ser autênticas,
2009, p. 38).
e genuinamente expressas por ele, e assim,
percebidas pela pessoa.
Dessa forma, é uma atitude do
facilitador que demonstra sua aceitação
Descobri que quanto mais conseguir ser
genuína da pessoa, estando disponível para
genuíno na relação, mais útil esta será.
recebê-la da maneira como ela se apresenta
Isso significa que devo estar consciente de
naquele momento e durante todo o processo.
meus próprios sentimentos, o mais que
Nesse clima de consideração positiva
puder, ao invés de apresentar uma
fachada externa de uma atitude, ao
incondicional, de aceitação por tudo aquilo
mesmo tempo em que mantenho uma
que a pessoa expressa durante o processo
outra atitude em um nível mais profundo
terapêutico ou relacional, surge também a
ou inconsciente. Ser genuíno também
atitude de compreensão empática do
envolve a disposição para ser e expressar,
em minhas palavras e em meu
facilitador. Rogers (1992) descreve esta
comportamento, os vários sentimentos e
atitude em uma tentativa do facilitador de
atitudes que existem em mim. (...) É
sentir a experiência da outra pessoa "como
somente ao apresentar a realidade
se" fosse dele, tendo consciente o que lhe é
genuína que está em mim, que a outra
próprio e o que é do outro.
pessoa pode procurar pela realidade em
si com êxito. (Rogers, 2009, p. 37-38)
Nesse sentido, Rogers (2009) afirma:
Também acho que a relação é
Nesse sentido, a congruência é uma
significativa na medida em que sinto um
atitude essencial ao processo de crescimento
desejo contínuo de compreender - uma
pessoal, e que se caracteriza pela
empatia sensível com cada um dos
autenticidade com que são revelados os
sentimentos e comunicações do cliente
sentimentos e impressões vivenciados pelo
como estes lhe parecem no momento.
(...) É somente à medida que
facilitador no seu encontro com a pessoa.
compreendo os sentimentos e
Nesse momento, o ele deve se apresentar
pensamentos que parecem tão terríveis
como ele realmente é, assumindo o que
para você, ou tão fracos, ou tão
experiencia na relação com a pessoa sem
sentimentais, ou tão bizarros - é
somente quando eu os vejo como você
nenhum tipo de fingimento.
os vê, e os aceito como a você, que você
Dessa forma, as três atitudes
se sente realmente livre par explorar
facilitadoras citadas anteriormente fazem
todos os cantos recônditos e fendas
parte do conjunto de condições que Rogers
assustadoras de sua experiência interior
considera necessárias e suficientes para que
e freqüentemente enterrada (p. 38-39)
uma relação possa proporcionar crescimento
pessoal para o outro, e logo, mudanças
Dessa forma, tal atitude consiste na
construtivas e terapêuticas da personalidade.
capacidade do facilitador de se colocar no
Ainda segundo esse autor (2009), como uma
lugar da pessoa que procura ajuda, de
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 115-126, 2012.
121

_O escafandro e a borboleta: um olharsob o enfoque daACP
hipótese geral, "o que quer que tenha
Assim, essa é uma confirmação de que
aprendido é aplicável a todas às minhas
Sandrine acreditou verdadeiramente em
relações humanas, não só ao trabalho com
Bauby, no seu potencial para comunicar-se e
clientes com problemas" (p. 36).
relacionar-se com ela e com outras pessoas.
Além disto, realizou juntamente com ele o
4 Centrando-Se em Bauby
projeto de escrever um livro, criando
condições para que isso fosse possível, desde
Nesse momento, será iniciada uma
a instauração do código até o contato que fez
compreensão abordando a relação entre as
com a editora para que enviassem alguém
experiências relatadas por Bauby e os
para tomar o ditado de Bauby. Claude, a
conceitos da ACP anteriormente abordados.
pessoa enviada, também teve para com ele
Pode-se dizer que tanto Sandrine, a
atitudes que facilitaram o seu crescimento
ortofonista, quanto Claude, a responsável
pessoal, mesmo estando encarcerado em seu
pelo ditado das letras do código, ofereceram
escafandro, o que pode ser percebido nas
de alguma forma as condições facilitadoras a
próprias palavras de Bauby (2008) na
Bauby, além de reconhecerem a
dedicatória do livro: "Quero expressar minha
responsabilidade dele sobre o que fazer com
gratidão a Claude Mendibil, cujo papel
sua própria vida. A começar por Sandrine, que
primordial na realização deste livro será
desde o primeiro contato com Bauby, o
compreendido por quantos lerem suas
aceitou de forma plena, reconhecendo a
páginas (p.5)."
pessoa que se encontrava à sua frente e que,
Claude, que se dedicou a ditar as letras
naquele momento, estava passando tanto por
do código, o fez percebendo que não era
dificuldades físicas quanto psicológicas,
simplesmente um ditado, pois era preciso
estabelecendo uma relação de cumplicidade a
compreender o que Bauby queria dizer com
cada encontro. Apresentando essas atitudes,
cada palavra ou frase, além de não julgar ou
Sandrine demonstrou consideração positiva
criticar o que por ele havia sido expressado,
incondicional por Bauby, além de se colocar
dando-lhe assim liberdade experiencial para
no lugar dele, tendo, dessa maneira, agido
voar cada vez mais alto, libertando-se de seu
empaticamente. Sandrine criou condições
escafandro, ou até mesmo para mais perto,
para que Bauby pudesse se comunicar,
nos momentos em que Bauby voltava-se para
expressar seus sentimentos e deixar voar
si mesmo.
como uma borboleta o que não estava nem
Os elementos presentes em seus
um pouco paralisado: a sua imaginação.
relatos, como medo, frustrações, angústias,
alegrias, tristezas, ora com esperança, ora
No crachá acolchetado ao avental branco
sem, foram ouvidos e aceitos por Claude ao
de Sandrine, está escrito ortofonista, mas
tomar o ditado e por Sandrine nos seus
deveria estar anjo da guarda. Foi ela que
atendimentos. Bauby sentiu-se livre para
instaurou o código de comunicação sem o
qual eu estaria isolado do mundo. Mas
demonstrar todo tipo de sentimentos que
que pena! Se a maioria dos meus amigos
queria expressar, sem receio de que fossem
aprendeu e adotou o sistema, aqui no
absurdos, ou contraditórios. Não admira
hospital só Sandrine e uma psicóloga o
constatar que nessas condições, ambas
praticam. Ninguém imagina o reconforto
que sinto duas vezes por dia, quando
tenham sido congruentes com o que sentiam
Sandrine bate a porta, põe para dentro
na relação com Bauby demonstrando ter uma
uma carinha de esquilo arteiro e expulsa
aceitação positiva incondicional. Sendo isso
de uma vez todos os maus espíritos. O
percebido por ele, passaram a vivenciar
escafandro invisível que me encerra o
relações que não se configuravam como
tempo todo parece menos oprimente
(Bauby, 2008, p. 43-44, grifos do autor).
terapeuta-cliente, mas sim de pessoa para
pessoa.
De alguma forma, a relação por eles
122
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 115-126, 2012.

O escafandro e a borboleta: um olharsob o enfoque daACP__
construída indica e confirma que as referidas
Pode-se dizer que a socialização do
condições podem e devem ser oferecidas não
protagonista de O Escafandro e a Borboleta
só por terapeutas, mas em todo tipo de
foi concretizada no processo da escrita do
relação humana. Não é outra, certamente, a
livro, pois, na medida em que houve a ação da
razão de se ter compreendido que a relação
tendência atualizante e as mudanças no eu
entre Bauby, Sandrine e Claude tenha sido
por ela proporcionada, foi-lhe suscitada a
uma relação terapêutica, pois ambas criaram
necessidade de comunicação com o outro,
um ambiente facilitador para o crescimento e
permitindo-lhe explorar e expressar as suas
amadurecimento dele, proporcionando-lhe
vivências de uma maneira equilibrada e
um sentido a partir do que lhe era possível
realista. Por isso, percebe-se que mais do que
naquele momento e naquelas condições,
o fato de estar paralisado, o que mais o afligia
como portador da síndrome do
era a sua incapacidade de pronunciar
encarceramento. Valorizando suas
qualquer palavra.
potencialidades, foi criada uma atmosfera
Ao leitor de O Escafandro e a Borboleta
favorável para o seu crescimento,
é permitido acompanhar o drama
mobilizando assim uma força que é inerente a
apresentado no palco da vida de Bauby
todo indivíduo: a tendência atualizante.
devido à síndrome do encarceramento mas,
Em Bauby, a manifestação da tendência
sobretudo, é possível ter acesso aos
atualizante foi um processo gradativo e difícil,
bastidores: inicialmente, ele descrevia sua
o que pôde ser percebido durante toda a
realidade física, seu cotidiano e os
leitura dos seus relatos. À medida que usou
sentimentos que estava vivenciando com
seu potencial para escrever, ele reafirmou sua
todas as mudanças que lhe havia ocorrido,
autonomia, podendo usar sua independência
para ir mergulhando cada vez mais fundo em
para decidir como seria sua vida dali em
si mesmo, nas suas experiências e no seu
diante. Assim, a maneira como ele enfrentou
passado. De acordo com seus próprios
suas limitações, não sendo apático e nem se
relatos:
revoltando, também diz do aspecto auto-
Tá aí! 'A panela de pressão'! Poderia ser o
regulador da tendência atualizante, como ele
título de uma peça de teatro que eu
talvez escreva um dia com base na minha
mesmo diz: "para continuar vigilante e não
experiência. Todos já conhecem o enredo
cair na resignação indiferente, conservo certa
e o cenário. O quarto de hospital onde o
dose de furor, de detestação, nem de mais
senhor L., pai de família na flor da idade,
nem de menos, assim como a panela de
aprende a viver com uma locked in
syndrome, seqüela de grave acidente
pressão tem sua válvula de segurança para
vascular cerebral. A peça conta as
não explodir" (Bauby, 2008, p. 61).
aventuras do senhor L. dentro do
Foi nesses momentos de reflexão
universo médico e a evolução de suas
interna, muitas vezes incômodos e dolorosos,
relações com a mulher, os filhos, os
que Bauby, submerso em seu escafandro,
amigos e os sócios que tem na agência de
publicidade da qual é um dos fundadores.
entrou em contato com atitudes e reações
Ambicioso e meio cínico, não tendo até
que anteriormente lhe haviam passado
então amargado nenhum fracasso, o
despercebidas, mas que, a partir de então,
senhor L. aprende o que é sofrimento,
passaram a ser acolhidas. Assim, ele tornou-
assiste à derrocada de todas as certezas
de que se escudara e descobre que seus
se mais consciente de si e de suas
parentes são uns desconhecidos. Pode-se
potencialidades, despertando para os novos
assistir de camarote essa lenta mutação
objetivos que delas iriam provir, tornando-se
graças a uma voz em off, que reproduz o
responsável pela sua existência, ainda que
monólogo interior do senhor L. em todas
com todas as suas limitações. Portanto,
as situações. (Bauby, 2008, p.61-62, grifos
do autor).
compreende-se que essas experiências
representam um processo de atualização do
eu em Bauby.
É com base nisso que é possível
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 115-126, 2012.
123

_O escafandro e a borboleta: um olharsob o enfoque daACP
compreender que houve uma mudança na
felicidade que deixamos escapar. Hoje me
noção do eu, pois de uma pessoa ambiciosa e
parece que toda a minha existência não
terá sido senão um encadeamento desses
meio cínica, amparada por falsas certezas,
pequenos fiascos. (p.101).
Bauby passou a ter mais contato com quem
realmente era, com suas qualidades e
Assim, o que parece certo é que Bauby
defeitos, capacidades e limites, passando a
conseguiu representar e aceitar
perceber suas experiências de uma forma
conscientemente, tanto aquilo que lhe era
mais consciente naquele momento de sua
prazeroso, como fatos e atitudes do passado
existência.
e do presente que lhe trouxessem remorso,
A escrita do livro também pode ser
angústia ou tristeza, seja por ter perdido
compreendida como expressão da liberdade
oportunidades, ou ter feito escolhas erradas.
experiencial que foi conquistada ou
Conclui-se que nas atitudes
desenvolvida por Bauby à medida que lhe foi
apresentadas pelas pessoas que fizeram parte
proporcionado um clima favorável para tal.
da vivência da condição existencial de Bauby,
Ele podia relatar livremente, sem nenhum
houve a presença dos modos de agir
tipo de rigidez, o que estava experienciando
compatíveis com a Abordagem Centrada na
naquele momento, sentindo e aceitando seus
Pessoa, contribuindo para o desenvolvimento
sentimentos de forma congruente,
de um viver mais amadurecido, durante o
verdadeira, não distorcida, podendo assim se
estar encarcerado em seu próprio corpo. Tais
adaptar à organização do seu novo eu e de
contribuições podem ser observadas na
sua personalidade, sendo as suas limitações
manifestação de potencialidades até então
físicas os únicos elementos imutáveis.
impedidas e que tornaram a sua vivência mais
Quando a pessoa consegue chegar a esse
criativa e passível de sentido.
ponto de percepção da sua experiência, ela é
É possível perceber, nos relatos de
capaz de viver em uma condição de
Bauby, momentos distintos, ora de
criatividade construtiva (Rogers, 2009, p.411).
esperança, ora de negação, mas acredita-se
Assim, Bauby, ao escrever o livro, também se
que foram essas vivências que fizeram com
expressou de forma criativa, desenvolvendo
que Bauby percebesse o seu movimento de
um ajustamento saudável diante das suas
crescimento interior, levando-o a querer dar
limitações como portador da síndrome do
continuidade ao seu processo de
encarceramento.
desenvolvimento enquanto pessoa. Como ele
Sendo capaz de vivenciar o que é
mesmo relata nas últimas palavras de seu
referente ao seu eu, a pessoa encontra
livro: "Haverá neste cosmo uma chave para
facilidade para aceitar o que está
destrancar meu escafandro? Alguma linha de
experienciando, seja algo que lhe traga
metrô sem ponto final? Alguma moeda
alegrias ou até mesmo angústias e tristeza.
suficientemente forte para resgatar minha
Disso compreende-se, como um aspecto
liberdade? É preciso procurar em outro lugar.
positivo de sua experiência, a necessidade de
É para lá que eu vou." (Bauby,2008, p.139)
afeto na seguinte fala de Bauby (2008):
"Tanto quanto de respirar, sinto necessidade
Considerações Finais
de emocionar-me, amar e admirar" (p. 61). E,
como aspecto negativo que lhe suscitou um
A partir da história de Jean-Dominique
remorso, Bauby (2008) escreve:
Bauby, foi possível fazer uma discussão sobre
a pertinência dos princípios da ACP, de Carl
A saudade de um passado que não volta
Rogers, no que se refere à maneira de ser e
e, principalmente, o remorso pelas
oportunidades perdidas. Mithra-
de se relacionar com as pessoas, ressaltando-
Grandchamp são as mulheres que não
se o seu diferencial na qualidade do trabalho
soubemos amar, as chances que não
com pessoas que possuem uma limitada
quisemos aproveitar, os instantes de
124
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O escafandro e a borboleta: um olharsob o enfoque daACP__
capacidade de se comunicar. Isso vem a ser
se os princípios da ACP estiverem presentes,
confirmado nas atitudes de Sandrine e
qualquer pessoa envolvida no processo de
Claude, que não eram psicoterapeutas, mas
hospitalização do paciente pode
que estabeleceram com Bauby uma relação
proporcionar-lhe um ambiente terapêutico,
terapêutica, favorecendo o desenvolvimento
amenizando o sofrimento provocado por tais
de suas potencialidades em direção à
limitações, possibilitando até mesmo um
maturidade, autonomia e responsabilidade
crescimento enquanto pessoa.
enquanto pessoa.
Pretendia-se também pesquisar os
Por outro lado, havia no hospital
recursos que são utilizados aqui no Brasil,
profissionais que não consideravam em Bauby
junto a pacientes com limitações para se
"a pessoa", vendo-o como um simples corpo,
comunicar. Contudo, não foi possível
tornando o seu isolamento mais real e,
abranger tais elementos devido ao tempo
portanto, mais doloroso. Isso pode ser
exíguo, ficando assim a sugestão para que
identificado quando Bauby relata, por
estudos posteriores possam dar continuidade
exemplo, a atitude do médico que lhe
às investigações que aqui foram
costurou o olho direito sem lhe explicar o
desenvolvidas.
porquê, assim como o padioleiro que com
Enfim, a realização do presente estudo
ironia lhe desejava bom apetite, mesmo
almeja contribuir, de alguma forma, com
sabendo que ele se alimentava por meio de
aqueles que venham a se relacionar com
uma sonda, além das horas a fio que ele
pessoas que apresentem limitações para se
passava sozinho aos domingos, sem que
comunicar semelhantes às de Bauby, além de
nenhum profissional fosse ao menos lhe dar
tornar evidente a proporção dos avanços que
um banho ou mudar o canal da televisão. Foi
podem ser alcançados ao longo dessa relação,
possível perceber em suas palavras como isso
como foi para ele escrever sua história, O
lhe afetava negativamente, prejudicando o
Escafandro e a Borboleta, devido à presença
seu processo de crescimento interior, por não
das condições propostas pela ACP.
estar recebendo, nesses momentos, as
condições favoráveis ao seu desenvolvimento.
Referências
Contudo, compreende-se os
comportamentos apresentados por esses
Bauby, Jean-Dominique. (2008). O escafandro
profissionais ao se relacionarem com Bauby,
e a borboleta. 2. ed. São Paulo: Martins
pois a partir de um contato mais próximo com
Fontes.
a teoria da ACP, tomou-se conhecimento de
que não é fácil para as pessoas oferecerem as
Brassens, Jérôme Parisse. Falar com os olhos:
três atitudes propostas por Rogers, no sentido
a síndrome do encarceramento (LIS): viver
de que em seus próprios processos de
com uma doença rara. 2009. Disponível
formação como pessoas, na maioria das
em:<http://www.eurordis.org/pt-
vezes, tais atitudes não lhes foram oferecidas.
pt/content/falar-com-os-olhos-sindrome-do-
Este sim, talvez seja o maior desafio, pois
encarceramento-lis> Acesso em: 01 abr.
exige primeiramente uma mudança de visão a
2010.
respeito de si mesmas enquanto pessoas,
para depois verem o outro da mesma forma.
Rogers, Carl R. (1992). The Necessary and
Observou-se, assim, que também podem
Sufficient Conditions of Therapeutic
ocorrer limitações com a referida abordagem,
Personality Change. Journal of Consulting and
contudo, são riscos que podem acontecer em
Clinical Psychology, 60(6), 827-832.
qualquer tipo de relação ou orientação
teórica.
Rogers, Carl R. (2009). Tornar-se pessoa.
Analisando detalhadamente O
(M.J.C. Ferreira e A. Lamparelli, Trad). São
Escafandro e a Borboleta, confirmou-se que
Paulo: Martins Fontes. (Original publicado em
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 115-126, 2012.
125

_O escafandro e a borboleta: um olharsob o enfoque daACP
1985).
Rogers, Carl R.; KINGET, G. Marian. (1977).
Psicoterapia e relações humanas: teoria e
prática da terapia não-diretiva. 2.ed. (M.L.
Bizzotto, Trad). Belo Horizonte: Interlivros.
(Original publicado em 1965).
Schnabel, Julian. (Diretora). (2007). Le
Scaphandre et le Papillon [DVD]. São Paulo:
Europa Filmes.
Sobre as autoras
Amanda Morais de Faria: Graduada em
Psicologia pela PUC Minas Arcos. Psicóloga na
Atenção Básica de Saúde no município de São
Roque de Minas. Facilitadora de Danças
Circulares Sagradas. E-mail:
amandamoraisfaria@yahoo.com.br
Andréia Moreira Rocha: Graduada em
Psicologia pela PUC Minas Arcos. Pós-
graduanda em Gestão Estratégica de Pessoas
pela PUC Minas Divinópolis. Email:
andreiamoreirarocha@yahoo.com.br
Recebidoem: 10/04/2012
Aceito para publicação: 12/10/2012
1 2 6 Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 115-126, 2012.

Abstract
The changes occurred on the model and concept of Brazilian health in last
decades, produced changes on the paradigm which demands a
restructuration on the theoretical /practical context and on the conception
of man and the health/disease of the health professionals. This theoretical
study has the objective of presenting the theoretical presupposes of the
Person Centered Approach and demonstrates that it is a psychological
proposal which theoretically grounds the guidelines proposed by the Public
Policies at the health services of Brazil. One realizes that the effectuation of
the current health model implies on a posture treatment which valorizes
the potential of the person and rescues their autonomy. For that, the
attitudes of the unconditional positive consideration, empathy and
authenticity, suggested by the Person Centered Approach, needs to be
developed between the health professionals. Such attitudes also
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 127-140, 2012. 1 2 7

_Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras do século XXI
contributes with the development of interdisciplinarity and humanization,
currently still farfrom effectuation in practice.
Keywords: public health; person centered approach; humanization;
interdisciplinarity.
Resumen
Los cambios que se han producido en el modelo de concepto y de la salud
de Brasil en las últimas décadas se han producido cambios en el paradigma
que exige una reestructuración en el contexto de la teoría / práctica y
concepción de profesionales de la salud del hombre y de la salud /
enfermedad. Este estudio teórico tiene como objetivo presentar los
principios teóricos del Enfoque Centrado en persona y demostrar que es un
enfoque psicológico que se aproxima a las directrices teóricamente
proponen las políticas relativas a los servicios de salud en Brasil. Se observa
que la eficacia del modelo de salud actual implica una actitud de cuidado
que valora el potencial de rescatar el individuo y su autonomía. Con este fin,
las actitudes de empatia incondicional consideración positiva y la
autenticidad, sugeridos por el Enfoque Centrado en la Persona, que se
desarrollará entre los profesionales sanitarios. Tales actitudes también
contribuir al desarrollo de interdisciplinario y humanización, actualmente
todavía lejos de materializarse en la práctica.
Palabras clave: salud pública; enfoque centrado en la persona;
humanización; interdisciplinariedad.
Introdugao
Integradas de Saúde (PAÍS), em 1982, o
acesso á saúde passa a ser funcao da atencao
As políticas públicas que regem a saúde
primaria.
brasileira na atualidade iniciam sua historia no
Essa caminhada histórica consagrou o
período da industrializacao, com a criacao em
principio da saúde como direito de todos e
1923, da Caixa de Aposentadoria e Pensoes,
dever do Estado que culminou, em 1988, na
que tinha como objetivo suprir as
criacao do Sistema Único de Saúde (SUS),
necessidades financeiras do trabalhador que
regulamentado dois anos depois pela Lei n-
precisava se afastar do trabalho por motivo
8080/1990, que rege sobre as diretrizes
de adoecimento. Foi somente a partir de
norteadoras da prevencao, promocao e
1965, inicialmente através do Instituto
recuperacao da saúde no que diz respeito á
Nacional de Previdencia Social (INPS) e
pessoa, a organizacao e aos servicos.
posteriormente, em 1977, pelo Instituto
Nesse contexto, o Sistema Único de
Nacional de Assisténcia Médica da
Saúde (SUS) proposto pelo Ministerio da
Previdencia Social (INAMPS) que o governo
Saúde é um projeto que propoe a
passou a disponibilizar assisténcia médica ao
¡mplementacao de um paradigma tao novo,
trabalhador brasileiro, por meio da compra de
que seria impossível esperar a inexistencia de
servicos médicos do setor privado
dificuldades na sua operacionalizacao. No
hospitalocéntrico e curativista. Com a
entanto, como aponta o Ministerio da Saúde
¡mplantacao do Programa de Acoes
(2004),
128
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 127-140, 2012.

Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras do século XXI_
O profissional da saúde que desenvolve
O SUS hoje ainda enfrenta: Fragmentado
atividade assistencial (...), além das acoes
do processo de trabalho e das relaces
e procedimentos técnicos ligados á sua
entre os diferentes profissionais;
área específica, estabelece sempre, com
Fragmentado da rede assistencial
as pessoas que atende, relacóes
dificultando a complementaridade entre a
interpessoais. Seu trabalho depende,
rede básica e o sistema de referencia;
portante, da qualidade técnica e da
Precaria interacao ñas equipes e
qualidade interacional. (...) a abordagem
despreparo para lidar com a dimensao
da qualidade interacional também torna
subjetiva ñas práticas de atencao; Sistema
necessário o estudo de varios temas
público de saúde burocratizado e
teóricos e a reflexao sobre o
verticalizado; Baixo investimento na
desenvolvimento de atitudes (p. 21).
qualificacao dos trabalhadores,
especialmente no que se refere á gestao
Mas a que se referem estas habilidades
participativa e ao trabalho em equipe;
relacionáis a serem desenvolvidas pelos
Poucos dispositivos de fomento á co-
profissionais da saúde e como desenvolvé-
gestao e á valorizacao e inclusao dos
gestores, trabalhadores e usuarios no
las? Ao explorar esta questao, é possível
processo de producao de saúde;
aproximar-se da convergencia entre as
Desrespeito aos direitos dos usuarios;
políticas públicas de saúde no Brasil e a
Formacao dos profissionais de saúde
proposta da Abordagem Centrada na Pessoa
distante do debate e da formulacao da
política pública de saúde; Controle social
(ACP). É a partir dessas reflexóes que, neste
frágil dos processos de atencao e gestao
artigo, se pretende apresentar os
do SUS; Modelo de atencao centrado na
pressupostos teóricos da Abordagem
relacao queixa-conduta (pp.11-12).
Centrada na Pessoa e demonstrar que se trata
de urna proposta psicológica que se aproxima
Essas dificuldades vao desde a
teóricamente das diretrizes propostas pelas
complexidade de distribuicao económica e de
políticas públicas nos servicos de saúde do
recursos para a aplicacao e manutencao do
Brasil.
projeto até a necessidade dos profissionais
Para a realizacao de tais objetivos, será
repensarem suas práticas e desenvolverem a
construido um breve histórico do conceito de
habilidade de colocar seu conhecimento
saúde até a atualidade, apresentando os
teórico a servico da flexibilizacao da prática,
principios norteadores, a legislacao, as acóes
das mudancas de paradigmas e dos valores
propostas e as dificuldades enfrentadas pelo
vividos na atualidade.
sistema público de saúde no Brasil. Em
Este processo de repensar a prática dos
seguida, serao relacionadas as políticas
profissionais da saúde vai além da adaptacao
públicas de saúde do Brasil com os
teórico/prática. Relaciona-se diretamente
pressupostos teórico/práticos da Abordagem
com as relacóes interpessoais que estes
Centrada na Pessoa, refletindo sobre as
profissionais estabelecem. O projeto do SUS
possíveis contribuicóes dessa abordagem para
alcanca a ¡ndividualidade, a particularidade
o processo de ¡mplantacao e consolidacao do
das pessoas em seu contexto e, para que o
novo conceito de saúde.
cuidado á saúde se aproxime da compreensao
das singularidades de cada pessoa, os
Sobre o conceito de saúde: urna síntese
profissionais precisam desenvolver
histórica
habilidades relacionáis que os aproximem da
compreensao e do cuidado integral das
O conceito de saúde desenvolvido por
pessoas.
cada populacao, em diferentes momentos
Aproximando-se desta reflexao, Martins
históricos, reflete os costumes, valores e
(2004), afirma que,
conceitos adotados pela sociedade. A
compreensao que um grupo de pessoas tem
sobre saúde em urna determinada época
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 127-140, 2012.
129

_Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras do século XXI
representa urna escolha por um jeito de viver
A ampliacao dos aspectos envolvidos no
dessa populacao. Por isso, só é possível
conceito de saúde gerou urna quebra de
compreender o conceito atual de saúde
paradigma, que vai da desconsiderado dos
reconstruindo o contexto histórico em que se
aspectos psicossociais vinculados a saúde á
deu a sua origem e desenvolvimento.
busca do completo bem-estar.
0 conceito de saúde decorrente da
Kahhale (2003), apesar de considerar
Revolucao Industrial e do desenvolvimento do
que o novo conceito traz urna serie de
capitalismo se sustentou na visao de homem
beneficios, aponta para o fato de que essa
fragmentada em corpo e mente. Com o
nova concepcao considera a saúde como um
desenvolvimento da medicina moderna, no
estado estático de bem-estar,
século XVIII e XIX, nasce o conceito de saúde
desconsiderando o dinamismo da vida
associado á medicalizacao da saúde e, com
humana. Em outras palavras, concebe como
ele, a concepcao de saúde vinculada a
saudável a permanencia de um estado físico,
ausencia de doenca. As políticas de saúde da
psíquico e social, desconsiderando que o
época, em acordó com esse conceito,
bem-estar é produto da capacidade do
priorizaram as acóes medicamentosas e
individuo de superar as dificuldades advindas
curativas (Scliar, 2007).
da interseccao existente entre condicóes
O período das guerras mundiais
ambientáis, aspectos físicos, psíquicos e
desencadeou diferentes tipos de problemas
sociais. Eis um conceito que, nao incorpora a
no contexto da saúde. Com o fim da Segunda
capacidade de superacao e atualizacao
Guerra Mundial, os países vencedores,
presente na pessoa em desenvolvimento.
preocupados com a realidade advinda do
Como afirma Kahhale (2003) "A saúde é um
após guerra criaram a Organizacao das
reflexo da capacidade de tolerancia,
Nacoes Unidas (ONU), urna organizacao
compensacao e adaptacao de cada individuo,
supranacional criada para exercer a funcao de
dos grupos e da sociedade em geral frente as
enfrentar os problemas consequentes da
condicóes ambientáis, sociais, políticas e
guerra e manter a paz mundial. Das propostas
culturáis ñas quais estao inseridos". Nesses
produzidas pela ONU surge a Organizacao
termos, "Saúde é um processo dinámico,
Mundial da Saúde (OMS), com o papel de
ativo, de busca de equilibrio, nao sendo
sugerir solucoes para os problemas de saúde
possível falar em saúde plena" (p. 166).
decorrentes da guerra e de promover o maior
Um novo conceito de saúde, que
nivel de saúde possível em todos os povos
contempla o ser humano em seu constante
(Kahhale, 2003).
processo de transformacao realizadora
Considerando a realidade histórica da
necessitava de um novo modelo de cuidado e
época, é possível compreender que o
de urna nova legislacao.
conceito de saúde, presente até entao, era
A ¡mplantacao legal deste conceito de
sinónimo de ausencia de doenca. Foi em
saúde integral no Brasil ocorreu sob influencia
decorréncia da percepcao da limitacao deste
do Movimento da Reforma Sanitaria, que
conceito, rompendo com a visao
objetivava a saúde integral para todos através
medicamentosa e com esta dualidade entre
de tres acóes: promocao, protecao e
saúde e doenca, que em 1948 a OMS "propóe
recuperacao (Kjawau; Both & Brutscher,
como principio, norteador das suas
2003). Além deste movimento nacional,
atividades, o entendimento de saúde como o
contribuíram com o processo de legalizacao, a
completo bem-estar físico, mental e social"
Conferencia Internacional de Alma Ata (em
(Kahhale, 2003, p. 165). Com esta mudanca
1978) e a Conferencia de Otawa no Canadá
conceitual, a preocupacao ultrapassou as
(em 1986), organizadas pela OMS e a Unicef.
questóes biológicas, levando á inclusao de
Foi em meio a este cenário nacional e
acóes que contemplem os aspectos psíquicos
internacional que aconteceu a VIII
e sociais da populacao.
Conferencia Nacional de Saúde em 1986,
130
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 127-140, 2012.

Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras do século XXI_
momento em que foi aprovado o projeto do
profissionais da saúde por meio de
SUS elaborado pela Reforma Sanitaria. Póde-
estímulo e do acompanhamento
constante de sua formacao e capacitacáo;
se dizer que todos estes acontecimentos
realizar avaliacáo e acompanhamento
históricos contribuíram para que o SUS
sistemático dos resultados alcanzados,
conquistasse base legal suficiente a ponto de
como parte do processo de planejamento
ser incluido na constituicao de 1988 como um
e de programacao; e estimular a
participacao popular e o controle social
órgao a servico da saúde integral para todos
(Brasil, 2007, p.14).
(Kujawa; Both & Brutscher, 2003).
Com o objetivo de que o atendimento á
O segundo nivel de atencao é o de
saúde chegasse a toda a populacao, incluiu-se
media complexidade, cujo objetivo é prestar
ñas diretrizes de saúde pública acoes e
atendimento aos principáis agravos da saúde
servicos de promocao, prevencao,
com procedimentos especializados, em urna
reabilitacao e tratamento da saúde. Este
complexidade maior do que a atencao básica.
movimento se desenvolve através de tres
Nele estao incluidas consultas hospitalares e
níveis de atencao: a básica, a media e a alta
ambulatoriais, exames e alguns
complexidade, também denominadas
procedimentos cirúrgicos.
atencoes primaria, secundaria e terciaria
O terceiro é o nivel da alta
(Brasil, 2006). Com a abrangéncia destas tres
complexidade, no qual se incluem
atencoes, buscou-se trazer a integralidade
procedimentos com uso de alta tecnología e
das acoes para o atendimento, considerando
alto custo financeiro, como cirurgias de
a saúde em sua totalidade. Essas acoes estao
grande porte.
voltadas para os cidadaos tanto na sua
Em suma, através da atencao primaria,
individualidade, quanto na coletividade.
secundaria e terciaria, o SUS pretende
A atencao básica pode ser considerada
oferecer a toda a populacao, saúde de urna
a porta de entrada do atendimento em saúde
forma ampliada, contemplando as
por possuir menor complexidade.
necessidades particulares de cada pessoa.
Inicialmente, o cidadao seria atendido através
Urna atencao que vai dos cuidados básicos
da atencao básica representada
aos complexos, articulando-se ao eixo da
principalmente por postos e centros de
Política Nacional de Humanizacao (PNH)
saúde. Nos casos em que há necessidade de
instituida em 2003 pelo Ministerio da Saúde
recursos mais complexos, a pessoa seria
(Brasil, 2004).
encaminhada para os outros servicos da rede
No que diz respeito á Psicología:
de maior complexidade (Brasil, 2007). Tem
como estrategia principal o Programa de
Esses novos paradigmas tém urna
Saúde da Familia e, assim como o SUS, em
importancia especial no que se refere á
geral, preconiza o acesso universal e continuo
presenca e participacao do psicólogo da
da populacao aos servicos de saúde e a
saúde ñas diferentes propostas de
integralidade das acoes, como:
atencao á saúde da populacao, posto que
os elementos participantes do processo
de instalacao das doencas mencionadas
integrado de acoes programáticas e
por Susser - "enfermidade" e
demanda espontánea; articulacáo das
"anormalidade" - sao notoriamente de
acoes de promocao á saúde, prevencao
cunho psicossocial. Cada dia mais a
de agravos, vigilancia á saúde, tratamento
valorizacao de intervencoes primarias,
e reabilitacao, trabalho de forma
secundarias e terciarias em saúde
interdisciplinar e em equipe, e
pressupoe a necessidade de se
coordenacáo do cuidado na rede de
compreender e intervir sobre estes
servicos; desenvolver relacoes de vínculo
contextos do individuo ou grupos,
e responsabilizarlo entre as equipes e a
expostos as diferentes molestias ou
populacao descrita, garantindo a
outras condicoes de agravo á saúde
continuidade das acoes de saúde e a
(Sebastiani, 2000, p. 202).
longitudinalidade do cuidado; valorizar os
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 127-140, 2012.
131

_Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras do século XXI
interdisciplinaridade, ou seja, a interacao
Assim, a ampliacao conceitual trouxe a
entre os diferentes níveis do saber
profissional, nao apenas articulados entre
necessidade de incluir no cuidado á saúde
si, mas também harmonizados diante de
outros profissíonais, que atendessem a todos
urna proposta mais ampia de
os aspectos humanos (Ismael, 2005). Passam
compreensao do doente e da doenca
a fazer parte das políticas públicas de saúde e
(Camón, 2000, p. 12).
da equipe de profissionais da saúde médicos,
assistentes socíais, enfermeíros,
Urna perspectiva que integra os
fisíoterapeutas, fonoaudiólogos,
profissionais da saúde para abordar a pessoa
nutrícionístas, odontólogos, psicólogos e
na sua integralidade deve contemplar o
terapeutas ocupacionais (Martins, 2004).
desenvolvimento de urna postura que
A expansao dos servicos poe em prática
considere a realidade da pessoa como algo
urna assisténcia á saúde multiprofissional e,
dinámico, singular, relacional e que considere
com ela o atendimento prestado por varios
o humano existente em cada individuo. Esse é
profissionais, com atuacoes diferenciadas, a
o único jeito de promover um verdadeiro
urna mesma pessoa. Segundo Japiassú (1976),
processo de humanizacao e isso porque, "a
trata-se de um trabalho que se realiza através
humanizacao dos cuidados em saúde
da justaposicao de atuacoes, sem
pressupoe considerar a esséncia do ser, o
necessariamente ocorrer troca ou interacao
respeito á individualidade e a necessidade de
entre elas.
construcao de um espaco concreto ñas
Nao demorou muito a percepcao de
instituicoes de saúde que legitime o humano
que disponibilizar o acesso a diferentes
das pessoas envolvidas" (Pessini & Bertachini,
profissionais da área da saúde nao era
2006, p. 3), sejam estes os pacientes, os
condicao suficiente para garantir o cuidado
familiares ou os profissionais.
integral. A relacao entre os profissionais da
Nessa perspectiva, passa a ser
saúde e os usuarios do servico passa a ser
responsabilidade dos profissionais de saúde o
reconhecida como a grande célula promotora
desenvolvimento de um olhar atento e
de urna política humanizada em saúde e, com
considerador, urna prática voltada para a
a ela, a necessidade de desenvolver, nos
criacao de condicoes facilitadoras do
profissionais de saúde, atitudes que
desenvolvimento do protagonismo e da co-
promovam a construcao de relacoes
responsabilidade das pessoas na atencao á
interpessoais de crescimento entre todas as
saúde, como forma de garantir a prática de
pessoas que fazem parte desse processo.
alguns dos principios norteadores da Política
Martins (2004), confirma esse pensamento
de Humanizacao:
quando diz que "o profissional da saúde que
Construcao de autonomía e protagonismo
desenvolve atividade assistencial, além das
dos sujeitos e coletivos implicados na
acoes e procedimentos técnicos ligados á sua
rede do SUS; Co-responsabilidade desses
área específica, estabelece sempre, com as
sujeitos nos processos de gestao e
pessoas que atende, relacoes interpessoais.
atencao; Compromisso com a
Seu trabalho depende, portanto, da qualidade
democratizacao das relacoes de trabalho
e valorizacao dos profissionais de saúde,
técnica e da qualidade interacional" (p. 21).
estimulando processos de educacao
Essa nova realidade, desperta a
permanente (Brasil, 2004, p.15).
necessidade de por em prática a articulacao
dos diferentes conhecimentos que fazem
Mas a inclusao da Psicología ñas
parte da área da saúde e, com ele, o conceito
políticas públicas de saúde nem sempre foi
de interdisciplinaridade.
regida por esta compreensao ampliada. De
acordó com Kahhale (2003), foi na década de
Mais do que a necessidade da
1970 que ocorreu a inclusao da Psicología e
multidisciplinaridade, é fundamental a
132
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 127-140, 2012.

Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras do século XXI_
da assisténcia social na atencao primaria a
Na medida em que se afirma que a
saúde. Urna insercao que só foi possível em
humanizacao é um meio para promocao
decorréncia de um movimento realizado por
desta saúde ampliada, ela também é um
psicólogos que visou romper com o modelo
resultado deste processo. A questao nao está
clínico curativo e desenvolver a Psicología
em divulgar entre os profissionais o quanto a
Social Comunitaria, trabalhando, assim, de
humanizacao leva á promocao da saúde
maneira interdisciplinar.
ampliada e vice-versa, mas sim ajudá-los a
A amplitude das situacoes que passam a
desenvolvé-las. E neste ponto, a Abordagem
fazer parte da nova concepcao de saúde poe
Centrada na Pessoa (ACP) pode dar sua
o psicólogo em urna posicao de verificar a
contribuicao.
adequacao dos recursos teórico/práticos já
existentes e de implementar processos de
Abordagem Centrada na Pessoa e seus
adaptacao e de criacao de novos recursos
pressupostos básicos
científicos. Nasce a Psicología da Saúde, urna
área de conhecimento que:
A Abordagem Centrada na Pessoa foi
desenvolvida por Carl R. Rogers, renomado
agrega o conhecimento educacional,
psicólogo norte-americano do século XX. No
científico e profissional da disciplina
contexto da psicología clínica foi o primeiro
Psicología para utilizá-lo na promocao e
psicólogo a exercer a funcao de
na manutencao da saúde, na prevencao e
no tratamento da doenca, na
psicoterapeuta e o pioneiro no interesse pela
identificacao da etiología e no diagnóstico
pesquisa científica em psicoterapia. Como
relacionado á saúde, á doenca e as
integrante do movimento humanista,
disfuncoes, bem como no
contribuiu com a consolidacao dos principios
aperfeicoamento do sistema de política
da Psicología Humanista. Seu trabalho com
da saúde (Matarazzo, 1994, citado por
Gimenes, 2003, p. 41).
grupo centrado em mediacao de conflitos e a
crenca de que esse trabalho estaría ajudando
E que pode ser reconhecida como urna
a sociedade na busca pela paz fez com que
Psicología que:
ele tivesse seu nome indicado para o premio
Nobel da Paz no ano de 1987.
considere a compreensao orgánica da
Através dessa abordagem psicológica,
psicossomática, da psico-oncologia, os
Rogers construiu seu diferencial de
avancos da psiconeuroimunologia, as
psicoterapia sustentado na existencia de urna
especificidades da psicología hospitalar
tendencia individual para o crescimento e
nos detalhamentos de sua intervencao
ñas diferentes doencas apresentadas pelo
saúde, na énfase dos elementos emocionáis
paciente e, ácima de tudo, urna psicología
em detrimento dos intelectuais, na
que leve em conta a historicidade do
priorizacao do presente em detrimento do
paciente. É aquela psicología cuja prática
passado e no reconhecimento do papel da
se insere na realidade institucional de
forma a modificar até mesmo os níveis de
relacao terapéutica na experiencia de
estruturacao institucional, se assim se
crescimento. Em defesa da ideia de que a
fizer necessário. (...) É aquela psicología
personalidade humana tende a saúde e ao
que mais do que tentar explicar o
bem-estar, Rogers desenvolveu atitudes
sofrimento do paciente, tenta,
facilitadoras e recursos interventivos que
principalmente, compreender este
sofrimento articulando-o com a sua
permitem o resgate do potencial realizador
realidade existencial. (...) Urna psicología
existente em todo ser humano. Esse potencial
ao mesmo tempo clínica, social, hospitalar
é reconhecido como pilar da teoría,
e institucional e que, por isso, tenha urna
denominado Tendencia Atualizante e
visao mais ampia dos conceitos de saúde
(Camón, 2000, p. 11).
associado a base motivacional da vida.
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 127-140, 2012.
133

_Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras do século XXI
Quer o estímulo provenha de dentro ou
Posteriormente, Rogers identificou que
de fora, quer o ambiente seja favorável
esta compreensao nao se aplicava apenas ao
ou desfavorável, os comportamentos de
atendimento psicológico, mas a todas as
um organismo serao dirigidos no sentido
de ele manter-se, crescer e reproduzir-se.
relacoes humanas (Wood e outros, 2008).
Esta é a verdadeira natureza do processo
Independente da situacao é possível
ao qual chamamos de vida. (...) Quando
estabelecer uma relacao aceitadora e
se fala de modo básico do que "motiva" o
permissiva, na qual haja o interesse genuino
comportamento do organismo, é a
tendencia direcional que é considerada
pelo outro. Deste modo, as condicoes básicas
fundamental. Essa tendencia é sempre
para o desenvolvimento interpessoal,
operante, a qualquer momento, em todos
passaram a representar um jeito de ser e de
os organismos. Na verdade, é somente a
estar ñas relacoes.
presenca ou ausencia desse processo
A Abordagem Centrada na Pessoa, com
direcional total que nos torna capazes de
distinguir se um dado organismo está vivo
sua proposta de promover relacoes
ou morto (Rogers, 2001, p. 269).
interpessoais autónomas e
consequentemente humanizadas, sugere o
Nesse sentido, sua proposta prioriza a
desenvolvimento de atitudes de consideracao
capacidade do cliente para a auto-atualizacao
positiva incondicional, empatia e
das suas potencialidades, valoriza a
autenticidade como características principáis
potencialidade terapéutica da relacao e
desse jeito de ser. Sao atitudes que concebem
transiere a importancia da técnica para as
o crescimento, a preservacao e a
atitudes do terapeuta.
sobrevivencia como a principal motivacao
A partir de 1940, verifica-se a
humana, o que equivale a dizer que a
consolidacao e a evolucao das suas ideias
principal missao humana seria a de realizacao
através das ¡numeras publicacóes,
das suas potencialidades.
representadas em livros e artigos científicos.
Nesses termos, a consideracao positiva
Dentre os livros, em suas publicacóes
incondicional é "uma aceitacao calorosa de
origináis, se destacam: "Terapia Centrada no
cada aspecto da experiencia do cliente"
Cliente" (1951), "Tornarse Pessoa" (1961) e
(Wood e outros, 2008, p. 149). Nao há
"Um Jeito de Ser" (1980).
sentimentos que nao possam ser expressos e
Em "Terapia Centrada no Cliente", ele
"isto significa um cuidado com o cliente, mas
desenvolve de uma forma mais completa suas
nao de forma possessiva (...) implica numa
ideias apresentadas inicialmente em
forma de apreciar o cliente como uma pessoa
"Psicoterapia e Consulta Psicológica",
individualizada" (Wood e outros, 2008, p.
reconhecendo que seus principios podem ser
150). É aceitar que ele tem um jeito próprio
aplicados a outros campos (Rogers, 2005).
de ser, com escolhas e caminhos próprios.
Nesse contexto, Rogers desenvolveu
A consideracao positiva incondicional,
inicialmente uma abordagem voltada para a
quando associada á atitude empática,
psicoterapia, na qual se oferecia um ambiente
qualifica ainda mais as relacoes, promovendo
e uma relacao aceitadora e permissiva como
ñas pessoas a sensacao de estarem sendo
condicao básica e suficiente para o
compreendidas. E o que a Abordagem
desenvolvimento de uma pessoa (Wood e
Centrada na Pessoa entende por empatia?
outros, 2008). A interacao entre a potencia
Qual o papel que esse conceito tem para esta
para a autorrealizacao, que é a Tendencia
teoria? Por empatia entende-se a capacidade
Atualizante (Rogers, 1983), e as condicoes de
de compreender o outro na sua perspectiva. É
um meio facilitador, possibilitam o
reconhecer que o conhecimento deve servir
desenvolvimento pessoal, concretizando um
apenas para garantir a compreensao da
processo de crescimento.
realidade do outro a partir de seus próprios
referenciais. Em outras palavras,
compreender empaticamente nao é apenas
134
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Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras do século XXI_
ouvir o que está sendo dito, mas procurar
contexto no qual esteja inserida esta relacao.
entender as razoes e emocoes presentes no
A uniao dessas tres atitudes em qualquer
momento em que a relacao acontece.
relacao interpessoal é considerada por Rogers
Dessa forma, a atitude empática
a condicao necessária e suficiente para
promover o desenvolvimento humano (Wood
significa penetrar no mundo perceptual
e outros, 2008).
do outro e sentir-se totalmente á vontade
dentro dele. Requer sensibilidade
Abordagem Centrada na Pessoa e
constante para com as mudancas que se
verificam nesta pessoa em relacao aos
Políticas Públicas de Saúde: um diálogo
significados que ela percebe (...) sem
possível
tentar revelar sentimentos dos quais a
pessoa nao tem consciéncia, pois isto
A reflexao acerca das convergencias
poderia ser muito ameacador. Implica em
entre a ACP e as políticas públicas de saúde
transmitir a maneira como vocé senté o
mundo dele/dela á medida que examina
pode ser feita a partir da nova definicao do
sem viés e sem medo os aspectos que a
conceito de saúde. O fundamento de todo
pessoa teme (Rogers & Rosenberg, 1977,
desenvolvimento teórico desta abordagem, se
p.73).
dá a partir da premissa de que todas as
pessoas tém urna tendencia natural ao
Por fim, considera-se que urna relacao
crescimento, que se desenvolve a partir da
facilitadora de crescimento pressupoe a
experiencia. Denominado Tendencia
presenca por inteiro de ambas as pessoas.
Atualizante, este conceito é definido por
Desta forma, se insere também como
Rogers como "um fluxo subjacente de
elemento de sustentacao das relacoes
movimento em direcao á realizacao
facilitadoras de crescimento e saúde, a
construtiva das possibilidades que Ihe sao
autenticidade, entendida como a capacidade
inerentes" (Rogers, 1983, p. 40). Eis o
de expressar o que a experiencia de estar na
conceito que descreve as pessoas, como seres
relacao promove. Ao apresentar os beneficios
que apresentam urna natureza motivacional
da autenticidade na relacao terapéutica
para a realizacao de suas potencialidades de
Rogers (1976) afirma:
forma dinámica, interativa e relacional e que,
certamente contribuí com a fundamentacao
Descobriu-se que a transformacao
do novo conceito de saúde.
pessoal era facilitada quando o
psicoterapeuta é aquilo que é, quando as
Palavras como integracao, prevencao,
suas relacoes com o paciente sao
interdisciplinaridade, relacoes de vínculo e
auténticas e sem máscara nem fachada,
responsabilizado, entre outras, presentes na
exprimindo abertamente os sentimentos
descricao das políticas públicas de saúde
e as atitudes que nesse momento Ihe
ocorrem. Escolhemos o termo
brasileiras, serao facilitadas, se forem
"congruencia" para tentar descrever esta
estabelecidas relacoes que apresentem como
condicao. Com este termo procura-se
objetivo
significar que os sentimentos
experimentados pelo terapeuta Ihe sao
urna maior independencia e integracao do
disponíveis, disponíveis á sua consciéncia,
individuo, ao invés de esperar que tais
e que ele é capaz de vivé-los, de ser esses
resultados derivem do auxilio dado pelo
sentimentos e estas atitudes, que é capaz
orientador á solucao de problemas. O
de comunicá-los se surgir urna
foco é o individuo e nao o problema. O
oportunidade disso (p.63).
objetivo nao é resolver um problema
particular, mas auxiliar o individuo a
Nesses termos, autenticidade nao
crescer, de modo que possa enfrentar o
problema presente e os posteriores de
significa dizer o que se pensa, mas ter
urna maneira mais bem integrada
atitudes coerentes com o que é experienciado
(Rogers, 1977, p. 6).
na relacao com o outro, independente do
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_Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras do século XXI
construcao de novos modelos de
A construcao de urna relacao com esses
atendimento psicológico.
principios implica, por um lado, que as
A partir desta compreensao, o trabalho
pessoas passem a ser responsáveis por seu
multiprofissional passa a ser apenas mais um
desenvolvimento pessoal e pelo cuidado de
passo para a aplicacao do conceito de pessoa
sua própria saúde, promovendo e prevenindo
integral. A consideracao de pessoa como um
o seu prejuízo e, por outro, que os
ser integral e de um conceito de saúde nao
profissionais passem a considerar a potencia
compartimentado, requer necessariamente a
das pessoas a que se propoem ajudar. Eis a
interacao entre os varios profissionais da
postura que norteia a relacao de ajuda
saúde. Urna transicao que levaría a atencao
proposta pela Abordagem Centrada na Pessoa
interdísciplínar á saúde.
e que permite a interlocucao com os
A interdísciplínaridade, porém, vaí além
fundamentos dos tres níveis de atencao.
de urna troca de ¡nformacoes entre
Desde a década de 1920, Rogers
profíssionaís da saúde, ela exige urna
desenvolvía urna orientacao metodológica
¡nterseccao entre as áreas. De acordó com
que promovía a capacidade das pessoas de
Japiassú (1976), o trabalho interdisciplinar
utílizarem seus recursos individuáis como
requer o interesse pelo conhecimento e pela
veículo de desenvolvimento de sua máxima
intervencao dos outros profissionais, requer
potencia e autorrealizacao (Sales & Souza,
urna abertura do seu próprio arcabouco
2009). Esta perspectiva permitía, desde
profissional, para que, a partir da uniao com
entao, a sua utilizacao de forma criativa na
os outros profissionais, se construam novos
construcao da Psicología. Porém, apesar de
conhecimentos. A partir da
ter sido teorizado por Rogers algumas
interdisciplinaridade, é possível planejar
décadas antes, Kahhale (2003) aponta que, no
intervencoes conjuntas, específicas, únicas,
Brasil, até 1983, a Psicología seguía o modelo
adaptadas as necessidades da saúde de cada
clínico clássico, aplícando-o inclusive no
pessoa em particular.
contexto hospitalar.
Trabalhar interdisciplinarmente envolve
Esta forma clássica de atendimento
urna postura de tolerancia, de abertura e um
psicológico impossibilita a insercao de um
interesse genuino na atuacao dos outros
modelo interdisciplinar, por se tratar de
profissionais, postura esta, que nao costuma
atuacoes individualizadas, que colocam o
estar presente ñas relacoes humanas. Nina
profissional em posicao de destaque em
(1995) aponta alguns obstáculos para o
relacao ao cliente, e em relacao aos demais
desenvolvimento da equipe interdisciplinar e
membros da equipe de trabalho, tornando
os principáis sao as questoes provenientes do
inviável a troca e interacao profissional,
relacionamento entre as pessoas. Pode-se
necessária para a construcao de urna equipe
considerar que, para que a
interdisciplinar.
interdisciplinaridade possa ser vivenciada na
Atualmente, apesar de muitos esforcos
prática dos profissionais de saúde, mais urna
para integrar os profissionais da saúde pública
vez um paradigma precisa ser quebrado, o
e com isso garantir um olhar cada vez mais
paradigma que envolve a postura dos
integral, universal e equánime á saúde das
profissionais de saúde.
pessoas, ainda existem falhas. Os profissionais
Nesses termos, a humanizacao nao tem
das diversas áreas de atuacao na saúde, ainda
como ser aplicada, pois nao é urna técnica.
sao apenas parte de urna equipe
Sua existencia depende de urna relacao de
multiprofissional. A Psicología em particular,
ajuda em que predomina urna atitude
tem feito esforcos no sentido de abandonar a
auténtica, onde aquele que oferece ajuda
clínica tradicional para desenvolver formas de
considera a potencia e a direcao ao
trabalho que atendam a demanda das
crescimento daquele que será ajudado,
pessoas, e está caminhando para a
respeita sua individualidade e seu processo de
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Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras do século XXl_
construcao particular. Quando essa pessoa
receber a facilitacao da mediacao de
concentra seus esforcos em proporcionar
conflitos.
condicoes que facilitem o desenvolvimento
Conforme Battaglia (2009), Rogers
do outro "a tendencia ao crescimento e a
percebia que,
direcao deste crescimento serao entao
evidentes e virao do interior do organismo"
Quando a pessoa está emocionalmente
(Rogers, 2001, p. 271).
desadaptada, enfrenta dificuldades, em
primeiro lugar, porque rompe a
A ¡mplantacao deste novo conceito de
comunicacao consigo própria e
saúde, que propoe práticas humanizadas,
consequentemente, como resultado
resgatou aspectos da pessoa que estavam
dessa ruptura, a comunicacao com o
sendo desconsiderados. Além de considerar
outro também fica prejudicada. Ñas
situacoes de conflito, que sao
os aspectos emocionáis e sociais das pessoas
emocionalmente intensas, nos deparamos
presentes em seu processo de saúde ou
frequentemente com pessoas que estao
doenca e de promover autonomía no cuidado
mais preocupadas em prejudicar o outro
á saúde, resgata a necessidade de relacoes
do que em defender seus interesses e
interpessoais auténticas como veículo de
necessidades (p. 130).
promocao a saúde.
Os profissionais de saúde também sao
Em muitas situacoes, os profissionais da
pessoas em interacao, também sao homens
saúde encontram-se emocionalmente
integráis, assim como sua saúde. E a aplicacao
preocupados em perder o seu espaco ao
da interdisciplinaridade perpassa a postura
permitir a interacao de seu conhecimento
destes profissionais enquanto pessoas em
com a área de conhecimento dos demais
relacoes humanas. As dificuldades de
profissionais. No entanto, ainda de acordó
aplicacao da interdisciplinaridade, antes de
com Battaglia (2009), se as pessoas estiverem
ser um problema técnico, é um problema ñas
dispostas a agir com honestidade, o
relacoes humanas.
redirecionamento do olhar permite a
É neste ponto que a ACP se insere como
apreciacao e compreensao do ponto de vista
urna proposta de viabilizacao da ampliacao da
do outro, promovendo urna comunicacao que
interdisciplinaridade e concretizacao do SUS
tende a tornar possível o entendimento entre
como urna política pública mais eficaz.
as pessoas.
Enquanto urna forma de abordagem das
Percebe-se que, com atitudes
relacoes humanas, a ACP nao se restringe á
consideradoras positivas incondicionais,
Psicología. Ela pode ser considerada um jeito
empáticas e auténticas - grandes pilares da
de ser e de abordar o outro a ser adotado por
postura centrada na pessoa - é possível
todos os profissionais, cujo trabalho envolve
compreender e interagir com as diferentes
relacoes humanas, inclusive os profissionais
manifestacoes do outro e é possível construir
da saúde.
relacoes permeadas por urna escuta
É preciso levar em conta que a
incondicional.
insalubridade ñas relacoes de trabalho
Esta atitude ñas relacoes profissionais
dificulta o exercício um jeito de abordar o
promove urna abertura entre os outros
outro centrado na pessoa. Os profissionais da
profissionais, tornando possível urna
saúde estao sem condicoes facilitadoras para
comunicacao clara e, consequentemente, a
o desenvolvimento de compreensao
resolucao de situacoes de conflito frequentes
interpessoal e sob pressao social para
entre as pessoas na atualidade. Este cenário
concretizar um cuidado integral em saúde.
de desentendimento se aplica também as
Esta realidade desencadeia situacoes de
relacoes entre os profissionais da saúde,
conflito, ñas quais a estimulacao para o
assim como entre profissionais e usuarios e os
desenvolvimento de novas atitudes pode
familiares destes.
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_Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras do século XXI
Fica claro que há falhas e distorcoes na
da ¡mplementacao de urna atencao integral á
comunicacao entre os profissionais da saúde
saúde de fato.
e desta forma, a ¡mplantacao efetiva de um
A ampliacao do conceito de saúde
trabalho interdisciplinar fica impossibilitada.
chama pela sua aplicacao. Desta forma, nao é
Se estas atitudes passam a ser adotadas pela
possível mais restringir a Abordagem
equipe de saúde, a interdisciplinaridade pode
Centrada na Pessoa á ambientes acolhedores,
ser vivenciada na prática diaria, resguardando
como consultorios psicoterapéuticos ou
o reconhecimento dos esforcos necessários
eventos de integracao dos psicólogos
para a consolidacao de relacoes com essa
humanistas. É preciso ousar adentrar os
perspectiva.
ambientes, muitas vezes hostis, para que,
Os profissionais da saúde, ao adotarem
com o jeito de ser centrado na pessoa, estes
as atitudes da ACP, desenvolverao um
também possam se tornar permissivos e
interesse real pela atuacao do outro
aceitadores. Sales e Sousa (2009) expressam-
profissional. A troca profissional decorrente
se sobre isso da seguinte forma:
do interesse genuino pelo outro se torna um
recurso de desenvolvimento pessoal e de
Encontramo-nos, entao numa posicao
facilitacao do processo de resgate da saúde
político institucional muito vulnerável á
pressao realizada por paradigmas de
dos usuarios dos servicos de saúde.
saúde hegemónicos (...) e contrarios aos
É fato que adotar este jeito de ser,
pressupostos básicos da ACP. Contudo
implica em mudancas nao apenas ñas
esta convergencia restritiva, nao nos tem
relacoes profissionais, mas também ñas
impedido de realizar críticas, pesquisas e
relacoes pessoais dos profissionais de saúde.
práticas construtivas no campo da saúde
(p.195).
Entretanto, á medida que se compreende que
a adocao deste jeito de ser torna possível o
A ampia gama de profissionais da saúde
próprio desenvolvimento pessoal, as
em atuacao, ainda senté as dificuldades
dificuldades da adaptacao sao vivenciadas e
herdadas pelos resquicios de um modelo
compreendidas como parte do
remediativo de saúde. Sendo assim,
desenvolvimento.
encontram obstáculos para ampliar
A disponibilidade sincera e o interesse
criativamente as possibilidades de
pelo outro, enquanto pessoa integral,
¡mplantacao do conceito de saúde ampliado.
permeada pela troca e acao conjunta dos
A Abordagem Centrada na Pessoa (ACP)
profissionais da saúde pode trazer a
oferece a estes profissionais o amparo para
efetivacao da humanizacao da atencao á
esta ampliacao de suas atuacoes, através da
saúde, seja no nivel primario, secundario ou
interacao entre os profissionais e suas
terciario. 0 desenvolvimento dos
diversas áreas de conhecimento, permitindo
profissionais da saúde como pessoas, talvez
um crescimento coletivo, que configura um
seja a maior contribuicao da ACP para que
crescimento ainda maior do que seria possível
alguns aspectos das políticas de saúde
de ser alcancado apenas individualmente.
possam ser concretizados em sua amplitude,
beneficiando todos os profissionais da saúde.
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diretrizes das políticas de saúde brasileiras,
seja o caminho que possibilitará a realizacao
138
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Maira de Souza Flor: Graduada em
ttext&pid=S010373312007000100003&lng=e
Psicología na Universídade do Sul de Santa
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Catarina - Unísul, com Formacao em
Psicoterapia na Abordagem Centrada na
Sebastiani, R. W (2000). Histórico e Evolucao
Pessoa pelo Centro Catarinense de Psicología
da Psicología da Saúde numa Perspectiva
Humanista - Espaco Víver Psicología.
Latino-Americana. Em V. A. A. Camón (org.)
Atualmente em atuacao como Psicologa
Psicología da Saúde: um novo significado para
Clínica com base na Abordagem Centrada na
a prática clínica. Sao Paulo: Pioneira
Pessoa e Coordenadora de Servicos no Espaco
Víver Psicología. E-mail:
Wood, J. K.; Doxsey, J. R.; Assumpcao L. M.;
flormai ra@yahoo.com.br.
Tassinari, M. A.; Japur, M.; Serra, M. A.;
Wrona, R.; Loureiro, S.R.; Cury,V. E. (Orgs.).
(2008). Abordagem Centrada na Pessoa. (4a
Recebidoem: 10/03/2012
ed.). Vitoria: Edufes.
Aceito para publicacao: 22/10/2012
Sobre as autoras
Anita Baceliar: Graduada em Psicología
pela Uníversidade Gama Fílho, especialista em
Psicología Clínica e mestre em Educacao pela
Uníversidade do Sul de Santa Catarina.
Atualmente é Psicologa Clínica com base na
Abordagem Centrada na Pessoa, Psicologa
Hospítalar e Professora
universitaria/orientadora de estágio e de
trabalho de conclusao de curso. Fundadora e
Responsável Técnica do Espaco Viver
Psicología. Coordenadora, professora e
supervisora do curso de Especialízalo em
Psicología Clínica na Abordagem Centrado na
Pessoa oferecído pelo Espaco Viver.
Coordenadora do lívro Psicología Humanista
na Prátíca: urna reflexao sobre a Abordagem
Centrada na Pessoa publicado em 2009 pela
editora Unisul. Espaco Víver Psicología -
anitabacellar@yahoo.com.br.
Joana Simielli Xavier Rocha: Graduada
em Psicología na Uníversidade do Sul de Santa
Catarina - Unisul, Especialista na Abordagem
140
Rev. NUFEN [online]. v.4, n.l, janeiro-junho, 127-140, 2012.

Entre Educa^áo e Filosofía: Conhecimento, Linguagem e Pensamento
RESENHA
ABREU, W.F. de; OLIVEIRA, D.B.; RAMOS, J.B.S. Entre Educado e Filosofía: Conhecimento,
Linguagem e Pensamento. Belém, GEPEIF, 2011.
Danielle Leal Sampaio
Este livro organizado por Abreu & Cois
Este tipo de ciencia, denominada por
(2011) contém 13 artigos cujo tema geral é a
Kuhn de "ciencia normal", ¡nova um tipo de
Educacao em articulado com a filosofía. As
pesquisa especializada voltada para a
principáis temáticas destacam um raciocinio
resolucao dos problemas propostos pelos
crítico e reflexoes acerca do processo de
paradigmas. Ou seja, no decorrer do
produzir conhecimento nos campos da
desenvolvimento histórico até atingir a
linguagem e do pensamento. .
maturidade, o desenvolvimento científico
O primeiro artigo intitulado "O
passa por diversos estágios. Dessa forma,
pesquisar como atividade existencialmente
assim como as Ciencias Naturais que evoluiu
significativa", de Oliveira e Abreu citado por
históricamente, as Ciencias Sociais e Humanas
Abreu, Oliveira e Ramos (2011), traz urna
em transicao, sao multiparadigmáticas e por
reflexao acerca do sentido real e existencial
isso, pouco amadurecidas, segundo o
de urna pesquisa, mostrando que a atividade
preconizado por Kuhn.
denota urna acepcao antropológica e
O terceiro artigo cujo título é "Análise
filosófica, nao meramente técnica de
do discurso: urna ferramenta metodológica
producao, urna vez que o sentido do
para análise da violencia psicológica" traz por
conhecimento está na acao de interrogacao
meio da autora Pimentel citada por Abreu,
realizada pelos pesquisadores, "colocando em
Oliveira e Ramos (2011), urna reflexao sobre
jogo o sentido de sua própria existencia" (p.
as diversas faces analíticas da linguagem que
11).
possibilitam o estudo fenomenológico da
No texto "Paradigmas, práticas
palavra verbalizada. A autora ressalta a
científicas e ciencias do homem em Kuhn",
abordagem gestáltica, a teoria da
construido por Dias citado por Abreu, Oliveira
interpretacao de Ricoeur, a teoria da
e Ramos (2011), a prática científica é
resistencia de Giroux e a concepcao de
discutida por meio do modelo de construcao
pedagogía da autonomía de Paulo Freiré
de urna ciencia baseada no pensamento de
como suportes teóricos e metodológicos que
Kuhn, que busca olhar a ciencia sob sua
se vale para dialogar com os dados empíricos
historia atribuida á Sociología e Psicología
das pesquisas que realiza. Pimentel, ainda
Social, substanciando a ideía de que a
destaca a importancia de o educador
maturidade científica ocorre com o consenso,
preocupar-se com o estudo da violencia por
com a reducao da multiplicidade teórica do
meio da linguagem, a fim de contribuir em
campo de estudo em foco, tendo urna base
sala-de-aula, com a promocao de atos
paradigmática, pois esta fornece ao grupo
políticos e pedagógicos associados ao ato de
científico o modelo de solucao de problemas
produzir conhecimento.
que deverá orientar sua pesquisa segundo um
O texto escrito por Lemos e Cardoso
padrao, sendo este o meio para a resolucao
citados por Abreu, Oliveira e Ramos (2011),
do problema epistemológico das Ciencias do
intitulado "Foucault e a análise de
Homem, fornecendo a possibilidade de urna
documentos-monumentos como estrategia
disciplina unificada, constituindo urna Ciencia
política", é baseado em analises dos
"Madura".
documentos em urna pesquisa histórico-
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genealógica do ponto de vista de Foucault. O
ao homem moderno com consciéncia nos
autor mostra que para o filósofo os
discursos políticos e jurídicos.
"documentos eram urna montagem que
O artigo "A relacao entre o poder e
deveriam ser interrogados enquanto
saber em Michel Foucault" de Pimentel e
monumentos históricos, pois permitiam
Abreu citado por Abreu, Oliveira e Ramos
efetuar urna crítica local das práticas de saber
(2011), aborda a compreensao de Foucault
e poder, na atualidade" (p. 74).
em relacao á construcao do saber e sua
O autor Sarmentó citado por Abreu,
relacao com o poder, afirmando que existem
Oliveira e Ramos (2011) em seu trabalho
relacoes múltiplas de poder que atravessam,
"Foucault: a cidadania ente a disciplina e o
caracterizam e constituem o corpo social pela
controle" mostra que a ideia de cidadania no
producao da verdade. Para o filósofo "os
pensamento pós-estruturalista de Michel
humanistas se enganam quando estabelecem
Foucault procura entender a mecánica das
a separacao entre o saber e o poder" (p. 120).
sociedades modernas em suas relacoes de
Foucault afirma que eles estao integrados,
poder na medida em que passa a ser a
onde o poder indaga e institucionaliza a
ideología do capitalismo e a doutrina liberal
verdade, e o saber vem logo em seguida do
que fundamenta urna compreensao de
poder disciplinar mostrando claramente a sua
liberdade vinculada ao consumismo e com a
construcao em varios processos de
sensacao de exercer a liberdade, assim como
dominacao, transformando "multidoes
a condicao necessária ao próprio
confusas" em "multiplicidades organizadas"
reconhecimento social e a dignidade humana.
(p. 123), utilizando de um instrumento
Apesar dos avancos tecnológicos e
fundamental: a vigilancia hierarquizada.
políticos terem acirrado urna mudanca social
O estudo intitulado "Ensaios sobre a
a partir dos séculos XIX e XX, essas diferencas
realidade e conceito de educacao" dos
provocaram indiretamente consequéncias
autores Silva e Silva, citado por Abreu,
sobe os direitos e deveres dos cidadaos
Oliveira e Ramos (2011), versa sobre a
influenciando na estrutura política das
educacao além do ponto de vista da evasao,
sociedades por meio das lutas sociais
desmotivacao e reprovacao que envolve
buscando garantías constitucionais dos
educadores, gestores e alunos. Relata um
direitos humanos, mas mantendo a liberdade
projeto em que os alunos saíram do ámbito
"peculiar" do capitalismo com característica
da sala de aula para vivenciar a realidade na
liberal. Para Foucault entre os séculos XVIII e
disciplina de Biología. Os resultados
XIX acontecem um entrelacamento do poder
repercutiram em toda escola sendo apreciado
com o saber, possibilitando o aparecimento
por outros professores que puderem
das chamadas "sociedades disciplinares"
compartilhar o sentimento de impotencia em
orientadas para um sistema altamente
trabalhar com a educacao na escola pública.
disciplinar, "adestrada e moldada a partir dos
Os autores afirmam que trabalhar com a
principios estabelecidos pelo poder do
realidade implica em avaliar as muitas
controle que se legitima em funcao dos novos
propostas de intervencao educacional e
mecanismos de dominacao das técnicas e das
admitir que a relacao professor-aluno é de
ciencias" (p. 100). Isto proporcionou o
criacao nao de apenas reproduzir o
surgimento das técnicas disciplinares com o
conhecimento. Utilizando os estudiosos
fundamento da "producao da verdade sobre
"frankfurtianos", afirmam que é muito
eles mesmos" por meio da responsabilizacao
importante fazer valer a política da educacao
das instituicoes sociais na ¡mplementacao
dentro de urna democracia efetiva, pelo
desse mecanismo com finalidade de
desenvolvimento da capacidade de pensar a
"docilizacao dos individuos" (p.105) com urna
realidade através da experiencia.
compreensao de cidadania guerreira atrelada
O manuscrito escrito de Alves citado
por Abreu, Oliveira e Ramos (2011), cujo
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título é "Caleidoscopio mitopoético ñas
pela sua "esséncia" histórica, antropológica,
narrativas de enancas: a intertextualidade
como especialmente pela significancia de se
Bakhtiniana", coloca a discussao que a
representar a esperanca, se mostrando como
linguagem determina a cultura entre as
urna "novela de um mundo ideal confundida
enancas-narradores da Amazonia paraense.
com a idealizacao mesma desse ideal" (p.
De acordó com o referencial teórico de
227) qualificando as narrativas de Moro, que
Bakhtin ressaltam a intertextualidade com o
critica a sociedade (familia, Estado, costumes,
cruzamento de textos utilizados por chancas,
moral) fundamentada na quase completa
em que o diálogo polifónico é fruto de um
ausencia de um comportamento ético, do
processo dialético e da acao de um sujeito
existir do ser humano, afirmando que o ideal
que é ativo, contextualmente envolvido em
nao pode concretizar-se no real que se
um enredo social e histórico. A autora
manifesta sob a ótica crítica de um momento
pondera que "pensar a cultura com o olhar de
histórico, ou seja, o real é mesmo o que está
Bakhtin é pensar formas específicas de
para mover o utópico, e dessa forma o real e
conduta, de atividade das funcóes psíquicas"
o ideal transitam concomitantemente
(p. 200).
fazendo-se mover em todo o ámbito da
O nono artigo estrito por Falabelo:
existencia da imaginacao.
"Bakhtin e a filosofía da linguagem:
O autor ainda afirma que homens e
contribuicóes á compreensao do processo
mulheres vivemos urna utopia, pela
educacional", citado por Abreu, Oliveira e
preocupacao com o destino da sociedade: "o
Ramos (2011), a materialidade da linguagem
pensamento utópico energiza os mais
é entendida enquanto atividade prática nos
variados campos da investigacao e de busca
atos efetivos de linguagem, na qual é dado
do e pelo ser humano" (p. 236),
sentido e significado, e o processo
O artigo "Elucidacao do conceito de
educacional é mediado por essa linguagem
sujeito em Paulo Freiré" de Correa, Oliveira e
que passa por transformacóes cada vez mais
Abreu, citado por Abreu, Oliveira e Ramos
complexas em seus níveis de abstracao. A
(2011), remete a urna reflexao da formacao
teoria de enunciacao de Bakhtin pode ajudar
humana, orientada por urna pedagogía
a compreender o processo de construcao do
humanizante cotejada a obra "Pedagogía do
individuo de acordó com suas historias de
Oprimido" de Paulo Freiré. Dessa forma,
interacóes entre os aspectos intelectuais e
seguíndo a compreensao de ser humano e
afetivos-emocionais, pois a linguagem é um
suas complexas dimensoes (ontológícas,
campo simbólico e todo pensamento
éticas, políticas, etc..) associa ao processo de
materializa-se na consciencia apoiando-se no
humanizacao constituido de lutas por
sistema ideológico privilegiando a relacao de
libertacao, os autores afirmam que Freiré
intersubjetividade e linguagem como
fornece escopo teórico para elaborar um
constitutivas no processo de singularizacao
projeto de urna educacao humanística, que
podendo haver um combate das formas
compreende a realizacao existencial do
expressivas materializadas em signos, em que
estudante, do professor e de todos os atores
a palavra constituí um recurso para a
que atuam na escola. Os autores consideram
organizacao da própría ativídade mental,
que a obra de Freiré tem como raiz urna
sendo a consciéncía estruturada ñas relacóes
pedagogía humanística e libertadora baseada
exteriores que o individuo estabelece no
na realidade como fundamento de discussao
interior da cultura.
e reflexao crítica. O sujeito da educacao, o
Ramos em seu texto citado por Abreu,
educador, torna-se o responsável por
Oliveira e Ramos (2011), "Andares da utopia:
estimular o aluno a buscar a superacao de
devaneios e esperanca - lugares e nao-
conflitos interiores e exteriores, fazendo-os
lugares do humano", aborda a utopia do
reconhecer seus direitos e deveres, tornándo-
homem como um animal utópico, nao apenas
se responsável, e isso Ihe exige a conjugacao
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de educacao, conhecimento e cultura, tendo
O ultimo artigo é "A gestao universitaria
como resultado de que o "educador e o
e a lógica gerencialista: reflexoes sobre as
educando sao sujeitos e que ambos de
mudancas das últimas décadas e a 'nova'
educam no processo de educar" (p. 279).
concepcao", escrito por Ribeiro e Chaves
As reflexoes de Silva e Oliveira citado
citado por Abreu, Oliveira e Ramos (2011). O
por Abreu, Oliveira e Ramos (2011) contidas
texto desvela a necessidade de interiorizar
no texto "O que a palavra caboclo quer dizer:
urna educacao que venha a mudar aquela
representares simbólicas e análise de
baseada nos moldes neoliberais pela lógica
discurso na interpretacao histórica
generalista assumindo urna proximidade do
estigmatizadora sobre a Amazonia", acerca da
modelo de producao empresarial, por meio
categoría do caboclo como urna etnia
de urna nova gestao universitaria. "Neste
nomeada por um tipo de dominacao
cenário, a educacao em geral e a educacao
simbólica construida ao longo do tempo por
superior em particular é redirecionada para o
classes sociais dominantes da Amazonia,
mercado" (p. 315), onde as universidades
representada por um determinado tipo físico
públicas deixam de ser prioridade para as
que mora na floresta e "coloca-se como
políticas de Estado, transformando o
obstáculo ao desenvolvimento do processo
gerenciamento da educacao voltado para a
de desenvolvimento na nossa regiao" (p.
competitividade e produtividade, e seus
284), acabando por se construir um processo
sujeitos para o atendimento do mercado e
de subjetividade referentes a um imaginario
nao da sociedade. A expansao da globalizacao
pela condicao criada exogenamente sobre a
da economía exige do trabalhador urna
suposta inferioridade civilizatória da
racíonalidade polivalente com urna formacao
Amazonia estigmatizada aos seus habitantes
que possibilitem adaptar-se ao modelo de
com forte influencia na consciéncia social,
producao flexível, rompendo fronteiras
podendo ser considerada até urna
científicas, com novos arranjos entre os
representacao social. Ou seja, "os
conteúdos de múltiplas áreas disciplinares,
representados caboclos sao considerados
articulados por eixos temáticos e definidos
primitivos, contrapondo-se aos nao cablocos,
pela sociedade atual determinantes para a
representados como civilizados (p. 287).
necessidade dos processos produtivos na
Em consequéncia do processo de
formacao profissional inseridos no
construcao do caráter histórico e social do
neoliberalismo. "Nesse sentido, a ética dá
caboclo, o exercício discursivo do poder
espaco a eficiencia entre custo beneficio,
simbólico na Amazonia está relacionado
portanto, maior producao e lucro" (p. 323)
diretamente com a cultura e a linguagem,
construindo urna ótica de formacao tratando
sobretudo um discurso de um "padrao de
os profissionais como "capital humano", e
individuo classificado como alguém que é
dentro da educacao superior, especialmente
atrasado porque habita a floresta" (p. 291).
por ser considerada um "bem público" e nao
Dessa forma, a palavra caboclo refere-se a um
um "direito", o Estado criou mecanismos
sentido pejorativo, pois está relacionando a
regulatórios que concebem a educacao como
urna condicao de vida de traeos económicos e
um servico que pode ser ofertado pelas
culturáis considerados interioranos, nao
iniciativas privadas e pelas organizacoes
podendo ser utilizado para um grupo apenas
sociais, ferindo constitucionalmente as
de forma reducionista, o termo está apoiado
instituicoes públicas, onde a universidade
no processo de situacóes históricas de
acaba passando por um processo de
individuos articulados com o meio que
adequacao com novas relacoes institucionais
somente acha-se na Amazonia,
e sociais que formam profissionais para
compreendendo por ser urna categoría de
desempenhar suas atividades de acordó com
atribuícao pelo outro e nao de auto-
o novo, exigindo urna gestao correspondente
atribuícao.
a essa era moderna que possa corresponder
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as expectativas do mercado profissional e
a importancia de construir pensamentos
missao social, mas buscando sempre estigar a
críticos sobre a realidade.
sua esséncia e seu pensamento crítico.
0 livro resenhado ressalta a importancia
Embora a universidade tenha um papel
de configurar uma filosofía para a educacao
na lógica da eficiencia e uma funcao social a
enquanto processo de aprendizagem e
cumprir dentro do seu campo de atuacao,
ciencia humana: metodologías, disciplinas e
tem, a obrigacao de criticar o mecanismo
representares sociais, de modo a quebrar
neoliberal de mercado. A formacao
paradigmas, desvelar conhecimento e
profissional de um pesquisador nao pode
permitir aos sujeitos o questionamento da
visar o trabalho como ferramenta de lucro,
realidade utilizando estrategias de linguagem
distorcendo as acoes de fazer ciencia,
sempre renovadas.
transmitir conhecimento e mostrar aos alunos
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