Revista da Abordagem Gestáltica Instituto de Treinamento e...
Revista da Abordagem Gestáltica


Instituto de Treinamento e Pesquisa em
Gestalt-Terapia de Goiânia – ITGT
Revista da Abordagem Gestáltica
Volume XVII - N. 2
2011
Goiânia – Goiás
www.itgt.com.br

Ficha Catalográfica
Revista da Aborda-gem Gestáltica/ Instituto de
Treinamento e Pesquisa em Gestalt-Terapia de Goiânia –
Vol. 17, n. 2 (2011) – Goiânia: ITGT, 2011.

119p.: il.: 30 cm

Inclui normas de publicação

ISSN: 1809-6867

1. Psicologia. 2. Gestalt-Terapia. I. Instituto de
Treinamento e Pesquisa em Gestalt-Terapia de Goiânia.
CDD 616.891 43
Citação:
REVISTA DA ABORDAGEM GESTÁLTICA. Goiânia, v. 17, n. 1, 2011. xxxp
Impresso no Brasil
Printed in Brazil

Revista da aboRdagem gestáltica
Volume XVII - N. 2 – Jul/Dez, 2011
Expediente
Editor
Adriano Furtado Holanda
(Universidade Federal do Paraná)
Editores Associados
Celana Cardoso Andrade
(Universidade Federal de Goiás)
Danilo Suassuna Martins Costa
(Pontifícia Universidade Católica de Goiás)
Marta Carmo
(Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-Terapia de Goiás)
Conselho Editorial
Adelma Pimentel (Universidade Federal do Pará)
Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Cláudia Lins Cardoso (Universidade Federal de Minas Gerais)
Ênio Brito Pinto (Instituto de Gestalt-Terapia de São Paulo)
Gizele Elias Parreira (Pontifícia Universidade Católica de Goiás)
Joanneliese de Lucas Freitas (Universidade Federal do Paraná)
Jorge Ponciano Ribeiro (Universidade de Brasília)
Josemar de Campos Maciel (Universidade Católica Dom Bosco, MS)
Lílian Meyer Frazão (Universidade de São Paulo)
Luiz Lillienthal (Instituto de Gestalt de São Paulo)
Marcos Aurélio Fernandes (Universidade Católica de Brasília)
Marisete Malaguth Mendonça (Universidade Católica de Goiás)
Mônica Botelho Alvim (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Nilton Júlio de Faria (Pontifícia Universidade Católica de Campinas)
Patrícia Valle de Albuquerque Lima (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Pedro M. S. Alves (Universidade de Lisboa, Portugal)
Sérgio Lízias (Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão)
Tommy Akira Goto (Universidade Federal de Uberlândia)
Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa (Pontifícia Universidade Católica de Goiás)
William Barbosa Gomes (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Suporte Técnico
Josiane Almeida
Marcos Janzen
Norma Susana Romero Martinovich

Capa
Franco Jr.
Diagramação e Arte Final
Franco Jr.
Bibliotecário
Arnaldo Alves Ferreira Junior (CRB 01-2092)
Financiamento
Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-Terapia de Goiânia (ITGT-GO)
Encaminhamento de Manuscritos
A remessa de manuscritos para publicação, bem como toda a correspondência
de seguimento que se fizer necessária, deve ser endereçada a:
Editor
Revista da Abordagem Gestáltica
Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-terapia de Goiânia (ITGT)
Rua 1.128, nº 165 - St. Marista - Goiânia-GO - CEP: 74.175-130
Fone/Fax: (62) 3941-9798
E-mail: revista@itgt.com.br
Normas de Apresentação de Manuscritos
Todas as informações concernentes a esta publicação, tais como normas de
apresentação de manuscritos, critérios de avaliação, modalidades de textos, etc.,
podem ser encontradas no site http://pepsic.bvs-psi.org.br
Fontes de Indexação
- Clase
- Latindex
- Lilacs
- Index Psi Periódicos (BVS-Psi Brasil)
- Scopus
As opiniões emitidas nos trabalhos aqui publicados, bem como a exatidão
e adequação das referências bibliográficas são de exclusiva responsabilidade
dos autores, portanto podem não expressar o pensamento dos editores.
A reprodução do conteúdo desta publicação poderá ocorrer desde que
citada a fonte.

Sumário
EDIToRIAl ..................................................................................................................................................IX
ARTIGoS
- “Como Sei que Eu Sou Eu?” Cinestesia e Espacialidade nas Conferências Husserlianas de 1907
e em Pesquisas Neurocognitivas ............................................................................................................ 123
Thiago Gomes de Castro (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) & William Barbosa Gomes
(Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
- A Crítica da Fenomenologia de Husserl à Visão Positivista nas Ciências Humanas .......................... 131
Carlos Diógenes Cortes Tourinho (Universidade Federal Fluminense)
- Fenomenologia e Experiência Religiosa em Paul Tillich ...................................................................... 137
Tommy Akira Goto (Universidade Federal de Uberlândia)
- A ontologia da Carne em Merleau-Ponty e a Situação Clínica na Gestalt-Terapia:
Entrelaçamentos ...................................................................................................................................... 143
Monica Botelho Alvim (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
- Pensando o Suicídio sob a Ótica Fenomenológica Hermenêutica: Algumas Considerações .............. 152
Elza Dutra (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
- o Cuidado como Amor em Heidegger .................................................................................................... 158
Marcos Aurélio Fernandes (Universidade Católica de Brasília)
- A Contribuição de Jaspers, Binswanger, Boss e Tatossian para a Psicopatologia
Fenomenológica ...................................................................................................................................... 172
Virginia Moreira (Universidade de Fortaleza)
- A Clínica Psicológica Infantil em uma Perspectiva Existencial .......................................................... 185
Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
- A (Pouco Conhecida) Contribuição de Brentano para as Psicoterapias Humanistas ......................... 193
Georges Daniel Janja Bloc Boris (Universidade de Fortaleza)
- Dificuldades, Desafios e Possibilidades para uma Clínica Sartreana ................................................ 198
Carolina Mendes Campos (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro); Fernanda Alt (Universidade
Estadual do Rio de Janeiro
) & André Barata (Universidade da Beira Interior/Portugal)
- Uma Análise Existencialista para um Caso Clínico de Transtorno obsessivo Compulsivo ............. 205
Sylvia Mara Pires de Freitas (Universidade Estadual de Maringá)
S u m á r i o
vii
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): vii-viii, jul-dez, 2011

Sumário
TEXToS ClÁSSICoS
- Sobre o Conceito de Sensação (1913) ...................................................................................................... 217
José Ortega y Gasset
DISSERTAÇÕES E TESES
- A Ambiguidade na Fenomenologia da Percepção de Maurice Merleau-Ponty (2007) ......................... 227
Leandro Neves Cardim (Doutorado em Filosofia, Universidade de São Paulo)
- A Clínica da Urgência Psicológica: Contribuições da Abordagem Centrada na Pessoa e da
Teoria do Caos (2003) .............................................................................................................................. 229
Márcia Alves Tassinari (Doutorado em Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro)
NoRMAS
- Normas de Publicação da Revista da Abordagem Gestáltica .............................................................. 235
S u m á r i o
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): vii-viii, jul-dez, 2011
viii

Editorial
Ao final do século XIX, quando aquelas ciências que
pessoas – e outro ainda mais expressivo – mais de cem
– na atualidade – viriam a ser chamadas de “ciências hu-
trabalhos2 apresentados, entre conferências, palestras,
manas” davam seus primeiros passos, e buscavam se es-
comunicações, etc. – mostra que um novo movimento
tabelecer no terreno das objetividades, Wilhelm Dilthey
começa a tomar corpo no país.
(1833-1911) já discutia sua “teoria da visão de mundo”, ou
Começamos a publicar algumas destas contribuições,
a Weltanschauung: “(. .) em que ‘viver é apreciar’, é avaliar,
trazendo aos leitores doze desses trabalhos – oito deles
é escolher, é dar sua ‘interpretação’ ao mundo natural”
frutos de pesquisas em Programas de Pós-Graduação –,
(Japiassu & Marcondes, 1990, p. 73). Em sua obra funda-
que refletem não apenas a solidez da discussão, como
mental, Introdução ao Estudo das Ciências Humanas1 (de
também a diversidade de temas e autores que tem sido
1883), Dilthey critica a apropriação da visão positivista
trabalhados em psicologia fenomenológica no país:
da realidade humana, afirmando que esta realidade é “es-
Brentano, Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty, Sartre e
sencialmente social e histórica” (Japiassu & Marcondes,
Tillich, dentre outros, são alguns desses autores. Em
1990, p. 73) e, assim, não seria passível de explicação
contrapartida; espacialidade, percepção, religiosidade,
causal e racionalista –, mas de compreensão.
arte, clínica, suicídio e psicopatologia, são alguns des-
Posteriormente, em outra obra fundamental – prin-
ses temas.
cipalmente para a psicologia, as Ideias sobre uma psi-
E, ao final, brindamos a todos com a tradução de um
cologia descritiva e analítica (de 1894) – Dilthey ratifica
excelente texto de Ortega y Gasset – intitulado Sobre o
esta posição, assinalando que as ditas “ciências huma-
Conceito de Sensação, de 1913 – onde o autor, além de
nas” (à época chamadas de ciências do espírito) tem uma
fazer uma breve, mas significativa introdução à fenome-
especificidade:
nologia, nos indica o lugar da “vivência” a que nos refe-
rimos no início.
As ciências humanas partem do nexo psíquico dado
na experiência interna. A diferença fundamental do
Adriano Furtado Holanda
conhecimento psicológico em relação ao conhecimen-
- Editor -
to da natureza consiste no fato de o nexo ser dado aqui
primariamente na vida psíquica, e é aí que reside, por-
tanto, mesmo a primeira e fundamental peculiaridade
Referências
das ciências humanas (Dilthey, 1894/2011, p. 158).
Dilthey, W. (2011). Ideias sobre uma psicologia descritiva e
Este nexo é representado pela palavra alemã Erlebnis,
analítica. Rio de Janeiro: Via Verita Editora (Original pu-
ligada a “vida”, a “viver”. Quem traduziu este vocábulo,
blicado em 1894).
originalmente proposto por Dilthey, foi o filósofo espa-
Japiassu, H. & Marcondes, H. (1990). Dicionário Básico de
nhol José ortega y Gasset (1883-1955), em 1913, com a
Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
palavra “vivência” (Mora, 1994/2004). Este neologismo
castelhano passou a significar “experiência vivida subje-
Mora, J.F. (2004). Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola
tivamente” ou “experiência interna”, fundamental – pois
(Original publicado em 1994).
– para as ciências humanas em geral e, particularmente,
Nobre de Melo, A.L. (1979). Psiquiatria (Vol. I). Rio de Janeiro:
para as ciências psicológicas, como bem aponta o imi-
Civilização Brasileira/FENAME.
nente psiquiatra Nobre de Melo (1979).
Fizemos esta introdução como forma de anun-
ciar o que trazemos neste novo número da Revista da
Abordagem Gestáltica
que, ao longo dos últimos cinco
anos, assumiu uma proposta – e um desafio – de se tor-
nar mais um veículo para a difusão, debate e solidifica-
ção do pensamento fenomenológico no Brasil. Como tal,
este novo número conta com os primeiros trabalhos apre-
sentados no II Congresso Sul-Brasileiro de Fenomenologia,
realizado na Universidade Federal do Paraná, entre 02 e
04 de junho de 2011.
Um número expressivo de participantes – mais de 350
2 Os Anais do II Congresso Sul-Brasileiro de Fenomenologia (cujo tema
foi “Vínculo, Relação, Diálogo), estão disponíveis online e podem
ser consultados no link: http:/ www.labfeno.ufpr.br/textos/Anais_II_
1 Título original: Einleitung in die Geisteswissenschafter.
Congresso_Sul_%20Brasileiro_de_Fenomenologia_2011.pdf
E d i t o r i a l
ix
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): ix, jul-dez, 2011



..........................
s
o
t
i
g

A
r



“Como Sei que Eu Sou Eu?” Cinestesia e Espacialidade nas Conferências Husserlianas de 1907 e em Pesquisas Neurocognitivas
“Como Sei que eu Sou eu?” CineSteSia e eSpaCialidade
naS ConfeRênCiaS HuSSeRlianaS de 1907 e em peSquiSaS
neuRoCognitivaS1
How do I Know That I am Myself? – Kinesthesia and Spatiality in the Husserlian
Conferences of 1907 and in Neurocognitive Research
¿Cómo Puedo Saber que Soy Yo? – Cinestesia y Espacialidad en las Conferencias
Husserlianas de 1907 y en Investigaciones Neurocognitivas
Thiago gomes de CasTro
William BarBosa gomes
Resumo: Husserl definiu cinestesia como a experiência vivida e autoconsciente do movimento e do gesto, associada à uni-
dade corporal, ao desenvolvimento do esquema do ego estendido, e à percepção de espaço. O estudo contrasta dificulda-
des históricas e colaborações recentes entre fenomenologia e pesquisa experimental. A análise sustenta-se na revisão de
estudos clássicos sobre cinestesia e percepção, e em pesquisas neurocognitivas recentes, destacando as implicações para a
compreensão da intencionalidade. O conceito de cinestesia refere-se a duas questões fenomenológicas: como sei que eu sou
eu, e quem sou eu. O senso de si e da ação presente passam pela integração da consciência reflexiva no desempenho motor
e perceptivo, conforme confirmam experimentos fenomenológicos e neurocognitivos sobre situações de ambiguidade pro-
prioceptiva. Tais estudos estão abrindo novas possibilidades para reabilitação de desordens proprioceptivas – como no caso
de amputação, comorbidades de auto-imagem e mesmo esquizofrenia – e para colaborações profícuas entre fenomenologia
e neurociências cognitivas.
Palavras-chave: Cinestesia; Autoconsciência; Intencionalidade; Fenomenologia; Neurocognição.
Abstract: Husserl defined kinesthesia as the self-consciousness lived experience of movement and gesture, associated to the
body unity, to the development of an extended ego schema, and to spatial perception. The study contrasts historical diffi-
culties and recent collaborations between phenomenology and experimental research. The analysis is sustained in classical
studies review on kinesthesia and perception, and in recent neurocognitive research, emphasizing implications to an under-
standing of intentionality. The concept of kinesthesia refers to two phenomenological issues: How do I know that I am my-
self, and who am I. The sense of self and actual action passes through the integration of reflective consciousness in motor
action and perception, as confirmed by phenomenological and neurocognitive experiments using proprioceptive ambiguity
contexts. Those studies are opening new possibilities to the rehabilitation of proprioceptive disorders – as in the case of am-
putees, self-image comorbidities and schizophrenia – and also to fruitful collaborations between phenomenology and cogni-
tive neurosciences.
Keywords: Kinesthesia; Selfconsciousness; Intentionality; Phenomenology; Neurocognition.
Resumen: Husserl define cinestesia como la auto-conciencia de la experiencia vivida del movimiento y el gesto, asociado a la
unidad del cuerpo, a lo desarrollo de un esquema de ego extendido, y a la percepción espacial. El estudio contrasta las difi-
cultades históricas y recientes colaboraciones entre la fenomenología y la investigación experimental. El análisis se sustenta
en la revisión de estudios clásicos en cinestesia y la percepción, y en la investigación neurocognitiva reciente, destacando las
implicaciones para la comprensión de la intencionalidad. El concepto de cinestesia se refiere a dos aspectos fenomenológicos:
Cómo puedo saber que soy yo, y que yo soy. El sentido de sí mismo y la acción propia pasa por la integración de la conciencia
reflexiva en la acción motora, según lo confirmado por experimentos fenomenológicos y neurocognitivos utilizando contex-
tos de ambigüedad propioceptiva. Estos estudios están abriendo nuevas posibilidades para la rehabilitación de los trastornos
propioceptivos – como en el caso de los amputados, comorbilidades de imagen de sí mismo y la esquizofrenia – y también a la
colaboración fructífera entre la fenomenología y las neurociencias cognitivas.
Palabras-clabe: Cinestesia; Auto-consciencia. Intencionalidad; Fenomenología; Neurocognición.
1 Palestra proferida pelo primeiro autor no II Congresso Sul-Brasileiro de Fenomenologia & II Congresso de Estudos Fenomenológicos do Paraná,
realizado na UFPR, em Curitiba, de 03 a 04 de junho de 2011.
A r t i g o
123
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 123-130, jul-dez, 2011

Thiago G. Castro & Wil iam B. Gomes
introdução
(1972) relata, contudo, que Husserl não aprovava o uso
da fenomenologia conforme Müller e o departamento de
O presente artigo discute a articulação entre os con-
psicologia de Göttingen. De seu lado, Müller considerava
ceitos de cinestesia e espacialidade no texto husserliano
a resistência de Husserl em relação às inovações empíri-
intitulado Dingvorlesung (Thing and Space – Lectures of
cas como um isolamento não produtivo e que sua forma
1907) e a relação com estudos de psicologia experimen-
de filosofar era um preciosismo verbal.
tal, de diferentes períodos históricos, que investigaram
Mesmo assim, ao contrário do laboratório de Leipzig,
os mesmo processos. O texto está organizado em quatro
em Göttingen a nova teoria fenomenológica na experimen-
partes. Primeiro, apresenta breve descrição do contexto
tação procurava distanciar as teses elementaristas e fisi-
histórico e das características do texto de Husserl de 1907.
calistas sobre o funcionamento da consciência. Wundt e
Segundo, discute as definições de cinestesia e espaciali-
os psicólogos de Leipzig são inclusive criticados em Thing
dade em Husserl, destacando a importância dada à me-
and Space por Husserl no tocante à questão da distinção
diação autoconsciente. Terceiro, contrasta a definição de
entre percepção e apercepção. Como se sabe, o termo per-
percepção espacial de três pesquisadores experimentais –
cepção refere-se ao processo de conhecimento de obje-
David Katz, James J. Gibson e Alva Nöe – com a definição
tos e eventos por meios sensoriais. Em contraste, o termo
husserliana. Por fim, traz resultados de pesquisas recen-
apercepção, de Leibniz a Wundt, foi entendido como o
tes com correlatos neurais em tarefas experimentais na
processo no qual o conteúdo era focalizado mais clara-
percepção de movimento e propriocepção espacial para
mente para a compreensão, posterior à percepção (Klein,
rediscutir a versão husserliana de cinestesia.
1970). A insistência de Husserl (1907/1997), no entanto,
é enfatizar a percepção como processo ativo vinculado
à intencionalidade. O entendimento da época para aper-
1. Cinestesia e Contexto Histórico de Husserl em cepção sugeria certa passividade e independência entre
1907
percepção e intencionalidade. Segundo o filósofo, tal en-
tendimento passivo da apercepção teria sido suplantado
O tema da Cinestesia em Husserl aparece com maior
pelo conceito de apreensão de Carl Stumpf (1848-1936).
detalhamento em uma série de conferências proferidas
De acordo com Husserl, Stumpf entende que a ideia de
em 1907, quando Husserl lecionava na Universidade
apercepção seria insuficiente dentro de uma compreensão
de Göttingen na Alemanha. O texto de 1907 refere-se à
intencional da percepção, sendo mais adequado falar de
transcrição de um curso oferecido naquela Universidade,
um modo particular do organismo no acesso a evidência
sendo que apenas parte dessas conferências foi traduzida
como apreensão ativa das coisas. Similar a essa propo-
para o português, com o título A Idéia da Fenomenologia
sição ativa de Stumpf é o conceito de intencionalidade
(1907/2000). Nesse breve texto são apresentadas cinco
operante de Husserl (Husserl, 1913/2006).
conferências introdutórias do curso de Husserl, mas
Em 1907, Carl Stumpf coordenava o laboratório de psi-
são relativamente independentes do seguimento das
cologia da Universidade de Berlim, onde orientava as te-
palestras descritas em Thing and Space. Na Idéia da
ses de doutorado de dois dos fundadores da Psicologia da
Fenomenologia Husserl enfocará a descrição do método
Gestalt: Kurt Koffka (1886-1941) e Wolfgang Köhler (1887-
das reduções fenomenológicas. Já em Thing and Space o
1967). No entanto, o interesse de Stumpf pela fenomeno-
escopo das análises tratará basicamente da construção
logia começava a declinar em 1907, uma vez que Husserl
da espacialidade, com ênfase na cinestesia. Vale lembrar
buscava, há algum tempo, afirmar a fenomenologia como
que em 1905 Husserl já havia se detido à discussão da
ciência primeira e com um método filosófico próprio para
consciência interna do tempo, e agora espaço e tempo se
tal empreitada. Assim como G.E.Müller, Stumpf não via
fundirão para uma compreensão ampliada da experiên-
com bons olhos o excessivo afastamento de Husserl da
cia intencional.
investigação empírica, exatamente por este defender uma
Sabe-se que entre a audiência do curso de 1907 estava
via puramente teórica à intencionalidade.
Georg Elias Müller (1850-1934), chefe da cadeira de psico-
Também entre os ouvintes das conferências de 1907,
logia experimental da Universidade de Göttingen (Ash,
estava o orientando de Husserl em Göttingen, Wilhelm
1995). Nesse momento, Müller já havia estabelecido um
Schapp (1884-1965), que realizou uma análise intencio-
programa de psicologia experimental que buscava fun-
nal filosófica da percepção de cores. Na mesma época,
damentação na fenomenologia, dedicando-se principal-
o psicólogo Oswald Külpe (1862-1915), aluno de Wündt,
mente à investigação empírica da memória. O sentido fe-
buscava desenvolver um programa de psicologia experi-
nomenológico adotado por G.E.Müller foi o da fenomeno-
mental na Universidade de Würzburg, baseado em uma
logia como psicologia descritiva, associado à transposição
fenomenologia descritiva e entendida como ciência de
metodológica da fenomenologia de Husserl. Spiegelberg
realidades (Spiegelberg, 1972). Külpe foi o orientador da
tese de Max Wertheimer (1880-1943), outro cofundador
2 Palestra proferida pelo primeiro autor no II Congresso Sul-Brasileiro de
da Psicologia da Gestalt, também na década de 1900.
Fenomenologia & II Congresso de Estudos Fenomenológicos do Paraná,
A r t i g o
Acompanhando Müller e Stumpf, Külpe mantinha res-
realizado na UFPR, em Curitiba, de 03 a 04 de junho de 2011.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 123-130, jul-dez, 2011
124

“Como Sei que Eu Sou Eu?” Cinestesia e Espacialidade nas Conferências Husserlianas de 1907 e em Pesquisas Neurocognitivas
trições à direção da filosofia fenomenológica delineada
vimento. Ambos, sensos interno e externo, indicam uma
por Husserl, considerando-a importante, mas metodolo-
integração primária com o sistema sensorial vestibular,
gicamente imperfeita no tratamento da realidade. Schapp
localizado no ouvido interno.
e Külpe são dois exemplos de autores influenciados por
Para Husserl (1907/1997), a cinestesia designa a expe-
Husserl nesse período, mas que seguiram por caminhos
riência vivida da postura corporal, isto é, a orientação dos
distintos no estudo da percepção, o primeiro para a aná-
órgãos motores da percepção em movimento, incluindo
lise eidética e o segundo para a análise descritiva, em-
os atos usados para simular esses movimentos na cons-
pírica e rigorosa.
ciência. A sensação de movimento é o fenômeno puro na
Ainda que notórias as diferenças de propósito entre
constituição da espacialidade. A constituição dos mem-
Husserl e os psicólogos alemães da década de 1900, per-
bros como conteúdos físicos aparentes no campo visual
cebe-se entre os autores uma forte tendência de combate
precede a noção de unidade do corpo (Husserl, 19313, ci-
às teses psicofísicas vigentes nesse momento. Enquanto
tado por Petit, 2010). As dinâmicas cinestésicas remetem
Husserl fazia esforços para suplantar a epistemologia das
aos impulsos instintuais nos bebês, nos fenômenos da
investigações baseadas no sensorialismo, alguns psicólo-
orientação da visão e na projeção das mãos em direção a
gos enfrentavam o desafio de criar condições experimen-
um objeto de interesse (Husserl, 1907/1997).
tais e leis de interpretação diferenciadas, na direção de
O ato em movimento está alocado na teoria da cons-
uma lógica descritiva fenomenológica. Nesse momento,
tituição de Husserl. Por constituição fenomenológica en-
o destaque que Husserl confere à cinestesia para a per-
tende-se o ato pelo qual um objeto surge ou configura-
cepção mantém conexão com as modalidades inovadoras
se na consciência, cuja característica mais fundamen-
de pesquisa de percepção espacial que os discípulos de
tal na cinestesia é a autoconsciência do sujeito na ação
Müller, Külpe e Stumpf irão desenvolver nas décadas se-
(“eu estou fazendo”). O ato tem o significado de uma
guintes. Vejamos como Husserl define cinestesia.
autoconsciência ativa por todo o período em que persis-
te sua execução (Husserl, 1907/1997). Portanto, trata-se
para Husserl de uma vigília concomitante da constitui-
2. “Como sei que eu sou eu?” – Cinestesia e espa-
ção do ato e da consciência de estar desempenhando
cialidade em Husserl
este ato. Daí deriva a indagação que dá o título a essa
exposição: Como sei que eu sou eu? Nas conferências de
Em um sentido genérico, o termo Cinestesia é com-
1907, a cinestesia está associada à necessidade de uma
posto por dois radicais, “Cine” que significa movimento
concomitância autoconsciente no desempenho da ação,
e “Estesia” que indica sensação ou percepção. Cinestesia,
especialmente em vista do método descritivo de análi-
portanto, seria uma sensação ou percepção de movimen-
se da intencionalidade, que repousa sobre o aspecto da
to. Cinestesia é diferente de Sinestesia, que significa a
experiência consciente.
relação de planos sensoriais distintos como, por exem-
Posteriormente, no texto Psicologia Fenomenológica,
plo, olfato e visão. O termo “sinestesia” é empregado na
Husserl (1925/1977) relata que o estudo da intencionali-
neurologia como uma união sensória involuntária em dade e seus modos de acesso à evidência não se faz com-
que a informação real de um sentido é acompanhada
pleto sem o correspondente intencional do corpo em sua
por uma percepção em outro sentido não estimulado
função perceptiva. Segundo o autor, o corpo é, ao mesmo
(Hubbard & Ramachandran, 2005). Por exemplo, o indi-
tempo, coisa (eidos) e função intencional (gênese). Uma
víduo é estimulado por uma cor azul, como o céu azul,
análise do sistema cinestésico seria uma nova forma de
e sente ao mesmo tempo o cheiro de um morango, que
análise da intencionalidade (Husserl, 1925/1977). Tanto
não está presente no contexto de estimulação. Há também
no sentido eidético (estático), como em um sentido gené-
uma tendência em se considerar cinestesia como sinôni-
tico (processual), conforme indicado a seguir.
mo de propriocepção. Contudo, embora semelhantes, os
Schmicking (2010) reforça a idéia de Husserl ao situar
dois termos guardam diferenças sutis. A propriocepção
a cinestesia como um dos aportes nas análises estática e
englobaria um sentido mais conceitual e integrativo da
genética da intencionalidade para a constituição dos ob-
percepção, associado ao senso de equilíbrio corporal, mas
jetos ou experiências. Junto com a incorporação, a cines-
não necessariamente à ênfase no senso de movimento
tesia seria a referência para entender o acesso tipificado
como na cinestesia.
ou padronizado a novas experiências, como um modo
A cinestesia está associada a um senso espacial cor-
intencional (Análise Estática). A cinestesia seria também
poral interno e externo, sendo a dimensão externa as-
uma via alternativa para compreender a auto-organiza-
sociada ao conceito denominado peri-espaço, que seria
ção perceptiva no acesso a novas experiências ao longo
o espaço não corporal logo em torno do corpo e que faz
de um fluxo temporal de vividos (Análise Genética). Em
parte de um sistema de esquema corporal ligado à sensa-
ambos os casos, ocorrem análises de estabilidade e de
ção de movimentos (Cardinali, Brozzoli & Farnè, 2009).
variações: na fenomenologia estática, procede-se uma
O senso interno estaria associado à interação entre ca-
nais sensoriais básicos no corpo para a sensação de mo-
3 O Problema do Ato (1931) – Edmund Husserl
A r t i g o
125
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 123-130, jul-dez, 2011

Thiago G. Castro & Wil iam B. Gomes
análise de essências pelo traço perceptivo em um even-
3. percepção espacial e decorrências fenomenológi-
to experiencial; na fenomenologia genética, procede-se
cas
uma análise de transições e constâncias da percepção
em um fluxo temporal de vividos. Schmicking (2010)
As ideias trabalhadas por Husserl em 1907 conver-
não menciona a análise generativa, que seria o modo de
giram, direta ou indiretamente, no desenvolvimento de
análise intencional sobre as conexões ecológicas dos atos.
teorias psicológicas sobre a percepção espacial. Três im-
Ainda em 1907 nota-se também a ausência desta análise
portantes representantes desta convergência temática
no texto de Husserl.
são David Katz (1884-1953), James J. Gibson (1904-1979),
Em Husserl (1907/1997), a constituição recíproca do
e o filósofo contemporâneo Alva Noë, um professor da
movimento de diferentes órgãos em um campo sensorial
Universidade da Califórnia, Berkeley, interessado em
define a noção de espaço próprio e, por conseguinte, de
percepção e consciência. A seguir, destaca-se como a te-
um mesmo corpo (unidade egóica). Pergunta-se então: O
oria fenomenológica da percepção espacial se relaciona
que seria primordial na reunião desses diferentes mo-
ao trabalho destes três pesquisadores, representando o
vimentos? Aparentemente, a visão desponta como o re-
desenvolvimento durante o século XX.
curso integrador do eu. Nesse texto, o sistema háptico, a
A repercussão mais direta pode ser observada nos es-
participação músculo-esquelético em toques e contatos
tudos do psicólogo experimental alemão que foi orientado
táteis é reconhecido como fundamental na integração,
por Georg Elias Müller no período das conferências de
possivelmente como recurso concomitante à visão. Isto
Husserl em Göttingen. Em 1911, David Katz escreve seu
porque exerceria uma função diferente da visão, sendo a
principal trabalho sobre a percepção das cores a partir
visão o pólo primário de identificação do movimento e o
de estudos experimentais, dando destaque à função da
sistema háptico como pólo de sensação de continuidade
intencionalidade na constituição da espacialidade, em
temporal do movimento. O sistema táctil, decorrente do
oposição às teses da sensação na tradição de Hermann
sistema háptico, aparece como recurso na extensão da
von Helmholtz (1821-1894). O livro foi traduzido para o
unidade do ego para os movimentos externos à sensação inglês em 1935, com reimpressões em 1970, 1999, 2000,
de movimento corporal. Nesse ponto, o tema da cineste-
2001, 2002 o que aponta para a importância da obra. Na
sia integra-se ao da experiência do mundo para a consti-
apresentação de sua teoria da percepção das cores, Katz
tuição de um esquema de ego estendido.
(1911/1935) mencionou Ewald Hering (1834-1918) como
Os objetos intencionados que compõem a corporeida-
principal influência, informando que as ideias de Husserl
de estendida obviamente não possuem caracteres cinesté-
sobre esse tema não eram tão inéditas ao tempo das con-
sicos. Contudo, os objetos que estão no mundo participam
ferências de Göttingen. Para Katz (1943/1945), o padrão
do sistema auto-referente do corpo, este sim cinestésico
de percepção das cores poderia servir de exemplo para a
(Husserl, 1931 citado por Petit, 2010). Isto significa que
percepção do espaço como um todo. Para tanto, seria ne-
a sensação de movimento e a construção da espacialida-
cessário levar em conta que a percepção de uma cor não
de corpórea não englobariam a carne do mundo, como
se limita à correlação estímulo-percepção, segundo as
em Merleau-Ponty, mas os objetos do mundo são funda-
variações unidimensionais de intensidade. Requer ainda
mentais para a dimensão auto-referente e autoconsciente
a investigação de covariantes de iluminação nos objetos
do corpo em relação à percepção do mundo. Os objetos
que circundam o espaço da percepção. Ou seja, a percep-
são parte do sistema cinestésico como utensílios ou pólo
ção de espaço é o produto da posição espacial do sujeito
negativo, mas não como extensão carnal do movimento.
em relação ao contexto percebido, bem como as relações
Husserl discute em 1931 a relação do corpo com ferra-
de iluminação e sombra entre os objetos que compõem o
mentas que ampliam o sistema intencional de constitui-
cenário da percepção total. Posteriormente, algumas das
ção auto-referente da espacialidade. O uso de ferramen-
teses de Katz foram trabalhadas por Köhler na questão
tas, como descrito em 1931, poderia ser uma saída em
dos padrões da continuidade perceptiva da visão (Ash,
direção à via generativa, ecológica, não enfatizada nas
1995). Katz reconheceu a grande influência de Husserl
conferências de 1907.
para suas pesquisas experimentais, em particular, a ati-
Observamos a importância dada por Husserl à dimen-
tude fenomenológica nas seguintes palavras:
são autoconsciente na sensação de movimentos. O filó-
sofo buscava com isso enfatizar o elemento operante da
Para mim, a fenomenologia como advogada naquele
intencionalidade na construção de referentes espaciais
tempo (i.e. durante os anos de estudante de Katz em
no fluxo de vividos. Esse controle consciente da experi-
Göttingen) por Edmund Husserl, parece ser a mais
ência do espaço não só serviria a um domínio da espacia-
importante conexão entre filosofia e psicologia. Ne-
lidade, como também uma via para a análise de padrões
nhum dos meus professores acadêmicos, com exceção
intencionais na percepção do meio e na propriocepção.
de G. E. Müller, influenciou-me tão profundamente no
Com isso, Husserl define uma posição contrária à tese de
procedimento e na atitude sobre as questões psicológi-
que a percepção seria uma reação sensorial aos estímu-
cas quanto Husserl com seu método fenomenológico.
A r t i g o
los recebidos do meio.
(Katz, 1952 citado por Spiegelberg, 1972, p. 44).
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 123-130, jul-dez, 2011
126

“Como Sei que Eu Sou Eu?” Cinestesia e Espacialidade nas Conferências Husserlianas de 1907 e em Pesquisas Neurocognitivas
A constituição da percepção visual reaparece for-
As pesquisas sobre percepção visual desenvolvidas
temente nos meados do século XX com a profícua pro-
por Katz (1911/1935), Gibson (1979) e Noë (2004) abor-
dução do pesquisador norte-americano James J. Gibson
dam, em certa medida, a relação entre intencionalidade
(1904-1979). Em especial seu livro de 1979, intitulado
e concomitância autoconsciente na ação, considerando
The ecological approach to visual perception, que aborda
as interferências da mediação pré-consciente e intenção
a construção da percepção e propriocepção a partir do
motora dos atos. Nesse sentido, qual seria a relação entre
uso ativo que o organismo faz dos recursos disponíveis
motricidade, consciência dos atos e intencionalidade? Tal
em seu meio. A relação de Gibson com a fenomenologia questão é pertinente diante do entendimento de que as
é indireta, sendo apenas possível realizar indicações de
atualizações entre o encontro da intencionalidade com
convergência conceitual e temática entre as ideias sobre
as contingências ambientais provocam um momento de
percepção de movimento e propriocepção.
retomada unitária da experiência do corpo.
Para Gibson (1979), a conexão ecológica é princípio e
A discussão emergente desses novos desenvolvimen-
não fim para entender a emergência da percepção. Seu
tos da fenomenologia está nas questões decorrentes de
conceito mais conhecido é affordance, que tange espe-
como compreender e explicar as atualizações constantes
cificamente sobre este uso intencional dos recursos am-
e operantes da percepção espacial e da propriocepção. O
bientais para situar a percepção visual em uma articu-
ponto chave nessa discussão procede das ciências cog-
lação ativa com o meio. Segundo Gibson (2002), a per-
nitivas de abordagem enativa (Thompson, 2007), sob o
cepção visual deve ser estudada e entendida como um argumento de que tais atualizações do comportamento
processo direto no ambiente, sem recorrer às teses de
e da percepção não dependem exclusivamente de pistas
processamento indireto ou representação da visão total
ambientais, mas especialmente da intencionalidade pré-
como imagem no córtex occipital. Acerca dessa defesa,
via em relação ao ambiente. Para essa ciência cognitiva
Gibson afirma que o sistema visual estrito faz uma se-
influenciada pela fenomenologia, existiria um modo in-
leção de estímulos no meio antes de qualquer mediação
tencional operante que caracteriza os modos de acesso
de filtro sensorial secundário no cérebro. Isto significa
perceptivo às coisas e que não exclui os elementos con-
afirmar que os olhos têm capacidade suficiente de sele-
tingenciais reais do ambiente (Smith, 1999). Nesse senti-
ção de estímulos, levados por uma intenção prévia, sem
do, reafirma-se, mais uma vez, não se tratar nem de um
que seja necessária uma captação da imagem total para
idealismo puro e nem de um realismo puro. Haveria,
posterior reorganização topográfica dos estímulos em
portanto, modos intencionais tipificados que acessam o
um córtex específico.
meio de forma ativa ou operante, mas que se atualizam
Mais recentemente encontra-se em Nöe (2004) um
permanentemente conforme as pistas ambientais para se
retorno às teses de Katz e Gibson para examinar, por
reorganizar. Nesse momento de reorganização, a retoma-
meio de estudos experimentais, a relação entre inten-
da autoconsciente da experiência seria fundamental para
cionalidade pré-consciente e reorganização intencional,
a preparação intencional a experiências futuras.
conforme a discriminação de pistas ambientais durante
o desempenho da ação. Para Nöe, a ação no meio cons-
titui a percepção, sendo que as subsequentes atualiza-
4. “Quem sou eu?” – transições da fenomenologia
ções interferem continuadamente nas intenções da ação.
para experimentação
Observa-se novamente, nesse exemplo, que o conceito de
intencionalidade é ressignificado à luz das ações efeti-
Em uma tentativa de reunir a fenomenologia constitu-
vas do organismo no ambiente, até como uma intencio-
tiva husserliana e a neurocognição, os atos pré-conscien-
nalidade operante. Contudo, a mediação autoconsciente tes vêm sendo estudados em experimentos que incluem
não é ponto chave aqui para a constituição intencional,
a descrição experiencial consciente após o desempenho
como desponta no texto de 1907 de Husserl. Nöe recor-
de determinadas tarefas (Lutz & Thompson, 2003). Os ex-
reu a vários estudos de Gibson para afirmar a tese de que
perimentos consistem na proposição de uma tarefa expe-
a percepção recairia, em ultima instância, sobre a ação
riencial e motora, passível de ser descrita, com objetivo
corporal no ambiente. Nesse sentido, não seria nem uma
de verificar a associação entre a descrição perceptiva e o
criação autoconsciente nem uma dependência pura de
desempenho corporal (motor). Pesquisas em neurociência
contingências ambientais. Trata-se de uma combinação
(Iriki, Tanaka & Iwamura, 1996) desde meados da déca-
entre realismo e idealismo. Aliás, a tese sobre a ação no
da de 1990, têm demonstrado que o uso de ferramentas
meio não descarta o modelo funcional de seleção por
como prolongamento do corpo intencional coincide com
consequências, mas retoma a importância enativa do
os achados sobre a ativação de neurônios viso-táteis na
organismo nas trocas com este meio e o papel da auto-
utilização de instrumentos por macacos.
consciência nessa mediação. Por enativa entende-se a
Em relação aos achados neurocientíficos sobre a fun-
ação guiada pela percepção na vivência sensório-motora
ção integrada de visão e tato em um mesmo neurônio,
contextualizada do sujeito da ação (Varela, Thompson
cabe uma ressalva ao texto husserliano. Para Husserl
& Rosch, 1991).
(1907/1997), os sistemas sensórios eram correlacionados
A r t i g o
127
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 123-130, jul-dez, 2011

Thiago G. Castro & Wil iam B. Gomes
e complementares, uma idéia desafiadora para os siste-
traços psicológicos e as variações na sensação de movi-
mas teóricos atomistas de seu tempo. Contudo, Husserl
mento (cinestesia). Mais especificamente, a relação entre
não entra no mérito da questão neurológica, pois não quer
ação, autoconsciência e intencionalidade motora. Nessas
recair nas propostas biológicas da consciência ou da cau-
pesquisas criam-se ambientes de ação em que se geram
salidade psíquica. Ele enfatiza a necessidade de se man-
ambiguidades perceptivas para o acompanhamento dos
ter no âmbito puro descritivo da experiência de sensação
processos decisórios motores e autoconscientes associa-
de movimentos. Atualmente, o que se constata é que não
dos à tomada de posição diante das ambiguidades. Tais
apenas os sistemas cerebrais estão correlacionados, como
ambiguidades baseiam-se, em grande parte, na perturba-
também residem, em uma unidade cerebral, diferentes
ção da integração de canais sensoriais.
funções concomitantes, como atividade motora, cogniti-
Um exemplo de estudo é o experimento conhecido
va e respostas sensórias efetoras.
como Rubber Hand Illusion (RHI), que busca avaliar a in-
Ainda em Husserl, a doação de significado para a ex-
tegração intermodal proprioceptiva na auto-atribuição de
periência do corpo aparece implicada a uma concepção
membros fantasmas (Botvinick & Cohen, 1998). Os pes-
de plasticidade dos movimentos, que requerem constantes
quisadores criam uma situação de ilusão perceptiva em
atualizações, e ao uso de ferramentas para o acesso inten-
que se produz uma distorção da posição manual pela esti-
cional do mundo. A formação da espacialidade passa em
mulação sincrônica de uma mão verdadeira e uma mão de
1907 pela articulação autorreferente dos atos corporais
borracha. A partir de uma variação de condições experi-
em uma experiência consciente estendida no tempo. É
mentais Ehrsson, Spence, e Passinham (2004) evidencia-
impossível neste ponto não associar a posição de Husserl
ram que a ocorrência da ilusão na tarefa RHI depende de
com o verbete de percepção espacial na Enciclopédia de
uma estimulação sincrônica da mão verdadeira e da mão
Ciências Cognitivas do MIT (Colby, 1999, p. 786): “Nossa
falsa. Em média, 80% dos participantes relatam a ilusão
experiência unitária do espaço emerge de uma diversida-
esperada pela indução da RHI, dentro de um intervalo de
de de representações espaciais estendidas no tempo”. A
15 segundos de estimulação sincrônica na mão verdadeira
semelhança entre a fenomenologia do espaço e a recente
e na mão de borracha (Ehrsson, Holmes & Passingham,
ciência cognitiva é realmente inegável.
2005). Embora a sincronicidade viso-tátil da estimula-
O tema da vigília autoconsciente na sensação de movi-
ção seja um fator importante na produção da ilusão, não
mentos do próprio corpo ganha contornos mais complexos
é suficiente para explicar a recalibração proprioceptiva.
quando se contrastam as definições de Husserl com a de-
Tsakiris e Haggard (2005) demonstraram que o efeito da
finição contemporânea de cinestesia. Henrik H. Ehrsson,
ilusão diminui ou se extingue mesmo com estimulação
um aclamado neurocientista cognitivo de Estocolmo, esco-
em sincronia, quando a postura ou a lateralidade da mão
lheu, para sua conferência proferida no Congresso Toward
de borracha são incongruentes com a posição da mão
a Science of Consciousness realizado em Tucson/AZ nos
verdadeira. Essa evidência indica que representações e
EUA, o título: “Two legs, two arms, one head: Who am I?”
expectativas prévias sobre o corpo exercem também um
(Ehrsson, 2010). O confronto entre as duas pernas, os dois
importante papel na propriocepção.
braços e uma cabeça remete exatamente ao problema da
Sobre a integração dos canais sensoriais na percepção,
presença da autoconsciência no desempenho e na percep-
Ehrsson, Holmes e Passingham (2005) demonstraram que
ção de atos motores. Ehrsson investiga as relações entre
o aumento sensível da atividade nos córtices pré-motor,
percepção e comportamento com base em pesquisas com
ventral intra-parietal bilateral e cerebelo correspondem ao
ilusão corpórea. Seus estudos articulam dados de correlato
aumento gradual da intensidade da ambiguidade ou ilusão
neural e descrição de experiência dos participantes em um
perceptiva gerada nos contextos de tarefa. Isso comprova
contexto de tarefa experimental. O pesquisador defende
que diferentes regiões do cérebro estão altamente integra-
a tese de integração dos sistemas sensoriais e, por conse-
das na percepção e que não haveria uma prevalência de
guinte, integração de áreas cerebrais na constituição da
um canal sensório sobre o outro na integração perceptiva.
percepção do espaço. Os trabalhos de Ehrsson levantam,
Ou seja, já partindo das constatações de que a percepção
em alguma medida, a indagação sobre a importância da
está integrada, tanto na cinestesia quanto na propriocepção
mediação da consciência reflexiva no desempenho motor
conceitual e unitária do corpo, busca-se avaliar a reação do
e perceptivo em situações de ambiguidade propriocepti-
corpo diante da dissociação da integração perceptiva.
va. Isto é, qual o nível de influência da autorreflexividade
As perguntas lançadas remetem aos comportamentos
implícita necessária para o desempenho de ações. Nessa
observados no laboratório. Isto é, diante de ambiguidades
direção, discute o tema da intencionalidade do organis-
perceptivas prevalece o padrão intencional motor previa-
mo em seus experimentos. A incerteza e principalmente
mente aferido, independente da distorção? Ou prevalece
instabilidade sobre a experiência integrada e unitária do
o ajuste da ação de acordo com a mediação autoconscien-
corpo, como revelados por seus achados experimentais,
te da dissociação perceptiva durante o ato? Tais achados
levam Ehrsson a perguntar: Quem sou eu?
sobre plasticidade da atualização proprioceptiva podem
O pesquisador sueco representa uma linha de pes-
auxiliar no tratamento ou reabilitação individualizada de
A r t i g o
quisa que tem procurado compreender a conexão entre
sujeitos, que por alguma razão possuam prejuízo na in-
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 123-130, jul-dez, 2011
128

“Como Sei que Eu Sou Eu?” Cinestesia e Espacialidade nas Conferências Husserlianas de 1907 e em Pesquisas Neurocognitivas
tegração proprioceptiva do corpo (ex. amputados, comor-
O tipo de confronto entre apologistas e detratores da
bidades de auto-imagem em transtornos alimentares, ou
ciência natural parece ser reeditado de tempos em tem-
mesmo esquizofrenia). Essas perguntas estão sendo inves-
pos, especialmente sob o argumento da distinção en-
tigadas no Laboratório de Fenomenologia Experimental
tre ciências humanas e ciências naturais. Tal discussão
e Cognição da UFRGS, através de dois paradigmas expe-
não escapa à literatura fenomenológica. Contudo, com os
rimentais de ilusão perceptiva em tarefas experimentais
avanços tecnológicos e a incorporação da descrição de ex-
com seres humanos.
periência como heurística em protocolos experimentais,
tal distinção parece perder espaço para o debate mais
profícuo em torno dos acréscimos que uma teoria pode
Considerações finais
sugerir a outra. Este novo horizonte também se situa na
revisão da definição clássica de naturalismo, que vem
De modo direto ou indireto, a problemática da con-
sendo ressignificada pelas mudanças recentes na inves-
comitância autoconsciente na percepção de movimentos
tigação científica (Zahavi, 2009).
sustenta o mesmo interesse teórico levantado por Husserl
há mais de um século atrás. A pergunta continua sendo
a mesma: como se constitui e se desenvolve a percepção?
Referências
Embora os caminhos de investigação tenham seguido por
rumos diferentes, as nuanças da percepção continuam a
Ash, M. G. (1998). Gestalt Psychology in German Culture,
despertar interesse, como bem atestam os estudos recen-
1890-1967: Holism and the quest for objectivity. New York:
tes do pesquisador H.H. Ehrsson. As divergências entre
Cambridge University Press.
Husserl e os psicólogos experimentais da época, repre-
Botvinick, M., & Cohen, J. (1998). Rubber hands ‘feel’ touch that
sentados por Müller, foram captadas com elegância pelo
eyes see. Nature, 391, 756.
psicometrista C. E. Spearman, em sua autobiografia, refe-
rindo-se à visita que fez à Universidade de Göttingen em
Cardinali, L., Brozzoli, C., & Farnè, A. (2009). Peripersonal
1906. Spearman discorreu sobre Husserl, após descrever
space and body schema: two labels for the same concept?
Brain Topography, 21, 252-260.
suas impressões das aulas de Müller:
Colby, C. L. (1999). Spatial Perception. Em R. A. Wilson & F. C.
Na mesma universidade, a de Göttingen, eu tive a
Keil (Eds.), The MIT Encyclopedia of the Cognitive Sciences
vantagem adicional de assistir as palestras de Husserl,
(pp. 784-787). Cambridge, MA: The MIT Press.
em seu modo, um grande homem como G.E. Müller.
Ehrsson, H. H. (2010). Two legs, two arms, one head. Who am
Mas rumos seguidos por eles os levaram a mundos à
I? [Resumo]. Em Toward a Science of Consciousness (Org.),
parte. Na verdade, a única coisa que parecia comum
Program and Book of Abstracts, Tucson IX Toward a Science
aos dois era a inabilidade de um apreciar o outro! Para
of Consciousness (p. 115). Tucson, AZ: TSC.
Müller, as análises refinadas de Husserl pareciam ser
Ehrsson, H. H., Spence, C., & Passingham, R. E. (2004). That’s
um renascimento da idade média (como, de fato, elas
my hand! Activity in premotor cortex reflects feeling of
amplamente foram, mas não necessariamente como
ownership of a limb. Science, 305, 875– 877.
uma desvantagem). Para Husserl, as tentativas de Mül-
ler em lidar com os problemas psicológicos por meio
Ehrsson, H. H., Holmes, N. P., & Passingham, R. E. (2005).
de experimentação era como tentar desvendar rendas
Touching a rubber hand: Feeling of body ownership is as-
com um tridente. Ainda assim, o procedimento de Hus-
sociated with activity in multisensory brain areas. Journal
of Neuroscience
, 25, 10564–10573.
serl – como ele o descreveu para mim – apenas diferia
daquele usado pelo melhor experimentalista, lidando
Gibson, J. J. (2002). A theory of direct visual perception. Em A.
com problemas similares, em que pesa Husserl não ter
Nöe, & E. Thompson (Eds.), Vision and Mind: selected rea-
ninguém além dele mesmo como sujeito experimental
dings in the philosophy of perception [pp. 77-90]. Cambridge,
(Spearman, 1930 citado por Spiegelberg, 1972, p. 35).
MA: The MIT Press.
Gibson, J. J. (1979). The ecological approach to visual percep-
Mesmo trabalhando com problemas similares, como
tion. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates – LEA
atesta Spearman na citação, Husserl mantinha uma forte
– Publishers.
preocupação em definir um programa filosófico sólido o
suficiente para se afastar das proposições empíricas em-
Hubbard, E. M., & Ramachandran, V. S. (2005). Neurocognitive
mechanisms of synesthesia. Neuron, 48(3), 509–520.
basadas em um tipo de racionalismo que ele discordava.
O projeto que Husserl seguiu foi o de uma filosofia pri-
Husserl, E. (1977). Phenomenological Psychology: Lectures, sum-
meira como refundação para as ciências naturais. Nesse
mer semester 1925. The Hague: Martinus Nijhoff.
sentido, seu desentendimento praticamente generalizado
Husserl, E. (1997). Thing and Space: Lectures of 1907.
com a psicologia empírica da época pode ser compreen-
Netherlands: Kluwer Academic Publisher.
dido a partir do panorama dessa refundação.
A r t i g o
129
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 123-130, jul-dez, 2011

Thiago G. Castro & Wil iam B. Gomes
Husserl, E. (2000). A idéia da fenomenologia. Lisboa: Edições
Spiegelberg, H. (1972). Phenomenology in Psychology and
70. (Original publicado em 1907).
Psychiatry: a historical introduction. Evanston: Northwestern
University Press.
Husserl, E. (2006). Idéias para uma fenomenologia pura e para
uma filosofia fenomenológica. São Paulo: Idéias & Letras
Thompson, E. (2007). Mind in life: Biology, phenomenolo-
(Original publicado em 1913).
gy and the sciences of mind. Cambridge, MA: Harvard
University Press.
Iriki, A.; Tanaka, M. & Iwamura, Y. (1996). Coding of modified
body schema during tool use by macaque postcentral neu-
Tsakiris, M., & Haggard, P. (2005). The rubber hand illusion
rones. NeuroReport, 7, 2325–2330.
revisited: visuotactile integration and self-attribution.
Journal of Experimental Psychology: Human Perception and
Katz, D. (1935). The world of colour (R. B. Macleod & C. W. Fox,
Performance, 39(1), 80-91.
Trad). London: Kegan Paul Trench, & Truebner (Original
publicado em alemão, 1911).
Varela, F.J., Thompson, E., & Rosch, E. (1991). The Embodied
Mind: cognitive science and human experience. Cambridge,
Katz, D. (1945). Psicología de la forma (J.M. Sacristán, Trad.).
MA: MIT Press.
Madrid: Espasa-Calpe, S.A. (Original publicado em 1943).
Zahavi, D. (2009). Naturalized Phenomenology. In S. Gallagher
Klein, D. B. (1970). A history of scientific psychology. New York:
and D. Schmicking (eds.), Handbook of Phenomenology and
Basic Books
Cognitive Science (pp. 1-12). Netherlands: Springer.
Lutz, A., & Thompson, E. (2003). Neurophenomenology:
Integrating subjective experience and brain dynamics in
the neuroscience of consciousness. Journal of Consciousness
Thiago Gomes de Castro - Mestre em Psicologia (UFRGS) e
Studies, 10 (9-10), 31-52.
Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS.
Pesquisador do Laboratório de Fenomenologia Experimental e
Noë, A. (2004). Action in Perception. Boston, MA: The MIT Press.
Cognição - LaFEC. Endereço Institucional: IP/UFRGS, Rua Ramiro
Petit, J-L. (2010). A husserliana, neurophenomenologic approach
Barcelos, 2600 - Sala 123. CEP 90035.003. Porto Alegre/RS. E-mail:
thiago.cast@gmail.com
to embodiment. Em S. Gallagher & D. Schmicking (Eds.),

Handbook of Phenomenology and Cognitive Sciences [pp.
William Barbosa Gomes - PhD em Psicologia pela Southern Illinois
201-216]. New York: Springer.
University e com estágios de pós-doutoramento na Southern Illinois
University e na Universidade de Michigan, fundador e professor do
Schmicking, D. (2010). A toolbox of phenomenological metho-
Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS. Coordenador
ds. Em S. Gallagher & D. Schmicking (Eds.), Handbook of
do Laboratório de Fenomenologia Experimental e Cognição - LaFEC.
Phenomenology and Cognitive Sciences [pp. 35-56]. New
Endereço Institucional: IP/UFRGS, Rua Ramiro Barcelos, 2600 - Sala
York: Springer.
123. CEP 90035.003. Porto Alegre/RS. E-mail: gomesw@ufrgs.br
Smith, D. W. (1999). Intentionality naturalized? Em J. Petitot,
F. J. Varela, B. Pachoud, & J-M. Roy (Eds.), Naturalizing
Recebido em 16.06.2011
phenomenology: issues in contemporary phenomenology
and cognitive science
[pp. 83-110]. Stanford, CA: Stanford
Aceito em 23.09.11
University Press.
A r t i g o
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 123-130, jul-dez, 2011
130

A Crítica da Fenomenologia de Husserl à Visão Positivista nas Ciências Humanas
a CRítiCa da fenomenologia de HuSSeRl à
viSão poSitiviSta naS CiênCiaS HumanaS
The Critique of Husserl’s Phenomenology the Positivist View in Humanities
La Crítica de la Fenomenología de Husserl la Visión Positivista en Humanidades
Carlos diógenes CorTes Tourinho
Resumo: O artigo concentra-se em torno da especificidade da atitude fenomenológica, bem como da metodologia adotada pela
fenomenologia de Edmund Husserl no começo do século XX. Tal atitude consiste em uma atitude reflexiva e analítica, a partir
da qual se busca fundamentalmente elucidar, determinar e distinguir o sentido íntimo das coisas. Já o método fenomenológico
é, por sua vez, um método de evidenciação dos fenômenos, cuja estratégia consiste no exercício da suspensão de juízo em rela-
ção à posição de existência das coisas, viabilizando a recuperação destas em sua pura significação. Contrastando a atitude feno-
menológica com o que Husserl chamou de “atitude natural” (atitude na qual se encontra mergulhada a consciência das ciências
positivas), o artigo abordará, em seguida, a crítica da fenomenologia à perspectiva positivista nas Ciências Humanas.
Palavras-chave: Fenomenologia; Ciências humanas; Edmund Husserl; Positivismo.
Abstract: The present paper focuses around the specificity of the phenomenological attitude and the methodological strategy
adopted by the phenomenology of Edmund Husserl in the Twentieth Century. Such attitude is reflective and analitical, from
which one seeks to fundamentally elucidate, identify and distinguish the sense of things. Impelled by the slogan of the “return
to the things itself”, the phenomenology of Husserl adopts, through a methodological point of view, the call “phenomenological
reduction”, that is, the suspension of the judgement in relation to the natural world, to recover it, in the consciousness, in an
indubitable way, in his pure meaning. Contrasting the attitude phenomenological with what Husserl called “natural attitude”,
the paper addressed then the critique of phenomenology to perspective positivist in humanities.
Keywords: Phenomenology; Humanities; Edmund Husserl; Positivism.
Resumen: El presente artículo tiene como objetivo abordar la especificidad de la actitud fenomenológica, así como de la metodo-
logía adoptada por la fenomenología de Edmund Husserl a principios del siglo XX. Esta actitud consiste en una actitud reflexiva
y analítica, de la cual se busca aclarar, identificar y distinguir el significado íntimo de las cosas. El método fenomenológico es
un método de aclaración de los fenómenos, cuya estrategia consiste en el ejercicio de la suspensión del juicio en relación la po-
sición de la existencia de las cosas, lo que permite la recuperación de estos en su significación pura. Por último, se abordará la
crítica de la fenomenología la concepción positivista de las humanidades.
Palabras-clave: Fenomenología; Humanidades; Edmund Husserl; Positivismo.
introdução
Contrastando a atitude fenomenológica com o que
Husserl chamou de “atitude natural” (modo de orientação
O presente artigo concentra-se em torno da tarefa de
no qual se encontra mergulhada a consciência das ciências
aclarar a especificidade da atitude fenomenológica (en-
positivas), o artigo abordará, em seguida, a crítica da feno-
quanto modo de consideração do mundo), bem como da
menologia à perspectiva positivista nas Ciências Humanas.
metodologia adotada pela fenomenologia de Edmund
Enquanto o programa positivista deixa-nos, para o estudo
Husserl para o alcance de um grau máximo de eviden-
do homem, confinados, do ponto de vista metodológico, a
ciação dos fenômenos. Tal atitude consiste, conforme
uma lógica indutiva, segundo a qual conhecer consiste em
será destacado – em uma atitude reflexiva e analítica, a
descrever, pela observação positiva dos fatos, a regularida-
partir da qual se busca, nos termos das “Cinco Lições”
de desses fatos, a abordagem fenomenológica nas ciências
de Husserl – em fundamentalmente elucidar, determinar
humanas convida-nos para uma clarificação do que há de
e distinguir o sentido íntimo das coisas (a coisa em sua
mais fundamental na coisa sobre a qual retornamos, deslo-
“doação originária”, revelada “em pessoa”). Já o método
cando-nos a atenção dos fatos contingentes para o seu sen-
fenomenológico será, por sua vez, um método de eviden-
tido originário indissociável de uma intencionalidade. Tal
ciação dos fenômenos, cuja estratégia consiste, grosso
abordagem consolida, com isso, uma espécie de “conver-
modo, no exercício da suspensão de juízo em relação à
são filosófica” que nos faz passar de uma visão ingênua do
posição de existência das coisas, viabilizando a recupe-
mundo para um modo de consideração das coisas, no qual
ração destas em sua pura significação.
o mundo se revela em sua totalidade como “fenômeno”.
A r t i g o
131
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 131-136, jul-dez, 2011

Carlos D. C. Tourinho
1. atitude fenomenológica e o método de evidencia-
tão, a exercer o que Husserl chamou de “atitude natural”
ção na fenomenologia
(natürliche Einstellung).
Na atitude natural, atribuo a mim um corpo em meio
Movido por seu projeto filosófico, Husserl anuncia-nos
a outros corpos e me insiro no mundo através da experi-
explicitamente – em A Idéia da Fenomenologia (Die Idee
ência sensível. Admito, em tal atitude, sem que haja, ao
der Phänomenologie), núcleo das “Cinco Lições” proferi-
menos, um exame crítico, a existência do mundo (con-
das em abril-maio de 1907 – que, com a fenomenologia,
cebido como “realidade factual”), bem como a possibi-
deparamo-nos com a proposta de uma “nova atitude” e
lidade de conhecê-lo e, com isso, adoto, de certo modo,
de um “novo método”. Deparamo-nos primeiramente com
um “realismo ingênuo”. Daí Husserl afirmar, em seu im-
uma ciência, com uma conexão de disciplinas científi-
portante artigo de 1911, intitulado A filosofia como ciên-
cas. Mas, para Husserl, acima de tudo, por “fenomeno-
cia rigorosa, que: “Toda ciência da natureza se comporta
logia” designamos “. .um método e uma atitude de pen-
de maneira ingênua. .a natureza tomada como objeto de
samento: a atitude de pensamento especificamente filo-
suas investigações encontra-se para ela simplesmente aí”
sófica e o método especificamente filosófico” (Husserl,
(Husserl, 1911/1989, p. 25).
1907/1997, p. 45).
Neste sentido, a tarefa crítica da Teoria do
A atitude fenomenológica consiste em uma atitude
Conhecimento de promover uma investigação acerca do
reflexiva e analítica, a partir da qual se busca funda-
que torna possível a relação de correspondência entre as
mentalmente elucidar, determinar e distinguir o senti-
vivências cognoscitivas e as coisas a serem conhecidas
do íntimo das coisas, a coisa em sua “doação originária”,
encontra-se desapercebida na atitude natural. Dá-se às
tal como se mostra à consciência. Trata-se de descrevê-la costas para o chamado “enigma do conhecimento trans-
enquanto objeto de pensamento. Analisar o seu sentido
cendente”, para o que, classicamente, passou-se a chamar
atualizado no ato de pensar, explicitando intuitivamen-
pelo nome de “problema da correspondência”. Afinal, o
te as significações que se encontram ali virtualmente
que torna possível tal conhecimento do mundo? Em que
implicadas em cogitos inatuais, bem como os seus dife-
ele se funda? Quais são os seus limites? “Como pode o co-
rentes modos de aparecimento na própria consciência
nhecimento estar certo da sua consonância com as coisas
intencional. Explorar a riqueza deste universo de signifi-
que existem em si, de as ‘atingir’?” (Husserl, 1907/1997, p.
cações que a coisa – enquanto um cogitatum – nos revela
103). Dá-se, portanto, na atitude natural, a possibilidade
no ato intencional é o que é próprio da atitude fenome-
do conhecimento do mundo (entendido como “realidade
nológica enquanto um “discernimento reflexivo” levado
factual”) como algo certo e inquestionável. Nos termos
a cabo com rigor.
de Husserl: “Óbvia é, para o pensamento natural, a pos-
A especificidade de tal atitude faz da fenomenologia a
sibilidade do conhecimento. .não há nenhum ensejo para
“ciência clarificadora” por excelência. Já o método feno-
lançar a questão da possibilidade do conhecimento em
menológico será, por sua vez, um método de evidencia-
geral” (Husserl, 1907/1997, p. 41). Para Husserl, tanto a
ção plena dos fenômenos. Também será, para Husserl, o
consciência do senso comum quanto a consciência das
método especificamente filosófico, cuja estratégia maior
ciências ditas “positivas” encontram-se, ainda que de mo-
consiste, para o alcance de um grau máximo de evidên-
dos distintos, mergulhadas na atitude natural, cujo exer-
cia, no exercício da suspensão de juízo em relação à po-
cício expressa a relação entre uma consciência espontâ-
sição de existência das coisas. Tal exercício viabiliza,
nea (empírica ou psicológica) e o mundo natural, revelado
assim, a chamada “redução fenomenológica” e, com ela,
empiricamente para essa consciência em sua facticidade.
a recuperação das coisas em sua pura significação, tal
Absorvida por esse realismo ingênuo, tal consciência na-
como se revelam (ou se mostram), enquanto objetos de
tural – tanto do senso comum quanto das ciências po-
pensamento, na consciência intencional.
sitivas – não se aperceberá do enigma do conhecimento
O ponto de partida de Husserl é o que ele próprio de-
transcendente em torno do qual gira a tarefa crítica da
finiu, no § 27 de Idéias I, como sendo a “Tese do Mundo”
investigação promovida pela Teoria do Conhecimento:
(ou mais precisamente, a “Tese da Orientação Natural”),
afinal, “como pode o conhecimento ir além de si mesmo,
isto é, a tese segundo a qual o que chamamos de “mun-
como pode ele atingir um ser que não se encontra no âm-
do” encontra-se aí, diante de nós, tudo isto que, da ma-
bito da consciência?” (Husserl, 1907/1997, p. 105).
neira a mais imediata e direta, nos é revelado através da
Para Husserl, se torna obscuro como pode o conhe-
experiência sensível: as coisas situadas em uma dimen-
cimento atingir o que é transcendente, aquilo que não é,
são espaço-temporal, cada uma das quais com as suas
em seus termos, dado em pessoa, mas “trans-intentado”.
propriedades, relações, etc. Trata-se do mundo que nos
Porém, nas “Cinco Lições”, Husserl alerta-nos para o fato
cerca, constituído de entes mundanos, frente aos quais
de que se o conhecimento encerra um problema, não sig-
podemos tomar atitudes variadas, quer nos ocupemos
nifica dizer, com isso, que ele seja em si próprio proble-
com eles quer não. Vivenciamos, portanto, a todo ins-
mático. Em outros termos, admitir que haja no conheci-
tante, a chamada “Tese do Mundo”. Mas, se além da vi-
mento um enigma, não nos obriga a afirmar que todo o
A r t i g o
vência dessa tese, fazemos uso da mesma, passamos, en-
conhecimento é enigmático. Husserl deixa-nos claro en-
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 131-136, jul-dez, 2011
132

A Crítica da Fenomenologia de Husserl à Visão Positivista nas Ciências Humanas
tão que, na esfera do conhecimento objetivo, aquilo que é
Afinal, conforme ficará cada vez mais claro, tudo aquilo
enigmático, que nos deixa perplexos sobre a possibilidade
que não tiver o caráter de apresentação imediata, só rea-
de conhecer é propriamente a sua “transcendência”. Tal
lizável na consciência, não pode ser “apodítico”.
constatação coloca-nos, conforme veremos mais adiante,
Husserl opta, então, como estratégia metodológica
frente a relação entre mundo interior e mundo exterior,
para o alcance das evidências apodíticas, pelo exercício
entre o “imanente” e o “transcendente”.
da epoché, isto é, pelo exercício da “suspensão de juízo”
Fiel ao seu projeto filosófico de constituição da filoso-
em relação à posição de existência das coisas. Husserl re-
fia como uma “Ciência de Rigor”, Husserl sabe que as tais
cupera, já nas “Cinco Lições” e, posteriormente, em Idéias
evidências apodíticas – necessárias para a fundamenta-
I, o conceito de epoché do ceticismo antigo, porém, para
ção da própria filosofia – não poderiam ser extraídas do
pensá-lo não como um modus vivendi (como um princípio
plano empírico-natural, pois, por mais perfeita que seja
ético a ser praticado como “hábito virtuoso”) – conforme
uma percepção empírica, ela será sempre a percepção de
propunha o ceticismo pirrônico no período Helênico –
um ponto de vista e, enquanto tal, somente poderá revelar
mas sim, como um recurso metodológico. Com o exercício
“aspectos” ou “perspectivas” – admiravelmente conver-
da epoché, abstemo-nos de tecer considerações acerca da
gentes, mas continuamente diversas e incompletas – da
existência ou não existência das coisas mundanas. Nos
coisa percebida (perceptum) que, por sua vez, não será re-
termos de Husserl, promovo a “colocação da atitude na-
velada em sua plenitude, mas apenas parcialmente, “por
tural entre parênteses”, a facticidade do mundo fica “fora
um de seus lados”. Ainda assim, a crença acerca do que
de circuito” (Husserl, 1913/1950, p. 96). Ao suspender o
percebemos empiricamente vai muito além daquilo que
juízo em relação à facticidade do mundo, eu não deixo
a percepção empírica efetivamente nos revela. Neste sen-
de vivenciar a “tese do mundo”, no entanto, como diz o
tido, pode-se dizer que a coisa vista empiricamente será
§ 31 de Idéias I, não faço mais uso dessa tese, procuro
sempre um “misto de visto e não visto”. Portanto, toda
mantê-la fora de circuito: “. .a tese é um vivido, mas dele
evidência extraída do plano empírico-natural, no qual a
não fazemos ‘nenhum uso’. .” (Husserl, 1913/1950, p. 99).
consciência empírica se relaciona com as coisas munda-
Tal renúncia implica, de certo modo, em uma espécie de
nas, será sempre uma evidência perspectivista (ou exis-
“conversão filosófica”, por meio da qual adotamos um
tencial), ou seja, uma evidência parcial.
novo modo de consideração do mundo.
Dos fatos não podemos extrair “evidências absolutas”.
A serviço desta tal reflexividade radical própria da
A coisa e o mundo em geral não são apodíticos, pois não
atitude fenomenológica, a epoché fenomenológica – en-
excluem a possibilidade de que duvidemos deles e, por-
quanto um “instrumento de depuração do fenômeno”
tanto, não excluem a possibilidade de sua não existência.
– proporcionará, em seu exercício generalizado, o des-
Eis um segundo motivo do porque não podermos, na visão
locamento da atenção, inicialmente voltada para os fa-
de Husserl, extrair evidências plenas de nossa percepção
tos contingentes do mundo natural, para o domínio de
empírica do mundo, pois, a julgar pelo o que a experiên-
uma subjetividade transcendental, “. .domínio absoluta-
cia sensível nos revela do mundo, nós jamais poderíamos
mente autônomo do ser puramente subjetivo. .” (Husserl,
eliminar, por completo, a possibilidade de duvidar da po-
1924/1970, p. 321), dentro da qual e a partir da qual os
sição de existência das coisas que se nos apresentam e, “fenômenos” – enquanto idealidades puras – se revela-
neste sentido, estaríamos sempre prestes a corrigir as nos-
rão como “evidências absolutas” para uma consciência
sas percepções do que havia sido estabelecido com base
transcendental, dotada da capacidade de ver verdadeira-
na experiência sensível. “É sempre possível que o curso
mente estes fenômenos tal como se apresentam em sua
ulterior da experiência nos obrigue a abandonar o que já
plena evidência. Trata-se, como o próprio Husserl insiste
se tinha estabelecido sob a autoridade da experiência
em ressaltar, em diferentes momentos de sua obra, de um
(Husserl, 1913/1950, p. 150). Portanto, para Husserl, com
“puro ver” (reinen Schauen) das coisas. Ainda nos termos
base no ente mundano, seria impossível elaborar uma fi-
do § 35 de Idéias I, trata-se “. .não exatamente e meramen-
losofia que se pudesse apresentar como ciência rigorosa.
te do olhar físico, mas do ‘olhar do espírito’. .” (Husserl,
Com vistas a viabilizar tal projeto filosófico, surgia,
1913/1950, p. 113). Nas “Cinco Lições”, Husserl nos diz:
então, para Husserl, o desafio de encontrar uma estratégia
A fenomenologia procede elucidando visualmente, deter-
metodológica que renunciasse, sem negar a existência do
minando e distinguindo o sentido. .Mas tudo no puro ver”
mundo tal como um cético, ao modo de consideração do
(Husserl, 1907/1997, p. 87). Em suma, a fenomenologia
senso comum e das ciências positivas acerca do mundo,
prescindirá de tecer considerações acerca da posição de
modo esse ingênuo e espontâneo por meio do qual as coi-
existência das coisas mundanas para direcionar, então,
sas somente se revelariam, conforme vimos, parcialmen-
a atenção para os “fenômenos”, tal como se revelam (ou
te. Em outros termos, o desafio de Husserl consistiria em
como se mostram), em sua pureza irrefutável, na auto-
encontrar um método cujo exercício tornasse viável uma
reflexão da consciência transcendental. Nos termos de
operação capaz de garantir o aparecimento das coisas em
Husserl, atingimos assim o “ego cogito” verdadeiramen-
sua “inteireza”, em sua doação originária, revelando-se na
te radical, somente inteligível na sua explicitação plena
consciência em uma evidenciação plena ou “apodítica”.
“ego-cogito-cogitatum”.
A r t i g o
133
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 131-136, jul-dez, 2011

Carlos D. C. Tourinho
Portanto, de um lado, deparamo-nos com um modo de
respectivamente, duas modalidades radicais de ser: o
consideração das coisas a partir do qual o mundo se reve-
ser como “transcendente” e o ser como consciência (ou
la para a nossa consciência espontânea como o domínio
ser transcendental). A fenomenologia transcendental
empírico-natural dos fatos, do que se encontra submeti-
será, então, uma fenomenologia da consciência consti-
do a uma dimensão espaço-temporal. Trata-se do modo
tuinte (pode-se dizer que, em Husserl, “ser evidente é
de consideração do mundo próprio das ciências positivas ser constituído”). Exercer a epoché é reduzir à consciên-
em geral. Paralelamente, como um recurso metodológico
cia transcendental. Tal redução do objeto à consciência
para o alcance das evidências apodíticas, o exercício ge-
transcendental, na medida em que não desfaz a relação
neralizado da epoché e, conseqüentemente, da redução
entre sujeito e objeto, revela uma dimensão nova dessa
fenomenológica, promoverá o salto para o modo de con-
relação, impedindo que a verdadeira e autêntica objeti-
sideração transcendental (ou fenomenológico) das coisas,
vidade desapareça.
fazendo agora com que o mundo se revele, na e para a
consciência pura (ou transcendental), como um “hori-
zonte de sentidos”. Se esta consciência pura não pode ser
2. a Crítica da fenomenologia às Ciências positivas
tomada em termos de dados empíricos, cabe-nos apenas
concebê-la a partir de sua relação intencional com o seu
Quando pensamos a crítica da fenomenologia às ciên-
objeto que, em sua versão reduzida, enquanto um objeto
cias positivas, pensamos, então, em dois modos distintos
de pensamento, nada mais é do que um conteúdo inten-
de consideração do mundo. Tal crítica se faz notar, par-
cional da consciência.
ticularmente, quando pensamos a relação da fenomeno-
Trata-se, com tal redução, de fazer o mundo reapa-
logia com as ciências humanas. Para Husserl, não pode-
recer na consciência como um horizonte de idealidades
mos inferir, como pretendem as correntes positivistas,
meramente significativas, que se revelam como um dado
uma lei geral a partir da observação de casos particula-
absoluto e imediato para uma tal consciência pura que o
res e da constatação de sua regularidade (afinal, dos fa-
apreende e o constitui intuitivamente. A mesma consci-
tos não podemos extrair “evidências absolutas”, a coisa
ência que intuitivamente apreende o objeto em sua ver-
e o mundo em geral não são apodíticos). Com a fenome-
são reduzida, isto é, como “fenômeno puro”, é também
nologia, deparamo-nos, de antemão, com uma eidética,
responsável pela constituição desse mesmo objeto, agora
isto é, com uma “doutrina de essências”. Nos termos de
atualizado no pensamento como uma unidade de senti-
Husserl: “. .a fenomenologia pode, enquanto ciência, não
do. O objeto, precisamente porque inconcebível sem ser
ser senão uma investigação de essências...” (Husserl,
pensado, enquanto um cogitatum, exige uma doação de
1911/1989, p. 53). Para Husserl, não há ciência que não
sentido que só pode vir através dos atos intencionais da comece por estabelecer um quadro de essências obtidas
consciência, isto é, as unidades de sentido pressupõem
pela técnica de variação imaginária dos objetos. Antes de
uma consciência doadora de sentido. Sendo assim, dizer
se fazer física, faz-se necessário refletir sobre o que seja
que toda consciência é consciência de alguma coisa é di-
o “fato físico” em sua essência. O próprio Husserl salien-
zer que não há cogito sem cogitatum.
ta, em sua Crise das Ciências Européias, que Galileu já
Portanto, deparamo-nos com duas atitudes – a “ati-
havia estabelecido uma eidética da coisa física, de modo
tude natural” e a “atitude fenomenológica” – que, por
que não poderia obter a lei da queda dos corpos induzin-
sua vez, colocam-nos frente a frente com o que Husserl
do o universal a partir do diverso da experiência, mas
considerou, no § 76 de Idéias I, a mais radical de todas
somente pela “intuição de essência” do corpo físico. O
as diferenciações ontológicas: o ser como ser “transcen-
mesmo valeria para as demais ciências. Da definição do
dente” e o ser como consciência, ou ser transcendental
eidos apreendido pela intuição originária, se poderá tirar
(Husserl, 1913/1950, p. 243). Tais atitudes consistem em
as conclusões metodológicas que orientarão a pesquisa
duas orientações ou dois modos distintos de considera-
empírica. A cada ciência empírica corresponde uma ci-
ção das coisas. Na primeira dessas orientações, o mun-
ência eidética concernente ao eidos regional dos objetos
do exterior que transcende a consciência, mundo para adotados para investigação (na física, uma eidética da
o qual nos encontramos naturalmente orientados, nos é
“coisa física”; na psicologia, uma eidética do “fato psico-
revelado em sua facticidade (em termos tomistas, dirí-
lógico”, e assim por diante).
amos sob o modo de existência de “coisa natural”/ esse
A “essência” deve ser entendida em Husserl não como
naturale). Eis a idéia do ser como “ser transcendente”,
a essência de uma “forma pura” que subsiste por si mes-
fora da consciência. Já na orientação fenomenológica, o
ma (tal como em um realismo platônico), independente-
mundo se revela, na autêntica imanência da consciên-
mente do modo como se mostra à consciência intencio-
cia transcendental, em sua pura significação, o que é o
nal, mas sim como aquilo que é retido no ato intencional
mesmo que dizer que o mundo se revela, em sua totali-
desta consciência por meio da redução fenomenológica.
dade, como “fenômeno” (como um dado imanente), in-
Pode-se entender esta essência como aquilo que é retido
existindo sob o modo de “coisa pensada” (cogitatum) na
no pensamento pela técnica de variação imaginária dos
A r t i g o
consciência. As referidas atitudes impõe-nos, portanto,
objetos: atenho-me, ao exercer a redução fenomenológi-
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 131-136, jul-dez, 2011
134

A Crítica da Fenomenologia de Husserl à Visão Positivista nas Ciências Humanas
ca, ao núcleo invariante da coisa, isto é, ao que persiste
do social. No entanto, é exatamente neste ponto que uma
na coisa pensada mesmo diante de todas as variações as
visada fenomenológica da sociologia poderia promover
quais a submeto arbitrariamente em minha imaginação1.
os seguintes questionamentos: a experiência do sagrado
A variação arbitrária de um objeto qualquer na imagina-
constitui a essência da vida religiosa? Não seria possível
ção permite-nos notar que tal arbitrariedade não pode ser
conceber (por variações imaginárias) uma religião que
completa, uma vez que há condições necessárias sem as
não se apoiasse sobre esta prática do sagrado? Enfim, o
quais as “variações” deixam de ser variações daquilo que
que significa o “sagrado” propriamente dito? Ao invés de
se intenciona no pensamento. Cada uma dessas possibili-
inferir leis gerais a partir da observação de casos particu-
dades ou desses “exemplares” que se perfilam – “. .de uma
lares e da descrição da regularidade desses casos, confor-
maneira inteiramente livre, ao sabor da nossa fantasia. .”
me propõe, do ponto de vista metodológico, o programa
(Husserl, 1931, p. 59) – na imaginação somente poderá
positivista, a atitude fenomenológica concentra-se – em
variar enquanto variação daquilo que se intenciona em
um processo inverso aquele adotado pelas ciências po-
um cogito atual, na medida em que necessariamente tais
sitivas – na descrição (ou análise) de essências. Nos ter-
variações compartilham algo de “invariante”, coincidindo
mos de Husserl, trata-se, com a atitude fenomenológica,
em relação ao caráter necessário do que é intencionado
de um processo dinâmico, de uma atitude reflexiva e
no próprio pensamento. Nos termos de Husserl, no § 98
analítica, cujo intuito central passa a ser o de promover
de Lógica Formal e Lógica Transcendental, tratam-se de
a elucidação do sentido originário que a coisa expressa,
“divergências que se prestam à coincidência” (Husserl,
em sua versão reduzida, independentemente da sua po-
1929/1965, p. 332). Trata-se, portanto, de uma “condição
sição de existência.
necessária” sem a qual não poderíamos exercer as refe-
Engana-se aquele que pensa que, com a estratégia
ridas variações, sem a qual sequer poderíamos conside-
metodológica adotada pela fenomenologia, Husserl es-
rar no pensamento um determinado objeto intencionado
taria negando a existência do mundo. Antes sim, esta-
como tal. Tal “núcleo invariante” do cogitatum – o caráter
ria renunciando a um modo ingênuo de consideração
necessário do objeto idealmente considerado – define pre-
do mesmo, para viabilizar, com o exercício da redução
cisamente a “essência” (o que Husserl chama, no § 98 da
fenomenológica, o acesso a um modo transcendental
referida obra, de “forma ôntica essencial” ou “forma apri-
de consideração do mundo. Em sua versão reduzida, o
órica” (Husserl, 1929/1965, p. 332) daquilo que se mostra
mundo se abriria, então, enquanto campo fenomenal,
na e para a consciência intencional, revelando-se, portan-
na e para a consciência intencional como um “hori-
to, em sua dimensão originária na própria intuição vivi-
zonte de sentidos”. Sem negar a existência do mundo
da. Eis o que Husserl denominou de “intuição de essên-
factual, renunciamos, pela epoché, à ingenuidade da
cias” (Wesenschau). No § 34 de Meditações Cartesianas,
atitude natural, para reter, então, a “alma do mundo”,
Husserl descreve-nos novamente a dinâmica do exercí-
o mundo na sua pura significação. A redução fenome-
cio da variação imaginária dos objetos na consciência,
nológica faz reaparecer, na própria camada intencional
afirmando-nos que tal exercício permite-nos deslocar a
do vivido, a verdadeira objetividade pela qual o obje-
atenção das variações as quais submeto arbitrariamente
to intencionado é, enquanto conteúdo intencional do
o objeto intencionado para a sua “generalidade essencial”
pensamento, constituído e apreendido intuitivamente.
e absoluta, generalidade essencialmente necessária para
Daí o próprio Husserl dizer que se por “positivismo”
qualquer caso particular desse mesmo objeto (Husserl,
entendemos o esforço de fundar as ciências sobre o
1931, § 34, pp. 59/60).
que é suscetível de ser conhecido de modo originário,
Tal modo de conhecimento se torna uma peça deci-
nós é quem somos os verdadeiros positivistas! (Husserl,
siva em uma abordagem fenomenológica das ciências do
1913/1950, p. 29). Se as ciências positivas não deixam
homem. Adotando, por exemplo, tal abordagem na so-
de conceber a relação entre subjetivo e objetivo em
ciologia, se quisermos estudar a existência de uma ins-
termos da dicotomia “interioridade” / “exterioridade”,
tituição em um determinado grupo social, sua gênese considerando o objetivo como algo que nos remete sem-
histórica e o seu papel atual na sociedade, faz-se neces-
pre para uma realidade exterior e independente, para
sário definir, primeiramente, pela variação imaginária,
o que transcende a própria “vivência do mundo”, a re-
o que seja esta instituição. Se tomarmos a sociologia de
dução fenomenológica permite-nos, ao nos lançar para
Durkheim como exemplo, constataremos que a mesma
o modo transcendental de consideração do mundo, re-
assimila a vida religiosa à experiência do sagrado, afir-
cuperar a autêntica objetividade na própria subjetivida-
mando-nos que o sagrado tem a sua origem no totemis-
de transcendental – domínio último e apoditicamente
mo, cuja origem resulta, por sua vez, de uma sublimação
certo sobre o qual deve ser, segundo Husserl, fundada
toda e qualquer filosofia radical – unindo, com isso, o
objetivo e o subjetivo. Trata-se, nos termos de Husserl,
1 Husserl menciona-nos a técnica de variação imaginária dos
objetos na consciência em alguns momentos de sua obra. Sobre
de “...uma exterioridade objetiva na pura interioridade”
a referida técnica, o leitor poderá consultar (Logique Formelle et
(Husserl, 1929/1992, p. 11), trata-se de uma “autêntica
Logique Transcendantale, § 98, p. 332; Méditations Cartésiennes,
objetividade imanente”.
§ 34, pp. 59/60).
A r t i g o
135
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 131-136, jul-dez, 2011

Carlos D. C. Tourinho
Considerações finais
nos a atenção dos fatos contingentes para o seu sentido
originário indissociável de uma intencionalidade, con-
A adoção do programa positivista nas ciências huma-
solidando, com isso, uma espécie de “conversão filosófi-
nas implica, ao fazer uso da Tese do Mundo, ao mergulhar
ca” que nos faz passar de uma visão ingênua do mundo
a consciência na atitude natural, na aceitação de um rea-
para o “puro ver” das coisas, no qual o mundo se revela
lismo ingênuo, desconsiderando, neste sentido, os proble-
em sua totalidade como “fenômeno”. Eis o convite genu-
mas filosóficos suscitados pela Teoria do Conhecimento.
íno da fenomenologia às ciências humanas.
Este mesmo programa insiste, nos estudos sobre o ho-
mem (seja em Sociologia, seja em Psicologia), em extrair
leis universais a partir da observação sistematizada do
Referências
comportamento humano, desenvolvendo um estudo pe-
riférico do homem em relação ao meio no qual se insere.
Husserl, E. (1931). Méditations Cartésiennes. Paris: Librairie
Particularmente, em Psicologia, a aceitação do programa
Armand Colin.
positivista começa a se consolidar no último quarto do
Husserl, E. (1950). Idées directrices pour une phénoménologie et
século XIX por meio de uma aliança da ciência psicoló-
une philosophie phénoménologique pures (Tome Premier).
gica com o método experimental das ciências naturais.
Paris: Gallimard (Original de 1913).
Tal aliança fez, no mesmo período, com que os sistemas
em psicologia confundissem, muitas das vezes, na aceita-
Husserl, E. (1965). Logique Formelle et Logique Transcendantale.
ção de um paralelismo psicofísico, as leis do pensamento
Paris: PUF (Original de 1929).
com as leis causais da natureza, confundindo o “sujeito
Husserl, E. (1970). Philosophie première 1923-1924, 1: Histoire
do conhecimento” com o “sujeito psicológico”, conforme
critique des idées. Appendice. Paris: PUF (Original de
o próprio Husserl denunciou em sua crítica ao psicolo-
1924).
gismo nos Prolegômenos das Investigações Lógicas. Tal
Husserl, E. (1989). La philosophie comme science rigoureuse.
programa positivista deixa-nos, para o estudo do homem,
Paris: PUF (Original de 1911).
confinados, do ponto de vista metodológico, a uma lógi-
ca indutiva, segundo a qual conhecer consiste em des-
Husserl, E. (1992). Conferências de Paris. Lisboa: Edições 70
crever, pela observação positiva dos fatos, a regularida-
(Original de 1929).
de desses fatos, buscando, a partir de casos particulares,
Husserl, E. (1997). L´idée de la phénoménologie. Cinq leçons.
inferir uma “lei geral”. Para Husserl, tal lei inferida nada
Paris: PUF (Original de 1907).
mais é do que uma “regra empírica”, cuja validade é me-
ramente circunstancial e, portanto, uma regra que care-
ce de exatidão absoluta. Ao se lançar sobre os fatos por
meio de uma observação sistematizada, no exercício da
Carlos Diógenes Côrtes Tourinho - Formado em Psicologia pela
Universidade Federal Fluminense e em Filosofia pela Universidade
indução, o positivista desconhece o quadro de essências
Federal do Rio de Janeiro. Mestre e Doutor em Filosofia pela Pontifícia
acerca dos fatos que investiga.
Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Professor de Filosofia
Já a abordagem fenomenológica nas ciências huma-
da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação em Filosofia
nas convida-nos a exercer justamente uma reflexivida-
da Universidade Federal Fluminense (UFF). Membro do Núcleo de
Estudos e Pesquisas em Filosofia, Política e Educação (NUFIPE/ UFF)
de levada a cabo com rigor e discernimento acerca des-
e dos GTs de Filosofia Francesa Contemporânea e de Fenomenologia da
te quadro de essências estabelecido por variações ima-
ANPOF. Organizador da Coleção Encontros com a Filosofia (EDUFF/
ginárias, a vivência da intuição do que há de originário
Booklink) e da Série Ensaios sobre o Pensamento Contemporâneo
(ou de invariante) naquilo que se toma como objeto de
(Editora Proclama). Recentemente, organizou o primeiro livro do GT
de Fenomenologia da ANPOF: Fenomenologia: influxos e dissidências
investigação. Convida-nos a uma atitude reflexiva e ana-
(Booklink, 2011). Endereço Institucional: Universidade Federal
lítica acerca do sentido íntimo daquilo que se investiga
Fluminense, Faculdade de Educação/ Departamento de Fundamentos
– tanto aquele que se atualiza no pensamento quanto as
Pedagógicos (SFP). Campus do Gragoatá (São Domingos). CEP 24020-
significações que se encontram ali virtualmente presen-
200. Rio de Janeiro/RJ. E-mail: cdctourinho@yahoo.com.br
tes, bem como os seus diferentes modos de aparecimento
na própria camada intencional do vivido. Convida-nos,
portanto, para uma clarificação do que há de mais fun-
Recebido em 12.07.11
damental na coisa sobre a qual retornamos, deslocando-
Aceito em 10.12.11
A r t i g o
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 131-136, jul-dez, 2011
136

Fenomenologia e Experiência Religiosa em Paul Til ich
fenomenologia e expeRiênCia ReligioSa em paul tilliCH
Paul Til ich´s Phenomenology and Religious Experience
Fenomenología y Experiencia Religiosa en Paul Til ich
Tommy akira goTo
Resumo: O objetivo deste artigo é explicitar a presença da fenomenologia filosófica no pensamento filosófico e teológico de Paul
Tillich, tanto na questão metodológica quanto na investigação do fenômeno religioso. Apesar de Paul Tillich ter tido uma meto-
dologia própria em sua teologia - tal como o método de correlação e do círculo teológico – também se encontra vários comentá-
rios sobre a fenomenologia em suas principais obras e a sua aplicabilidade na investigação da experiência religiosa. A fenome-
nologia que se afirma estar presente no pensamento de Tillich não é nem uma fenomenologia “pura” – de acordo com o concei-
to de Edmund Husserl, nem uma fenomenologia hermenêutica concebida por Martin Heidegger, apesar de ter sido influenciado
por ambos os autores –, mas uma fenomenologia crítica, como sugerida pelo teólogo, que seria a união de ambos os elementos: o
intuitivo-descritivo (fenomenologia clássica) e o crítico-existencial. Neste sentido, tem-se como ponto de partida da análise os
comentários feitos por Tillich sobre a fenomenologia, entendendo o que o teólogo quis dizer sobre esta metodologia e destacan-
do a relevância dessas observações para a construção de sua teologia e filosofia.
Palavras-chave: Fenomenologia; Experiência religiosa; Paul Tillich.
Abstract: The aim of this text is to point out the presence of the philosophical phenomenology in Paul Tillich’s philosophical
and theological thought, either concerning the methodological issue or the religious phenomenon investigation. In spite of Paul
Tillich having had a methodology of his own in his theology – such as the correlation method and the theological circle – we
can also find in his main works comments about phenomenology and its applicability in the investigation of the religious ex-
perience. The phenomenology that we assert to be present in Tillich’s thought is neither a “pure” phenomenology – according to
Edmund Husserl’s concept nor a hermeneutic phenomenology inspired by Martin Heidegger, in spite of having been influenced
by both authors –, but a critical phenomenology, as suggested by the theologian, that would be the union of both elements: the
intuitive-descriptive (phenomenology classical) and the critical-existencial. In this sense, we shall start from the comments
made by Tillich on phenomenology, understanding what he meant about this methodology and emphasizing the relevance of
those comments for the construction of his theology and philosophy.
Keywords: Phenomenology; Religious experience; Paul Tillich.
Resumen: Este texto tiene como objetivo mostrar la presencia de la fenomenología filosófica en el pensamiento filosófico y teo-
lógico de Paul Tillich, sea en la cuestión metodológica, sea en la investigación del fenómeno religioso. A pesar de Paul Tillich
haber tenido una metodología propia en su teología – como el método de la correlación y el círculo teológico – también puede
encontrar, en sus obras principales, comentarios sobre la fenomenología y su aplicabilidad en la investigación de la experiencia
religiosa. La fenomenología que afirma estar presente en el pensamiento de Tillich, no es una fenomenología “pura” en el senti-
do de Edmund Husserl y tampoco una fenomenología hermenéutica inspirada en Martin Heidegger – aunque fue influenciada
por ambos autores – sino una fenomenología crítica, como lo ha sugerido el propio teólogo, que sería la unión del elementos: el
intuitivo-descriptivo (fenomenología clásica) con el existencial-crítico. En este sentido, tienes como punto de partida los comen-
tarios hechos por Tillich sobre la fenomenología entendiendo lo que quiso decir sobre esa metodología y destacando la relevan-
cia de estos comentarios para la construcción de su teología y filosofía.
Palabras-clave: Fenomenología; Experiencia religiosa; Paul Tillich.
introdução
de início, que não há em Tillich uma descrição explícita
do método fenomenológico em suas análises teológicas e
O objetivo deste artigo é explicitar a influência da
filosóficas. Por isso é preciso, a partir dos breves comen-
Fenomenologia de Edmund Husserl (1849-1938) e Martin
tários do próprio autor, entender o que quis dizer sobre a
Heidegger (1889-1976) no empreendimento filosófico e
Fenomenologia e sua apropriação.
teológico de Paul Tillich (1886-1965). De início destacar-
O que se pode destacar é a evidente presença da
se-á como Tillich compreendeu a Fenomenologia e a rela-
Fenomenologia no pensamento filosófico e teológico de
cionou à teologia e filosofia da religião para, em seguida,
Tillich. Essa fenomenologia deve ser compreendida de
indicar como o filósofo apropriou-se do método fenome-
modo particular, não podendo ser generalizada como
nológico em seus conceitos. É importante destacar, logo
o principal método teológico ou filosófico do teólogo.
A r t i g o
137
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 137-142, jul-dez, 2011

Tommy A. Goto
Entretanto, a analítica fenomenológica está presente nas
Tillich expõe quatro métodos possíveis da filosofia da
pesquisas do autor e percorre de modo ora implícito, ora
religião se fundamentar: crítico-dialético, fenomenoló-
explícito em suas obras.
gico, pragmático e o “metalógico”. Neste texto o teólogo
A partir de leituras atentas e estudos, chegou-se à
reconheceu a importância do método fenomenológico e
conclusão de que a Fenomenologia, que se apresenta de
a destacou como um método para a filosofia da religião
modo particular, está presente em Tillich nos seguintes
se aproximar de seu objeto de forma mais vital, assim
aspectos: a) a Fenomenologia é legitimada como um mé-
legitimando-a como um recurso metodológico para a fi-
todo filosófico para filosofia da religião e teologia (cita-
losofia da religião. No texto, analisa Tillich que:
do, por exemplo, no texto “Filosofia da Religião”); b) a
Fenomenologia é postulada como um recurso metodoló-
Segundo o método fenomenológico, a filosofia da
gico para analisar os conceitos básicos da teologia, prin-
religião, portanto, será capaz de intuir eideticamen-
cipalmente experiência religiosa; e c) a Fenomenologia
te a essência e as qualidades peculiares da religião
como ontologia, ou seja, a ontologia tillichiana como
em qualquer manifestação religiosa. Tal intuição
fenomenológica.
será independente da realidade empírica do objeto e
Apesar de Paul Tillich ter desenvolvido uma meto-
possuirá, contudo, um apriori de rico conteúdo não
dologia própria – como o método da correlação – pode-se
meramente formal. (Tillich, 1969/1973, p. 29)
reconhecer outra metodologia aplicada na sua analítica.
Essa outra metodologia é a Fenomenologia. Encontra-se
Ao mesmo tempo, também explicitou o fato da feno-
em suas obras principais citações e definições que se re-
menologia não abranger o movimento individual-histó-
ferem à fenomenologia, por exemplo, Tillich (1951/2001)
rico, pela fenomenologia pura iniciar sua investigação a
em seu texto sobre Razão e Revelação sugeriu uma feno-
partir das experiências vivências em visando às essên-
menologia crítica para a teologia em vista da análise de
cias ou do universal. Na acepção de Tillich (1951/2001),
seus conceitos básicos.
o fenomenólogo responderá sobre um evento revelatório
Reforçando essa análise crítica, o conceituado historia-
típico a partir de seu sentido universal. Assim, para o te-
dor da Fenomenologia Herbert Spiegelberg (1965) comentou
ólogo a fenomenologia pura embora seja competente na
em sua obra monumental O Movimento Fenomenológico,
área das significações lógicas, é relativamente competen-
a relação de Paul Tillich com a Fenomenologia, relação
te no âmbito das realidades espirituais.
essa marcada por duas fases. O autor diz:
Para Tillich a vida espiritual, experienciada, cria
mais que significações exemplares e universais; ela
Na teologia americana, a fenomenologia recebeu
cria “corporificações únicas de algo universal”. Para a
importante apoio do recente recurso de Paul Tillich
apreensão dessas “corporificações únicas”, Tillich su-
ao método fenomenológico. Todo este caminho ainda
geriu, então, uma fenomenologia crítica: “Trata-se de
é notável, pois durante a sua carreira alemã, Tillich
uma fenomenologia crítica, que une um elemento in-
rejeitou o método fenomenológico e junto com isso o
tuitivo-descritivo com o elemento existencial-crítico”
pragmatismo a favor de uma aproximação “crítica-
(Tillich, 1951/2001, p. 121), preservando a abordagem
dialética”. A principal objeção dele na ocasião era
fenomenológica.
o caráter não-histórico e antiexistencial da fenome-
A fenomenologia crítica é um método que mantem o
nologia. Há indicações que, em grande parte, com o
elemento intuitivo-descritivo da fenomenologia pura com
advento da versão de Heidegger da fenomenologia,
a técnica de descrever o sentido daquilo que se manifesta,
Tillich mudou a sua atitude. De fato, ele parece agora
porém acrescenta-se à análise o elemento existencial-crí-
considerar a fenomenologia como método primário de
tico, ou seja, o caráter concreto, histórico e único daquilo
filosofia existencial. O mais importante agora é que
que se manifesta. Com isso conclui Tillich:
ele afirma, na sua Teologia Sistemática, a necessidade
do método fenomenológico na concepção de Husserl
A primeira forma, porem, leva ao método de abstra-
das Idéias, como essencial para a teologia. (Spiegel-
ção, que priva os exemplos de sua concretude e reduz
berg, 1965, p. 639)
seu significado a uma generalidade vazia (p.ex., uma
revelação que não é nem judaica nem cristã, nem
Esses aspectos que se destacam entre Paul Tillich e a
profética nem mística). É precisamente isso que a
fenomenologia husserliana mostram definitivamente a in-
fenomenologia deseja superar. A segunda forma está
terdependência entre a filosofia e a teologia no pensamen-
baseada na convicção de que uma revelação especial
to do autor analisado. Essa interdependência se confirma
(p.ex., a aceitação de Jesus como o Cristo por Pedro) é a
no primeiro aspecto citado, na qual Tillich legitima a feno-
revelação final e, em conseqüência, é universalmente
menologia de Husserl, principalmente a redução eidética
válida. (. .) A fenomenologia crítica é o método mais
como método filosófico para a filosofia da religião.
adequado para fornecer uma descrição normativa
Em relação ao primeiro aspecto tem-se, por exem-
dos significados espirituais (e também Espirituais).
A r t i g o
plo, o trabalho Filosofia da Religião (1969/1973), na qual
(Tillich, 1951/2001, p. 120-121)
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 137-142, jul-dez, 2011
138

Fenomenologia e Experiência Religiosa em Paul Til ich
O segundo aspecto está relacionado com a aceitação
posta fenomenológica está um buscar um “começo bom”,
e validação da Fenomenologia como recurso metodoló-
ou seja, encontrar a gênese da experiência religiosa por
gico na teologia. O interesse da teologia em utilizar a
ela mesma. Explica Tillich:
Fenomenologia deu-se em Tillich, fundamentalmente
como recurso metodológico para rever e avaliar conceitos
O teste de uma descrição fenomenológica consiste
postulados da sua própria analítica. Não tem só a intenção
em sua capacidade de oferecer um quadro que seja
de buscar a essência do religioso no sentido universal e
convincente, de torná-lo visível a qualquer pessoa que
histórico – como no caso da história das religiões - mas
esteja disposta a olhar na mesma direção, de ilumi-
de fundamentar rigorosamente aquilo que já foi dado pela
nar com ele outras idéias e de tornar compreensível
revelação a partir da experiência. Explica Tillich, no ca-
a realidade que estas idéias pretendem refletir. A
pítulo sobre “A realidade da revelação” que a:
fenomenologia é uma forma de considerar os fenô-
menos tal como ‘se apresentam’, sem interferência
finalidade do método fenomenológico é descrever
de pré-conceitos e explicações negativas ou positivas
‘significados’, deixando de lado, por um tempo, a
(Tillich, 1951/2001, p. 120).
questão da realidade [existência fática] á qual se
referem. (. .) A teologia deve aplicar a abrdagem fe-
Dito isso, é possível resumir rapidamente o método
nomenológica a todos os conceitos básicos, forçando
fenomenológico de E. Husserl nos seguintes aspectos: um
assim seus críticos a ver sobretudo o que significam
método analítico-descritivo (busca o significado a partir
os conceitos criticados e obrigando a si próprio a fazer
do próprio fenômeno, sem conduzir a teorias metafísi-
descrições cuidadosas de seus conceitos e a usá-los
cas); uma ciência eidética (busca a essência do fenôme-
com consistência lógica, evitando assim o perigo de
no); conduz à certeza (evidência racional), sendo assim
tentar preencher as lacunas lógicas com material
uma disciplina a priori; e fundamentalmente é um mé-
devocional (Tillich, 1951/2001, p. 120).
todo derivado de uma atitude, pois se presume ser sem
pressupostos (“Voltar às coisas mesmas”). Dessa breve
É importante salientar que existe uma diferença en-
caracterização, destaca-se o que Husserl comentou em
tre a fenomenologia religiosa e a teologia, porque para a
sua Introdução da obra Idéias para uma Fenomenologia
teologia há uma impossibilidade da universalização da
Pura e para uma filosofia fenomenológica (1913): a feno-
experiência religiosa dada pela revelação. Isso significa
menologia possibilita “aprender a se mover livremen-
que cada revelação tem um caráter concreto e pessoal que
te nela, sem nenhuma recaída nas velhas maneiras de
o universal e o abstrato não abrangem. Esta crítica visa
orientar-se, aprender a ver, diferenciar, descrever o que
esclarecer que a teologia tillichiana, mesmo aplicando a
está diante dos olhos, exige, ademais, estudos próprios e
fenomenologia, não pode ser confundida e nem se asse-
laboriosos”. (Husserl, 1913/2006, p. 27).
melhar com a fenomenologia da religião.
Em Husserl, a Fenomenologia caminhou também na
Pode-se dizer, então, que Paul Tillich foi um precur-
ontologia, porque tinha o objetivo de encontrar o funda-
sor no esclarecimento destas diferenças, mesmo que de
mento das ciências e, para isso foi necessário ampliar
maneira implícita, já que formulou esta crítica em seus
o método para que se levasse à análise ao originário do
próprios estudos. Assim, é devido salientar que existe
ser. Ao se caminhar rumo à origem do ser, penetra-se
uma diferença em se utilizar metodologicamente a feno-
necessariamente no âmbito do ser. O fundamento dos
menologia na teologia e de concebê-la como fenomeno-
conceitos está naquilo que não varia, ou seja, no invari-
logia da religião. O caminho da fenomenologia filosófi-
ável, o que permanece. Segundo a concepção de Husserl
ca, de sua contribuição como fenomenologia da religião
(1913/2006), o invariável é a essência do ser, aquilo que
e de ser um recurso metodológico das ciências da reli-
permanece e, por isso o invariável passa a ser entendido
gião, faz-se necessário para compreendermos a influên-
como essência ontológica. Dessa forma:
cia da fenomenologia em Paul Tillich. Por fim, o último
aspecto a ser destacado é a aproximação e a semelhança
não é no âmbito das ciências de fatos ou experimen-
da Fenomenologia com a teologia de Tillich no âmbito da
tais, mas exclusivamente no âmbito das ciências
ontologia. Sem dúvida, é na ontologia tillichiana que a
eidéticas, que Husserl fala de ‘ontologias’ e ‘ontologia’.
fenomenologia se fez presente como método e atitude.
O caráter hierárquico que aqui se manifesta leva-nos
A partir destes esclarecimentos iniciais sobre a com-
a dois grandes grupos, o primeiro das quais determi-
preensão de Tillich da Fenomenologia, pode-se indicar
na as ‘ontologias regionais’; o segundo, a ‘ontologia
os possíveis encontros metodológicos do teólogo com o
formal’. (Fragata, 1965, p. 23)
método. A Fenomenologia tem primeiramente o caráter
de ser uma epistemologia, ou seja, de analisar a experi-
Assim, evidencia-se a questão do ser originariamente
ência religiosa a partir dela mesmo. Sabe-se que muitos
como uma questão fenomenológica, porque “a fenomeno-
conceituam a experiência religiosa com conceitos e idéias
logia é concebida como uma ontologia a partir das con-
pautados em ideologias ou conceitos filosóficos. A pro-
dições a priori dos objetos e em seu conteúdo categorial.
A r t i g o
139
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 137-142, jul-dez, 2011

Tommy A. Goto
A ontologia husserliana se preocupa em revelar as estru-
de Heidegger, tais como a teologia de Rudolf Bultmann
turas internas do mundo e seus domínios como indica-
ou de Hans Jonas. Algumas teologias contemporâneas e
dores do ser” (Josgrilberg, 2001, p. 164).
posteriores à Fenomenologia de Husserl e Heidegger, so-
Para a teologia tillichiana, esses aspectos metodoló-
freram também revisões epistemológicas e ontológicas,
gicos da Fenomenologia de Husserl foram tratados com
seja no aspecto da aceitação ou negação, tais como as te-
atenção, pois Tillich encontrou neles a garantia de poder
ologias de Gianni Vattimo, Jean Luc-Marion, Jean- Louis
rever e validar os conceitos já concebidos pela filosofia e
Chrétien e Jean-Yves Lacoste.
teologia. Para Tillich (2001) a Fenomenologia propicia a
É notório destacar que também por este motivo, a fe-
compreensão do sentido originário dos fenômenos, indo
nomenologia influenciou, além das teologias às ciências
diretamente a eles pela intuição originária, saindo das
da religião. Essa influência fenomenológica às ciências
abstrações metafísicas dos conceitos chegando à evidên-
religiosas se mostrou basicamente de duas maneiras,
cia. Rever os conceitos teológicos pela Fenomenologia
como estabelecem Filoramo & Prandi (1999): uma, estru-
é dá-los o caráter de certeza. Nesse sentido, o caminho
turando-se como uma disciplina particular, denominada
que Tillich elege para a análise da experiência religiosa
Fenomenologia da Religião; e outra, como recurso meto-
será o caminho do sentido originário do ser, ou seja, para
dológico para outras disciplinas, filosofia, psicologia, an-
além dos processos lógicos e da análise da consciência.
tropologia, história ou como no caso: a teologia.
Percebe-se aqui uma análise se desenvolveu como onto-
Mas, ainda é importante comentar que existe uma di-
logia, ou seja, a partir de uma “razão ontológica”.
ferença em se utilizar à fenomenologia na teologia e ser
Além da Fenomenologia se constituir como um méto-
uma fenomenologia teológica. A teologia fenomenológica
do ou uma ciência de rigor, também se constituiu como
se diferencia da teologia – mesmo quando essa se utili-
ontologia, principalmente à partir da contribuição de
za da fenomenologia como método – porque põe “entre
Martin Heidegger. Com Heidegger, a Fenomenologia e a
parênteses” a questão da prova ou não da existência de
Ontologia (Fenomenologia Hermenêutica) se tornaram
Deus. A teologia fenomenológica, como define Maldonado
um único meto do de investigação e o objetivo de toda a
(2003), busca o descobrimento de todo o sentido da trans-
filosofia. Porque a ontologia para resgatar o sentido pri-
cendência que se origina na vivência, ou seja, no campo
meiro do ser só é possível, então, como fenomenologia.
das vivências.
Isso é fortemente evidenciado na § 7 da obra Ser e Tempo
Voltando a teologia tillichiana, diga-se que se define
(Heidegger, 1927/1993) na qual comenta:
fundamentalmente pelo método de correlação e não pela
fenomenologia. Entretanto, a fenomenologia auxiliou a
Ontologia e fenomenologia não são duas disciplinas
correlação no sentido validar os conceitos polares que são
diferentes da filosofia ao lado de outras. Ambas
correlacionados. A fenomenologia precedeu a correlação
caracterizam a própria filosofia em seu objeto e em
na análise ontológica, ou seja, ela está presente na análi-
seu modo de tratar. A filosofia é uma ontologia feno-
se existencial. Os conceitos correlacionados são funda-
menológica e universal que parte da hermenêutica
mentalmente ontológicos e para a descrição rigorosa desta
do dasein, a qual, enquanto analítica da existência,
ontologia Tillich fez buscou uma fundamentação feno-
amarra o fio de todo questionamento filosófico no lu-
menológica. Tem-se em algumas obras a Fenomenologia
gar de onde ele brota e para onde retorna. (Heidegger,
na fundamentação da análise ontológica e do método de
1927/1993, p. 69)
correlação, definindo estruturalmente a teologia. Somente
pela fenomenologia não se tem uma teologia tillichiana,
Com a publicação de Ser e Tempo, a filosofia colocou-
mas é a partir da correlação que a teologia se fez presen-
se paradigmática devido à desconstrução da onto-teo-
te, principalmente na correlação do ser e Deus.
metafísica e da primazia das ciências empíricas. Para
A Fenomenologia dada antecipadamente à correlação
Heidegger, a ontologia deve se constituir como uma onto-
se mostrou de forma ontológica. Para atingir o fundamen-
logia fundamental, ou seja, deve-se voltar às coisas mes-
to do ser, a compreensão fenomenológica se apresentou
mas e ir diretamente a questão do ser sem passar pelas
como melhor método, por buscar diretamente o fenôme-
especulações anteriores. Para isso o resgate da questão
no naquilo que se manifesta, sem rodeios metafísicos
do ser deve ser colocado, fundamentalmente, pela per-
ou especulativos. Essa ontologia presente na correlação
gunta do sentido do ser. Comenta Heidegger que: “Deve-
surgiu como fenomenológica. Goto (2004) destaca, então,
se efetuar essa destruição seguindo o fio condutor da
três características da ontologia tillichiana como fenome-
questão do ser até se chegar às experiências originárias
nológica: a) a primazia do retorno ao originário (sentido
em que foram obtidas as primeiras determinações do
originário do ser-essências); b) a estruturação de catego-
ser que, desde então, tornaram-se decisivas” (Heidegger,
rias ontológicas (categorias existenciárias e não metafí-
1927/1993, p. 50).
sicas); e c) o fato de a análise ontológica só ser possível
A teologia européia não poderia deixar de ser in-
como descritiva (pela experiência).
fluenciada diretamente por esta mudança ontológica
Essas são as semelhanças que mais caracterizam a
A r t i g o
com o advento do método fenomenológico-hermenêutico
ontologia tillichiana como uma ontologia fenomenológi-
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 137-142, jul-dez, 2011
140

Fenomenologia e Experiência Religiosa em Paul Til ich
ca. Contudo, ainda como defende Goto (2004), a análise
cial-crítico, ou seja, a descrição do caráter concreto úni-
ontológica tillichiana busca as significações originárias
co da experiência. Assim, temos na Teologia Sistemática
na correlação, estruturando-se em quatro níveis: 1) a es-
a presença antecedente da fenomenologia, como feno-
trutura ontológica básica; 2) os elementos que consti-
menologia crítica.
tuem a estrutura básica; c) as características do ser (con-
A Coragem de ser (1952/1973) é a obra na qual Tillich
dições da existência) e, por fim: 4) as categorias do ser
se mostra mais fenomenológico. Isso porque a fenome-
e conhecer.
nologia está no âmbito de sua ontologia, que difere da
Diante dessas apropriações é importante salientar
fenomenologia crítica da sistemática. Nesta obra, evi-
que a fenomenologia husserliana não descartou a pólo
dencia-se a análise da angústia por ver nela o modo de
existencial, apenas evitou a palavra “existência”, como
análise fenomenológico. Tillich analisou a angústia
enfatiza Fragata (1965), para que não houvesse uma con-
assemelhando-se com os critérios da ontologia feno-
fusão entre a existência fática e a própria atitude natural.
menológica de Heidegger, que viu nesta ontologia fun-
Ainda, para Husserl a existência e a essência estão cor-
damental a única possibilidade de encontrar o senti-
relacionadas, sem que uma deixe de apreender a outra.
do originário do ser. Foi na ontologia da angústia que
Pode-se postular a tese que Heidegger entendeu e seguiu
Tillich mostrou sua análise ontológica como análise
esse caminho e, por isso, elegeu a fenomenologia como
fenomenológica.
método de sua ontologia.
Nessa obra é analisado a influencia da fenomeno-
Para explicitar o pensamento filosófico e teológico de
logia-hermenêutica de M. Heidegger na qual se percebe
Paul Tillich como fenomenológico, elegeu-se três obras
que Tillich a reproduziu metodologicamente como um
que evidenciam a presença desta metodologia nos pontos
recurso analítico. Ao mesmo tempo, cabe advertir que a
que foram definidos como características fenomenológi-
análise ontológica da angústia que Tillich descreveu se
cas. São elas: Teologia Sistemática (1951/2001), A Coragem
afasta da ontologia heideggeriana de Ser e Tempo. Isso
de ser (1952/1973) e Amor, Poder e Justiça (1954/1970), e
acontece porque Tillich propõe a superação da angústia
em cada uma delas aponta-se resumidamente caracterís-
pela coragem de ser do ponto de vista teológico ficar res-
ticas fenomenológicas.
trito à facticidade da existência e no niilismo heidegge-
Na Teologia Sistemática (1951/2001), como citado ante-
riano do ser-para-a-morte. Nesse sentido, para Tillich, “a
riormente, a Fenomenologia foi abordada como um méto-
coragem de ser é uma expressão de fé, o que a ‘fé’ significa
do complementar ao método da correlação na construção
deve ser entendido através da coragem de ser”. (Tillich,
de uma teologia sistemática. Esta característica não apare-
1952/1973, p. 134).
ce explicitamente, porque como colocado anteriormente,
Tem-se aqui uma fenomenologia do ser, exposto por
Tillich tem como método teológico principal o “método
sua coragem de ser. Essa análise fenomenológica buscou
da correlação”, sendo sua sistemática construída funda-
o retorno ao originário da coragem a partir da descrição
mentalmente da correlação entre a questão existencial e
dos elementos constitutivos de ser, destacando assim
a resposta teológica. “A teologia sistemática usa o méto-
seus pólos correlacionais dos modos de ser: os tipos de
do de correlação. [. .] O método de correlação explica os
angústia e a coragem de ser. Por isso, pode-se também
conteúdos da fé cristã através de perguntas existenciais
falar em uma fenomenologia da angústia; uma fenome-
e de respostas teológicas, em interdependência mútua”
nologia que talvez tenha faltado na ontologia fenomeno-
(Tillich, 1951/2001, p. 58).
lógica de Martin Heidegger.
Entretanto, além da questão metodológica acima ana-
A obra Amor, Poder e Justiça – Análise ontológica e
lisada, a fenomenologia está presente também na análise implicações éticas (1954/1970) representa outro exemplo
ontológica, implícita na correlação. É na análise existen-
da fenomenologia-hermenêutica na análise ontológica
cial que a fenomenologia aparece, para garantir o rigor
do teólogo. Nessa obra tem-se a ontologia do amor como
dos conceitos que formam os pólos da correlação. O pólo
uma fenomenologia do amor, pois nela o teólogo buscou
fenomenológico é o pólo existencial (perguntas), justa-
a primazia do sentido do amor, evitando as ciladas, os
mente por ser dado pela experiência da compreensão do
problemas e os maltratos que a palavra “amor” esteve su-
ser. “A análise da existência, inclusive o desenvolvimento
jeita. Com isso Tillich descreveu fenomenologicamente
das perguntas implícitas na existência, é tarefa filosófica
o amor a partir de sua natureza (origem) ontológica, por-
[...]”. (Tillich, 1951/2001 p. 60).
que só assim poderia resgatar o seu sentido originário
No entanto, perguntas e respostas estão correla-
(ser amor) ao descrever as diferentes formas de amar, a
cionadas, logo não se pode separá-las fenomenologi-
partir da experiência.
camente e, para isso Tillich propõe uma outra versão
Isso é percebido logo no Prefácio da obra na qual
fenomenológica, isto é, uma fenomenologia crítica. A
Tillich afirma: “A ontologia precede toda outra tentativa
fenomenologia crítica é permitida, desde a fenomeno-
de aproximação cognitiva a realidade. (. .) Ninguém pode
logia enquanto método se tornou uma possibilidade de
fugir da ontologia se quiser conhecer. Já que conhecer
pensamento. Tillich postulou a fenomenologia crítica,
significa reconhecer alguma coisa como ser”. (Tillich,
como uma fenomenologia que tem o elemento existen-
1954/1970, p. 32-33). Na análise fenomenológica do amor,
A r t i g o
141
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 137-142, jul-dez, 2011

Tommy A. Goto
percebe-se como Tillich conheceu o ser humano, ou seja,
Referências
a partir da descrição e compreensão do ser e, não de con-
ceitos e teorias.
Filoramo, G. & Prandi, C. (1999). As ciências das religiões. São
O amor é um conceito ontológico, deve ser analisado
Paulo: Paulus.
pela fenomenologia-hermenêutica, ou seja, deve-se co-
Fragata, J. (1965). O conceito de ontologia em Husserl. Em Julio
meçar pela pergunta: o que significa o amor (ser)? Nisso,
Fragata (Org.). Perspectivas da fenomenologia de Husserl [pp.
destaca Tillich, evitam-se muitas ciladas em ética social,
17-43]. Coimbra: Centro de Estudos Fenomenológicos.
teoria política e educação pela incompreensão do caráter
ontológico do amor. Em suas análises descritivas, Tillich
Goto, T.A. (2004). O Fenômeno Religioso – A Fenomenologia em
conclui que o “amor é unir o que está separado. A reunião
Paul Tillich. São Paulo: Paulus.
pressupõe separação daquilo que estava essencialmente
Heidegger, M. (1993). Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes (Original
junto. (. .) Portanto, o amor não pode ser descrito como
publicado em 1927).
a união do estranho, mas como a reunião do separado”.
(Tillich, 1954/1970, p. 36). Como analisa Goto (2004),
Husserl, E. (2006). Idéias para uma Fenomenologia Pura e para
uma filosofia fenomenológica. Aparecida: Idéias & Letras
para o teólogo toda a vivência amorosa, seja emotiva ou
(Original publicado em 1913).
ética, está fundada originalmente em uma vivência do
ser doadora de sentido.
Josgrilberg, R.S. (2001). Husserl: as Investigações Lógicas – o
É importante advertir que nessa obra Tillich ainda
projeto transcendental e a ontologia. Em Ricardo Timm de
promove a fenomenologia do poder e da justiça, pois
Souza (Org.). Fenomenologia Hoje – Existência, ser e sen-
tido no alvorecer do século XX
[pp. 159-177]. Porto Alegre:
esses estariam ligados ao fenômeno do amor. Os mes-
EDIPUCRS.
mos problemas e confusões na análise do amor estão
em relação com o poder e com a justiça, por isso todos
Maldonado, C. E. (2003) Significado espiritual de la filosofía
eles devem ser levados a uma análise ontológica do tipo
fenomenológica. Em: Actas del IX Congreso Internacional
fenomenológica.
de Filosofía Latinoamericana. Desafíos de la religión en la
época del multiculturalismo y la globalización
. [págs. 183-
193]. Bogotá: Universidade Santo Tomás.
Considerações finais
Spiegelberg, H. (1965). The Phenomenological Movement – a
historical introduction. Netherlands: Martinus Nijhoff/
A partir desta análise pode-se dizer que o filóso-
The Hague.
fo e teólogo Paul Tillich promoveu em algumas obras,
Tillich, P. (1976). A Coragem de Ser. Rio de Janeiro: Paz e Terra
a Fenomenologia como recurso metodológico em suas
(Original publicado em 1952).
análises teológicas e filosóficas. Ainda, podemos afirmar
como foi evidenciado nessa crítica que Tillich conheceu
Tillich, P. (1970). Amor, Poder y Justicia – Análisis ontológicos
o método fenomenológico e reconheceu a importância
y aplicaciones éticas. España: Ediciones Ariel (Original
dele como um método descritivo das essências por man-
publicado em 1954).
tém, fundamentalmente, o rigor daquilo que pretende
Tillich, P. (1973). Filosofia de la Religion. Buenos Aires:
investigar.
Megápolis (Original publicado em 1969).
No entanto, ainda é preciso analisar a relação do his-
tórico da fenomenologia com as leituras de Tillich, isto
Tillich, P. (2001). Teologia Sistemática. São Paulo/São Leopoldo:
Paulinas/Sinodal (Original publicado em 1951).
é, reconhecer e mapear com maior precisão quais foram
os textos que Tillich fez da Fenomenologia de Husserl,
Heidegger ou outro filósofo fenomenólogo para entender
alguns aspectos de sua crítica.
Tommy Akira Goto - Doutor em Psicologia pela PUC-Campinas, Mestre
Paul Tillich foi um dos pioneiros ao incluir o méto-
em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo,
do fenomenológico na teologia, não de forma sistemática,
Professor Adjunto I da Universidade Federal de Uberlândia. Endereço
Institucional: Universidade Federal de Uberlândia, Faculdade de
porém dialogando criticamente com ela. Disso conclui-
Artes, Filosofia e Ciências Sociais, Faculdade de Psicologia. Av. Pará,
se que Tillich não foi fenomenólogo da religião e nem
1720, Bairro Umuarama. CEP 38400-902, Uberlândia (MG). E-mail:
um teólogo fenomenológico, segundo a análise, mas re-
tommy@ipsi.ufu.br
correu a Fenomenologia como recurso metodológico nas
situações que só ela poderia ser eficaz, como é o caso da
razão e do ser.
Recebido em 28.08.11
Aceito em 30.11.11
A r t i g o
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 137-142, jul-dez, 2011
142

A Ontologia da Carne em Merleau-Ponty e a Situação Clínica na Gestalt-Terapia: Entrelaçamentos
a ontologia da CaRne em meRleau-ponty e a Situação
ClíniCa na geStalt-teRapia: entRelaçamentoS
The Ontology of the Flesh in Merleau-Ponty and Clinical Situation in the Perspective of Gestalt-Therapy
La Ontología de la Carne en Merleau-Ponty y la Situación Psicoterápica desde la Perspectiva de la
Terapia Gestalt
môniCa BoTelho alvim
Resumo: Neste trabalho discutimos a clínica da Gestalt-Terapia como campo de experiência, buscando ampliar sua compreen-
são por meio do diálogo com Merleau-Ponty. Nosso ponto central é a experiência no mundo com o outro e o lugar dessa expe-
riência no processo de significação da existência. Sublinhando na Gestalt-Terapia: a) as noções de campo organismo-ambiente
e fronteira de contato como concepções descritivas da experiência no mundo, um processo de desdobramento temporal que
envolve diferença e criação de sentidos; b) a proposta metodológica de que a psicoterapia deve buscar concentrar-se na situa-
ção, na estrutura da experiência aqui e agora; c) a consideração da psicoterapia como uma situação que envolve eu e outro em
diálogo. Considerando que Merleau-Ponty comunga com a Gestalt-Terapia raízes e influências e que faz um retorno ao mun-
do e à experiência na busca do sentido, buscamos fazer aproximações com seus últimos escritos, quando propõe uma ontolo-
gia da carne e pensa a experiência como fissão, diferença e reversibilidade, introduzindo com a noção de intercorporeidade a
possibilidade de “sentir com”, ou seja, encontrar o outro não no espaço objetivo, da reflexão, mas no campo do irrefletido e da
experiência em estado bruto.
Palavras-chave: Gestalt-terapia; Merleau-Ponty; Intercorporeidade; Ser bruto; Carne.
Abstract: In this work we discuss Gestalt therapy clinical practice as a field of experience, seeking to broaden its understand-
ing through dialogue with Merleau-Ponty. Our focal point is experience with the other in the world and the place of experi-
ence in the process of signification of existence. Underlining in Gestalt-Therapy: a) the notions of environment-organism field
and contact boundary as descriptive conception of the human experience, an unfolding temporal process that involves dif-
ference and meaning-making; b) Its methodological proposal that psychotherapy should seek to focus on the situation, ie,
the structure of experience here and now; c) The consideration of psychotherapy as a situation involving self and other in di-
alogue. Considering that Merleau-Ponty shares with Gestalt Therapy roots and influences and both propose a return to the
world and experience in the search for meaning, we seek to make comparisons with his late thought, when he proposes an on-
tology of the flesh and thinks experience as fission, difference and reversibility, to introduce by the notion of intercorporeal-
ity, the possibility of “feeling with”, ie, find the other not in the objective space of reflection, but in the realm of thoughtless.
Keywords: Gestalt-Therapy; Merleau-Ponty; Intercorporealty; Brute being; Flesh.
Resumen: Hablamos de la atención clínica de la terapia Gestalt como un campo de experiéncia, tratando de ampliar su com-
prensión mediante el diálogo con Merleau-Ponty. Nuestro punto central es la experiencia con otros en el mundo y el lugar de la
experiencia en el proceso de significación de la existencia. Destacando en la terapia gestalt: a) las nociones de campo organis-
mo-entorno y el frontera-contacto como concepción descriptiva de La experiencia en el mundo, un proceso de desarrollo tempo-
rale que implica la diferencia y la producion de significado; b) la metodología propuesta que la psicoterapia debe tratar de cen-
trarse en la situación, la estructura de la experiencia aquí y ahora; c) la consideración de la psicoterapia como una situación de
diálogo entre yo y el otro. Teniendo en cuenta que Merleau-Ponty comparte con las raíces de la Terapia Gestalt e influencias y
ofrece regreso al mundo y la experiencia en la búsqueda de sentido, tratamos de hacer comparaciones con sus últimos escritos,
cuando el filósofo propone una ontología de la carne y piensa en la experiencia como fisión, diferencia y reversibilidad. Ali in-
troduce la posibilidad de “sentir con” a través de la noción de intercorporeidad , es decir, encontrar el otro en el espacio oscuro
de la irreflexión.
Palabras-clave: Terapia Gestalt; Merleau-Ponty; Intercorporeidad; Ser Bruto; Carne.
“Doravante somos plenamente
introdução
visíveis para nós mesmos,
graças a outros olhos”
A Gestalt-terapia introduziu, no âmbito da psicolo-
(Maurice Merleau-Ponty, 1990, p. 139)
gia, um pensamento que ressignificava as relações pes-
soa-mundo, transitando de um paradigma intrapsíqui-
co para outro organísmico, definindo a psicologia como
A r t i g o
143
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 143-151, jul-dez, 2011

Mônica B. Alvim
o estudo da operação da fronteira de contato no campo
problema do conhecimento e da verdade que oferecesse
organismo-ambiente. A fronteira não é lugar, mas cam-
uma alternativa ao intelectualismo e ao empirismo. A
po de presença, vivido temporalmente, corporalmente,
noção de estrutura oferece um modo de conceber as re-
quando nos deparamos com o novo, diferente ou estra-
lações com o mundo como forma ou configuração: um
nho, que buscamos significar a partir da criação. A psi-
homem situado, matéria, vida e espírito entrelaçados
coterapia busca concentrar-se na situação, na estrutura
com o mundo físico, sócio-cultural e histórico. É sua pri-
da experiência aqui e agora, uma gestalt formada a partir
meira versão para uma concepção que considera a ver-
do campo organismo-ambiente e que engloba eu e outro,
dade fruto de uma operação de entrelaçamento espírito-
eu e mundo. Estrutura que não tem o centro no sujeito,
corpo-mundo.
tampouco no ambiente ou no outro, indicando uma con-
Tomando a percepção como âmbito do originário, na
cepção que considera o ser-no-mundo e que não pretende
Fenomenologia da Percepção (1945/1994) o filósofo enfa-
atribuir, senão à experiência e à espontaneidade corporal
tiza o corpo como campo de presença, autor de uma sín-
situada, a fonte da produção de sentidos. Tal processo, de-
tese prática que dota a consciência de um sentido de “eu
nominado contato, envolve, assim a recriação de formas,
posso”. Propõe assim um conhecimento tácito dado por
um processo interminável de ressignificação da história
uma praktognosia, que não subordina o conhecimento
a partir da experiência que é temporalidade.
a uma função simbólica ou objetivante, para opor-se à
Partindo de minha filiação à Gestalt-Terapia e con-
reflexão idealista que transforma o mundo em correlato
cebendo a situação clínica como um campo de presen-
da consciência. De acordo com Moutinho (2005, p. 11),
ça, busco, em minhas reflexões, ampliar o significado do
Merleau-Ponty tem como problema dar legitimidade ao
trabalho psicoterápico com a experiência, pesquisando
fenomenal face ao pensamento objetivo, mostrar que a
e discutindo suas origens fenomenológicas e dialogando
experiência irrefletida é o transcendental. Para isso: a)
com Merleau-Ponty. Em seus últimos escritos, Merleau-
recorre às descrições psicológicas que implicam sempre
Ponty enfatiza a noção de carne e pensa “a experiência
em contradições no sistema eu-outrem-mundo (psíquico/
já não como acoplamento, mas, ao inverso, como fissão
fisiológico, solipsismo/comunicação, em si/para si); e, b)
(. .) sobre o fundo de unidade da carne” (Dupond, 2010,
ao contrário de buscar resolver tais contradições, Merleau-
p. 15). A carne “é uma noção última que não é união ou
Ponty busca despertar a experiência do corpo, do mundo
composição de duas substâncias, mas pensável de per si
e de outrem as tornando irremediáveis e colocando-as no
e mostra uma relação do visível consigo mesmo que me
centro da filosofia para mostrar que as contradições não
atravessa e me transforma em vidente” (Merleau-Ponty,
são da ordem das aparências, mas são – elas próprias –
1964/2000, p. 137). Conclui que esse movimento pode
o coração da experiência e o verdadeiro transcendental.
animar igualmente outros corpos, aludindo a uma pos-
De fato, tal como compreendemos, a redução de Merleau-
sibilidade de reversibilidade entre um eu e o outro seme-
Ponty é para o domínio da experiência, uma existência
lhante, uma sinergia entre diferentes organismos, uma
capturada pelas teses. Para refletir sobre o irrefletido da
intercorporeidade, instalando um outro em minha pai-
experiência, ele toma a trilha de Kurt Goldstein, busca o
sagem. O outro se insere na junção do mundo e de nós
eu impuro, onde a tese falha, a patologia. Vai pelo avesso,
mesmos, ele é um eu generalizado. É assim que minha
reflexão radical, afirmando uma postura anti-teórica, tal
relação corporal com o mundo pode ser generalizada –
como afirmou M.J.Muller-Granzotto (comunicação pes-
e podemos falar de uma intercorporeidade. O ser bruto
soal, novembro de 2005). Na doença, cria-se algo inusita-
envolve uma totalidade que abarca a diferença, unidade
do, que não se submete a teses universais. Fala da doença
na diferença, quiasma vidente-visível, sensível- sentien-
onde se aprende algo, cria-se algo. É aí que se radicaliza
te, eu-outro.
a postura anti-teórica.
Neste trabalho proponho refletir acerca da experiên-
De acordo com a compreensão de Moutinho (2005),
cia clínica em Gestalt-Terapia partindo da discussão de
a reflexão de segundo grau que Merleau-Ponty propõe –
algumas concepções centrais feitas por Merleau-Ponty
e que converte o campo fenomenal em campo transcen-
no âmbito de sua ontologia do Ser Bruto, demarcando
dental – é desenvolvida a partir de suas reflexões sobre
alguns aspectos gerais que permitem uma aproxima-
o tempo feitas na terceira parte da Fenomenologia da
ção do filosofar e da psicoterapia e, por fim, a partir de
Percepção (1945/1994), onde o filósofo anuncia o que será
um fragmento de experiência clínica, entretecer os dois
desenvolvido e aparecerá de modo definitivo mais à fren-
campos de discussão da experiência humana no mundo
te, quando então tomará o projeto ontológico: a recusa à
com o outro.
concepção de uma identidade através da constituição. O
filósofo, nas notas que darão origem ao livro póstumo O
visível e o invisível
(1964/2000), recusa um tipo de refle-
1. merleau-ponty: elementos de sua ontologia
xão que “recua sobre as pegadas de uma constituição”
(Merleau-Ponty, 1964/2000, p. 41). Abandonando a inten-
Desde a primeira obra, a Estrutura do Comportamento,
cionalidade de ato, ele explora a noção de síntese passiva,
A r t i g o
Merleau-Ponty (1942/2006) buscara uma solução para o
na qual concebe o tempo não como sucessão, mas como
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 143-151, jul-dez, 2011
144

A Ontologia da Carne em Merleau-Ponty e a Situação Clínica na Gestalt-Terapia: Entrelaçamentos
passagem e movimento, uma transição que se dá em blo-
que surge como um visível. Um instante efêmero em
co, modificação contínua e não continuidade sucessiva,
que há uma cristalização de algo que emerge de uma
uma síntese de transição que não tem autor. O tempo já
trama, feita por um tecido invisível, a carne, minha e
é anunciado aqui como movimento centrífugo, dissolu-
também do mundo. O invisível seria a “armação do vi-
ção, deiscência, tempo como diferença, ou seja, afirma
sível que dá ao visível sua presença significante, sua es-
Moutinho (2005, p. 41):
sência ativa” (Dupond, 2010, p. 50). Merleau-Ponty esta-
belece entre vidente e visível uma relação originária e
Cada instante se afirma por diferença com outros, ele
íntima que se funda numa espessura que se comunica
não é apenas uma totalidade, mas é uma totalidade
por horizontes. O visível não é uma coisa idêntica a si
que cava a diferença em seu interior e assim ele se
mesmo que se oferece nua a uma visão total do viden-
abre para uma relação a si (. .) condição para qual
te, mas é sim “uma espécie de estreito entre horizontes
Merleau-Ponty poderá dizer que o tempo não é para
exteriores e interiores sempre abertos (Merleau-Ponty,
alguém, mas que ele é alguém.
1964/2000, p. 129), toca e faz ressoar à distância outras
regiões, criando por diferenciação uma modulação efê-
É nessa direção que em seus últimos escritos Merleau-
mera deste mundo. O vermelho que vejo em algo liga um
Ponty recusa explicitamente o cogito e muda o foco do
tecido visível e invisível. É uma “pontuação” no campo
corpo para a noção de carne, inaugurando uma nova on-
das coisas vermelhas e também no das roupas verme-
tologia – a ontologia do ser bruto – que passarei a discutir
lhas; da bandeira da revolução russa e dos vestidos das
brevemente a partir de uma articulação que envolve as
mulheres ou dos mantos dos bispos. E não será o mes-
noções de diferenciação ou deiscência, carne, ser bruto,
mo vermelho se aparecer numa constelação ou noutra
intercorporeidade e fé perceptiva.
(Merleau-Ponty, 1964/2000, p. 129).
1.1 A Experiência como Diferenciação que faz surgir 1.2 A Carne como Elemento
um Visível
Merleau-Ponty propõe uma nova compreensão, que
Merleau-Ponty pensa a experiência já não como aco-
coloca o originário na carne. Meio formador do sujeito e
plamento, mas, ao inverso, como fissão que faz nascer
do objeto, a carne é equivalente ao que os gregos deno-
um visível do fundo de um tecido invisível que é “pos-
minavam elemento (água, terra, fogo). A carne, para ele:
sibilidade, latência e carne das coisas” (Merleau-Ponty,
(. .) não é matéria, não é espírito, não é substância. (. .)
1964/2000, p. 130). O visível surge de uma diferenciação,
espécie de princípio encarnado que importa um estilo de
é uma espécie de “cristalização momentânea da visibili-
ser em todos os lugares onde se encontra uma parcela sua.
dade”, é “menos cor ou coisa que diferença entre as coisas
Neste sentido, a carne é um ‘elemento’ do Ser (Merleau-
e as cores” (Merleau-Ponty, 1964/2000, p. 129), ou seja,
Ponty, 1964/2000, p. 136).
um visível nasce da diferença entre as coisas ou entre as
Os elementos são representativos do todo, estão no in-
cores, reunidas em uma constelação aqui-agora. Podemos
dividual e no universal como um emblema, um estilo de
aqui nos remeter a Paul Cézanne e os impressionistas que
ser. A carne é elemento comum do sujeito e do mundo,
instauraram na pintura uma nova ordem que partia jus-
corpo e mundo se constituem reciprocamente numa ex-
tamente de uma proposta que não diferenciava o dese-
periência tecida no fundo carnal. Ela é o ponto de parti-
nho da cor, a forma do conteúdo e postulava certa “pas-
da, origem, antes do que nada é pensável. Como elemen-
sividade” para que o desenho nascesse espontaneamente
to originário, possibilidade e tecido invisível, a carne
do contraste das cores. Para ele, delinear os contornos do
sustenta o visível que irradia um modo de ser, aparece
desenho era uma “falha que se deve combater a todo cus-
como cristalização momentânea a partir da experiência
to (. .) ao ser consultada a natureza nos dá os meios para
no mundo que reúne sujeito e mundo, corpo e coisas,
atingir esses fins” (Cézanne, citado por Chipp, 1999, p.
num horizonte comum. Ela liga aquilo que é visível –
19). Dizia com isso que se o pintor estivesse atento “à ri-
coisa do mundo e aquele que vê – corpo, sendo estofo de
queza de colorações que animam a natureza” (Merleau-
que ambos são feitos, indicando uma relação de paren-
Ponty, 1948/1980, p. 118), a forma brotaria espontanea-
tesco que dá àquele que vê uma familiaridade, por assim
mente da expressão. “Pintando, desenha-se; mais a cor se
dizer, prévia com o visível.
harmoniza, mais o desenho se precisa” (Cézanne, citado
Aqui está em jogo uma nova visão das relações sujei-
por Merleau-Ponty, 1948/1980, p. 118).
to-mundo que busca escapar das alternativas ser idên-
A pintura é referência importante para Merleau-
tico/fundido ou ser diferente/exterior, partes extra-par-
Ponty, que coloca a Visibilidade como um universal, tes. “Em vez de rivalizar com a espessura do mundo, a
uma possibilidade. É a partir de um movimento de en-
de meu corpo é, ao contrário, o único meio que possuo
trecruzamento momentâneo que um quiasma é produ-
para chegar ao âmago das coisas”, afirma Merleau-Ponty
zido como uma emergência possível, uma diferenciação
(1964/2000, p. 132).
A r t i g o
145
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 143-151, jul-dez, 2011

Mônica B. Alvim
As coisas não são achatadas, elas também são seres
no âmbito da experiência temporal e mundana. De acor-
em profundidade (como a roupa vermelha que conste-
do com Chauí (2002, p. 153-154):
lada nos remete ao horizonte da revolução) que só são
acessíveis a um sujeito que com elas coexista e não as
O ser bruto não é uma positividade substancial idên-
queira sobrevoar1. Coexisto com elas habitando-as com
tica a si mesma e sim pura diferença interna de que
meu corpo, meu olhar, meu tato. Como elas, tenho um
o sensível, a linguagem e o inteligível são dimensões
avesso, espessura, distância dentro-fora. Comunico-me
simultâneas e entrecruzadas (. .) não é também um
com elas por um entrecruzamento que só pode se dar
negativo, mas aquilo que, por dentro, permite a posi-
por sermos feitos da mesma carne, por essa familiarida-
tividade de um visível, de um dizível, de um pensá-
de prévia. É isso que permite encontrar uma correspon-
vel, como a nervura secreta que sustenta e conserva
dência entre seu fora (o vermelho constelado daquele
unidas as partes de uma folha (. .) é o invisível que
modo) e meu dentro (um horizonte que se conecta com
faz ver porque sustenta por dentro o visível (. .) o Ser
o horizonte daquela constelação que se me apresenta).
Bruto é a distância interna entre um visível e outro
Entre meu dentro (aquele que sente a partir do que é sen-
que é o seu invisível.
sível na coisa) e meu fora (aquele que pode ser sentido
enquanto sente). Com a noção de carne, o filósofo pro-
Quando Merleau-Ponty deixa o foco no corpo pró-
põe uma correlação, entrelaçamento corpo e mundo que
prio – o ponto de vista de um corpo-sujeito – para colo-
“comunica às coisas sobre as quais se fecha essa identi-
car o foco no corpo como carne, reafirma uma espécie de
dade sem superposição, essa diferença sem contradição”
passividade do eu ao ser bruto, esta totalidade complexa
(Merleau-Ponty, 1964/2000, p. 132).
composta por: eu, outro, percepção, cultura, historicida-
Merleau-Ponty acentua o corpo como aquele que tem
de, temporalidade. Instaura um campo primordial, um
uma dupla pertença ao âmbito do sujeito e do objeto. Está
a priori que correlaciona sujeito-objeto, uma indiferen-
na ordem do sujeito e das coisas. Busca fazer uma onto-
ciação original de onde brota o sentido – uma dimensão
logia da carne reabilitando o sensível. O que é visto e o
carnal. O ser bruto é uma dimensão primordial, anterior
que vê estão unidos por essa familiaridade primordial,
a toda atividade reflexiva:
carnal, seu encontro se dá como um quiasma, um entre-
cruzamento sensível-sentiente.
(. .) anterior a toda diferenciação em termos de sub-
Com a noção de deiscência – termo originário da bo-
jetividade. (. .) Trata-se de se recolocar na zona do há
tânica, que indica a abertura de um órgão quando atin-
preliminar, de nosso contato originário com o ser,
ge a maturação – Merleau-Ponty nos remete a uma nova
onde o saber não operou ainda a cisão entre o “subje-
compreensão. As contradições estão agora no cerne de
tivo” e o “objetivo” e no qual se institui uma primeira
suas propostas, não como simples contradições, mas
estratificação de sentido (Bonomi, 2004, p. 40).
como movimento de diferenciação, como deiscência da
carne, que é o originário. Se utilizarmos a metáfora da
Essa indiferenciação como subjetividade pode ser
botânica, um fruto, quando maduro, amolece e se abre,
compreendida como dimensão impessoal, geográfica,
oferecendo-se ao mundo como alimento para outros se-
biológica, sócio-histórica, uma complexidade irrefleti-
res, que se transformam e se abrem, oferecendo-se como
da, porém presente, que pode ser sentida de modo tácito
alimento para outro ser, para a terra, num ciclo de vida
e pertencente ao âmbito de uma intercorporeidade. Esse
interminável que mantém viva a vida, renovando-se e
ponto indica a passagem da intersubjetividade para a in-
transformando-se.
tercorporeidade realizada por Merleau-Ponty. Vinculando
Assim, o que brota e emerge como ser e visível não
a experiência da visibilidade ao corpo e postulando uma
é fruto de uma reflexão, mas de uma experiência de fis-
ontologia do sensível, Merleau-Ponty passa a pensar o sen-
são e diferenciação que faz surgir um visível (e um vi-
tido primordial a partir da experiência em estado bruto,
dente), sustentados por um invisível, horizonte carnal,
uma dimensão carnal que não é sustentada pela reflexão.
experiência espácio-temporal. De acordo com Dupond
A possibilidade de reversibilidade entre visível e vidente
(2010, p. 15), “já não se trata de pensar o ‘um’ sobre o
dada pelo corpo não é fruto de uma consciência e indi-
fundo de ‘dois’ (Si/o mundo), mas o ‘dois’ sobre o fun-
ca, antes, certa passividade, indiferenciação como sub-
do de ‘um’”.
jetividade, generalidade que pode ser partilhada como
Merleau-Ponty propõe um ser bruto como um ser de
intercorporeidade.
indivisão, totalidade prévia, experiência em estado bru-
to, não lapidado por um movimento reflexivo. Afirmando
uma ontologia do ser bruto, propõe que universalidade
1.3 A Intercorporeidade
e particularidade estão imbricadas numa relação íntima
Merleau-Ponty opõe-se ao subjetivismo psíquico, clas-
1 Coexistir é abrir-se ao horizonte comum, e, ao contrário, sobrevoar
sificando seus conceitos de míticos. Combate a intros-
seria vê-las acabadas, sem horizontes, fechadas em si e de mim
A r t i g o
pecção, não acredita em uma visão do interior, mas em
separadas. À minha subjetividade, submetidas.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 143-151, jul-dez, 2011
146

A Ontologia da Carne em Merleau-Ponty e a Situação Clínica na Gestalt-Terapia: Entrelaçamentos
“uma vida ao pé de si, uma abertura a si, mas que não
2. Situação Clínica e filosofia
desemboca em outro mundo diferente do mundo comum
– e que não é necessariamente fechamento aos outros”
A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo,
(Merleau-Ponty, 1964/2000, p. 29).
e nesse sentido uma história narrada pode
A experiência intercorporal é, assim, para Merleau-
significar o mundo
Ponty, uma experiência irrefletida, que nos dá o outro não
com tanta “profundidade” quanto um tratado de
como um espetáculo ao qual aprecio de fora. O filósofo
filosofia
afirma através da ontologia da carne a impossibilidade
Maurice Merleau-Ponty (1994, p. 19)
da constituição subjetiva e a possibilidade da instituição,
quando conclama a necessidade de que:
Ao me propor esse diálogo entre Gestalt-Terapia e
Merleau-Ponty, busco manter em meu horizonte os limi-
Se pare de definir primordialmente o sentir pela
tes de tal aproximação. Limites que não se colocam, en-
pertença a mesma consciência, compreendendo-o, ao
tretanto, sem ambigüidades, que considero – na mesma
contrário, como retorno sobre si no visível, aderência
ótica do filósofo – boas ambigüidades, aquelas que par-
carnal do sentiente ao sentido e do sentido ao sen-
tem de um campo comum de experiências impessoais.
tiente. Porquanto recobrimento e fissão, identidade
Essas experiências, apontadas a seguir, não são da Gestalt-
e diferença, essa aderência faz brotar um raio de luz
Terapia ou de Merleau-Ponty, mas de um campo comum
natural que ilumina toda a carne, não apenas a minha
de influências, certo espírito de época, demarcado por um
(Merleau-Ponty, 1964/2000, p. 138).
horizonte de tempo-espaço, filósofos, teóricos, história,
sociedade, política, um fundo, uma mesma carne.
Aqui ele afirma a dimensionalidade da experiência
Encontramo-nos nas propostas da Psicologia da
intercorporal, possibilitada e ao mesmo tempo instituinte
Gestalt, e nas críticas a ela; no pensamento de campo,
de um modo de ser, tornada carne quando, singularidade,
organísmico; nas tentativas de ultrapassar um intelectu-
particularidade espácio-temporal, minha expressão é to-
alismo ou um empirismo de um lado, um reducionismo
mada pelo outro como sua, dimensão universal.
psíquico ou comportamental de outro; encontramo-nos
A experiência intercorporal nos dá o outro como ou-
também na remissão constante à arte e à estética, na busca
tro eu, outro feito de minha substância, que me mos-
da expressão como criação, na oposição ao assujeitamen-
tra, através do seu olhar para o mundo que pensava ser
to e na ênfase à liberdade como poder instituinte de uma
“meu”, que vemos o mesmo mundo; que me mostra, atra-
corporeidade compreendida não como sujeito, mas como
vés dos seus olhos marejados de lágrimas que se dirigem
espontaneidade motora, nem ativa nem passiva, modo mé-
a uma cena do mundo, a “minha” dor. A presença do ou-
dio, nem consciência, tampouco inconsciência.
tro acrescenta ao paradoxo interno de minha percepção
Toda psicoterapia tem uma proposta de intervenção,
“este enigma da propagação no outro da minha vida mais
um método, construído com base em sua concepção da
secreta” (Merleau-Ponty, 1964/2000, p. 22).
pessoa, das relações pessoa-mundo, do funcionamento
humano em seu entrelaçamento com natureza e cultura
Não se coloca aqui o problema do alter ego porquanto
e nas tensões presentes nessas relações.
não sou eu que vejo, nem é ele que vê, ambos somos
Tomando uma dimensão não objetivista da psicolo-
habitados por uma visibilidade anônima, visão ge-
gia, tal como discute Merleau-Ponty na obra Ciências do
ral, em virtude dessa propriedade primordial que
Homem e Fenomenologia (1951/1973), que coloca o sujei-
pertence à carne de, estando aqui e agora, irradiar
to ou a consciência como objeto, fruto de determinações
por toda a parte e para sempre, de, sendo indivíduo,
externas ou sociais, é possível afirmar que há, no cer-
também ser dimensão e universal (Merleau-Ponty,
ne do trabalho psicoterápico na perspectiva da Gestalt-
1964/2000, p. 138).
Terapia, motivações que nos aproximam de uma atitude
filosófica.
A criação é, para ele, o movimento selvagem, não do-
Falamos aqui de uma atividade que é trabalho de cria-
mesticado, livre de uma natureza a priori que permite,
ção dado a partir de uma situação de crise, sempre uma
pela singularidade, a manifestação de uma universalida-
crise de sentido, trabalho de produção de sentido para a
de. Trata-se de uma ontologia que descreve como a ex-
existência no mundo com o outro, e mais que isso, um
periência cria. Experiência que se faz no entrelaçamento
trabalho que, na perspectiva da Gestalt-Terapia, visa res-
eu-outro-mundo, em situação, inexoravelmente imbrica-
gatar a capacidade de criar a partir da situação no mundo
dos e incorporados.
com o outro, concebendo a corporeidade como esponta-
Uma vez traçados esses referenciais, buscarei agora
neidade criadora, instituinte.
uma aproximação com a Gestalt-Terapia e sua dimensão
É nesse sentido que entendemos que uma psicotera-
de abordagem que busca descrever a experiência e os mo-
pia de base fenomenológica, como a Gestalt-Terapia, está
dos de ser-no-mundo.
encarnada ela mesma no âmbito de uma atividade crítica
que acompanha o nascimento de um filosofar, tal como
A r t i g o
147
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 143-151, jul-dez, 2011

Mônica B. Alvim
proposto por Souza (2008). Para ele o nascimento da fi-
ção de sentidos, movimento, reconfiguração. A terapia
losofia se dá a partir do núcleo de uma crise, quando há
visa uma presença como corpo situado no mundo com o
um movimento de crítica, que define como “a mobiliza-
outro. E é somente pela experiência com o outro que po-
ção e efetivação das forças criadoras e transformadoras
deremos alcançar esse tipo de reflexão.
que habitam o núcleo da crise (. .) seu momento radical-
A Gestalt-Terapia propõe como método concentrar-se
mente construtivo” (p. 70).
na estrutura concreta da situação, método que a partir
Entendemos que ao transitar no campo da produção
do diálogo com o outro, remete ao âmbito do originário,
de sentidos, podemos considerar a Gestalt-Terapia uma
do fazer-se sentido. A relação aqui-agora com o outro é
proposta que, no âmbito de uma singularidade, lida com
privilegiada. É o outro eu que me dá a possibilidade da
um tipo de atividade que transcende o campo da realida-
diferença, do descentramento. Falamos da terapia como
de tomada como objetividade, das predições e determi-
ampliação de horizontes. E eles já estão aqui como um aí
nações causais, rumo ao campo do transcendental – aqui
prévio, invisíveis, latentes, sustentando o visível. É par-
entendido do ponto de vista merleau-pontyano como o
tindo desse fundo, que gostaria agora de compartilhar
mundano, o ser bruto, a dimensão originária e que “está
cenas fictícias de uma experiência clínica.
aquém do ser e do nada, já que como ser poroso, ele é a
originária indivisão deles” (Dupond, 2010, p. 68/69).
Lidamos na psicoterapia com questões existenciais
3. o encontro com Lara
que, muitas vezes travestidas de uma objetividade, con-
tadas por meio de um discurso objetivante, naturalizan-
Lara chega ao consultório. Rosto sofrido, olhos cansa-
te, convidam para as análises explicativas e para as de-
dos, maquiagem forte. Andar pouco equilibrado, corpo
terminações causais. Indicam, de modo mais ou menos
endurecido pela roupa apertada, sapato muito alto,
explícito, o desejo por parte do cliente de um trabalho
talvez demais. Olho para ela e me abro, busco um fio
apenas analítico que explique as causas do sofrimento,
que nos conecte, que ligue a chave do encontro. Diz que
tampone a angústia e gere alívio.
está ali porque não tem mais para onde ir. Fez terapia
Quando esse caminho é tomado pelo terapeuta, se
por vários anos, sabe tudo sobre si. E conta o enredo
não está “suficientemente atento” ao que a experiência
do filme que rodou em muitas versões ao longo de sua
objetiva relatada descreve, tal como recomenda Merleau-
vida. Repete que seu problema é a repetição de uma
Ponty (1951/1973, p. 50), nos afasta do âmbito da produ-
estória de rejeição. Chora, desesperada. Rebela-se por
ção de sentidos e nos protege – terapeutas, pessoas con-
novamente ter que fazer terapia.
cretas e envolvidas naquela situação – da experiência do
– Tudo o que fiz, não valeu de nada? Interroga. E repete
risco, conforme discutimos em trabalho anterior sobre a
a sinopse da última versão.
psicoterapia e a experiência estética (Alvim, 2007a). Essa
Sinto-me estranha. Como se devesse algo a ela pelas
experiência do risco é aquela típica do filósofo, aquele
terapias que “não funcionaram”. Mas espero e sigo
que não acredita poder sobrevoar seu objeto, que não tem
escutando-a. Fala da mãe, do ex-marido, da traição
por adquirida a correlação do saber e do ser, aquele que
de ambos, da injustiça, de suas qualidades, solidarie-
quando “questiona é, ele próprio, posto em causa pela
dade, queixa-se dos sofrimentos, conta detalhes das
questão” (Merleau-Ponty, 1964/2000, p. 37).
situações que sofreu. Ao final de nosso primeiro en-
Ao contrário disso, o sentido ético da psicoterapia no
contro proponho abandonar um pouco o enredo dessa
meu entender está em provocar um desajustamento cria-
história para concentrarmo-nos nos diferentes roteiros
dor (Alvim, 2007b). Um desvio para o vazio, para o que
e versões. Em pequenos detalhes de algumas cenas.
ainda não é. E para isso é necessário sustentar a experiên-
Em imagens secundárias, pequenas percepções. Com
cia do não-sentido e a angústia aí envolvida. Entendemos
essa proposta faço a Lara o primeiro convite para um
que está em jogo no sofrimento, a relação entre o ser e o
olhar mais demorado, com presença, que a desvie de
nada. Longe de serem considerados aqui pólos de uma
uma estória já constituída e automatizada.
relação dicotômica, o que é está sustentado de modo tê-
Lara me olha ligeiramente surpresa. Algo incrédula.
nue por um tecido invisível, algo que ainda não é, mas
Parece duvidar de seu próprio caminho, automatiza-
que nos sustenta, conectado por horizontes temporais
do em uma fala que não para, mas isso dura poucos
com uma possibilidade futura de ser ainda não visível,
segundos. Logo volta ao movimento anterior, volta a
im-pré-visível.
queixar-se e a dizer do seu desespero. Como um motor,
A terapia deve ter como meta proporcionar um tipo
ela gira. E assim nos despedimos naquele primeiro
de reflexão que nos conecte com essa dimensão originá-
encontro. Sem conexão.
ria presente na experiência pré-reflexiva, que nos ponha
Outras sessões se sucedem. Semelhantes. Começo a
em contato com a experiência reversível do ser e do nada,
sentir um incômodo. Ela gira o motor e sofre muito.
do sentido e do não-sentido, da visibilidade sustentada
Sofre pelo que se passou, mas sofre ainda mais de so-
por uma invisibilidade presente de modo não-explícito,
lidão. Sofre porque sabe demais. Sabe que tudo aquilo
A r t i g o
visando uma presença tal que propicie criação, institui-
lhe faz mal, mas não consegue deixar de desejar tudo
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 143-151, jul-dez, 2011
148

A Ontologia da Carne em Merleau-Ponty e a Situação Clínica na Gestalt-Terapia: Entrelaçamentos
aquilo. Porque todos que a amam lhe dizem como ela
das possibilidades expressivas, expressão aqui entendi-
é boba, como tem tudo para “virar a página”, “fazer a
da de modo merleaupontyano como criação. Laura Perls
fila andar”. Falam de como tem uma vida boa e como
desejou que a Gestalt-terapia se chamasse Gestaltung-
é incapaz de superar relações tão maléficas e dani-
terapia, ou seja, terapia da formação de formas. O que se
nhas. Sofre pelos acontecimentos. Mas sofre também
visa, nessa perspectiva é um trabalho psicoterápico que
porque “sente” demais, é “frágil e sensível demais”,
permita o restabelecimento do fluxo de awareness, defini-
afirma. E porque se sente incapaz de mudar, se sente
do como “conhecimento imediato e implícito do campo”
“incompetente, burra”.
(Robine, 2006). A noção de awareness envolve um tipo de
Ao fim das sessões sinto-me estranha, sem perceber
sentir que é abertura, passividade, entrega ao campo e ao
sinais de uma conexão que se anuncie. Ao mesmo tem-
outro como representantes de uma dimensão intercorpo-
po, noto que ela está engajada. Vem a todas as sessões,
ral que é generalidade e que me põe, me afirma, me inclui,
pontualmente. O motor gira sem cessar.
com meus paradoxos, na categoria do ser carnal.
Aqui e ali busco encontrá-la. Seu olhar me atravessa.
Ao discutir as relações com o mundo, Merleau-Ponty
Convites para olhar outras cenas não são aceitos. Tam-
nos fala de uma “presença perceptiva no mundo” como
pouco para se demorar sobre elas. As perspectivas são
“a experiência de habitar o mundo por meio de nosso
sempre as mesmas. Como em um filme hollywoodiano,
corpo” (Merleau-Ponty, 1964/2000, p. 37). Afirma a ante-
as cenas que Lara mostra se sucedem rapidamente,
rioridade dessa experiência em relação à reflexão, “nossa
sem qualquer espaço para a criação, para o sonho, o
experiência que está aquém da afirmação e da negação,
devaneio. Tudo está pronto e acabado. Acabado.
aquém do juízo – opiniões críticas, operações ulteriores
Um dia ela fala mais uma vez das pessoas que a criti-
-, é mais velha que qualquer opinião” (Merleau-Ponty,
cam por sofrer. Naquele dia, diferente de outros, ela diz
1964/2000, p. 37).
isso olhando para mim. Sinto novamente a sensação de
Critica assim a filosofia reflexionante, aquela que
dever algo a ela. E compartilho isso. Lara desacelera,
busca compreender o nosso vínculo natal com o mundo
reduz a marcha e para pela primeira vez. Olha-me
desfazendo-o para refazê-lo. Aquela que acredita encon-
mais uma vez nos olhos, quase demoradamente, e
trar a clareza pela análise, nos elementos mais simples,
depois de alguns segundos, murmura:
nas condições mais fundamentais, em premissas de onde
– É. Mas você não faz parte dessa estória.
ele resulta como consequência, uma reflexão que “recua
Já ia dando a partida novamente no motor, quando
sobre as pegadas de uma constituição” (Merleau-Ponty,
a interrompo:
1964/2000, p. 41).
– Faço parte, sim. Estou aqui-agora com você tentando
Lara era expert em analisar reflexivamente. Conhecia
mudar essa estória. E tenho a sensação de que você não
com clareza todos os elementos, condições fundamentais,
quer reescrevê-la. Mas se eu pudesse fazer algo nesse
premissas, causas e conseqüências. Através dos anos de
roteiro, permitiria que você sofresse bastante.
terapia, havia recuado todas as pegadas da constituição
Digo isso emocionada e me sentindo muito conectada
de seu sentimento de rejeição, que conotava como “in-
com Lara, que, diante do meu gesto e de minha emoção
fantil”. Orientada pelas premissas da Gestalt-Terapia, eu
que transborda, me olha estupefata:
buscava uma conexão, um fio que nos ligasse. No fun-
– O que?!?
do de minha experiência, estavam as lições de Merleau-
– Deixaria você sofrer bastante, Lara. Acho seu sofri-
Ponty (1964/2000):
mento tão legítimo!
– Mas e tudo o que as outras pessoas me dizem? Que

O segredo do mundo que procuramos é preciso, ne-
sou boba, que tenho uma vida ótima, que não tenho
cessariamente, que esteja contido em meu contato com
motivos para sofrer?
ele. De tudo o que vivo, enquanto o vivo, tenho diante
Olho profundamente nos olhos de Lara. Vejo ali uma
de mim o sentido, sem o que não viveria e não posso
grande solidão, um grande sofrimento que não pode
procurar nenhuma luz concernente ao mundo a não
ser sentido, tornar-se sentido, porque não há outro
ser interrogando, explicando minha frequentação do
para comungá-lo.
mundo, compreendendo-a de dentro (p. 41).
E digo:
– Olhando nos seus olhos, posso sentir seu sofrimento

Estou aderido ao mundo através de meu corpo, que
aqui no meu peito.
me dá a verdade a partir da minha experiência de ha-
Lara desliga o motor e desce do carro. Estaciona,
bitá-lo. É nesse a priori da minha relação de aderência
toma o elevador e entra em meu consultório pela
ao mundo e à situação que está a base e a fundação da
primeira vez. Finalmente podemos ter nosso primeiro
verdade. É no sentido que se produz no encontro com o
encontro.
mundo, ou seja, no campo e na situação, que está o fun-
damento da verdade. As tentativas de explicação atra-
A Gestalt-Terapia é uma terapia do contato. A neurose
vés do pensamento reflexivo me fazem perder o mundo
é concebida de modo amplo como fixação na forma, perda
e o sentido.
A r t i g o
149
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 143-151, jul-dez, 2011

Mônica B. Alvim
Mas como transpor a barreira da explicação e da ver-
mo. Ensimesmada, não deixa espaço para outrem, para
dade das teses? Lara buscava explicações, e nelas buscava
ultrapassar a personagem, a personalidade. Precisamos
o sentido que não encontrava. Os “anos de terapia” a en-
criar uma força contrária, uma força centrífuga que a
cheram de significados e de verdades que havia tomado
lance para fora de si.
como si. Teses e enunciados que falhavam. E era justa-
Ao discutir o tema da relação com o outro, Merleau-
mente nesta falha que estava a brecha para o corpo, para
Ponty pergunta-se o que aconteceria se, além de minha
um movimento de habitação e de partida para o trabalho
visão sobre mim e sobre o mundo, me fossem dadas tam-
de signific-ação existencial.
bém as visões de outrem sobre si, o mundo e sobre mim.
Recorro novamente a Merleau-Ponty e me apoio na
Refere-se à visão como “sentido”, como experiência cor-
fé perceptiva. Aquilo que existe antes de qualquer juízo,
poral. Assim, encontramos o outro não no espaço objeti-
tomada de posição, uma fé animal, corporal. A fé per-
vo, da reflexão, mas no meio obscuro no qual a percepção
ceptiva me dá uma certeza inelutável e ao mesmo tempo
irrefletida se move à vontade. Encontramos o outro assim
inexplicável e obscura. É “uma adesão que se sabe além
como encontramos nosso corpo, no campo, na expressão.
das provas, não necessária, tecida de incredulidade, a
E é esse o espaço da psicoterapia.
cada instante ameaçada pela não-fé” (Merleau-Ponty,
Como me encontrar com Lara? Como conectar-me
1964/2000, p. 21).
com ela, me perguntava através do incômodo que sentia.
Ameaçada de um lado pela fragilidade da percep-
Outra lição merleau-pontyana: o diálogo genuíno é inter-
ção, esta que nos dá um domínio da totalidade, porém
corporeidade. O meu vínculo com a situação e com aquele
circundado por uma visão lateral, por uma selva com-
mundo que o cliente sente como seu mundo, aponta algo
posta por uma “vegetação de fantasmas”, a percepção é
daquele (seu) campo, demonstra, reflete o seu vínculo e
dotada de movimento e instabilidade. Tais ameaças se
sua aderência a ele – que como que por um passe de má-
apresentam a todo instante, quando examino o mundo
gica, ele passa a notar.
com meu pensamento e recuo, saindo dessa habitação
O filósofo nos ensina que é quando “surge o insóli-
e me entrincheirando em algum fantasma-arbusto, seja
to na partição do diálogo (...) quando uma resposta do
ele imaginação, tese ou enunciado. “O mundo é o que
outro (aqui, o terapeuta) responde bem demais ao que
percebo, mas sua proximidade absoluta, desde que exa-
eu pensava sem tê-lo dito inteiramente” (Merleau-Ponty,
minada e expressa, transforma-se também, inexplica-
1964/2000, p. 22), ou quando um gesto sinaliza algo
velmente, em distância irremediável” (Merleau-Ponty,
que sinto, “irrompe a evidência de que também acolá,
1964/2000, p. 20).
minuto por minuto, a vida é vivida” (Merleau-Ponty,
Lara estava perdida em uma floresta de fantasmas.
1964/2000, p. 22).
Só e distante de todos, do mundo, sobretudo da sua ex-
Isso é uma demonstração de aderência ao mundo, uma
periência. Para ajudá-la a encontrar o caminho, eu pre-
revelação de que aquilo que sinto e não explico é vida
cisava de um fio. Mas diferente de Ariadne, eu não tinha
passível de ser vivida, é digno de uma subjetividade, de
um fio pronto para oferecer a Lara. Precisávamos tecê-
um mundo próprio.
lo juntas. Ela estava sozinha e perdida. As explicações
dela e dos outros os distanciavam irremediavelmente.
Em algum lugar atrás desses olhos [que me olham],
Busca o remédio na terapia e ao mesmo tempo não sabe
atrás desses gestos, ou melhor, diante deles, ou ainda
se aproximar.
em torno deles, vindo de não sei que fundo falso do
O sentido e o significado da experiência são criados
espaço, outro mundo privado transparece através do
nessa relação (eu e outro) que me envolve e ao terapeuta.
tecido do meu, e por um momento é nele que vivo
As lições da Gestalt-Terapia nos ensinam como método
[nesse outro mundo privado], sou apenas aquele que
concentrar-se na situação, “trabalhar a unidade e a de-
responde à interpelação que me foi feita (Merleau-
sunidade dessa estrutura da experiência aqui e agora”
Ponty, 1964/2000, p. 22) [observações minhas entre
(Perls, Hefferline & Goodman, 1951/1997, p. 46). Buscar
colchetes].
a integração necessidade-figura-fundo a partir do cam-
po, uma gestalt vigorosa, uma experiência integradora a
Saio do meu centro, visível, me descentro, porque me
partir da awareness, criando sentidos/significados para
vejo no outro – e isso não é projeção – sou arrastado com
a experiência aqui-agora.
ele para o âmbito de outrem. Afirma: “a experiência que
Lara não me vê. Não me escuta. Não sabe se apro-
faço de minha conquista do mundo é que me torna ca-
ximar. Está só em seu labirinto. Para resgatar sua fé
paz de reconhecer uma outra experiência e de perceber
perceptiva precisa ampliar sua presença. Encontrar-se
um outro eu mesmo, bastando que, no interior de meu
aqui-agora comigo nesta situação. Mas sente-se tão só.
mundo, se esboce um gesto (expressivo) semelhante ao
Inferiorizada diante do outro que sabe o que é melhor
meu” (Merleau-Ponty, 1969/2002, p. 171).
para ela e a critica por não agir de acordo com as teses.
A intervenção realmente terapêutica acrescenta esse
Assim, gira como um motor, potência rotativa de uma for-
enigma da propagação no outro da minha vida mais se-
A r t i g o
ça centrípeta que a mantém no centro, de pé, um si-mes-
creta. Merleau-Ponty afirma:
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 143-151, jul-dez, 2011
150

A Ontologia da Carne em Merleau-Ponty e a Situação Clínica na Gestalt-Terapia: Entrelaçamentos
Então é mesmo verdade que os ‘mundos privados’
Chauí, M. (2002). Experiência do pensamento: ensaio sobre a
se comunicam entre si, que cada um deles se dá a
obra de Merleau-Ponty. São Paulo: Martins Fontes.
seu titular como variante de um mundo comum. A
Chipp, H. B. (1999). Teorias da Arte Moderna. São Paulo:
comunicação transforma-nos em testemunhas de um
Martins Fontes.
mundo único, como a sinergia de nossos olhos os de-
tém numa única coisa. Dá-nos, por uma operação de
Dupond, P. (2010). Vocabulário de Merleau-Ponty. São Paulo:
reversibilidade, a experiência intercorporal (Merleau-
Martins Fontes.
Ponty, 1964/2000, p. 23).
Merleau-Ponty, M. (1973). Ciências do Homem e Fenomenologia.
São Paulo: Saraiva (Original publicado em 1951).
A intercorporeidade aponta para uma possibilidade
de comunicação que prescinde da reflexão, que nos lan-
Merleau-Ponty, M. (1980). A dúvida de Cézanne. Em Merleau-
ça além da subjetividade, da “consciência de”, ao âmbito
Ponty (Coleção Os Pensadores). São Paulo: Abril Cultural
(Original publicado em 1948).
de uma corporeidade, aderência carnal que faz visível,
que faz brotar um raio de luz que ilumina toda a carne,
Merleau-Ponty, M. (1994). Fenomenologia da percepção. São
por toda parte. Lara chega ao consultório quando nos co-
Paulo: Martins Fontes (Original publicado em 1945).
nectamos ambas com a tristeza. Aí ela conquista o mun-
Merleau-Ponty, M. (2000). O visível e o invisível. São Paulo:
do e pode legitimar o que sente. Primeiro passo e indício
Editora Perspectiva (Original publicado em 1964).
de um sentido que se anuncia a partir da deiscência da
carne, de uma generalidade de ser que se singulariza e a
Merleau-Ponty, M. (2002). A prosa do mundo. São Paulo: Ed.
permite ver-se triste. É no âmbito da experiência inter-
Cosac & Naify (Original publicado em 1969).
corporal, compreendo, que fecunda o terapêutico como
Merleau-Ponty, M. (2006). A estrutura do comportamento. São
criação e ação de produção de sentidos. “A mordida do
Paulo: Martins Fontes (Original publicado em 1942).
mundo tal como a sinto em meu corpo fere tudo o que
está exposto como eu” (Merleau-Ponty, 1969/2002, p. 171).
Moutinho, L. (2005). Tempo e sujeito - O transcendental e o
O outro se insere, conclui o autor, na junção do mundo
empírico na fenomenologia de Merleau-Ponty. DoisPontos
e de nós mesmos, ele é um eu generalizado. É assim que
UFPR [online], 1(1), 11-54.
minha relação corporal com o mundo pode ser generali-
Perls, F.; Hefferline, R. & Goodman, P. (1997). Gestalt-Terapia.
zada – e podemos falar de uma intercorporeidade como
São Paulo: Summus (Original publicado em 1951).
a possibilidade de um sentir com. Ponto de partida para
nosso caminho. Vamos, Lara. Sigamos.
Robine, J. M. (2006). O self desdobrado. São Paulo: Summus.
Souza, R. T. de (2008). Sobre a construção do sentido: o pensar
e o agir entre a vida e a filosofia. São Paulo: Perspectiva.
Referências Bibliográficas
Alvim, M. B. (2007a) Experiência estética e corporeidade:
fragmentos de um diálogo entre Gestalt-terapia, arte e fe-
Monica Botelho Alvim -- Doutora em Psicologia, Professora Adjunta na
nomenologia. Estudos e Pesquisas em Psicologia (UERJ). 7
Universidade Federal do Rio de Janeiro (Departamento de Psicologia
Clínica). Endereço Institucional: Universidade Federal do Rio de
(1), 138-146.
Janeiro. Av. Pasteur, 250 (Campus da Praia Vermelha, Urca). CEP
Alvim (2007b) Ato artístico e ato psicoterápico como Experiment-
22290-240. Rio de Janeiro (RJ). E-mail: mbalvim@gmail.com
ação: diálogos entre a fenomenologia de Merleau-Ponty, a
arte de Lygia Clark e a Gestalt-Terapia
. Tese de Doutorado,
Brasília, Universidade de Brasília.
Recebido em 14.07.11
Primeira Decisão Editorial em 20.10.11
Bonomi, A. (2004). Fenomenologia e Estruturalismo. São Paulo:
Aceito em 22.11.11
Perspectiva.
A r t i g o
151
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 143-151, jul-dez, 2011

Elza Dutra
penSando o SuiCídio SoB a ÓtiCa fenomenolÓgiCa
HeRmenêutiCa: algumaS ConSideRaçõeS
Thinking About Suicide under the Phenomenolocial Hermeneutics: Some Considerations
Pensal el Suicidio en la Hermenéutica Fenomenológica: Algunas Consideraciones
elza duTra
Resumo: Este trabalho tem como objetivo desenvolver algumas reflexões sobre o suicídio a partir da perspectiva fenomenológica-
hermenêutica heideggeriana. As noções heideggerianas de ser-aí, ser-no-mundo, angústia e ser-para-morte nortearão as reflexões
aqui iniciadas. Para isso utilizamos as narrativas de seis adolescentes que tentaram suicídio, apresentadas em nossa pesquisa
de doutorado. Pretende-se, a partir da experiência desses jovens, alcançar uma compreensão mais profunda do suicídio, uma
vez que as considerações terão como horizonte a concretude da experiência vivida. Entendendo o ser-aí, o Dasein, como um ser
de abertura e, portanto, de possibilidades, a morte se apresenta como a última possibilidade existencial. Na realidade, a morte
representa a possibilidade mais concreta com a qual o homem pode contar, como propõe Martin Heidegger. A morte afirma a
finitude da vida e da existência. Sobretudo, representa a única certeza para o ser humano. Nesse sentido, interrogamos se o sui-
cídio poderia ser pensado como a falta de sentido de si mesmo e um modo impessoal de se lidar com a angústia, eliminando-a.
Significaria o desespero por não suportar a finitude da existência? Os questionamentos representam um esforço no sentido de
pensar o suicídio a partir de um olhar que contemple a dimensão existencial que caracteriza o Dasein em sua busca de sentido
como ser-no-mundo. Esperamos, assim, contribuir para a construção de um olhar desprovido de rótulos e categorizações, como
histórica e cientificamente o suicídio tem sido abordado.
Palavras-chave: Suicídio; Fenomenologia hermenêutica; Ser-para-morte; Heidegger.
Abstract: This work aims to develop some thoughts about suicide from the perspective of phenomenological-hermeneutics. The
Heideggerian notions of being there, being in the world, anguish and death-to-be will guide the discussions started here. For
that use the stories of six teenagers who attempted suicide, presented in our doctoral research. We intend, from the experience
of these young people, achieve a deeper understanding of suicide, since the horizon considerations will have the concreteness
of lived experience. Understanding the being-there, Dasein, as being an opening and, therefore, opportunities, death is present-
ed as the ultimate existential possibility. In fact, death represents the most concrete possibility with which the man can count,
as proposed by Heidegger. Death claims the finitude of life and existence. Above all, the only certainty is that you have in life.
In this sense, we question whether the suicide could be thought of as a lack of sense of self and an impersonal way of dealing
with anxiety, eliminating it. Despair would not support the finitude of existence? The questions represent an effort to think of
suicide from a look that encompasses the existential dimension that characterizes Dasein in its search for meaning as being in
the world. We hope thus to contribute to building a look devoid of labels and categorizations, as historically and scientifically
suicide has been discussed.
Keywords: Suicide; Hermeneutic phenomenology; Being-for-death; Heidegger.
Resumen: Este trabajo tiene como objetivo desarrollar algunas reflexiones sobre el suicidio desde la perspectiva de la herme-
néutica fenomenológica-. Las nociones de Heidegger de estar ahí, estar en el mundo, la angustia y la muerte-a-ser guiará las dis-
cusiones iniciadas aquí. Para obtener que el uso de la historia de seis adolescentes que intentaron suicidarse, se presentan en
nuestra investigación doctoral. Se pretende, a partir de la experiencia de estos jóvenes, lograr una comprensión más profunda
de suicidio, ya que las consideraciones tendrá en el horizonte la concreción de la experiencia vivida. La comprensión del ser-ahí,
Dasein, como una apertura y, por tanto, las oportunidades, la muerte se presenta como la posibilidad existencial final. De he-
cho, la muerte representa la posibilidad más concreta con la que el hombre puede contar, según lo propuesto por Heidegger. La
muerte reclama la finitud de la vida y la existencia. Por encima de todo, es la única certeza que el ser humano tiene en la vida.
En este sentido, nos preguntamos si el suicidio podría ser considerado como una falta de sentido del yo y de una manera imper-
sonal de tratar con la ansiedad, eliminando la misma. La desesperación no apoyaría la finitud de la existencia? Las preguntas
representan un esfuerzo para pensar en el suicidio de una mirada que abarca la dimensión existencial que caracteriza el Dasein
en su búsqueda de un sentido como ser en el mundo. Esperamos contribuir así a la construcción de una mirada desprovista de
etiquetas y categorías, como histórica y científicamente, el suicidio se ha discutido.
Palabras-clave: Suicidio; Fenomenología hermenéutica; Ser-para-la muerte; Heidegger.
A r t i g o
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 152-157, jul-dez, 2011
152

Pensando o Suicídio sob a Ótica Fenomenológica Hermenêutica: Algumas Considerações
introdução
tes existencialistas. Talvez seja esta a razão da busca dos
motivos e a explicação para o desejo de não mais viver,
O objetivo deste artigo é refletir acerca do suicídio
observado de maneira tão clara nas narrativas dos ado-
sob a ótica fenomenológico- existencial, a partir de pes-
lescentes sobre as suas experiências ao tentar o suicídio.
quisa realizada com adolescentes que tentaram suicídio
Percebe-se, em todas elas, uma fala que aponta os motivos
(Dutra, 2000). Embora se saiba que as tentativas de sui-
de cada um, as situações e pessoas envolvidas na experi-
cídio (TS) diferem do suicídio (S) em relação a algumas
ência. A experiência narrada é sempre relacionada a mo-
características, tais como: população – os homens come-
mentos de vida e fatos que conduziram o jovem àquele ato
tem mais suicídio e as mulheres, mais tentativas; faixa
de desespero. Há sempre um motivo ou motivos que são
etária e meio causador – quando relacionados ao gênero
apontados como geradores da crise e que sinalizam para
e contexto cultural, são diferentes no S e na TS, consi-
o suicídio como uma saída para o sofrimento.
deramos que refletir sobre o suicídio a partir de depoi-
As experiências de vida desses jovens revelam que a
mentos de quem tentou se matar nos aproxima desse
maioria deles encontra-se mergulhada em famílias deses-
fenômeno (Dutra, 2002; 2010). Não nos propomos a dar
truturadas emocionalmente, com histórias de agressões
respostas sobre o suicídio, uma vez que o único consen-
físicas e abusos sexuais, geralmente ocorridas no seio
so existente entre os suicidologistas é o de que esse ato
da própria família. As narrativas revelam experiências
é multideterminado, acontecendo quando um conjunto
de vida comumente marcadas pela rejeição, abandono e
de fatores ambientais une-se a determinados modos de
incompreensão. Os motivos causadores da tentativa de
ser. Não é possível, portanto, traçar um perfil do suici-
suicídio sempre são identificados pelos participantes da
da, como sugerem alguns mitos construídos em torno
pesquisa. Há um sentido, na forma de uma razão aparen-
desse fenômeno.
te e consciente que explica o ato que cada um cometeu
O motivo ou motivos que levam alguém ao suicídio
contra si mesmo, demonstrando uma compreensibilidade
formam-se ao longo da sua história e se revelam nos sen-
dos motivos de cada um, o que pode ser entendido como
tidos e modos de ser que constituem a sua existência. Por
a presença da compreensão, uma das estruturas existen-
isso esse fenômeno não escolhe idade, classe social, gê-
ciárias da Analítica Existencial, proposta por Heidegger
nero ou nacionalidade. Em nosso entendimento, o suicí-
(1927/1999). As falas de Leila e Marta (todos os partici-
dio significa, antes de tudo, sofrimento e desespero; ou,
pantes do estudo que aqui serão citados receberam no-
como disse Camus (1952), consiste mais numa questão
mes fictícios) ilustram essa compreensão:
filosófica, uma vez que interroga sobre o sentido da vida.
Assim, o nosso intuito é iniciar uma reflexão que, nesse
Leila:.. eu acho que a tentativa de suicídio é mais o
momento, se anuncia como um esboço de idéias e ques-
“rejeitamento”. . Eu acho que pra pessoa tentar se
tionamentos de natureza fenomenológica e existencial
suicidar sempre tem que ter um motivo. A pessoa não
sobre o tema tratado.
vai tentar querer tirar a vida sem ter um motivo. . tem
Tendo como horizonte a reflexão pretendida, adota-
aquele motivo. . do problema. ..
mos como ponto de partida para este trabalho as entre-
Senti vontade de morrer por causa de um homem sem
vistas realizadas com seis jovens que tentaram suicídio
futuro. .. Um rapaz sem futuro. . que não presta. .. Eu
(cinco mulheres e um homem), com idades entre 15 e
pensei em morrer por causa dele. .
20 anos, participantes de um estudo de doutoramento
Marta: Esses pensamentos passam pela minha cabe-
(Dutra, 2000)1. Sendo assim, as reflexões empreendidas,
ça,.quando eu penso em resolver todos os problemas. .
aqui, sobre o suicídio, em alguns momentos envolvem as
Aí eu digo: “Eu vou fazer isso. . vou resolver tudo. .”
TS, uma vez que o desejo de interromper a vida, presen-
mas eu acho que não. . Queria resolver os problemas. .
te em ambas as situações, nos permite pensar o suicídio
Não quero brigar com meu irmão... Eu tinha que
numa dimensão existencial e vivenciada através da nar-
segurar a barra antigamente. Me dava raiva. . Aí eu
rativa de quem esteve próximo da experiência do suicídio.
não aguentava. .
As idéias aqui esboçadas terão como referência teórica e
filosófica a fenomenologia existencial segundo o pensa-
Nessas falas, os motivos alegados sempre se localizam
mento do filósofo alemão Martin Heidegger.
na figura de um outro, representado pela família, namo-
Não causa estranheza se constatar a busca incessante
rado, marido e situações desfavoráveis de vida, enfim,
do ser humano pela explicação do seu viver, e do morrer
pelo outros entes do mundo, trazendo à tona o caráter de
também. De onde viemos e para onde vamos, é a interro-
mundanidade do Dasein. Podemos perceber a presença
gação que atravessa a existência. Por isso, a finitude é uma
da cotidianidade na qual esses jovens estão mergulha-
das questões mais significativas e presentes nas corren-
dos, na ruína e decadência, pela absorção de um outro
que não é o seu ser, revelando-se como um modo-de-ser
1 A referida pesquisa foi desenvolvida no Programa de Doutorado em
na impessoalidade cotidiana. Nesse contexto, percebe-se
Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa
o momento em que a crise se instala. Nesse sentido lem-
teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa e cumpriu todos os
bramos Procópio (1999), ao dizer que a crise que surge
requisitos exigidos para a sua realização.
A r t i g o
153
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 152-157, jul-dez, 2011

Elza Dutra
na convivência com um desses outros concretos serve
finitude, porque ao fazê-lo, além de enfrentar a certeza da
para deixar à mostra e revelar uma angústia que já está
morte, toma consciência de que ninguém jamais poderá
aí, porque é originária do ser, como nos faz ver Heidegger
viver por ele, desvelando-se, assim, o seu poder-ser; por-
(1927/1999). Angústia que ao ser desvelada, e diante da
tanto, é preciso se apropriar da vida e das suas escolhas.
dor que provoca, faz surgir a necessidade de nomeá-la,
A possibilidade da morte revela a vida que se vive. E en-
de fazê-la compreensível, a fim de aliviar o desespero
frentar a realidade da vida que se tem muitas vezes é tão
de não se saber. E o que acontece a seguir, é o que ge-
frustrante, que em muitas pessoas prevalece a intolerância
ralmente se observa acontecer em um momento como
à dor, conduzindo-os, freqüentemente, a escolher a morte e
esse. Não raro se aponta um motivo, um acontecimento
assim, escapar do sofrimento. O sofrimento de empunhar
ou se atribui ao outro a razão do ato, além de este outro o seu si mesmo, de apropriar-se da sua existência assu-
ser considerado o elemento causador e responsável pelo
mindo todas as implicações que dela decorrem.
acontecimento. Na verdade, é a angústia que não é enca-
A morte, enquanto uma possibilidade, é presente no
rada, e da qual o Dasein não se apropria, como parte da
ser-aí, constituindo-se, portanto, numa abertura que vai
sua existência. É a revelação do ser e também do não ser.
ao encontro do Dasein. Entretanto, no mundo contempo-
Porque é nessa dimensão de velamento e desvelamento
râneo em que vivemos, numa sociedade líquida, como
que se dá a pre-sença, ou seja, a existência. Pois como
pensa Bauman (2007), o que se percebe é uma busca in-
diz Novaes de Sá (2010):
cessante e a qualquer preço, da felicidade. E para isso
elimina-se qualquer sofrimento; todo mal-estar será ba-
O Dasein foge de si, esquecendo-se do seu “ser pró-
nido, “tratado” e curado, criando-se, inclusive, uma cul-
prio”, relacionando-se com ele como algo que já tem
tura de medicalização, como a que vivemos atualmen-
uma configuração preestabelecida. A ausência de
te, e que tem sido objeto de estudos, como os de Dantas
surpresas e a evidência caracterizam a ocupação e a
(2009). Nesse contexto, a condição de sofrente que somos
preocupação cotidianas. O modo de falar e escrever
não tem lugar nesse mundo, como não há espaço para se
descomprometido (falatório e escritório), a forma des-
ser triste, frágil, ou simplesmente ser diferente do modo
personalizada e insaciável de lidar com o novo para
de ser proposto pela sociedade capitalista e de consumo
preservar o conhecido, evitando as transformações
que prevalece no mundo globalizado. Assim, o mundo
(curiosidade), constituem o modo de ser cotidiano
torna-se cada vez mais inóspito para o ser humano, que
do Dasein (p. 185).
se desenraíza e perde, lentamente, a sua morada, o seu
ethos (Figueiredo, 1996; Safra, 2004; Dutra 2004).
No entanto, é justamente no momento da crise que a
Nesse contexto de mundo, a ansiedade ocupa o vácuo
angústia pode ser facilitadora de uma mudança nos sen-
deixado pelo não-ser. A existência, quando vivida na im-
tidos da existência. Como disse Heidegger (1927/1999),
pessoalidade, leva o Dasein, cada vez mais, a afastar-se
nessa situação duas possibilidades se colocam diante do
dos sentidos que lhes são próprios, e desse modo, perder
ser: continuar na ruína, ou seja, absorvido pela cotidia-
a sua singularidade. Tal modo de viver pode gerar ansie-
nidade e permanecer na impessoalidade ou se apropriar
dade e muitas vezes, depressão; esses modos de ser nada
do si mesmo, ao buscar uma existência mais autêntica. A
mais representam do que um não-ser, ou seja, a perda de
respeito da angústia, Novaes de Sá (2010, p. 188) diz:
sentido. Quando essas disposições afetivas levam o so-
frente aos seus limites mais extremos e o desespero tor-
Referimo-nos, anteriormente, à angústia como a dis-
na-se insuportável, então a possibilidade da morte passa
posição que leva à possibilidade de singularização,
a representar o sentido para eliminar tal sofrimento.
por colocar o Dasein em contato com o seu ser mais
Para os jovens do estudo referenciado neste artigo, a
próprio, que é a existência como abertura de sentido.
tarefa de ser autêntico, de se apropriar de si mesmo tor-
Sendo o ser-para-a-morte a possibilidade mais própria,
na-se mais difícil ainda ou mesmo impossibilitada de
irremissível e insuperável do homem como projeto,
ocorrer, quando se considera as diversas circunstâncias
pode-se dizer que toda angústia aponta, em última ins-
que envolvem as suas existências. Além de jovens em
tância, para o caráter temporal e finito da existência.
plena adolescência, momento esse marcado pelos con-
flitos próprios da fase em que se encontram, eles ainda
Como se pode ver nos atos de suicídio, a escolha tem
têm que lidar, e como se vê, de forma dolorosa, com as
sido a morte, ou seja, a eliminação da angústia na vivên-
vicissitudes da sua existência concreta, seja no âmbito
cia da última possibilidade do Dasein, a morte. Quando
familiar, seja no contexto social mais amplo. As famílias
não se abre à angústia, parte-se para localizar no mundo
do estudo referenciado, em sua maioria, eram famílias
concreto, no outro, e não em si mesmo, uma explicação
desestruturadas; os pais não favoreciam vínculos afeti-
para a dor. O mundo é responsável pela angústia vivida.
vos positivos com os seus filhos, quando os assumiam;
É preciso conhecer, classificar e catalogar o sofrimento.
quando não, atiravam-nos ao mundo para que eles enfren-
Este, decorrente da angústia, necessita ser nomeado e com-
tassem as suas mudanças e adversidades por conta pró-
A r t i g o
preendido. É difícil para o homem olhar de frente a sua
pria. Ou seja, os pais, como se percebe nos depoimentos,
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 152-157, jul-dez, 2011
154

Pensando o Suicídio sob a Ótica Fenomenológica Hermenêutica: Algumas Considerações
não possuíam recursos, em todos os sentidos que a pala-
A experiência revelada nas narrativas expressa as
vra evoca, para lidar com a problemática dos seus filhos
pessoas que eles são no momento, vivenciando sentimen-
e exercer um cuidado de um modo pré-ocupado, como
tos de não serem aceitos e reconhecidos como pessoas
pensa (Heidegger, 1927/1999). As palavras de Leila são
de valor, ou seja, sem reconhecimento existencial. Nas
um exemplo da condição de abandono e desamparo em
narrativas de alguns desses jovens, percebe- se a neces-
que essas meninas muitas vezes se encontram. A morte,
sidade de serem aceitos e amados tal como se percebem;
então, surge como uma maneira de se defender do outro,
e o sofrimento por não estarem inteiros na sua relação
revelando um desespero e uma busca de proteção. Nessas
com os pais, ou seja, com o outro. Assim, viver nessas
condições, a morte parece ser uma saída:
condições será sempre um vivenciar de angústias e so-
frimentos constantes, em razão da consciência de não
Leila: Depois. . por conta de um namorado. .inferni-
existir, nem para si e nem para o outro. O sentimento de
zaram a minha vida. .. começaram a me agredir. .a
não ser-com-os-outros do seu mundo gera situações que
dizer coisas comigo. .minhas tias me chamando de
conduzem à sensação de fracasso, desesperança e solidão,
rapariga. . me chamando de um monte de coisa. . aí
criando uma possibilidade para o fim do sofrimento, de
eu não tinha como. . não sabia como me defender. A
maneira mortal, como se viu nas experiências desses jo-
única maneira que eu achei de me defender foi ou me
vens, através do suicídio.
matar. . ou então dizer que não me lembrava de nada.
A solidão é muito presente nas narrativas apresenta-
Aí eu tentei me suicidar. ..
das. Muitas das adolescentes dizem da sua falta de ami-
gas, de não ter com quem trocar as suas experiências de
Não são raras a utilização de drogas, tanto as lícitas,
inquietudes e tristezas. As relações interpessoais são ca-
como as bebidas alcoólicas, quanto as ilícitas, além do
racterizadas, em sua maioria, pelos conflitos e disputas de
envolvimento de alguns jovens com traficantes. As expe-
homens, territórios e poder. Há uma carência de víncu-
riências de algumas adolescentes também falam de de-
los afetivos que possam servir de continente às angústias
pressão, internamentos em hospitais psiquiátricos, como
por que elas passam, seja no contexto familiar ou social.
mostram os depoimentos de Elizabete e Leila.
Pode ser em razão dessa falta que alguns deles recorrem
às drogas, à vida sexual promíscua e mesmo aos conflitos
Elizabete: Sinceramente. . eu não estou entendendo o
com os seus pares na rua e escolas. Os comportamentos
que se passa comigo. Estou num estágio de vida em
hostis, assim como as respostas agressivas, muitas vezes
que me vejo parada. . eu estacionei Eu nem ando. .
em direção aos familiares, podem ser interpretados como
nem volto. . nem para um lado e nem para o outro. ..
expressão do sofrimento por não ser amado.
Eu parei. .. E tenho tido crises depressivas. .. Às vezes
As experiências narradas nos fazem ver que viver na
eu páro em casa e fico pensando em quantas vezes eu
impropriedade nos afasta do sentido que podemos dar à
quis me matar. Por que será. .?
própria vida e de uma existência com mais propriedade.
Elizabete revela que não consegue contatar com a expe-
Leila: E depois disseram que eu estava doida e então
riência do seu ser. Confunde a experiência autêntica de
me internaram na Casa de Saúde. Depois de muito
ser com uma imagem que idealiza de si mesma, uma vez
tempo. . quando aconteceram esses problemas com o
que é esta a esperada pelos outros e a quem ela satisfaz,
meu namorado. . eu fui pra lá. Antes disso eu saí de
para, assim, sentir-se amada. Em outras palavras, pode-
casa. .. Cheguei quase a tomar um litro de cachaça. ..
mos dizer que Elizabete, como outras jovens aqui apre-
Não tomei porque não deixaram. . Isso foi há quatro
sentadas, deixou-se absorver pela cotidianidade, passan-
anos atrás ou mais ou menos cinco anos atrás. .. Eu
do a viver na impropriedade e na impessoalidade, como
tinha em torno de doze anos. .. Depois disso. . me in-
nos faz pensar Heidegger (1927/1981).
ternaram no hospital psiquiátrico.
Essa condição, portanto, vai gerar uma alienação de
si; um não-sei-quem-sou, que, além de permear de forma
A necessidade de ser aceito, amado, surge em todas
contundente e previsível o processo de adolescer, agrava-
as falas dos jovens, seja de forma explícita, consciente,
se pelo sofrimento gerado pelas circunstâncias desfavo-
ou não. Na verdade, é a falta de amor e a busca do outro
ráveis com que cada um deles se depara em sua vida e
que perpassam todos os depoimentos. O viver de forma
pela própria condição de existir.
inautêntica, sem sentido, tem em suas bases a condição
Pensando o suicídio, quem sabe este pode ser compre-
co-originária do ser-com, uma vez que o ser é co-origi-
endido como uma maneira de lidar com a angústia, elimi-
nário ao mundo, ou seja, é sendo-no-mundo. Por isso
nando-a. Seria a incapacidade de enxergar uma existência
será impossível para o Dasein passar de um modo de ser
na qual o outro se institua de um jeito novo, distinto da-
impróprio para uma existência com propriedade plena,
quele que o absorveu. Ou seja, a descrença de que a vida
uma vez que essa condição de existir de maneira co-ori-
possa ser vivida de outra maneira, com um sentido pró-
ginária ao mundo e com os outros entes e Daseins, não
prio, o que significaria uma recusa em continuar sendo
permite que tal aconteça.
como antes. O suicídio ainda poderia ser pensado como
A r t i g o
155
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 152-157, jul-dez, 2011

Elza Dutra
uma forma desesperada de se apropriar da vida, do seu
diante do nada que o Dasein pode escolher-se a si
ser, ainda que seja eliminando-o, o que não deixa de ser
mesmo e encontrar o que tem de mais próprio e sin-
um modo de assumir o seu destino, como um ser-para-a-
gular para além das estruturas do “mundo público”
morte. É possível pensar o suicídio em razão, entre tan-
e impessoal.
tos outros motivos, do desespero de não poder enfrentar
a finitude da existência, o ser-para-a-morte. Assim, esse
Assim, sair da vida pode ser entendido como uma
ato pode significar a onipotência de se tomar nas mãos
recusa a enfrentar a responsabilidade por ela. Seria
o destino do ser-para-morte. Isso pode ser percebido nas
antecipar o final do ser, que é a morte. Como diz Boss
experiências dos jovens deste estudo, que colocam a tenta-
(xxxx/1981, p. 40), “(. .) o futuro do ser humano, ele só o al-
tiva de morte como um desejo de sair do sofrimento, sem
cança completamente no momento da morte”. Ao mesmo
que se pense na possibilidade de retomar a vida com um
tempo, seguindo o pensamento de Boss, a culpa, tal como
modo de ser diferente. Ao pensar dessa maneira, o desejo
a angústia, por ser inerente ao homem, dela jamais este se
de morte então se sobrepõe, pela descrença em novas pos-
livrará. De nada adiantam as explicações concretas, no ní-
sibilidades existenciais. Pois a resposta continua sendo o
vel biológico, psicológico ou psicodinâmico sobre a culpa
outro, o que significa um não apropriar-se da existência,
e a angústia, já que esta se constitui pela falta, que sem-
como se percebe nas palavras de Márcia:
pre acompanhará o homem. Vista sob o ângulo também
da culpa, do ficar-a-dever, no dizer de Boss, o suicídio
Eu sou muito nova. . eu tenho quinze anos agora. . eu
se configuraria no ficar-devendo, ou no débito, segundo
ainda vou aproveitar muito. .. Que um dia vai chegar
Heidegger, no abrir mão do poder-ser; no desvencilhar-
uma pessoa que me faça feliz. . Eu estou esperando
se da existência escolhida e responsável e mergulhar no
isso. . E também não estou fazendo nada para ser
vácuo do não-ser. Seria uma entrega a esse sentimento
feliz...
indissociável do ser humano, que é a culpa.
A visão de Dasein, de ser-aí, ser-para-a-morte e co-
Mesmo após a tentativa de morte, ou seja, a crise,
tidianidade, entre outras idéias heideggerianas, nos faz
Márcia ainda não conseguiu perceber outra possibili-
encontrar neste filósofo um pensamento extremamente
dade para a sua existência. Continua sem apropriar-se
contemporâneo, criando um horizonte que favorece uma
do seu ser, à espera de alguém que faça isso por ela. Na
compreensão mais ampla das questões da existência, en-
verdade, compreendo que esta é uma tarefa muito árdua
tre elas, o suicídio. Assim, o que fica mais evidente e que
para essa menina de quinze anos, que desde os treze foi
ressalta aos nossos olhos nessa visada fenomenológica
expulsa de casa pelo pai, que a rejeita até hoje. Foi obri-
sobre o suicídio, é a dimensão existencial que se revela
gada a entrar na adolescência como uma adulta capaz
em cada experiência narrada. Independente das condi-
de autonomia, em todos os sentidos, mas sem condições
ções que circunscrevem o suicídio e por meio das quais
reais para fazê-lo, em razão da natural imaturidade da
esse fenômeno é abordado, tais como as condições mate-
idade e da sua condição de ser-no-mundo.
riais, sociais, psicológicas e psiquiátricas, entre outras,
Outra direção do olhar nos levaria a entender o sui-
o que vem em primeiro plano e que se impõe aos nossos
cídio como uma paralisação diante da abertura do ser-aí
olhos diante de todas as categorizações do ser humano,
às possibilidades e, diante da finitude, a morte, que não
é a existência. É a capacidade do homem para existir de
se sabe quando virá e, assim, tenta-se antecipá-la. Desse
uma forma singular, numa condição existencial criadora
modo, alivia-se a angústia de saber-se um ser que, em
de sentidos, fazendo com que pessoas em condições de
sendo um ser-para-a-morte, deve acolher, em seu proje-
vida semelhantes não percorram o caminho previamente
to, essa possibilidade. Viver um projeto que inclua o ser-
determinado e esperado por uma sociedade tecnicista e
para-a-morte não significa antecipá-la, eliminá-la ou vi-
que ignora o outro enquanto sujeito singular.
ver no sofrimento, morrendo a cada momento. É, antes
O que sugere que antes de qualquer categorização, ró-
de tudo, encará-la como uma das possibilidades do ser-aí,
tulo ou algo semelhante que tente aprisionar o homem,
como abertura ao mundo. É viver a angústia como uma
está o ser, que surge na clareira do ser-aí, na abertura do
das possibilidades do ser, entre elas, a morte. Ainda so-
homem ao mundo. Pois é através de um movimento de ve-
bre a morte e seguindo as idéias de Heidegger, Novaes de
lamento e desvelamento que a existência se constrói, num
Sá (2010, p. 189) afirma:
eterno e infindável processo de vir-a-ser, impedindo que

o Dasein seja considerado um ser simplesmente dado ou
O Dasein se esquece de que existe, projetando-se e
cristalizado no seu desocultamento, condição intrínseca
compreendendo-se antecipadamente em suas possibi-
da existência. É também essa condição que nos legitima
lidades, e se perde nos ruídos ambíguos do falatório.
como responsáveis pelo nosso destino e, ao mesmo tem-
Nesse contexto, a morte é encarada como um fenô-
po, nos lança na incerteza desse mesmo destino, quando
meno do qual é preciso desviar-se, pois a existência
nos coloca como seres de possibilidades e assim, existin-
deseja fugir da angústia perante a possibilidade do
do num processo permanente de escolhas, em busca da
A r t i g o
não-ser. É somente experienciando essa angústia
completude que nunca virá. Portanto, diferentemente da
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 152-157, jul-dez, 2011
156

Pensando o Suicídio sob a Ótica Fenomenológica Hermenêutica: Algumas Considerações
tradição objetivista e técnica que prevalece nas ciências
Dutra. E. (2000). Compreensão de tentativas de suicídio de jo-
e no mundo ocidental, pensar o suicídio numa perspec-
vens sob o enfoque da Abordagem Centrada na Pessoa. Tese
tiva fenomenológica hermenêutica heideggeriana desve-
de Doutorado. Instituto de Psicologia. Universidade de São
la a possibilidade de se considerar este fenômeno como
Paulo (USP).
expressão da angústia e do desamparo humano diante
Figueiredo, L. C. (1996). Revisitando as Psicologias: Da episte-
de um mundo que será sempre inóspito para o Dasein na
mologia à ética das práticas e discursos psicológicos. São
sua condição existencial de ser-no-mundo. E esta, certa-
Paulo: EDUC / Petrópolis: Vozes.
mente, se constitui num outra possibilidade de pensar o Heidegger, M. (1981). Todos nós.. ninguém. Um enfoque fenome-
suicídio; não a única ou a mais verdadeira, apenas outra
nológico do social. Trad.: Dulce Critelli. São Paulo: Moraes
possibilidade, mais condizente com a condição de singu-
(Original publicado em 1927).
laridade e de solicitude que caracterizam o ser humano.
Heidegger, M. (1999). Ser e Tempo. 8ª ed. Petrópolis: Vozes
(Original publicado em 1927).
Referências
Novaes de Sá, R. (2010). A analítica fenomenológica da existên-
cia e a psicoterapia. Em Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo
Bauman, Z. (2007). Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Zahar.
(Org.). Tédio e Finitude: da Filosofia à Psicologia [pp. 177-
199]. Belo Horizonte: Fundação Guimarães Rosa.
Boss, M. (1981). Angústia, Culpa e Libertação: ensaios de psi-
canálise existencial. São Paulo: Duas Cidades (Original
Procópio, D. (1999). A crise como possibilidade do encontro
publicado em 1971).
do indivíduo consigo mesmo: Uma leitura heideggeria-
na
. Dissertação de Mestrado. São Bernardo do Campo.
Camus, A. (1952). Le mythe de Sisyphe. Paris: Gallimard.
Universidade Metodista de São Paulo.
Dantas, J. B. (2009). Tecnificação da vida: uma discussão sobre
Safra, G. (2004). A po-ética na clínica contemporânea.
o discurso da medicalização da sociedade. Fractal: Revista
Aparecida: Idéias & Letras.
de Psicologia, 21 (3), 563-580.
Dutra, E. (2002). Comportamentos autodestrutivos em crianças
e adolescentes. Em C. S. Hutz (Org.). Situações de risco e
vulnerabilidade na infância e adolescência
(pp. 52-82). São
Elza Dutra - Psicóloga e psicoterapeuta. Doutora em Psicologia Clínica
pela Universidade de São Paulo (USP), e Docente do Programa de
Paulo: Casa do Psicólogo.
Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande
do Norte (UFRN). Endereço Institucional: Universidade Federal do
Dutra, E. (2004). Considerações sobre as significações da psico-
Rio Grande do Norte, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes,
logia clínica na contemporaneidade. Estudos de Psicologia
Departamento de Psicologia. Campus Universitário, Lagoa Nova, s/n.
(Natal), 9 (2), 381-388.
CEP 59075-970. Natal/RN. E-mail: elzadutra.rn@gmail.com
Dutra, E. (2010). Suicídio no Brasil: estratégias de prevenção e
intervenções. In Hutz, C. S. (Org.). Avanços em Psicologia
Comunitária e intervenções psicossociais
. S.P.: Casa do
Recebido em 06.07.11
Psicólogo, (pp. 223-264).
Aceito em 15.11.11
A r t i g o
157
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 152-157, jul-dez, 2011

Marcos A. Fernandes
o Cuidado Como amoR em HeideggeR
Care like Love in Heidegger’s Thought
Cuidado como Amor en Heidegger
marCos aurélio Fernandes
Resumo: O presente artigo procura compreender uma indicação dada por Heidegger a Medard Boss, segundo a qual “Sorge”
(cura, cuidado) não pode ser diferenciada em contraposição ao amor, como fizera Binswanger, por ser o nome para a constituição
extático-temporal do traço fundamental da presença (Dasein), ou seja, da compreensão do ser. O artigo analisa cada momento
desta indicação e busca compreender em que sentido cuidado é, ontologicamente, o mesmo que amor.
Palavras-chave: Cuidado. Amor. Temporalidade. Presença. Ser.
Abstract: This article seeks to understand a statement given by Heidegger to Medard Boss, according to which “Sorge” (cure,
care) can not be differentiated as opposed to love, as had Binswanger, because it is the name for the constitution ecstatic and
temporal of the fundamental trace of presence (Dasein), or, the understanding of being. The article analyzes every moment of
this statement and seeks to understand the sense in which care is ontologically the same as love.
Keywords: Care. Love. Temporality. Presence. Being.
Resumen: Este artículo trata de comprender una declaración dada por Heidegger a Medard Boss, según el cual “Sorge” (cura, la
atención) no se pueden diferenciar en lugar de amor, como lo había hecho Binswanger, por ser el nombre para la constitución
extática-temporal del trazo fundamental de la presencia (Dasein), es decir, la comprensión del ser. El artículo analiza en cada
momento de esta declaración y trata de comprender el sentido en que la atención es ontológicamente lo mismo que el amor
Palabras-clave: Cuidado. Amor. Temporalidad. Presencia. Ser.
uma Crítica e uma Resposta
de “Sorge” (cura, cuidado)? Em que medida é o mesmo a
“cura” e o “amor”, ou seja, em que sentido há uma coin-
Nos Seminários de Zollikon, certa vez, em diálogo
cidência no ser entre ambos? É fácil, para a nossa repre-
com Medard Boss, Heidegger recorda uma crítica feita
sentação cotidiana, entender onticamente o amor como
a ele por Ludwig Binswanger, de que teria se esqueci-
cuidado, mas, como entender ontologicamente o “cuida-
do de falar de amor. Ele teria falado do cuidado (Sorge)
do”, a “cura”, como amor?
em seu caráter sombrio, teria falado da angústia e do
tédio como humores ou disposições fundamentais da
existência humana e teria se esquecido do amor. A esta
1. o Horizonte do entendimento fundamental-
crítica, Heidegger (1994a, p. 237) responde da seguinte
ontológico
maneira:
Entretanto, o que significa esta passagem do ôntico
Contudo Sorge (cura, cuidado), se entendido de ma-
para o ontológico? Denominamos de “ôntico” o que con-
neira correta, isto é, de modo fundamental-ontológico,
cerne ao ente, ou seja, ao que é, ao sendo. Denominamos
nunca pode ser diferenciado em contraposição ao
de “ontológico” o que concerne ao ser. Esta distinção pres-
amor, mas é o nome para a constituição extático-
supõe, pois, uma diferença, não entre ente e ente, mas
temporal do traço fundamental da presença (Dasein),
entre ente e ser. Como, porém, esta diferença entre ente e
a saber, da compreensão do ser.1
ser é uma diferença de ser e não uma diferença entre en-
tes ou entre aspectos dos entes, não sendo, portanto, uma
O que o presente texto propõe é compreender esta
diferença ôntica, então a denominamos “diferença onto-
indicação de Heidegger a respeito da Sorge (cura, cui-
lógica”. Nesta colocação, porém, está pressuposto que, se
dado). Como compreender aquilo que Heidegger chama
vigora uma diferença, vige também uma referência entre
ente e ser. Pois, como poderia haver uma diferença sem
1 Aber Sorge ist recht, d.h. fundamentalontologisch verstanden, ni-
referência mútua? Ente e ser se diferenciam à medida
emals unterscheidbar gegen die ’Liebe’, sondern ist der Name für die
que se referenciam um ao outro. Contudo, também esta
ekstatisch-zeitliche Verfassung des Grundzuges des Daseins, nämlich
referência não é ôntica, isto é, uma referência entre ente
A r t i g o
als Seinsverständnis. Tradução do autor.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011
158

O Cuidado como Amor em Heidegger
e ente ou entre aspectos do ente, mas uma referência de
dois polos de uma mesma relação funcional. Só vigoram
ser entre ente e ser, portanto, uma referência ontológica.
a partir da vigência da funcionalidade. Ora, a presença é
A questão é: como fica essa colocação para quem só tem
um modo de ser epocal do humano que se subtrai a esta
olhos para o ôntico? Resposta: não fica, supondo-se que
vigência da funcionalidade. O que? Mas, o que experi-
haja alguém assim. Mas, há alguém assim? A resposta,
mentamos a todo o momento não é que justamente esta
neste caso, parece ambígua: por um lado, todos somos de
vigência se dá em sua hegemonia incontestável hoje por
alguma maneira cegos para o ontológico; por outro, todos,
toda a parte e a todo o momento? Na vigência da funcio-
por natureza, temos a capacidade de vê-lo. Com efeito,
nalidade tudo já não se tornou sistema? Talvez sim. E na
nós já sempre o vimos, mas não nos atinamos para essa
vigência do sistema, tudo não já se tornou insumo e re-
visão. Nós já partimos sempre de uma apreensão do ente
curso e não é a partir daí que se organiza a “sociedade da
enquanto ente, e isto quer dizer, do ente no seu ser. Dito
produção”, inclusive sua última concreção, a “sociedade
de outro modo: nós nos movemos já sempre numa com-
do conhecimento”? Então, o que é a presença? Neste con-
preensão do ser, embora esta compreensão seja, de início e
texto, talvez uma possibilidade de ser do humano que não
na maior parte das vezes, não temática, não explícita, não
há, um nada. Somos e não somos presença. Ou melhor:
teórica, mas antes “operativa”, que se dá com e no nosso
em não sendo presença, podemos ser presença. Mas este
próprio ser, com e no nosso próprio existir, em-sendo, em
poder-ser pressupõe a necessidade de nos subtrairmos da
existindo (Heidegger, 1988, p. 29). Em todo o lidar com
hegemonia da funcionalidade, isto é, da objetividade e
o ente nós já sempre o apreendemos como ente simples-
da subjetividade, do sistema e da vivência. Este subtrair,
mente e, ademais, como ente deste ou daquele ser: o ins-
no entanto, não é nenhuma fuga ôntica, mas é, antes de
trumento na sua instrumentalidade, o vivente no vigor
tudo, um adentrar mais profundamente, só que esta “in-
da vida, o homem no modo de ser de sua humanidade,
trodução” é de cunho ontológico. Supõe a intenção de
etc. Em-sendo, nós mesmos já sempre nos abrimos para
pensarmos o sentido de ser que vigora na hegemonia da
o ser, a priori, nós já sempre mantemos uma relação de
funcionalidade, de seguirmos o que aí se retrai, o que se
ser com o que somos e com o que não somos, com o que
encobre e se vela, o que se resguarda e se protege, como
podemos ser e com o que devemos ser, com o que vamos
um “nada” (Heidegger, 1999, p. 57-63).
nos tornando, enfim, com nossas possibilidades e impos-
Portanto, falar do humano enquanto presença e do
sibilidades de ser. Esta abertura se dá numa compreen-
traço fundamental do cuidado, não é descrever o huma-
são, que é anterior a toda tematização, que é ela mesma
no enquanto algo já constituído, enquanto um determi-
e nela mesma um poder-ser. É a partir desta compreen-
nado quê aí ocorrente, com determinadas propriedades
são, ainda que vaga e mediana, ainda que atemática, que
características, objetivamente dadas. Nem é mesmo fa-
nós podemos dizer “é”, “sou”, “és”, “somos”, conjugando
lar do humano enquanto sujeito que se autoconstitui em
o verbo “ser” nos seus tempos e nos seus modos, abrin-
seus relacionamentos com os objetos e o mundo objetivo,
do as nossas possibilidades de nos pronunciarmos e de
com o outro enquanto objeto ou mesmo com o outro en-
nos comunicarmos, de falarmos das nossas coisas e das
quanto outro sujeito no mundo das relações intersubje-
nossas causas, etc.
tivas; nem consigo enquanto objeto, nem mesmo consigo
Na indicação acima de Heidegger, somos remetidos ao
enquanto sujeito, pondo-nos na perspectiva de um mun-
“ontológico”: somos advertidos para o fato de que “Sorge”
do intrasubjetivo. É que todo objetivo e todo o subjetivo,
(cura, cuidado) é entendida corretamente se for assumida
mesmo o inter e o intrasubjetivo, tanto a perspectiva da
de modo fundamental-ontológico, como um traço funda-
racionalidade e suas operações, quanto da animalidade
mental que caracteriza o humano enquanto presença, a
e de suas vivências, já se encontram no lance da com-
saber, a compreensão do ser. O ôntico do ente que somos preensão de ser dominante e hegemônica hoje, que é o
nós mesmos é de tal feitio que é em si mesmo ontológico
da funcionalidade.
(Heidegger, 1988, p. 38). O humano enquanto presença
Falar do humano enquanto presença, porém, é outro
(Dasein) se cumpre como e a partir de uma relação com
lance. Isto é, significa abrir outro horizonte de compreen-
o ser, relação que se cumpre como “compreensão”. Ao
são, por conseguinte, de poder-ser. É um aceno ao futuro,
dizermos “traço fundamental que caracteriza o humano
portanto (Heidegger, 1994b, p. 294). Contudo, não se trata
enquanto presença” o fazemos correndo o risco de uma
de entender o futuro como prolongamento do passado e
incompreensão, devido à ambiguidade latente nesse dizer.
do presente, mas como porvir, um porvir a partir donde
Não se trata do humano enquanto substância (um “certo
emerge a possibilidade de uma passagem, que reponha
quê”), nem do humano enquanto sujeito, modo predomi-
o humano numa relação originária com o ser. Contudo,
nante de o humano se dar na época moderna. O humano,
mais uma vez, não se trata de passar de algo real a ou-
aqui, não é sujeito, nem o ser, aqui, não é nenhum objeto.
tro algo real, mas da passagem de um poder-ser a outro
A compreensão do ser por parte do humano também não
poder-ser, de uma passagem que é, na verdade, um salto,
é nenhum conhecimento objetivo. E, por não ser objetivo,
um salto de liberdade que, abismando-se no nada, fun-
não é nem mesmo subjetivo. Pois só há objeto onde há
da outro modo de ser para o humano, um modo de ser
sujeito e só há sujeito onde há objeto. Sujeito-objeto são
que se chama presença por possibilitar ao humano ser o
A r t i g o
159
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011

Marcos A. Fernandes
aí do ser, ou seja, que se rege na proximidade do ser, do
ontologia fundamental é uma arrancada para a passagem,
ser não como funcionalidade, mas do ser como evento-
um embalar-se para o salto, um primeiro movimento em
apropriador (Ereignis).
favor da fundação da verdade do ser no humano como
Se essa for a questão, então o humano que hoje vigora
presença. Isso comporta uma transformação do humano
não é tanto presença, mas ausência (Heidegger, 1994b,
de senhor do ente em pastor do ser:
323). O que hoje celebramos como ser não é tanto ser,
mas nada; o que hoje consideramos um nada, não é tanto
O homem foi ‘lançado’ pelo próprio Ser na Verdade
um nada, mas ser numa plenitude ainda não pressenti-
do Ser, a fim de que, ec-sistindo nesse lançamento,
da. Esta passagem é, portanto, uma guinada (Kehre) no
guarde a Verdade do Ser; a fim de que, na luz do Ser,
ser e no humano. E a crise de nosso tempo pode guar-
o ente apareça como o ente que é. Se e como o ente
dar em si a prenhez de uma decisão, que versa sobre esta
aparece, se e como Deus e os deuses, a História e a
passagem, ou seja, se ela acontece ou não, quer dizer, se
natureza ingressam, se apresentam e se ausentam
aquela guinada se consuma ou não. Ou então, a decisão
da clareira do Ser, isso não é o homem quem decide.
que versa sobre o fato de se esta decisão mesma aconte-
O advento do ente repousa no destino do Ser. Para o
ce ou se ela simplesmente não acontece e o homem e o
homem, a questão é, se ele encontra o que é ‘destinado’
ser sigam vigorando como vigoram (ou como não vigo-
à sua Essência, correspondente ao destino do Ser. Pois
ram) na hegemonia da funcionalidade. Em todo o caso,
é de acordo com esse destino, que, como ec-sistente,
pensar em face a essa decisão que é um poder-ser, sig-
ele tem de guardar a Verdade do Ser. O homem é o
nifica, sempre renunciar a toda futurologia e cálculo so-
pastor do Ser. É somente nessa direção que pensa Ser e
bre o futuro e a aguardar, na vigilância, o inesperado de
Tempo, ao fazer, ‘na Cura’, a experiência da existência
uma outra parusia do ser e, por conseguinte, de uma ou-
ec-stática (Heidegger, 1967, p. 50s).
tra essencialização do humano. A questão é: se da crise
que abala os fundamentos mesmos de uma história que
Partindo, pois, destas indicações de Heidegger sobre
vigora há cerca de dois milênios e meio, pode irromper
a “Sorge” (cura, cuidado) em seu sentido ontológico, ten-
uma outra regência do ser e uma outra vigência do hu-
temos aprofundar a sua compreensão e ver o que ela tem
mano. Neste contexto, se o pensamento também encon-
a ver com o amor.
tra um caminho de passagem para outro início em diá-
logo com as fontes do primeiro início, de onde vivem as
possibilidades da metafísica, cuja última ressonância é
2. presença e ausência
o domínio absoluto da tecnociência e o controle do real
pelo virtual.
A primeira indicação diz: “Sorge” (cura, cuidado) é o
À luz desta situação epocal, há que se ler de modo di-
nome para a constituição extático-temporal do traço fun-
verso o sentido de uma ontologia-fundamental. Para co-
damental da presença (Dasein), a saber, da compreensão
meçar, ontologia não é, aqui, uma disciplina que estuda o
do ser. Como entender esta indicação?
ente, mas sim um pensar que busca, pergunta, questiona,
Em primeiro lugar, o que quer dizer presença (Dasein)?
investiga o sentido do ser. Enquanto tal, ela fundamen-
Em sentido usual na língua alemã Dasein significa estar
ta e supera, ao mesmo tempo, toda ontologia (Heidegger,
aí. Heidegger usa a palavra francesa “présence” (presen-
1994b, p. 305). O que está em jogo aqui é, na verdade,
ça), aludindo ao significado usual de Dasein. Aqui con-
uma transformação no próprio perguntar do pensamento:
vém apresentar a citação na língua alemã, seguida da sua
a passagem do questionamento que pergunta pelo ser do
tradução em língua portuguesa, para que apreendamos
ente (o que é o ente enquanto ente, isto é, o que é o ente
este uso da palavra.
no tocante ao ser?), que visa o ser como entidade, para o
questionamento que pergunta pela verdade do ser mesmo,
No significado costumeiro, porém, quer dizer, por exem-
de seu desencobrimento e encobrimento, ou melhor, de
plo: a cadeira “está aí”; o tio “está aí”, ele chegou e está
seu abrir-se e clarear-se e de seu resguardar-se e ocultar-
presente; daí: presença (Heidegger, 1994b, p. 300).2
se. Isto significa: estar atento à verdade do ser, ao modo
como o ser, dando-se, se retrai; presenteando-se, se sub-
No significado usual, pois, o verbo dasein quer dizer
trai; destinando-se, se resguarda. Pensar é, neste sentido,
“estar aí”: presença. Em grego seria parousia. O nome pa-
deixar-se atrair pela força de tração do retraimento do
rousia significa presença, aparecimento, vinda. A tradu-
mistério do ser nas destinações de nosso tempo. É estar
ção para o latim é: adventus. Parousia remete ao verbo
atento ao nada na vigência do ser, ou seja, à ausência na
pareimi, estar presente, ter vindo. O que está aí é pen-
presença e à presença na ausência, seguindo, nos cursos,
sado, pois, como o que adveio ou sobreveio. Presença é
percursos e discursos da linguagem, a dinâmica do tem-
a vigência do que advém e sobrevém. Perdendo-se de
po. Pensar é, pois, fundar, no humano, o “medium” para
o dar-se da verdade do ser. É, por conseguinte, cofundar
2 In der gewöhnlichen Bedeutung jedoch meint es z.B.: der Stuhl
“ist da”; der Onkel “ist da”, ist angekommen und anwesend; daher
A r t i g o
o humano como presença: ser o aí-do-ser. Neste sentido, a
présence. Grifos de Heidegger.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011
160

O Cuidado como Amor em Heidegger
vista esta dinâmica temporal, porém, a presença passa
que”, portanto, haure o seu vigor do porvir, como fun-
a ser entendida como simples “ousia”: a presença ou o
damento para o homem porvindouro. Ela é um apelo de
que está presente, ou seja, o que está aí. Caso se entenda
ser que nos alcança, ou seja, que alcança a nós, humanos
a presença do presente como o repousar em si mesmo,
deste tempo, na passagem. Alcançar uma compreensão
como autossubsistência ou autoconsistência, visando o
do cuidado requer, portanto, a capacidade de nos manter-
ser em si de alguma coisa, então ousia se traduz em la-
mos no sentido de ser (horizonte de compreensibilidade)
tim para substantia (substância). Entretanto, na história
que nos advém do “ser-quem”, subtraindo-nos, assim, do
da metafísica, a compreensão do ser vai se esvaziando
sentido de ser dominante do “ser-que”.
cada vez mais: de vigência do que advém a simples pre-
A partir desta perspectiva, o que nós temos comu-
sença e da simples presença a substância e da substân-
mente como presença (Dasein, ousia), a saber, a mera
cia ao mero ocorrer aí de algo, de uma res (coisa), de cer-
presença, a ocorrência no horizonte do “ser-que”, tanto
to “quê” (aliquid). Na modernidade, o “quê” passa a ser
como substancialidade quanto como objetividade-sub-
interpretado como o que é apresentado e representado
jetividade, ou ainda quanto como recurso da funciona-
por e para um sujeito, ou seja, por um ente que é fun-
lidade, passa a ser chamado de ausência (Wegsein, apou-
damento ou suporte (subjectum) de toda apresentação e
sia). Arrebatado, isto é, endoidecido e apaixonado pela
representação dada no conhecimento, o qual passa a ser
mobilização total do produzir e do dominar, encantado
compreendido em sua função objetivante, e cuja consti-
pelos dispositivos e pelas disponibilizações da operacio-
tuição se dá como autopresença ou como presença de si
nalidade funcional da técnica, em toda a parte e a todo o
a si mesmo (a “mens”, o “ego cogito”, a “res cogitans”). A
momento ocupado e preocupado com o ente, ao homem
presença por excelência passa a ser esta substância que é
permanece velado, oculto, desconhecido, o mistério do
autopresente e que se apresenta e representa todo o ente
ser. Ele, epocalmente, “não está nem aí” para o misté-
no projeto de domínio calculador de todo o ente, pela
rio de ser. Este fechamento e encobrimento que vigora
ciência e pela técnica. A partir daí todo o ente, objetivo como esquecimento, melhor, como esquecimento do es-
(simplesmente presente) ou subjetivo (autopresente), se quecimento, só pode ter o ser como nada, só pode ter o
equaciona no horizonte da funcionalidade do “poder”,
pensar que medita o sentido do ser como delírio. Esta
ou melhor, da inessência do poder, que agencia o domí-
situação não é superada ali onde se condena a raciona-
nio, que tudo domina, explora e controla. O ser do ente,
lidade com sua unilateralidade e se procura refúgio nas
ou seja, a presença do presente passa a ser compreendi-
“vivências” (Heidegger, 1994b, p. 131). Por isso, o pós-
do no horizonte da funcionalidade, isto é, como recur-
moderno é ainda, neste sentido, um prolongamento do
so, insumo, elemento de um processamento infinito de
moderno, da ausência que se consuma na modernidade,
produção. Em tudo isso, porém, a presença é pensada a
portanto, não é propriamente uma passagem, mas uma
partir da compreensão do ser como simples ocorrência,
aparência de passagem. Uma passagem só se cumpre na
isto é, na perspectiva da instrumentalidade ou da dispo-
presença e como presença.
nibilidade para a produção. Tudo se nivela na impesso-
Presença é um modo de ser, no qual o aí é, toman-
alidade funcional. O homem mesmo se torna um “que”,
do-se o verbo ser, por assim dizer, como ativo-transiti-
um elemento, recurso, mesmo que fundamental, dentro
vo (Heidegger, 1994b, p. 296). Ser o aí é, por assim di-
da vigência desta funcionalidade técnico-científica, a
zer, fundar o aí, deixar e fazer viger o aí, a saber, o aí
serviço da produção.
para o ser e do ser. Presença é “estar aí” para o mistério
Contudo, a partir da ontologia fundamental, “pre-
do ser. É ser o aí, ou seja, a abertura que deixa ser o ser
sença” (Dasein) nomeia justamente a apreensão e com-
em sua proximidade. Cuidado é o ser (o viger) do aí. O
preensão de um poder-ser do homem, do humano e de
homem, fundado na presença, deixa de ser o senhor do
sua humanidade, que se subtrai ao horizonte da simples
ente, para se tornar o cuidador do ser. Somente cuidan-
ocorrência, quer como substancialidade, quer como sub-
do do ser é que o homem deixa ser o ente como ente. Do
jetividade e objetividade, quer ainda como recurso da
contrário, no esquecimento do ser, o ente só vigora em
funcionalidade produtiva. Presença nomeia, então, não sua inessência, em sua niilidade (niilismo). Contudo, se
simplesmente um “quê”, mas um “quem”. Ela responde
a presença vigora como um “ser-quem” e não como um
não à pergunta: “o que somos nós?”. Ela corresponde ao
“ser-que”, então, também o “ser” e o “cuidar” só poderão
questionamento “quem somos nós?” (Heidegger, 1994b,
ser apreendidos e compreendidos em seu sentido a par-
p. 48-54). Presença não é algo, mas alguém. Seria, porém,
tir do “ser-quem”.
um equívoco logo empurrar a presença para dentro do ho-
Entretanto, poder-se-ia perguntar: qual a necessidade
rizonte da “pessoa” (Heidegger, 1988, p. 84-85). Com efei-
da transformação do humano, aqui evocada, de senhor
to, a pessoa veio sendo interpretada, ao longo da história,
do ente em cuidador do ser? Resposta: o homem precisa
ou como substância ou como sujeito e hoje se encontra
se transformar para poder-ser si-mesmo. É no horizonte
absorvida na impessoalidade funcional da técnica e da
do poder-ser-si-mesmo que se inscreve a necessidade de
sociedade de produção, inclusive em seus aspectos “vi-
o humano e sua humanidade se fundar no fundo e no
venciais”. A presença como “ser-quem” e não como “ser-
abismo (sem-fundo) da presença.
A r t i g o
161
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011

Marcos A. Fernandes
3. os momentos estruturais do Cuidado: existencia-
ontologia fundamental significa a essência (no sentido
lidade, facticidade e decadência
verbal de viger, de conceder ou propiciar vigência) da
presença (Dasein), do ser-quem. Se a existência é a es-
Voltamos, agora, à indicação dada por Heidegger a
sência (o que deixa e faz viger) da presença; a cura ou
respeito de como compreender o cuidado. “Sorge” (cura, cuidado (Sorge) é a essência da existência; e a tempora-
cuidado) é o nome para a constituição extático-temporal
lidade é o sentido de ser da cura (Sorge); então a existên-
do traço fundamental da presença (Dasein), a saber, da
cia é (vige como) temporalidade. A existência é, portan-
compreensão do ser.
to, essencialmente extática. “Ex-sistere” significa “estar
O cuidado é indicado como “traço fundamental” da
fora de si”, “pôr-se de pé no fora”, isto é, ser exposto ao
presença. Não se há de entender o cuidado, porém, como ente como ente, ou seja, estar fora na abertura do ser.
uma característica ou uma propriedade ôntica de um Existir é, neste sentido, estar inserido na verdade do ser;
ente que ocorre aí (“presença” como ocorrência). O traço
é insistir nela; é nela estar arraigado.
resulta de um traçar. O traçar, contudo, se cumpre num
A partir deste caráter extático é que se determina o
imaginar. O humano como presença é uma imaginação
que é o ente em questão (a presença): ele não é um que,
(Heidegger, 1994b, p. 312). Contudo, essa imaginação não
mas um quem. Enquanto tal, ele não é uma coisa que
é nem empírica nem transcendental. É, antes, existencial-
ocorre aí, simplesmente dada; nem uma coisa de uso,
ontológica. Este imaginar tem o sentido de trazer à luz um instrumento, cuja serventia se dê para isso ou para
o que vigora como poder-ser. Significa intuir no porvir
aquilo, mas ele é por mor de si mesmo (worumwillen)
outra possibilidade de configuração do humano e de o
(Heidegger, 1988, p. 256). Esta expressão “por mor de” sig-
humano ser o que ele é, ou seja, configurador do mundo.
nifica na linguagem habitual “por causa de”. Em sua ori-
Trata-se, portanto, de criar, a partir do poder-ser, outra
gem, porém, tem o sentido de “por amor de”. A presença,
forma de essencializar-se do humano, na qual a huma-
enquanto existência, é não por amor de outra coisa (não
nidade do homem não se encontre fechada, mas aberta
é “um meio para um fim” – usando-se o modo de dizer
para o mistério de ser. Imaginação tem o sentido, aqui,
de Kant), mas é por amor de si mesma (é “um fim em si
de projeção da fundação da presença em seu poder-ser
mesma”). Isso porque, na presença enquanto existência,
fundamental, como clareira do ser.
ou seja, enquanto um ente da liberdade, o que está em
Na ontologia fundamental, o cuidado aparece como
causa ou em jogo é, cada vez e sempre, em toda decisão,
uma totalidade estrutural (Heidegger, 1988, p. 255).
o seu ser, o seu poder-ser si-mesmo. Existir é, neste sen-
Estrutural é aquela totalidade em que o todo se encontra
tido, ser livre para o poder-ser mais próprio. Enquanto
todo em cada um de seus momentos. Isso quer dizer: to-
tal, ou seja, enquanto ser-para-o-poder-ser-mais-próprio,
talidade não é, aqui, soma de partes, pois a presença não
existir significa já sempre estar indo adiante de si mesmo,
é nenhuma ocorrência (coisa ou “substância”); também
antecipar-se, preceder-se a si mesmo (sich vorweg sein).
não é sistema, pois a presença não é um ente que ocorre
Existir é, pois, ultrapassar-se, transcender-se. Só que este
a modo do ser funcional (mecânico ou orgânico, causal-
transcender-se não é ultrapassar-se na direção do que
eficiente ou causal-teleológico). Estrutural é uma totali-
não se é, mas sim, ultrapassar-se na direção do próprio
dade existencial, isto é, uma totalidade que tem o modo
ser, ou melhor, na direção do poder-ser mais próprio, ou
de ser da liberdade. Isto quer dizer que as estruturas do
seja, daquele poder-ser em que a presença pode ser mais
cuidado são estruturações da liberdade. Somente a par-
propriamente o que, melhor, quem ela é. Existir é, pois,
tir do sentido de ser (horizonte de compreensibilidade)
estar sob a lei da liberdade, que diz: “torna-te o que tu és”.
do ser-quem e da liberdade (ser-livre) é que pode aconte-
Isto significa: torna-te quem tu és, melhor ainda, torna-
cer a compreensão do poder-ser da presença e, por con-
te quem tu podes ser.
seguinte, do cuidado.
O si-mesmo, aqui, não é a coincidência do eu consigo
A estrutura do cuidado reúne três momentos: exis-
próprio, a coincidência entre o representador e o repre-
tencialidade, facticidade e de-cadência (Heidegger, 1988,
sentado, a autoconsciência ou autopresença da mente. O
p. 255).
si-mesmo é a regência do próprio. É o acontecer pelo qual
Existencialidade é o caráter de ser da existência. A
a presença vem a si e para junto de si (Heidegger, 1994b,
palavra existência, aqui, não tem o sentido habitual de
p. 319). Somente à medida que a presença vem a si e jun-
ocorrência efetiva de alguma coisa, nem mesmo o sen-
to de si é que ela pode propriamente assumir o ser para
tido tradicional filosófico. Em sentido tradicional a pa-
os outros. É a partir do si-mesmo que o eu, tu, nós en-
lavra existência significa o “que” do ser: que o ente é
contram seu modo apropriado de ser. O vir para si e o ser
(que-ser) e que ele é como ele é (como-ser). Esta se conju-
junto de si da presença, porém, não se dá como reflexão
ga com a essência ou quididade: “o que” o ente é (o que-
da consciência, como autoconsciência do eu. A “retror-
ser). Enquanto a essência é entendida como possibilida-
relação” expressa no “vir-a-si” e no “ser-junto-de-si” não
de (potência), a existência nomeia a realização efetiva
pode ser compreendida a partir do horizonte da consci-
daquela possibilidade, o ser real do ente (ato, realidade
ência e de sua reflexão, mas é um acontecer da presença
A r t i g o
como efetividade). Existência, porém, no contexto da
a partir da regência do próprio. O si-mesmo não é algo
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011
162

O Cuidado como Amor em Heidegger
já dado, a modo de ocorrência. O si-mesmo é o dom de
e isto quer dizer: entregue à própria responsabilidade de
uma apropriação e a apropriação de um dom. Apropriar-
assumir este fato de já ser. A presença existe em concre-
se, aqui, porém, não é apossar-se do que já está aí, como
to, tendo que ser si-mesma, submetida à necessidade da
algo simplesmente dado ou como um recurso ou coisa de
liberdade. Em concreto quer dizer: como cada-vez-minha
uso. Apropriar-se significa tornar-se apto no poder-ser
em sua singularidade e na respectividade de cada vez, ou
mais próprio. Querer possuir, dominar, assegurar-se é um
seja, inserida na finitude de cada situação. A facticidade é
modo impróprio de se apropriar do vigor do próprio (da
o fato de que, sendo, a presença já está lançada no aí e já
“propriedade” da existência). Este querer só demonstra
se abriu como disposição, compreensão e linguagem; é o
a inaptidão para o próprio. Mas, o que torna a presença
fato de que, sendo, ela já se precedeu a si mesma, ou seja,
apta à regência do próprio, à propriedade da existência?
já está a caminho de si-mesma e já se lançou para o ser
Resposta: a abnegação, a renúncia. A abnegação não é a
como um poder-ser; o fato de que, sendo, ela já se achou
mera negação de si. Mas a negação do modo impróprio
a si-mesma em alguma disposição ou humor, já abriu o
de querer apropriar-se de si: ou seja, do querer possuir-
mundo como uma estrutura remissiva de significâncias
se sem conquistar-se, sem conquistar a aptidão para ser,
e já articulou e recolheu a sua compreensibilidade na
a capacidade de poder-ser. A negação da abnegação não
linguagem. A facticidade é o fato de a presença não po-
é mera negatividade.
der retroceder ao fato de já-ser-em-o-mundo, ao fato de
A renúncia não tira. A renúncia dá. Dá a força inesgo-
já ser e de ter que, sempre de novo, ser. A presença, com
tável da simplicidade (Heidegger, 1977, p. 48).
efeito, não pode nunca estar diante de sua existência. Ela
Portanto, a renúncia não é perda. No não da renún-
só pode ser a partir da existência, como existência e em
cia vigora o poder-ser do sim à verdade do ser. A renún-
vista da existência. Por isso, a presença não pode nunca
cia anuncia o que se vela e se oculta (Heidegger, 2003,
absolutamente dominar a existência. A facticidade é o
p. 129). Ela assinala o retraimento do mistério do ser, o
fato ambivalente de a presença não ser fundamento de si
outro do ente. A renúncia não tira. A renúncia dá. Dá a
e, ao mesmo tempo, ter que ser fundamento de si mesma.
força inesgotável da identidade de si sob a regência do
O fato de não ser fundamento de si mesma, ou seja, de já
próprio. Por isso, a aptidão do poder-ser se consuma como
estar lançada no aí, na abertura da verdade do ser, mos-
dedicação, na pertença ao ser. Ela é crescimento e matu-
tra sua niilidade. O fato de ser fundamento de si mesma,
ração de si a partir do ser.
ou seja, o fato de ter que ser si-mesma, assumindo o seu
A aptidão do poder-ser acontece como doação à ver-
próprio poder-ser, a cada vez, mostra sua liberdade. O
dade do ser. E isso significa: é recepção à regência do ser.
fato de existir, com efeito, a presença assume sempre de
Esta, porém, a regência do ser, consiste em provocar cada
novo e a cada vez, na solidão de sua singularidade e na
ente para o seu próprio. Ele concede a vigência do próprio
finitude de sua mortalidade, na comunhão do ser-com-
a cada e a todo o ente (Heidegger, 1967, p. 28). Dito de outro
os-outros, como cuidado (Sorge), exercendo-o concreta-
modo: é o ser que deixa e faz ser o ente no seu próprio, é
mente na ocupação (Besorgen) com as coisas intramun-
ele que leva cada ente à sua propriedade. Por isso a aptidão
danas e na preocupação (Fürsorge) com os outros. E este
do poder-ser, pelo qual a presença se torna si mesma, con-
exercício se dá concretamente nos lances pelos quais ela
siste em receber do ser o vigor de ser o próprio de si e em
assume o seu poder-ser, que é, também e de modo igual-
comunicar adiante este vigor. Somente no pertencimento
mente originário, um poder-ser-no-mundo e um poder-
ao ser é que a presença alcança constância e consistência ser-com-o-outro. A presença é seu fundamento em exis-
de ser-si-mesma e somente sendo propriamente si mesma
tindo, ou seja, em podendo ser, ou seja, em assumindo
é que ela pode dizer propriamente eu, tu, nós. Existência
ou não o poder ser si-mesmo, a regência da propriedade.
não é, pois, outra coisa do que a insistência, a consistência
Por isso, a presença pode cumprir-se entrando nesta re-
e a constância da presença na verdade do ser.
gência ou desviando-se dela, abrindo-se ou fechando-se
Facticidade é o caráter de ser do fato de a presen-
para a verdade do ser.
ça já existir, mais precisamente, de já ser-no-mundo
A decadência constitui a inessência da existência.
(Heidegger, 1989, p. 71-73). Neste sentido, a facticidade é
Entretanto, enquanto inessência, ela pertence à essência
ontologicamente diferente da factualidade do ente sim-
como uma sua possibilidade, na verdade, como aquela
plesmente dado ao modo da ocorrência ou do ente à mão
possibilidade que de início e na maior parte das vezes já
que se dá ao modo da instrumentalidade. Embora sejam se realizou, na facticidade da existência. Ela é o avesso
reais, estes não existem, no sentido do uso aqui dado à
da existência. Só que este avesso é justamente o modo
palavra “existência”, como um existencial. Estes não têm
mais comum dela, a existência, se dar (Heidegger, 1989,
o modo de ser-no-mundo, mas apenas vêm ao encontro
p. 144-147). Por ela, o homem diz “eu sou”, mas em ver-
da presença como entes intramundanos. Enquanto já-ser-
dade não é, isto é, não vigora na propriedade do ser-si-
em (o mundo) a facticidade é o a priori da existência, a
mesmo. Por ela, cada um é, antes de tudo, “os outros”:
sua autodatidade, o já ser si-mesmo, do si-mesmo, para si-
o “a gente” que, na verdade, é “todo o mundo”, que, em
mesmo (autorrelação). Entretanto, o si-mesmo é si-mesmo
última instância, é “ninguém”. Por ela, a existência é
para si-mesmo, concretamente, em sendo, em existindo,
arrebatada pelo mundo das coisas de que se ocupa, se
A r t i g o
163
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011

Marcos A. Fernandes
move em relacionamentos impessoais e se dissipa no fa-
por um sujeito em sua consciência. A presença não ocor-
latório, na curiosidade e na ambiguidade da publicida-
re “no tempo” como se fosse algo intramundano. O fato
de. Decadência é desarraigamento, um desarraigamento
de ela se interpretar a si mesma como tal é apenas uma
fundado no fato de já ser-junto ao ente. Mas é, acima de
sua possibilidade, no esquecimento de si mesma jun-
tudo, uma cadência: uma mobilidade e movimentação do
to às coisas com que ela lida. A presença também não é
existir, cuja característica é a precipitação para o nada
pura e simplesmente a consciência na qual e para a qual
negativo, ou seja, o nada aniquilante. Não que com ela o
o tempo ocorre. Tanto o tempo objetivo (físico), quanto
homem fosse destruído. Mais do que a destruição do ho-
o tempo subjetivo (psíquico) são modos defasados de se
mem, ela é a aniquilação do fundo ontológico do poder-ser
entender a temporalidade existencial. A presença só tem
pelo qual o homem pode construir o seu modo de ser, isto
tempo e vivencia tempo por já ser tempo. A temporalidade
é, se constituir como humano em sua humanidade. Nela,
não é algo que ela tem, mas algo que ela é. Por exemplo,
o homem pode permanecer, mas permanece inumano. A
ela apenas conta o tempo no calendário por que precisa
existência continua, mas em simulacros. Radicalmente
contar com o tempo em sua ocupação. Mas ela só conta
acomodada em sua movimentação, promove a agitação
com o tempo em sua ocupação porque o seu tempo está
frenética do fazer, do agir, do empreender, escolhendo
contado, isto é, porque ela é mortal. Temporalidade im-
o imediatamente útil como critério último de valor de
plica, radicalmente, finitude.
tudo e de todos. A sua niilidade, portanto, não é a niili-
A temporalidade, porém, não é, no sentido do ocorrer
dade da não ocorrência, mas é uma niilidade que se dis-
ou do estar à mão. Ela somente é no sentido do vigorar em
simula na efetividade, na proximidade da vida, na exal-
temporalizações: futuro, presente e passado. As tempora-
tação do “concreto”. Na decadência, a existência foge de
lizações não se sucedem uma à outra. O futuro não vem
si mesma, se aliena, se fecha, se aprisiona, gira de modo
depois do passado e o passado não vem antes do presente.
vazio em torno de si mesma, como em um vórtice. Pela
A cada instante, a presença é o seu porvir, o seu ter-sido
decadência a existência desliza em defasagens: do ser ao
e o seu presente. A unidade dessas temporalizações é a
ente; do si-mesmo ao mundo; do mundo ao intramunda-
temporalidade. A temporalidade perfaz radicalmente o
no; do que está à mão no uso como coisa ao simplesmente
ser da presença, tornando-a extática, isto é, fora de si. As
dado; do simplesmente dado como objeto ao recurso. Uma
temporalizações são “êxtases”, isto é, mobilizações que
mobilidade de precipitação, portanto, que vai da vigên-
empurram a presença, constituindo-a como “fora de si”,
cia à mera ocorrência, do recolhimento no uno à disper-
como existente (Heidegger, 1989, p. 123). Estes “empur-
são na multiplicidade, da plenitude e prenhez ao vazio
rões” abrem a presença em seu aí e a torna a aberta do ser,
e esterilidade, da originariedade criativa e criatividade
o espaço de liberdade, onde emerge a claridade do ser. A
originária à estereotipia, da abertura ao fechamento, do
temporalidade extática libera e ilumina, pois, o aí do ser,
desencobrimento ao encobrimento dissimulador, da ver-
a presença em sua existência. Por ser temporalmente ex-
dade ao falseamento.
tática é que a presença é cura, cuidado (Sorge). A tempo-
ralidade é o fundamento existencial da cura.
O modo mais imediato de cuidado se dá como ocu-
4. Cuidado como Constituição extático-temporal da pação (Besorgen). As ocupações com os entes intramun-
presença
danos, de fato, preenchem os dias do homem. A cada dia
toca o seu cuidado. O cotidiano é, neste sentido, o tem-
Mais uma vez, retomemos a indicação inicial que
po das ocupações, da lida. É no ordinário do cotidiano
nos guia nesta reflexão: “Sorge” (cura, cuidado) é o nome
que a presença tem a experiência do extraordinário que
para a constituição extático-temporal do traço fundamen-
é existir. É na familiaridade do ser-no-mundo a partir
tal da presença (Dasein), a saber, da compreensão do ser.
das ocupações cotidianas que se cumpre a sua estranha
Acabamos de ver como esta constituição se articula em
forma de ser: a estranheza de existir. Desta estranheza
três momentos estruturais: a existencialidade, a factici-
normalmente ela já fugiu e, movida pela angústia laten-
dade e a decadência. Agora tentemos entender como esta
te desta estranheza, que traz entranhada o saber de sua
constituição se denomina “extático-temporal”.
facticidade e de sua mortalidade, ela já se lançou em mil
A totalidade estrutural da cura ou do cuidado (Sorge),
cuidados e já se dispersou em fazeres e afazeres desar-
que se articula em seus momentos (existencialidade, facti-
raigados; já se entregou também à ditadura do impesso-
cidade e decadência) não é uma moldura rígida na qual a
al e abriu mão do poder-ser si-mesma, delegando “aos
presença se realiza, nem é um arcabouço estático a partir
outros”o que ela deve ser, dispersando-se no falatório, na
do qual o homem constrói sua humanidade (Heidegger,
curiosidade e na ambiguidade da (in-) compreensão ha-
1988, p. 255-256). A totalidade estrutural da cura ou do
bitual e corriqueira. Esta fuga se torna precipitação e, em
cuidado (Sorge) é, essencialmente, temporalidade. Trata-
seu desarraigamento, tende a se acelerar cada vez mais,
se, aqui, não da intratemporalidade do ente intramunda-
entregando-se cada vez mais à velocidade das próprias
no que ocorre “no tempo”. Também não se trata de uma
atividades e empreendimentos, bem como das próprias
A r t i g o
temporalidade psíquica, vivenciada de modo imanente
diversões e entretenimentos.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011
164

O Cuidado como Amor em Heidegger
Existindo, a presença é junto do ente de que se ocupa,
dado positivo, que é doação, entrega, esquecimento de si,
junto do “mundo” das coisas, isto é, no mundo das ocu-
criação diligente e afetiva, que o homem originariamen-
pações, que é o mundo circundante. Existir é empenhar-
te se edifica a si mesmo. Tal modo de ser pode ser visto,
se no mundo. É ter a ver com as coisas e se interessar por
por exemplo, no brincar da criança. O brincar é o modo
elas. Este ter a ver, porém, se dá numa visão que é uma cir-
primordial pelo qual o humano aprende a seriedade da
cunvisão: uma visão que administra as possibilidades de
dedicação criativa e criadora ao mundo das coisas.
ocupação com as coisas ao redor. Isto significa apreender
A defasagem, porém, desta dedicação é o fazer como
e reter as referências que as coisas guardam umas com as
entrega desarraigada e dispersa ao mundo das coisas, do
outras enquanto coisas que se dão num nexo instrumen-
uso e abuso, da instrumentalidade e instrumentalização.
tal e numa conjuntura do uso, que, por sua vez, estão em
Na decadência, a atualização se torna inconsistente. Ela
vista da presença mesma e de sua existência. Este apreen-
é o apelo do imediato, a cobiça do sempre novo, o aban-
der e reter de possibilidades de uso constitui o empenho
dono do poder-ser si-mesmo em favor da realização das
contínuo da presença de atualizar o que está à mão. Por
coisas como efetivação que se supera sempre de novo a
isso, o tempo da ocupação é, fundamentalmente, o tempo
si mesma num horizonte infinito. Em sua agitação, este
atual, o presente (Heidegger, 1989, p. 151-157).
fazer não guarda o modo de ser da finitude, ou seja, da
Com a abertura do aí pela temporalidade abre-se tam-
autoresponsabilização da liberdade. Ela dispara em um
bém o mundo da ocupação. Este mundo é o horizonte de
agenciamento sem fim, esquecendo-se da mortalidade e
todos os horizontes dos afazeres do cotidiano. O mun-
da niilidade da própria facticidade. Este disparo, que é
do não é simplesmente dado como ocorrência, nem é à
também um disparate, atropela as coisas e não as deixa
mão como instrumental. O mundo é o horizonte que se
ser no seu próprio. A coisa deixa de ser coisa, para ser
abre a partir do “fora de si” da presença. É esta abertu-
apenas objeto de domínio e exploração, recurso para uma
ra horizontal-extática do mundo que possibilita a desco-
infinita demonstração de um poder que não é propria-
berta das possibilidades de uso das coisas. Entretanto, a
mente poder, pois se esvaziou da autoridade, cujo sen-
presença atualiza estas possibilidades tendo em vista a
tido consiste em deixar e fazer crescer o vigor de ser de
sua própria existência, ou seja, cuidando de seu poder-
todas as coisas. Deste modo, a presença fica sem amparo,
ser, que é também, de modo igualmente originário, um
sem apoio, sem abrigo e guarida em seu ser-no-mundo.
poder-ser com os outros. É junto das ocupações, de fato,
O seu habitar torna, assim, o mundo imundo (inóspito).
que, de início e na maior parte das vezes, nós nos encon-
A existência se fecha à sua pertença ao céu e à terra, à
tramos com os outros. É a partir delas que se articula a
verdade do ser.
convivência cotidiana. Na impessoalidade desta convi-
O homem tende a se deixar tomar pelo mundo, como
vência, cada um é aquilo que ele faz no mundo aberto da
o contexto ou a tessitura de relações, referências e remis-
publicidade, do “todo o mundo”. Entretanto, o ocupar-se
sões em que ele se empenha. Tomado pelo mundo, ele se
com as coisas, que é momento constitutivo e imprescin-
deixa absorver pelo habitual e familiar. A familiaridade
dível da existência enquanto cura, pode levar em conta
do mundo acaba reprimindo e desviando a atenção da
o poder-ser mais próprio e ser assumido em vista deste
estranheza da facticidade de existir, que pertence essen-
poder-ser ou pode se perder na dispersão das muitas ati-
cialmente à presença. Esta familiaridade é perturbada,
vidades, alimentando a fuga de si mesmo. O sentido po-
porém, de maneira imprópria, pelo temor (Heidegger,
sitivo do fazer é a dedicação (Rombach, 1977, p. 44; 52).
1988, p. 195-197). O temor ameaça a presença a partir de
Pela dedicação o homem penetra nas possibilidades das
um determinado ente em concreto. Essa ameaça atinge e
coisas e as deixa e faz ser, ou seja, as faz emergir no seu
perturba a presença, que se interpreta a si mesma a partir
próprio. No emergir das coisas como obra de sua dedi-
do “mundo”, isto é, a partir dos entes intramundanos e até
cação, o homem também emerge como presença em sua
mesmo como um ente intramundano. O temor perturba e
existência. Esta penetração das possibilidades e este dei-
confunde o atualizar das possibilidades de uso, em que
xar-ser que faz emergir as coisas em sua propriedade é a
a presença cotidianamente se move. Entretanto, o temor
forma de compreensão originária das coisas. Esta compre-
não abala a familiaridade do mundo e o ser-tomado-pelo
ensão, porém, é em-sendo, ou seja, é operativa. Ela acon-
mundo por parte da presença. O humor que torna possível
tece no pôr-em-outra a coisa em sua possibilidade mais
a retirada da presença deste arrebatamento na familiari-
própria. Esta compreensão é arte. Ela é um saber, que é dade do mundo é a angústia. A angústia é um despertar
poder, mas um poder, que é deixar-ser, que fazer emergir
do esquecimento do si-mesmo nos empenhos cotidianos
a coisa na sua propriedade, como coisa. Trata-se de uma
que se insere na familiaridade do mundo. É um desper-
doação positiva, por ser originária e criativa, às coisas.
tar, porém, por ser um estranhamento.
É uma forma positiva de êxtase pois nela o homem se es-
A angústia traz de volta a presença de sua fuga no
quece de si e se doa ao mundo, sem contudo, perder-se
mundo e a põe em face ao seu já-ser-em, ao seu já-ser-
a si mesmo, ou seja, sem perder o seu próprio poder-ser
lançado, ou seja, de sua facticidade, desvelando a estra-
si-mesmo. É fazendo, deste modo, coisas, que o homem
nheza da familiaridade cotidiana do ser-no-mundo. Pela
se perfaz a si mesmo. É expondo-se ao mundo neste cui-
angústia, o mundo enquanto estrutura remissiva de sig-
A r t i g o
165
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011

Marcos A. Fernandes
nificâncias se torna insignificante. A angústia revela o
um saber que é sabor da experiência. A experiência diz
nada do mundo (Heidegger, 1999, p. 60). É com o nada do
o modo como a presença é atingida de imediato em sua
mundo, isto é, com sua estranheza, que a angústia se an-
disposição e como ela deslancha em seu poder-ser. A
gustia. Com isso, também, a presença é remetida de vol-
experiência é o toque ou a percussão da facticidade, que
ta à facticidade de seu existir, ou seja, à niilidade de seu
ressoa e repercute na existência. Em toda a experiência
fundamento. Mas, esta niilidade que a angústia desvela
o humor se põe numa certa afinação com a facticidade
não é a niilidade de um nada negativo ou simplesmen-
do existir. Por já ser sempre numa certa afinação é que o
te privativo. Trata-se, antes, de uma niilidade positiva e
humor pode mostrar harmonia ou desarmonia, com esta
criativa, pois ela também revela que a presença em seu
facticidade, ou seja, se a presença vai bem ou vai mal, ou
poder-ser e que ela está entregue à responsabilidade por
seja, se ela se acha em afinação com o poder-ser si-mesma
dar sentido a esse poder-ser. Ela mobiliza a presença para
ou em desafinação com ele. O humor, pois, diz o modo
assumir a sua responsabilidade de ser, para repetir, isto
como a presença está disposta na existência, como ela se
é, ir buscar de novo e de modo novo, o seu poder-ser si-
acha em sua facticidade e como ela vai em seu poder-ser,
mesma. A angústia retira a presença de seu esquecimento
se ela deslancha ou se ela se obstrui os caminhos para o
no mundo da efetividade e a traz para a disposição de as-
poder-ser si-mesma. Decisivo é se ela se afina com a fac-
sumir o seu ser-possibilidade. Por isso, a angústia é uma
ticidade (o ter-sido originário) e com o poder-ser (o por-
provocação à presença, no sentido de ajuda-la a escutar a
vir originário) (Heidegger, 1989, p. 137-144). O ser para o
voz silenciosa do clamor que conclama a presença a ser
poder-ser, porém, se chama compreensão. Portanto, toda
si-mesma. Neste sentido, ela repõe a presença em sua fi-
disposição já entoa e determina alguma compreensão
nitude e a faz assumir-se em sua mortalidade. Ela instiga
(Heidegger, 1989, p. 132-127).
a presença para o salto da decisão que assume, no instan-
Compreensão não significa, aqui, conhecimento ob-
te, o apelo para o poder-ser mais próprio, para a regên-
jetivo ou objetivante e nem mesmo conhecimento subje-
cia da propriedade. Ela deixa e faz a presença pressentir
tivo ou reflexivo. Caso convenha falar de conhecimento,
no nada da niilidade da facticidade do existir, o toque
então há que se dizer que a compreensão é um conhe-
do estranho, ou seja, do outro do ente, o toque do ser. A
cimento em-sendo, em existindo, um co-nascimento ou
vigência do nada, porém, não é, neste caso, a destruição
uma co-nascença com as possibilidades da existência.
da factualidade, nem a aniquilação do poder-ser, mas é,
Compreender é, aqui, saber de si, saber como se vai, a
ao contrário, o deixar-ser si-mesmo. Por isso, o nada que
quantas anda o si-mesmo. Trata-se de um conhecimento
desvela a estranheza de ser, é um nada positivo e criati-
que é anterior a todo o reconhecimento. Trata-se de um
vo, pois dispõe a presença para ser-si-mesma e a desperta
saber que é sabor de experiência feita. Compreender é,
para o não-ente, para o ser em sua diferença.
aqui, existir. Isto significa: ser lançando-se para um po-
O temor e a angústia mostram que a presença já está
der-ser. O que está em jogo, portanto, no compreender
sempre disposta desta ou daquela maneira na abertura
não é o alcance de uma informação, nem de uma refle-
de sua existência. Mostram certa afinação ou desafinação
xão, mas o apropriar-se de um poder-ser. A compreen-
com o mundo ou com o poder-ser-si-mesmo. A angústia
são é uma relação de ser com o próprio ser, que se dá no
pode ser interpretada, a partir da afinação com o mundo,
existir mesmo da presença. Ela é um lance que abre o
como uma desafinação. Mas, olhando-se mais de perto, a
poder-ser, que possibilita o poder-ser-si-mesma da pre-
angústia não é meramente uma desafinação com o mun-
sença, que deixa e faz deslanchar a existência na regên-
do, mas é uma dissonância pela qual a presença pode se
cia da propriedade. Enquanto abertura, a compreensão
afinar mais propriamente com o nada de sua facticidade,
propriamente dita, isto é, a compreensão para o poder-
que é o seu ter-sido originário. A angústia é, em sua dis-
ser mais próprio, destranca a existência e a libera para
sonância, a oportunidade de uma afinação mais própria
ser a aberta onde a verdade do ser se ilumina. Assim, a
com o abismo, isto é, com o nada do fundamento da fac-
presença vem a si mesma, singularizando-se. O que está
ticidade, ou seja, com o abismo do ser. Entretanto, uma
em jogo, portanto, na compreensão é o porvir da presen-
vez que se dá o acorde ou o acordo com essa niilidade do
ça, a essência de futuro, em que repousa originariamente
abismo, a existência se afina com o seu poder-ser mais
a humanidade do homem.
próprio, com o ser si-mesmo. A presença é, pois, reposta
Contudo, de início e normalmente, a presença se move
em sua essência de futuro.
na incompreensão do poder-ser si-mesma. Absorvida nas
A disposição diz o modo como a presença se acha e
ocupações e tomada pela familiaridade do mundo, ela se
como ela vai. Ela se dá sempre como certa afinação com
empenha sempre de novo em função da atualização das
a facticidade do existir, ou seja, com o seu ter-sido lança-
possibilidades de uso e desfrute. Ela se compreende, as-
do na existência, na abertura desvelada do ser. Ela entoa
sim, a partir daquilo de que ela se ocupa, a partir de seus
a compreensão enquanto ser para o poder-ser. Pela com-
empreendimentos e negócios. Aparentemente ela está em
preensão de si entoada desta ou daquela maneira com o
função do futuro, mas este futuro é apenas o prolonga-
poder-ser, a presença sabe “como vai”. Apenas, este saber
mento da atualização. O cuidado apreensivo e aflitivo
A r t i g o
não é explícito ou temático, mas é um saber em-sendo,
pelo futuro se baseia no afã do autoasseguramento das
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011
166

O Cuidado como Amor em Heidegger
possibilidades de atualização das possibilidades de uso
do nada, do não-ente, e, enquanto tal, a testemunha do ser
e desfrute. Ele se empenha todo em atender e providen-
em seu caráter abissal. Paradoxalmente, porém, a com-
ciar as condições destas possibilidades. Os cálculos sobre
preensão do caráter abissal do ser não retira da presença
as chances de realizar tal atendimento e providência ca-
o seu poder-ser si-mesma, antes, é ela que lhe possibilita
racteriza a expectativa deste modo de se relacionar com
esta possibilidade. Ela liberta, no sentido de destrancar
a existência. Contudo, este modo de ser ansioso não se
a presença para o seu poder-ser si-mesma, ou seja, para
relaciona com o futuro como futuro, quer dizer, o futu-
a regência da propriedade, que é o acontecer da pertença
ro que aí está em questão não é o porvir da presença, ou
à verdade (desvelamento-velamento) do ser. Ela singula-
seja, o vir a si-mesma da presença, mas o prolongamen-
riza na solidão. Mas esta solidão é condição para toda e
to da atualização. Portanto, na compreensão das possi-
qualquer comunhão verdadeira.
bilidades de ocupação em que a presença se esquece de
Graças à solidão e à singularização que se abre com
seu poder-ser mais próprio, vigora, na verdade, uma in-
a compreensão da mortalidade da existência, a presença
compreensão, um trancamento para a regência da pro-
pode se tornar, de fato e propriamente histórica. Histórica
priedade do si-mesmo. O cálculo das expectativas conta
se torna a presença não quando entra em cena no palco
com todas as chances, só não conta com a morte. É que
da “história mundial”, a partir de seus feitos. Histórica
a morte apresenta-se como a possibilidade da impossi-
se torna a presença quando seu existir se torna constan-
bilidade (Heidegger, 1989, p. 46), ou seja, como aquela
te numa temporalidade originária. Originária é a tempo-
possibilidade latente, que é radical, pois é insuperável e
ralidade quando ela acontece a partir do porvir; quando
irremissível, a possibilidade que anula todas as possibi-
o futuro deixa de ser o prolongamento da atualização e
lidades. A morte revela assim a niilidade da existência,
passa a ser a antecipação da liberdade do poder-ser; quan-
mostra o fundamento da facticidade como abismo e re-
do o passado deixa de ser esquecimento e passa a ser re-
colhe a presença na sua finitude.
tomada da facticidade; quando o presente deixa de ser
A compreensão da mortalidade, portanto, ou seja, o
o atual e o atuante e passa a ser o instante. Só se torna
ser para aquele poder-ser que nadifica todo o poder-ser, é
histórica a presença que se recolhe no vigor do instante
um abismar-se no qual a presença se desvia do adiantar-
(Heidegger, 1989, p. 135).
se e antecipar-se que prolonga a atualização no arrebata-
Por instante entende-se aqui, porém, não o instan-
mento do mundo e no esquecimento do si-mesmo; mas é
tâneo, o fugaz momento, o agora do tic-tac do relógio.
também, ao mesmo tempo, um abismar-se que reenvia a
Instante é, aqui, a coincidência, o encontro, a identida-
presença para assumir aquele adiantar-se e antecipar-se
de de futuro (como porvir, poder-ser, lance de abertura)
no qual a presença se destranca para o poder-ser si-mes-
e passado (como facticidade, ter-sido, ser-lançado). Este
ma. A compreensão da mortalidade, portanto, enquanto
encontro, porém, se dá como decisão da presença, ou
possibilidade impossível se revela, paradoxalmente, como
seja, como destrancamento da existência. Trata-se, po-
impossibilidade possível, ou seja, como impossibilidade
rém, não da decisão como escolha disso ou daquilo, mas
possibilitadora do poder-ser si-mesmo. Com efeito, com a
da decisão em que a presença se torna decidida, isto é,
compreensão da mortalidade, a finitude urge da presença
livre para o poder-ser si mesma e para assumir a facti-
o bem-viver, contudo, não mais um bem-viver que é inter-
cidade abissal da existência. Instante é o advir da jovia-
pretado a partir das ocupações como uso e desfrute, mas
lidade de ser, que assume a abissalidade da existência
um bem-viver que é interpretado a partir da obediência
como mistério da gratuidade. Instante é o momento aza-
(ausculta) à voz silenciosa que conclama a presença para
do, o kairós, da libertação e da maturação da presença
o poder-ser mais próprio. Assim, o abismar-se da compre-
na verdade do ser.
ensão da mortalidade se torna salto gracioso e gratuito
da decisão, entendida não como escolha disso ou daqui-
lo, mas como escolha do poder-ser si-mesmo. A compre-
5. Cuidado como Ser-com-o-outro
ensão da mortalidade, portanto, é o aguilhão que deixa
e faz a presença abrir-se para o seu poder-ser si-mesma.
O mundo que se abre com a própria abertura da pre-
Isto quer dizer: ela é a provocação para a singularização
sença a partir da temporalidade é também e de modo
da presença e, nessa singularização, para assumir a per-
igualmente originário o mundo da convivência, do ser-
tença ao mistério do ser, cujo véu se dá como mortalida-
com-os-outros (Heidegger, 1988, p. 168-178). Se factual e
de da existência. O singular que a morte traz consigo é
onticamente o outro pode faltar, estar ausente, fáctica e
o fato de ela ser o convite para se deixar apropriar pela
ontologicamente o outro é sempre presente, melhor, co-
verdade do ser, tanto em sua dimensão de desvelamento
presente. O ser-com não é o resultado da ocorrência de
(apolínea), quanto em sua dimensão de velamento (her-
uma pluralidade de sujeitos. O ser-com é estrutura a prio-
mética). A morte revela o mistério da existência, ou seja,
ri da existência. Neste sentido, duas coisas que ocorrem
ela mostra que o desvelado se enraíza no velamento, que
aí ou que estão à mão não são propriamente uma com
o aberto está radicado no ocluso. Ela é o supremo estra-
a outra. Neste contexto, só são um com o outro aqueles
nhamento da familiaridade do ser-no-mundo. Ela é o baú
entes que são no modo de ser da presença, que igual-
A r t i g o
167
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011

Marcos A. Fernandes
mente existem, e que compartilham do mesmo modo de
A relação com algo ou alguém, na qual eu estou, sou
ser-no-mundo.
eu. Entretanto, “relação” não deve ser objetivamente
Ser-com, enquanto a priori da facticidade, significa
entendida aqui no sentido moderno, matemático de
que o eu nunca precisa sair de si para entrar no mundo
relação. A relação existencial não pode ser objetivada.
do outro. O ser-com determina, de antemão, que o eu já
Sua essência fundamental é ser aproximado e deixar-
esteja desde sempre aberto para o outro, comunicado com
se interessar, um corresponder, uma solicitação, um
ele, no mesmo mundo compartilhado da convivência.
responder, um responder por base no ser tornado claro
Trata-se de uma comunicação ontológico-existencial, isto
em si da relação (Heidegger, 2001a, p. 202).
é, uma comunicação que já acontece pelo simples fato de
existir. Cada eu é o mundo, não um mundo fechado e sim
Por conseguinte, a propriedade da relação depende do
um mundo aberto, pela disposição, pela compreensão e
como da aproximação, do interesse, da correspondência,
pela linguagem, onde já sempre se deu a abertura para o
da solicitação, ou seja, no como da resposta à interpela-
outro, que também é, igualmente, um constituidor e um
ção do outro, se esta resposta se libera para a liberdade
configurador de mundo. Isso quer dizer: O mundo é, na
da recepção e da doação e se clareia na disposição, na
verdade, um ser-com de muitos mundos.
compreensão e na linguagem, ou se ela se tranca e não
O ser-com é o fundamento da relação eu-tu. Na ver-
alcança transparência. Em sua estruturação, a relação
dade, a idéia de uma relação eu-tu ainda fica presa ao
com o outro é, portanto, regida pelo cuidado. Este pode
eu. O fundante da relação não é o eu, nem simplesmente
acontecer, por exemplo, no modo privativo da indiferen-
o tu, mas a própria relação que se instaura em sua reci-
ça da impessoalidade. Não só pode acontecer como acon-
procidade, a partir do ser-com: “Em vez de se falar sem-
tece de início e na maior parte das vezes. Neste caso, o
pre de uma chamada relação eu-tu seria melhor falar de
cuidado com o outro se priva de suas possibilidades, se
uma relação tu-tu, porque eu-tu é sempre falado somente
tranca de antemão e permanece inteiramente opaco. Se,
a partir de mim, enquanto na realidade é uma relação
contudo, o cuidado com o outro acontece de fato, então
mútua” (Heidegger, 2001a, p. 224). O ser-com é também,
ele oscila entre dois modos extremos: a negligência e a
por conseguinte, o fundamento do nós. O nós não resul-
solicitude. A negligência se alimenta da desconfiança e
ta da soma ou do ajuntamento de eus. O nós se constitui
da vontade de se sobrepor ao outro, dominando-o. A so-
a partir da comum-pertença dos humanos no ser-com, à
licitude, por sua vez, pode se dar de modo impróprio e
medida que compartilham e coparticipam da existência,
próprio. No modo impróprio, a solicitude busca substi-
do mundo, da história. Portanto, por já ser no ser-com é
tuir o outro na incumbência de seu cuidado. Ela retira
que a presença sempre pode dizer: eu, tu, nós, vós. O di-
do outro o poder-ser. No modo próprio, porém, a solici-
zer eu-tu ou o dizer nós-vós não depende tanto da ocor-
tude busca antecipar-se ao outro na incumbência de seu
rência dos outros, nem do seu número, mas do fato de os
cuidado. Ela libera o outro para as incumbências de seu
outros serem encontrados num determinado tipo de re-
cuidado e apoia-o para que ele tenha a capacidade de as-
lação, onde o cuidado se realiza desse ou daquele modo.
sumir por si mesmo o seu poder-ser si-mesmo. O cuida-
É o como da relação que decide se há ou não uma relação
do solícito é aquele em que alguém se antecipa no cui-
eu-tu ou uma relação onde emerge propriamente o nós ou
dado pelo outro, preocupando-se com ele numa atitude
o vós. Na verdade, na impessoalidade do “todo o mundo”,
de consideração, não para lhe retirar a possibilidade do
não se dá propriamente um eu, um tu, um nós, um vós.
cuidado, mas para preparar-lhe os caminhos do assumir
Todos são como “eles”. Cada um é “os outros”, um “a gen-
responsável pelo cuidado que é confiado e que lhe soli-
te”. O tu não é encontrado como tu, mas como um isso. O
cita e lhe reivindica como um apelo.
nós também não acontece propriamente, pois não há lu-
gar para a comunidade, apenas para a sociedade e o povo
não pode ser povo, mas apenas massa. A pluralidade se
6. Cuidado, poder-Ser e amor
dissolve na homogeneidade e não há mais propriamente
um nós e um vós, pois tudo sucumbe na virulência da
O que decide, por conseguinte do cuidado, é o como
indiferença. O ser-com, fundamento do eu, tu, nós, vós,
de seu poder-ser. O que está em jogo no cuidado é a ca-
é, por sua vez, um ser-quem, são modalidades da “si-
pacidade de assumir positivamente as suas possibilida-
mesmidade” ou ipseidade. Contudo, a própria ipseidade,
des de ser.
ou o ser-quem, já é sempre, a priori, relação. Ela é aquele
Assumir uma possibilidade significa ter sido atingido
modo de ser em que o que está em jogo é uma livre rela-
por ela, ter-se afeiçoado a ela, significa deixar-se conduzir
ção de ser com o ser, podendo-se, portanto, ganhar-se ou
pela sua tendência, fazer a sua travessia, deslanchar nela,
perder-se para a regência da propriedade.
crescendo no seu gosto. O gosto é o apego à possibilidade.
A relação, portanto, está radicada no modo de ser da
Trata-se de um apego amoroso. O amor é o que possibili-
existência e requer ser compreendida em sua existencia-
ta a possibilidade. O amor é o que torna a possibilidade
lidade. Como tal, ela não é objetiva, nem subjetiva, mas
possível, isto é, capaz de ser. É o que a faz vingar, o que
A r t i g o
existencial. Qual sua essência?
a faz deslanchar bem, é o que a faz consumar.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011
168

O Cuidado como Amor em Heidegger
Apegar-se a uma coisa” ou “pessoa” em sua essência,
ser originário, fontal, do cuidado. É a origem, a fonte
quer dizer: amá-la, querê-la. Pensando de modo mais
mesma de todo o sendo, que, brotando espontaneamen-
originário, querer significa essencializa, dar essência.
te do fundo abissal do ser, deixa e faz ser o manancial, o
Esse querer é que constitui a própria essência do
fluxo, das possibilitações e realizações de todo o sendo.
poder, que não somente pode realizar isso ou aquilo
Intuímos isso, se tivermos presente o modo de ser, isto é,
mas também deixa uma coisa “vigorar” em sua pro-
de vigorar da fonte. A fonte é origem de um manancial. Em
veniência, isto é, deixa que ela seja. O poder do querer
seu efluir e fluir, as águas de um manancial brotam das
é aquilo em cuja “força” uma coisa pode propriamente
entranhas da Terra, serpenteiam por entre as chapadas,
ser. Esse poder é o “possível” em sentido próprio, a
traçam veredas, abrem paisagem, saltam de montanhas,
saber, aquilo cuja essência se funda no querer” (Hei-
rasgam regiões, tornando-se cada vez mais longínquas,
degger, 1967, p. 29).
acolhendo e recolhendo afluentes, alargando-se, aprofun-
dando-se, até que, por fim, mergulham no grande mar.
O amor, o querer como bem-querer, benevolência, é
Por isso, o mar não é o outro da fonte. É antes, o aparecer
possibilidade da possibilidade da relação do ser-com, pois
da profundidade abissal da fonte, a vigência da generosi-
o amor é o que deixa-ser, isto é, o amor é o que presenteia
dade originária da fonte. A fonte, porém, deixando e fa-
essência, reconduzindo tudo e todos ao seu próprio. O zendo aparecer o manancial como tal, nunca a si mesma
amor, como possibilidade da possibilidade do relaciona-
se mostra. Ela se retrai no vigor de sua renúncia. A fonte
mento é o fundamento do cuidado. A in-sistência no ser-
deixa e faz tudo aparecer, mas ela mesma se oculta, se
com se dá, no seu sentido mais próprio, como diligência e
esconde. Ela é como a protagonista do filme “A festa de
dileção (diligo = dilectio = o lógos do relacionamento).
Babette”: celebração da pura gratuidade e graciosidade da
Entende-se, aqui, possibilidade como poder-ser, isto
vida. O brotar sem por quê nem para quê do ser. Ou então
é, como capacidade e gosto de ser. Qual, porém, a relação como a Rosa do poeta Ângelus Silesius (poeta do século
entre poder e ser no poder-ser? Ser é, originariamente,
XVII), cujo poema diz: “A rosa é sem por quê / floresce
poder. Poder como potência, isto é, como vigência e re-
por florescer / não olha pra seu buquê / nem pergunta /
gência. A atuação do poder como vigência e regência se
se alguém a vê” (cfr. Silesius, 1992, p. 156).
chama autoridade: a capacidade de fazer surgir, crescer
e consumar o que está sendo (auctoritas, em latim, de
A rosa sem porquê no orvalho matinal: a alegria
augeo = aumentar, fazer crescer). Com outras palavras,
acolhe o coração do mortal, no frescor, na claridade
autoridade, enquanto dinâmica de atuação do poder, é
natal da inocência original. O mortal descansa, res-
a capacidade de fazer surgir a concreção do sendo, en-
pira livre, regozija-se e renasce, na cercania da rosa,
tendendo-se esta concreção como con-crescimento e co-
porque se recolhe e é acolhido no recato da natureza.
criatividade. A potência do poder, que atua como auto-
A natureza da rosa de Angelus Silesius não é uma re-
ridade, consiste, portanto, na positividade da liberdade,
gião do ente em oposição ao homem. É a nascividade,
ou seja, na benignidade e cordialidade do deixar-ser. O
a liberdade do mistério que evoca o homem para a sua
ser enquanto poder coincide, nesse sentido, com o bem,
essência. É a própria vigência da presença que se abre
melhor, “é” a bondade (bom-dade, o vigor de ser do bom)
como o frescor, a limpidez, a transparência e a graça
que, ao mesmo tempo, se difunde e se retrai. Difunde-se
de todas as coisas. É à mercê da liberdade do mistério
e irradia na sua magnanimidade e se retrai e se vela no
que é o amor, a ternura, a benignidade, a paz, o bem,
pudor de sua simplicidade. É a grandeza em cuja mag-
o rigor, a coragem, a sinceridade, a simplicidade. A
nanimidade tudo se ergue, cresce e amadurece, e, ao
liberdade do mistério, a nascividade é a jovialidade. A
mesmo tempo, a simplicidade, que, em sua singeleza e
jovialidade é paciente, é benigna, ela não é invejosa,
humildade, já sempre se subtraiu, se retraiu e se velou.
a jovialidade não é jactanciosa, não se ensoberbece.
Por isso a autoridade do ser enquanto poder é suave. Seu
Não é descortês, não é interesseira, não se irrita, não
vigor não se impõe. Sua força é silenciosa. Sua força é a
guarda rancor: tudo desculpa, tudo crê, tudo espera,
fraqueza e a vulnerabilidade da ternura. É que o poder,
tudo tolera (1Cor 13,4-7) (Harada, s.d., p. 110).
na sua essência, não é outra coisa do que querer. Poder
é querer. Isto quer dizer: potência é “volência”, melhor,
A liberdade do mistério do ser, que é jovialidade e
benevolência (a “volência”, a querença do bem), isto é,
gratuidade, benevolência e dileção, estão evocadas na
bem-querer que possibilita ser (Heidegger, 2001b, p. 180).
palavra que nomeia o ser enquanto ser, em Heidegger:
Poder é querer, melhor, benquerença que presenteia o
Ereignis – o evento originário da apropriação, a regência
dom de ser. Trata-se, no entanto, de um presentear onde
originária e fontal da propriedade, que, no deixar-ser do
quem presenteia se oculta, se vela, se retrai no pudor de
ser, faz emergir cada coisa em seu próprio. Em sua forma
seu mistério. Por conseguinte, somente o amor é poder,
originária, porém, Ereignis se dizia Eräugnis (Ur- äugnis)
é poder que possibilita ser.
– o olhar originário, a mira originária. É o vigorar do ins-
Dileção e benevolência, por sua vez, se dão ao modo
tante (Augenblick), ou seja, do “piscar de olhos”, em que
de ser da gratuidade (charis). A gratuidade é o modo de a presença e o ser se encontram em seu copertencimen-
A r t i g o
169
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011

Marcos A. Fernandes
to. O instante, em que a presença se abre, eclode, como a
A relação própria, portanto, da presença com o ser, é
clareira do ser e, em sua liberdade e transparência, deixa-
amorosa, tanto da parte da presença para com o ser, como
ser o próprio ser, consuma sua relação de ser com o ser, da parte do ser para com a presença. O ser se dá. Ele se
relação em que ela, originariamente, existe. Esta relação,
entrega ao homem enquanto presença.
porém, acontece originariamente desde o ser mesmo, que
“Só enquanto se a-propria a clareira do Ser, é que o Ser
busca o homem como presença, como abertura. Trata-se
se entrega, no que ele é propriamente, ao homem. Que,
da relação do ser para com o homem. O que está, pois,
porém, o Da (lugar), a clareira, como Verdade do próprio
em jogo aqui é:
Ser, se a-proprie, é destinação do próprio Ser. É o destino
da clareira” (Heidegger, 1967, p. 60).
A relação elevada, na qual o homem está de pé, é a
A entrega do ser ao homem, portanto, é destina-
relação do Ser para com o homem, de tal modo que o ção e isso perfaz a essência da história. Na destinação
Ser mesmo é esta relação, que puxa para si da essência (Geschick) do ser está um presentear-se (sich schenken),
do homem, enquanto aquela essência que está de pé
o dar-se de si como dádiva. Pensar (denken) é, justamen-
nesta relação e, subsistindo nela, a custodia e a habita.
te, agradecer (danken) este presentear-se do ser. Ereignis
No aberto desta relação do Ser para com a essência significa, portanto, o recolhimento na unidade amorosa
do homem, nós experimentamos o ‘espírito’ – ele é
de ente, presença e ser.
o que suavemente reina (das Waltende) vigorando a
partir do Ser e, presumivelmente, em favor do Ser
Podemos dizer que a dinâmica dessa coincidência
(Heidegger, 1994c, p. 7).
Dasein:Ser:ente, assim descrita de modo desengonça-
do, é o sentido propriamente dito da famosa “Khere”
O que o pensamento, pela primeira vez, procurou
Heideggeriana, que não está a dizer a reviravolta
expressar-se em Ser e Tempo, pretende alcançar, é algo
da atividade literária e mutação ou transmutação
de muito simples. Por ser simples, o Ser permanece
ou evolução das ideias de Heidegger, mas sim a
misterioso, a proximidade calma de um vigor (Walten),
estruturação interna do ente ser. O Ser é: o Da do
que não se impõe à força. Essa proximidade se essen-
da-seiend, ao aparecer concreto no pudor da conten-
cializa como linguagem.. (Heidegger, 1967, p. 54)
ção das implicâncias do evento (Ereignis) como este
próprio ente, aquele próprio ente, na “naturalidade”
A palavra “ser” diz, aqui, a proximidade calma de
imediata. Na modéstia, no insignificante do dar-se
um vigor (Walten), que não se impõe à força, mas que
simplesmente, como cada vez o próprio, como em
pede para ser recebida ao doar-se, que solicita, portanto,
sendo co-creação viva do pulsar tênue no nascer,
do homem, a disposição de dar ao doador a possibilida-
crescer e consumar-se, como estremecer do viver, o
de de ser recebido. Suave é a regência do ser pois o re-
cintilar “do olho” de cada coisa forma em composi-
lacionamento que ele é vigora como deixar-ser. Deixar-
ções estruturais, a imensa superfície aparentemente
ser é libertar tudo quanto é para o vigor de sua própria
opaca e óbvia do cotidiano e comum, i. é, da maioria e
essência. Deixar-ser é poupar (schonen), não no sentido
do imediato do ente, sob cuja pele na tênue vibração,
de não usar, mas no sentido de cuidar com atenção e ca-
nesse da-seiend, se oculta o frêmito de vida do ser.
rinho. Deixar-ser é deixar repousar em sua própria es-
Frêmito de vida do ser! É a vigência da Vida, que
sência, através do desvelo que custodia e salvaguarda
no abalo instantâneo, se revela superfície e abismo,
(Heidegger, 1994c, p. 8).
serenidade e ira contida, ternura e vigor, nascimento
“Agora, porém, justamente o ser, que todo ente, a cada
e morte do estremecer e do abrir os olhos do renas-
vez e sempre de novo, deixa ser o que é e como é, é o li-
cimento, a se anunciar na penumbra do declínio
bertador, o que deixa cada coisa repousar em sua essên-
ocidental e no cinzento claro do arrebol vindouro; é
cia, isto é, o que a cada coisa trata com cuidado e cari-
o incoativo retorno do outro início ao entardecer do
nho” (Heidegger, 1994c, p. 9).
primeiro início: o oriente do ocidente: esse sempre
O homem existe. Isso significa: ele se ergue no espa-
de novo e novo, cada vez da-seiend, i. é, o ente. (...)
ço livre para a ressonância e a transparência do ser. Essa
Então Ser, Tempo, Vida, coincide como, no e a partir
abertura da liberdade da ressonância e transparência em
do “ponto de salto”, cuja mira, se dá na contenção e
que o ser se confia ao homem e o homem se confia ao ser
continência, no espanto e no pudor, no titubear de
é a verdade. Verdade como o mistério do ser, isto é, o jogo
uma tênue vibração que ao assim se pôr constitui a
amoroso de aparecer e retrair-se, de dar-se e retirar-se. Mas,
empiria nasciva da aberta do retraimento na verdade
no retrair-se e retirar-se, o ser não se desvia do homem, ele,
do ser, acolhida e recolhimento da vigência do sa-
antes, o atrai para dentro da intimidade de seu mistério,
bor humano, demasiadamente humano do “Homem
onde oculta as riquezas de seus dons. Esta insistência na
humano”, o ser-in de todas as coisas, a novidade do
verdade do ser é o cuidado (Sorge). O fundamento, pois, do
saber do concreto positivismo e da sua “lógica” ana-
cuidado é o relacionamento amoroso com o ser: filo-sofia
lítica, cujo início longínquo ecoa e diz: to on legethai
A r t i g o
(de philein, amar, tó sophon, o ser - como “um-tudo”).
polakhos (Harada, 2004, p. 94-95).
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011
170

O Cuidado como Amor em Heidegger
Por falar em oriente, terminamos esta reflexão com
Heidegger, M. (1967). Sobre o humanismo. Rio de Janeiro:
um poema oriental do sábio chinês Chuang-Tzu (Merton,
Tempo Brasileiro.
2002 p. 65-66). Parece evocar aquela proximidade calma
Heidegger, M. (1977). A morada do homem. Revista Vozes, 71
de um vigor que não se impõe, a regência da proprieda-
(4), pp. 43-54.
de, do evento-apropriador (Ereignis).
Heidegger, M. (1988). Ser e Tempo (Parte I). Petrópolis: Vozes.
O sopro da natureza
Heidegger, M. (1989). Ser e Tempo (Parte II). Petrópolis:
Quando a Natureza magnânima suspira
Vozes.
Ouvimos os ventos
Que, silenciosos,
Heidegger, M. (1994a). Zollikoner Seminare: Protokolle
Despertam as vozes dos outros seres,
– Gespräche – Briefe. Frankfurt am Main: Vittorio
Soprando neles.
Klostermann.
De toda fresta
Heidegger, M. (1994b). Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis).
Soam altas vozes. Já não ouvistes
Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann
O marulhar dos tons?
Lá está a floresta pendente
Heidegger, M. (1994c). Die Armut. In: Heidegger Studien, Vol.
10, 1994c, Berlin: Duncker & Humblot.
Na íngreme montanha:
Velhas árvores com buracos e rachaduras,
Heidegger, M. (1999). Conferências e escritos filosóficos. São
Como focinhos, goelas e orelhas,
Paulo: Nova Cultural.
Como orifícios, cálices,
Heidegger, M. (2001a). Seminários de Zollikon. Petrópolis:
Sulcos na madeira, buracos cheios d’água:
Vozes.
Ouve-se o mugir e o estrondo, assobios,
Gritos de comando, lamentações, zumbidos
Heidegger, M. (2001b). Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes
Profundos, flautas plangentes.
/ Bragança Paulista: EDUSF
Um chamado desperta o outro no diálogo.
Heidegger, M. (2003). A caminho da linguagem. Petrópolis:
Ventos suaves cantam timidamente,
Vozes / Bragança Paulista: EDUSF.
E os fortes estrondam sem obstáculos.
E então o vento abranda. As aberturas
Merton, T. (2002). A Via de Chuang Tzu. Petrópolis: Vozes.
Deixam sair o último som.
Rombach, H. (1977). Leben des Geistes – Ein Buch der Bilder
Yu respondeu: Compreendo:
zur Fundamentalgeschichte der Menschheit. Freiburg:
A música terrestre canta por mil frestas.
Herder.
A música humana é feita de flautas e de instrumentos.
Que proporciona a música celeste?
Silesius, A. (1992). Il Pellegrino Cherubico. Torino: Paoline.
Mestre Ki respondeu:
Algo está soprando por mil frestas diferentes.
Alguma força está por trás de tudo isso e faz
Marcos Aurélio Fernandes - Graduado em Filosofia pela Universidade
Com que os sons esmoreçam.
São Francisco (1991), com Mestrado e Doutorado em Filosofia pela
Que força é esta?
Pontifícia Universidade Antonianum (2000 e 2003). Atualmente
é Professor Doutor da Universidade Católica de Brasília, lotado
no Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião.
Endereço Institucional: Universidade Católica de Brasília (Centro
Referências Bibliográficas
de Reflexão sobre Ética e Antropologia). QS 07 LOTE 01 EPCT -
Areal (Águas Claras). CEP 71966-700 - Brasilia, DF – Brasil. E-mail:
Harada, H. (s/d). Espiritualidade Franciscana: o seguimento
framarcosaurelio@hotmail.com
de Nosso Senhor Jesus Cristo – o modo de viver religioso.
Manuscrito. Compilado por Fernando Mazon, s.l.
Recebido em 12.05.11
Harada, H. (2004). Heinrich Rombach: memória e gratidão.
Aceito em 23.10.11
Scintilla. Revista de Filosofia e Mística Medieval [Faculdade
de Filosofia São Boaventura]. 1 (2), 48-71.
A r t i g o
171
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 158-171, jul-dez, 2011

Virgínia Moreira
a ContRiBuição de JaSpeRS, BinSwangeR, BoSS e
tatoSSian paRa a pSiCopatologia fenomenolÓgiCa
The Contribution of Jaspers, Binswanger, Boss and Tatossian to Phenomenological Psychopathology
La Contribución de Jaspers, Binswanger, Boss y Tatossian para la Psicopatología Fenomenológica
virgínia moreira
Resumo: Este artigo tem como objetivo discutir as contribuições de quatro grandes nomes da tradição da Psicopatologia Feno-
menológica: Karl Jaspers, que através de um método descritivo-compreensivo fundou a psicopatologia enquanto área específica
do conhecimento com sua Psicopatologia Geral; Ludwig Binswanger, o criador da Psicopatologia Fenomenológica; Medard Boss
que se propôs a desenvolver uma psicopatologia de inspiração Daseinsanalítica e, finalmente, Arthur Tatossian que desenvolve
uma psicopatologia do Lebenswelt (mundo vivido).
Palavras-chave: Psicopatologia fenomenológica; Jaspers; Binswanger; Boss; Tatossian.
Abstract. This article aims to discuss the contributions of four big names of the Phenomenological Psychopathology tradition:
Karl Jaspers, whom through a descriptive comprehensive method funded psychopathology as an specific area of knowledge
with his General Psychopathology; Ludwig Binswanger, the creator of the Phenomenological Psychopathology; Medard Boss
whom tried to develop a psychopathology from a Daseinsanalytic inspiration, and finally, Arthur Tatossian, whom develops a
psychopathology of the Lebenswelt (lived world).
Keywords: Phenomenological psychopathology; Jaspers; Binswanger; Boss; Tatossian.
Resumen: Este artículo tiene como objetivo discutir las contribuciones de cuatro grandes nombres de la tradición de la
Psicopatología Fenomenológica: Karl Jaspers, que a través de un método descriptivo comprensivo ha fundado la psicopatología
en cuanto área específica del conocimiento con su Psicopatología General; Ludwig Binswanger, el creador de la Psicopatología
Fenomenológica; Medard Boss que se ha propuesto a desarrollar una psicopatología de inspiración Daseinanalítica y, finalmen-
te, Arthur Tatossian que desarrolla una psicopatología del Lebenswelt (mundo vivido).
Palabras-clave: Psicopatología psicopatológica; Jaspers; Binswanger; Boss; Tatossian.
introdução
deu quando a psicologia patológica se propôs a ser uma
psicologia da conduta, substituindo, paulatinamente, a
Psicopatologia [de psic(o)- + patologia.] se define
linguagem das ações nervosas por uma linguagem psi-
como patologia das doenças mentais ou como o estudo
cológica (Widlöcher, 1996; Moreira, 2002).
das causas e natureza das doenças mentais. Psic(o) – vem
Em 1913, na Alemanha, com a publicação de
do grego – psyché – que significa alento, sopro de vida,
Psicopatologia Geral de Karl Jaspers, nasce a psicopa-
alma. Patologia, afecção, dor, pato, que também provém
tologia propriamente dita, representando uma corrente
do grego – pathos – que significa “doença, paixão, sen-
diferenciada em relação à vertente de Ribot, que se de-
timento”. Ambos os termos foram introduzidos na lin-
senvolverá como uma psicopatologia fenomenológica.
guagem científica internacional a partir do século XIX
Este artigo tem como objetivo discutir as contribuições
(Cunha, 1997).
singulares de Karl Jaspers, Ludwig Binswanger, Medard
O primeiro registro de utilização do termo psicopato-
Boss e Arthur Tatossian ao desenvolvimento da tradição
logia foi na Alemanha em 1878, com Emminghaus, mas,
da psicopatologia fenomenológica.
neste momento, psicopatologia equivalia à psiquiatria
clínica. Enquanto método e disciplina, a psicopatologia
nasce no início do século XX, na França, com o filósofo
1. Karl Jaspers e uma psicopatologia descritivo-
Theodule Ribot e a criação do método psicopatológico
Compreensiva
enquanto psicologia patológica, um ramo da psicologia
científica diferente da psicologia experimental ou gené-
Karl Jaspers (1883-1902), médico psiquiatra alemão,
tica (Bauchesne, 1993). A substituição do termo psicolo-
foi também professor de filosofia na Universidade de
gia patológica por psicopatologia ocorreu gradativamen-
Heidelberg. Seu pensamento está assim imbuído, desde
A r t i g o
te, correspondendo a um deslizamento de sentido, que se
sua origem, de seu interesse em reunir as ciências na-
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011
172

A Contribuição de Jaspers, Binswanger, Boss e Tatossian para a Psicopatologia Fenomenológica
turais e as ciências humanas, caminho sobre o qual ele
compreensão inclui tanto o método fenomenológico (que
desenvolverá a psicopatologia. Isto foi possível a partir
para ele será prioritariamente a descrição), como o tradi-
da situação privilegiada de Jaspers, como filósofo, dispor
cional método explicativo-causal.
para a fundamentação de suas idéias, dos elementos em-
píricos acessíveis na Clinica Psiquiátrica de Heildelberg
(Rodrigues, 2005).
1.1 A Psicopatologia como uma Ciência
A publicação de Psicopatologia Geral, em 1913, marca
o início da psicopatologia enquanto campo específico do
Para Jaspers (1913/1987), a psiquiatria, como uma pro-
saber, diferenciado da psiquiatria. A proposta de Jaspers
fissão prática, se volta para os casos individuais enquanto
era integrar o modelo causalista-explicativo empregado
que a psicopatologia, como uma ciência, se desenvolve no
pelas ciências naturais, ao modelo histórico-compreen-
domínio dos conceitos e das regras gerais, isto é, sobre os
sivo, próprio das ciências humanas, para a descrição e
modos das experiências, buscando seu sentido geral:
compreensão do fenômeno psíquico. O que conferiu valor
central a esta obra foi, especialmente, sua crítica metodo-
O objeto da psicopatologia é o acontecer psíquico
lógica e sistematização dos dados. Sua tarefa foi mapear
realmente consciente. Queremos saber o que os
suportes conceituais e métodos vigentes pelo exame de
homens vivenciam e como o fazem. Pretendemos
suas virtudes e limitações na sua aplicação individual,
conhecer a envergadura das realidades psíquicas.
isto é, a partir da descrição e compreensão de casos in-
E não queremos investigar apenas as vivências hu-
dividuais, Jaspers propôs um modelo de psicopatologia
manas em si mas também as condições e causas de
geral, que na sua visão, poderia atender às aspirações
que dependem os nexos em que se estruturam, as
científicas (Rodrigues, 2005). Nas palavras de Jaspers,
relações em que se encontram e os modos em que,
na introdução de Psicopatologia Geral:
de alguma maneira, se exteriorizam objetivamente
(Jaspers, 1913/1987, p. 13).
A prática da profissão psiquiátrica se ocupa sempre
do indivíduo humano todo (. .). Aqui, todo o trabalho
O tema da Psicopatologia Geral de Jaspers é o homem
se relaciona com um caso particular. Não obstante,
todo em sua enfermidade psíquica ou psiquicamente de-
para satisfazer as exigências decorrentes dos casos
terminada. O homem se diferencia do animal e ocupa
particulares, o psiquiatra lança mão, como psico-
um lugar especial, pois o espírito e a alma atuam sobre
patólogo, de conceitos e princípios gerais (Jaspers,
as enfermidades psíquicas. A alma, por sua vez, torna-
1913/1987, p. 11).
se objetiva pelo que é perceptível no mundo: fenômenos
somáticos, expressões, comportamentos e ações, bem
A psiquiatria de sua época era entendida como par-
como na linguagem.
te das ciências naturais, utilizando, unicamente, o mo-
Para Jaspers (1913/1987), a consciência se caracteri-
delo explicativo-causal para compreender os fenôme-
za como consciência objetiva, como interioridade real
nos objetivos. Com o objetivo de associar este modelo
de uma vivência, como auto-reflexão e consciência de si
ao modelo histórico-compreensivo, Jaspers introduz em
mesmo, como intencionalidade do sujeito e como o todo
Psicopatologia Geral o método fenomenológico, que se
da vida psíquica momentânea. A noção de inconsciente,
tornou então, a grande “novidade” do seu pensamento no
encontrada em “Psicopatologia Geral”, refere-se ao não
âmbito da psiquiatria. Este fato gera, até os dias de hoje,
lembrado, o que não está relacionado com a atenção, o que
muitos mal-entendidos no sentido de nomear o trabalho é inadvertido, o que dá origem. A atenção é definida neste
de Jaspers como psicopatologia fenomenológica, quando
contexto como consciência clara, onde se dá a vivência
ele mesmo deixa muito claro que a fenomenologia é ape-
do voltar-se para um objeto. A seleção de conteúdos cons-
nas um dos métodos possíveis para a psicopatologia. No
cientes e o afeto sobre o curso da vida psíquica condicio-
prefácio da sétima edição de 1959 esclarece:
nam a claridade da consciência de uma vivência.
As noções de percepção, enquanto conhecimento e
Se, (...) o meu livro é por vezes designado como
reconhecimento de um dado fenômeno, e de orientação,
representante da corrente fenomenológica ou da
como rendimento apreensivo mais complexo, serão tam-
corrente de psicologia compreensiva, só em parte
bém fundamentais à psicopatologia fenomenológica de
esta designação é correta, uma vez que o seu sentido
Jaspers, compreendida por ele como fenomenológica por
é mais compreensivo: a saber o esclarecimento dos
investigar o fenômeno subjetivamente: o psíquico expres-
métodos da psiquiatria em geral, de seus modos de
sa o mundo do paciente através de seu funcionamento,
concepção e de seus caminhos de investigação (Jas-
suas manifestações e ações (Moreira, 2002)
pers, 1913/1987, p. 7).
Ainda para Jaspers (1913/1987), no seu propósito de
construção de uma psicopatologia científica, a compre-
Ou seja, Jaspers entende seu método como compreen-
ensão do fenômeno psicopatológico pode ser estática, ge-
sivo, não como fenomenológico, indicando com isto que a
nética (contextualizada) ou total, o que implica na consti-
A r t i g o
173
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011

Virgínia Moreira
tuição do indivíduo, abordando a unidade da doença e a
Este trabalho preliminar de representação, definição
totalidade biográfica. Sua psicopatologia geral distingue
e classificação dos fenômenos, perseguido como
quatro grupos de fatos a serem estudados: os fenômenos
atividade independente, constitui a fenomenologia
vividos (consciência), o rendimento objetivo (apreensão,
(. .). Na esfera da investigação psicológica E. Husserl
memória e inteligência), os fenômenos somáticos e as
deu o primeiro passo crucial em direção a uma feno-
objetividades de sentido (estruturas de percepção). Na
menologia sistemática, seus antecessores antes nisto
perspectiva destes fenômenos, a expressão dos pacien-
havendo sido Brentano e sua escola, assim como Th.
tes com relação aos seus sintomas se dá pela descrição
Lipps (Jaspers, 1912/2005, p. 772).
do espaço e tempo e a consciência do corpo e da realida-
de (Moreira, 2002).
Para desenvolver o seu método fenomenológico na psi-
copatologia, Jaspers toma como base o primeiro Husserl
– o da “psicologia descritiva” (nesta fase, ainda muito
1.2 A Introdução do Método Fenomenológico
próximo do pensamento de Brentano) – que foi interpre-
tado por ele como uma fenomenologia descritiva. Mas
Embora Psicopatologia Geral seja a fonte mais difun-
como bem assinala Rodrigues (2005), reconhecer que a
dida do método fenomenológico de Jaspers, neste livro
fenomenologia de Jaspers é uma fenomenologia descri-
ele está descrito de maneira sucinta. O foco maior é sobre
tiva não deve se dar no sentido pejorativo, como acon-
a descrição fenomenológica das experiências específicas
tece freqüentemente por parte de seus críticos. Jaspers
sem oferecer maiores detalhes do método. É em um traba-
se restringe à etapa descritiva como a etapa inicial para
lho menos conhecido, de 1912 – intitulado “A abordagem
que se possa atingir o fenômeno subjetivo. Seu objetivo
fenomenológica em psicopatologia” – que a fundamenta-
era garantir a cientificidade da compreensão dos sinto-
ção, a descrição e a aplicação do método fenomenológico
mas subjetivos.
são mais detalhadas (Rodrigues, 2005).
No artigo de 1912, Jaspers observa que ao se exami-
Assim, a fenomenologia surge, para ele, como um mé-
nar um paciente psiquiátrico é comum a distinção entre
todo visado para responder às necessidades de cien-
sintomas objetivos e subjetivos. Os sintomas objetivos são
tificidade para a psico(pato)logia e, ao mesmo tempo,
aqueles “mensuráveis”, que podem ser percebidos pelos
atender ao imperativo de não exclusão ao verdadeiro
sentidos tais como movimentos registráveis, a fisiono-
objeto de estudo destas disciplinas: a experiência
mia do indíviduo, sua atividade motora, expressão ver-
subjetiva (Rodrigues, 2005, p. 764).
bal, ações e conduta em geral, que podem incluir idéias
delirantes ou falsas memórias etc. Ou seja, os sintomas
Ainda que Karl Jaspers não deva ser considerado o
objetivos são todos os conteúdos racionais comunicados
iniciador da Psicopatologia Fenomenológica – um mal
pelo paciente sem o auxílio de qualquer “empatia” para
entendido comum em nossos dias – cabe a ele, sem dúvi-
com o mesmo.
da, o papel pioneiro de se preocupar com cientificidade
No entanto, lembra Jaspers (1912/2005), existem os
do sintoma subjetivo. Foi esta preocupação que fez com
sintomas subjetivos que, para serem compreendidos,
que ele buscasse na fenomenologia do primeiro Husserl
exigem um processo subjetivo de “transposição de si
um método que pudesse compreender cientificamente o
mesmo, por assim dizer, ao psiquismo do outro indiví-
sintoma subjetivo. Assim, deve-se reconhecer que a fe-
duo; isto é, pela empatia” (p. 770). Os sintomas subjeti-
nomenologia de Jaspers não pode ser chamada de psico-
vos incluem as emoções como alegria, medo, tristeza:
patologia fenomenológica, justamente por sua concepção
processos mentais que necessitam ser inferidos a partir
restritiva da experiência científica ligada ao dualismo
das manifestações do paciente e que por isso, são con-
cartesiano da psique e do soma (Tatossian, 2006). Mas,
siderados pouco confiáveis do ponto de vista científico.
como assinala Fédida (1998), “a psicopatologia geral de
Trata-se da priorização de uma “psicologia científica” em
Karl Jaspers, pouco rigorosa fenomenologicamente, tem o
detrimento de uma “psicologia subjetiva”. É esta posição
mérito de contribuir historicamente para a constituição
tradicional que Jaspers (1912/2005) critica: “Enquanto a
de uma antropologia fenomenológica em psicopatologia”
psicologia objetiva, eliminando tudo aquilo que é psí-
(p. 109). É possível afirmar que em Jaspers se encontram
quico, se converte em fisiologia, a psicologia subjetiva
os germes da psicopatologia fenomenológica desenvolvi-
ambiciona preservar a dita vida psíquica como objeto de
da posteriormente em Binswanger e toda a tradição da
seu estudo” (p. 771).
psicopatologia fenomenológica até os dias atuais.
Tendo em vista a diversidade de fenômenos psíqui-
Enquanto um campo específico do saber científico
cos existentes, Jaspers (1912/2005) assinala que, para se
que se funda na interseção da tradição histórico-com-
abordar questões subjetivas, é necessário tornar claro
preensiva das ciências humanas com a tradição explica-
qual é a experiência psíquica específica referida a dife-
tivo-causal das ciências naturais, a psicopatologia deve
rentes fenômenos psíquicos, identificando semelhanças
a Jaspers não apenas a sua origem, mas seu desenvolvi-
A r t i g o
e diferenças entre estes:
mento conturbado, sempre envolvido pela discussão da
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011
174

A Contribuição de Jaspers, Binswanger, Boss e Tatossian para a Psicopatologia Fenomenológica
subjetividade versus objetividade, que se mantém ainda
posta da antropologia fenomenológica deveria ser a disci-
em seu bojo na contemporaneidade.
plina para fundar a psicopatologia e a psiquiatria tendo
em vista que “vê nele [o homem] um ser pessoal que vive
sua vida e cuja continuidade – não somente vivida, mas
2. ludwig Binswanger: uma psicopatologia fenome-
se vivendo, ela mesma – se desdobra em história” (Kuhn
nológica

& Maldiney 1971, p, 12).
No seu famoso texto Fonction vitale et histoire inté-
Ludwig Binswanger (1881-1966), médico suíço com
rieure, publicado em Introduction a l’Analyse Existentiele,
formação psiquiátrica junto a Bleuer e a Jung, no Hospital
Binswanger (1971b) reconhece a contribuição metodoló-
Burghölzli, foi diretor do Sanatório Bellevue, fundado por
gica de Jaspers em relação à distinção entre relações de
seu avô, em Kreuzlingen, na Suiça. Iniciou sua carreira
causalidade e de compreensão no campo do acontecer psí-
aderindo à proposta clínica psicanalítica, mas foi gradu-
quico. As relações causais se referem aos fatos concretos
almente se afastando das proposições metapsicológicas de
que estabelecem conjunções constantes com o surgimen-
Freud, à medida em que seus estudos da fenomenologia
to de certos quadros mentais. As relações de compreen-
de Husserl e da ontologia fundamental de Heidegger iam
são visam a dar conta do encadeamento psíquico de uma
se aprofundando (Pereira, 2001). No seu texto “Analyse
forma compreensível para nós. “E nós já assinalamos re-
Existentielle et Psychothérapie”, Binswanger retoma
petidas vezes que não podemos nos apoiar nem em um
uma comunicação feita no Congresso Internacional de
conceito de valor causal de um lado, nem, por outro lado,
Psicoterapia em Barcelona em 1958, em que deixa clara
naquele da compreensão” (Binswanger, 1971b, p. 55-56).
sua divergência em relação à psicanálise:
Buscando a superação desta discussão que remete à du-
alidade físico x psíquico:
Apesar de toda a nossa admiração pela obra de Freud
e toda a estima pela importância gigantesca da psi-
Binswanger propõe que se examine, em seu lugar, a
canálise no plano da psicoterapia, nossa formação
questão mais fundamental: aquela do Ser e das rela-
filosófica não nos permitiu reconhecer suas hipóteses
ções do fenômeno psicopatológico com a existência
filosóficas, particularmente no que concerne à rela-
do que padece. Dessa forma a análise existencial
ção entre corpo e alma, entre o instinto e o espírito
abriria a possibilidade de um olhar sobre a totalida-
(Binswanger 1971c, p. 155).
de da existência do homem. A dimensão histórica,
anteriormente evocada, é decisiva no pensamento
Ao contrário da psicanálise, que havia sido criada por
binswangeriano, na medida em que se apóia na Da-
Freud a partir de uma preocupação terapêutica, a análi-
seinsalytik de Heidegger para construir suas próprias
se existencial de Binswanger teria sido inicialmente um
bases teóricas e metodológicas de abordagem da psi-
novo método de pesquisa, que pretendia se contrapor ao
copatologia (Pereira 2001, p. 139).
da psiquiatria tradicional: “A direção de pesquisa ana-
lítico existencial em psiquiatria surgiu da insatisfação
quanto aos projetos de compreensão científica da psi-
2.2 A Analítica do Dasein de Heidegger na Psicopato-
quiatria da época” (Binswanger 1970, p. 115). Isto expli-
logia Binswangeriana
ca o caráter mais completo e elaborado da psicopatologia
decorrente da análise existencial binswangeriana do que
É por partir da Análise do Dasein heideggeriana que
suas teorizações sobre a psicoterapia propriamente dita,
na Daseinsanalyse de Binswanger os conceitos de tem-
tendo em vista que só secundariamente ela teria se orga-
poralidade e espacialidade terão um lugar de destaque.
nizado como proposta de tratamento. A Daseinsanalyse
As dimensões fundamentais constituintes do Dasein
de Binswanger instituiu um corte na tradição médica e
os existenciais descritos por Heidegger em Ser e Tempo
psiquiátrica da psicopatologia (Pereira, 2001).
– são a temporalidade, a espacialidade, o ser-com-o-ou-
tro, a disposição, a compreensão, o cuidado (Sorge), a
queda e o ser-para-a-morte (Moreira, 2010). No seu tex-
2.1 A Psicopatologia como um Campo Diferenciado to “Analyse existentielle et psychotherapie”, Binswanger
do Saber
(1971d) esclarece que:
Na perspectiva de sua Daseinanalyse e de sua antro-
Ainda que Heidegger tenha sido para nós o pensador
pologia fenomenológica Binswanger (1971b) defendeu a
mais prestigiado de nossos tempos, e que ano a ano
idéia – já defendida anteriormente por Jaspers, embora
mergulhemos mais fundo no coração de sua obra,
sobre outras bases – de se especificar a psicopatologia em
nosso propósito pessoal não era de estudá-la como
um campo diferente do das ciências naturais, que enten-
tal, mas de retirar dela o que seria útil à psiquiatria,
diam o homem como um sistema de funções de ordem
cujo fundamento e aprofundamento filosófico sempre
orgânica ligadas a processos naturais no tempo. Sua pro-
haviam sido objeto de nossas preocupações (p. 156).
A r t i g o
175
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011

Virgínia Moreira
É importante observar que a apropriação que
lações com os outros indivíduos, com a família e a co-
Binswanger faz da Daseinanlyse de Heidegger para apli-
munidade. O Mitwelt é o modo de ser no mundo social.
cá-la à sua Daseisnanalyse no campo da psicopatologia,
Finalmente, o terceiro modo – o Eigenwelt é o “mundo
utilizando-se do método fenomenológico, não se restrin-
próprio”, o “eu”, que inclui um corpo. O Eigenwelt pres-
ge apenas a descrever as vivências dos doentes e seus
supõe uma autoconsciência, uma percepção de si mesmo,
encadeamentos psíquicos ou naturais que levaram ao
um “auto-relacionamento” que também está presente ape-
surgimento da doença, como o faz Jaspers, mas apreen-
nas nos seres humanos. Não se trata de uma experiência
der as condições particulares de existência de um indi-
meramente subjetiva, ao contrário, é a base sobre a qual
víduo singular em relação aos existenciais descritos por
nos relacionamos a partir da percepção do que uma coi-
Heidegger no plano ontológico.
sa qualquer no mundo significa para mim.
O método psicopatológico de Binswanger visa descre-
Binswanger estava preocupado em descobrir a visão
ver a experiência de mundo e as condições de existên-
de mundo de seus pacientes, o mundo vivido de cada
cia tal como estas se dão nas condições particulares do
um. Neste sentido é que considerou importante, na clí-
Dasein. Trata-se de uma abordagem fenomenológica, no
nica, que envolve principalmente a relação intersubjeti-
sentido em que depende da abertura à experiência concre-
va médico-paciente, observar como o paciente vivencia
ta do outro, mas, ao mesmo tempo, volta-se às estruturas a
cada uma dessas dimensões de ser-no-mundo. Ainda que
priori e transcendentais da existência, visando situar a or-
Umwelt, Mitwelt e Eigenwelt sejam três regiões de mun-
ganização específica daquele indivíduo enquanto Dasein,
do diferentes, eles serão sempre modos simultâneos de
face a seus existenciais. Trata-se, portanto, de descrever
ser-no-mundo.
o mundo a partir da perspectiva e das possibilidades da-
quela existência singular (Pereira 2001, p, 140).
2.4 Método Fenomenológico x Método Psicopatológico
2.3 Umwelt, Mitwelt e Eigenwelt
No seu texto “De la Phénomenologie”, Binswanger
(1971c) discute as diferenças metodológicas entre a feno-
Em um de seus primeiros escritos – Grundformen und
menologia e a psicopatologia, lembrando que a pesquisa
Erkenntnis menschlichen Daseins (“Formas fundamentais
fenomenológica das essências é diferente da busca dos
e conhecimento da existência humana”), publicado em
fatos patológicos:
1942 –, Binswanger descreve modos simultâneos de ser
no mundo de seus pacientes, distinguindo três regiões
Desde que a psicopatologia é e será sempre uma
do mundo: Umwelt, Mitwelt e Eigenwelt. Ainda que os es-
ciência da experiência ou dos fatos, ele não quererá
critos posteriores de Binswanger tenham ampliado suas
nem poderá jamais aceder em uma generalidade
análises para modos existenciais de ser no mundo, esta
absoluta, a uma intuição das essências puras (...).
definição dos três modos de ser no mundo passou a ser
Entendemos, por outro lado que não é insensato
bastante conhecida e associada ao nome de Binswanger,
falar de uma fenomenologia psicopatológica, apesar
tanto como por conta dele ter utilizado estes três mo-
desta profunda diferença entre a pesquisa dos fatos
dos de ser no mundo para analisar seu conhecido caso
psicopatológicos e a pesquisa fenomenológica das
de Ellen West (Binswanger, 1977), como pelo fato desta
essências (p. 101).
definição ter sido utilizada e divulgada por Rollo May,
nos Estados Unidos. Em seu livro A Descoberta do Ser,
Binswanger (1971c) adverte que, se por um lado uma
Rollo May (1988) resume os três modos de ser-no-mundo
fenomenologia psicopatológica não pode buscar as es-
de Binswanger.
sências, por outro é importante que não se cometa o en-
O primeiro modo é o Umwelt, que significa literal-
gano de realizar uma psicopatologia meramente descri-
mente “o mundo ao redor”. É o mundo natural, o mundo
tiva ou subjetiva. Uma fenomenologia psicopatológica
biológico, conhecido por ambiente. O Umwelt é o mundo
busca o sentido, a significação da palavra, a experiência
material, que cerca a todos os animais e seres humanos,
vivida. Busca se introduzir “dentro” em lugar de julgar
abrangendo necessidades biológicas, impulsos e instin-
“sobre” a significação da palavra, tal como longamente
to. É o mundo dos ciclos naturais do dormir e acordar,
explicado no seu conhecido exemplo do paciente com
do nascer e morrer, o mundo que é imposto a cada um
alucinação que ao ser perguntado se ele estaria escu-
nós pelo nascimento. O segundo modo – o Mitwelt – é o
tando vozes, responde: “Não, eu não escuto vozes, mas
mundo dos inter-relacionamentos, o mundo com o outro,
à noite as salas-de-falar estão abertas e que elas fos-
que caracteriza o humano. Os animais vivem apenas no
sem dispensadas eu gostaria”. Ao descrever as longas
Umwelt. O ser humano não existe senão no Mitwelt, que
conversas com este paciente, o psiquiatra suíço mostra
é a característica básica do Dasein: ser-no-mundo. Pode-
que, no fenômeno particular, a pessoa se faz conhecer
se dizer que os animais têm um ambiente, enquanto que
e, inversamente, é o fenômeno que faz o psicoterapeuta
A r t i g o
os seres humanos têm um mundo, que envolve suas re-
penetrar na pessoa.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011
176

A Contribuição de Jaspers, Binswanger, Boss e Tatossian para a Psicopatologia Fenomenológica
Do ponto de vista do fenomenólogo, o essencial de tais
quizofrenias), exibicionista (histeria) e controlada (trans-
fenômenos psicopatológicos reside em que você não
torno obsessivo-compulsivo).
vê jamais um fenômeno isolado, mas aquele que se
Ainda que o Dasein seja um conceito fundamental na
desenrola sobre um plano de fundo de um Eu, de uma
teoria da psicopatologia e da psicoterapia de Binswanger,
pessoa, ou, dito de outra forma, nós o vemos sempre
e ele se utilize amplamente do pensamento de Heidegger
como expressão ou manifestação emanando de tal ou
em seus livros, seu pensamento permanece mais próxi-
tal pessoa (Binswanger, 1971c, p. 105).
mo do de Husserl do que do de Heidegger (Loparic, 2002;
Tatossian; 2006, Freire, 2008; Gonçalves, Garcia, Dantas
E mais adiante no mesmo texto:
& Ewald, 2008; Mattar & Novaes de Sá, 2008; Moreira,
2010). O proprio Heidegger (2001), no seminário de 23
O fenomenólogo, analisando a experiência psicopato-
de novembro de 1965, em Zollikon, na Suíca explici-
lógica vivida, (. .) busca se familiarizar com as signi-
ta: “A fenomenologia de Husserl, que ainda o influencia
ficações que a expressão verbal do doente despertam
[Binswanger], a qual permanece fenomenologia da cons-
nele (. .). No lugar de refletir sobre sua relação com ou-
ciência, impede a visão clara da hermenêutica fenomeno-
tros fenômenos psíquicos anormais e suas condições
lógica do Dasein” (Heidegger 2001, p. 146). Binswanger
de aparição, ele busca apenas os sinais distintivos
reconheceu este fato, o que o levou a propor, por ocasião
imanentes a esta experiência psicopatológica e o que
do I Congresso de Psiquiatria, em 1950, em Paris, a ideia
se pode descobrir nela (Binswanger, 1971c, p. 116).
de uma “Análise Antropológica-Fenomenológica”. Esta
denominação não chegou a ser amplamente utilizada e
foi, finalmente, sob a denominação “Análise existencial”
2.5 A Psicopatologia Fenomenológica
que seu trabalho passou a ser divulgado nos últimos anos,
agora com a sua concordância que, no mesmo congres-
A partir deste arcabouço teórico e metodológico é
so, de 1950, fora negada por não querer que sua proposta
que, na introdução do seu livro Introduction a l’Analyse
fosse associada com o pensamento de Sartre (Verdeaux
Existentielle, Binswanger (1971a) afirma que “o ser-psi-
& Kuhn, 1971).
quiatra depende referencialmente do encontro e da com-
Para além das várias denominações assumidas pela
preensão mútua com o outro tomado em sua totalidade e
extensa obra de Binswanger – Dasinsanalyse, Análise
ele está dirigido à compreensão do homem em sua tota-
Antropológica-Fenomenológica, Análise Existencial –,
lidade (. .)” (p. 47). Nesse sentido, entende que a psiquia-
no âmbito da psicopatologia sua contribuição fenome-
tria é uma ciência do homem, da presença humana, cuja
nológica foi de tal magnitude que Binswanger passou a
missão enquanto ciência é discriminar o que se aplica ao ser considerado o “pai da psicopatologia fenomenológica”
doente ou ao sadio e buscar a maneira como a presença
(Van den Berg, 1994; Moreira, 2010).
do doente pode ser modificada em uma presença sadia.
Assim, “o pro-jeto científico da psiquiatria não é mais ‘a
psyché doente’, e seus ‘transtornos funcionais’, nem tão
3. medard Boss: uma psicopatologia de inspiração
pouco se trata mais ‘do doente do espírito’ com suas ano-
Daseinsanalítica
malias de comportamento, mas ‘do homem’” (Binswanger
1971d, p. 157).
Medard Boss (1903-1990), médico psiquiatra tam-
A psicopatologia deve ser entendida como o que se
bém suíço, foi analisado por Freud e influenciado por
afasta da estrutura apriorística do ser em suas catego-
Bleuler, com quem trabalhou por quatro anos no Hospital
rias ontológicas. A presença perturbada se caracteriza
Burghölzli. Quando estudou em Berlim teve professores
como o extravio ou o malogro da sua realização ontoló-
do círculo de Freud, como Karen Horney e Kurt Goldstein.
gica, de maneira que uma só categoria passa a servir de
Foi, também, sócio de Jung, que propunha uma psicaná-
“fio condutor” do projeto de mundo (May, 1988). A pre-
lise diferente da proposta freudiana.
sença fica limitada em torno de uma categoria existen-
No prefácio à primeira edição dos Seminários de
cial prioritária (os chamados existenciais de Heidegger).
Zollikon, de Martin Heidegger, editado por Boss (1976),
Por exemplo, quando a presença fica limitada em torno
este descreve seu encontro com Heidegger. Conta que,
da corporalidade, temos o Dasein hipocondríaco ou o
quando serviu na guerra, pela primeira vez em sua vida
bulímico; na temporalidade temos o melancólico ou o
ficara entediado: “Aquilo que chamamos ‘tempo’ tornou-
maníaco (Tatossian, 2006); na espacialidade encontra-
se problemático. Comecei a refletir sobre essa ‘coisa’.
mos o agorafóbico, e assim por diante. Ocorre aí o que
Procurei ajuda em toda a literatura a esse respeito a que
Binswanger vai chamar de formas de existência frustra-
tive acesso. Por acaso encontrei num jornal uma nota so-
da, onde o indivíduo se fecha em si mesmo perdendo o
bre o livro Ser e Tempo, de Martin Heidegger” (p. 10).
eixo comum com o mundo do outro. A presença psicopa-
Neste prefácio, Boss relata o quanto lhe parecera di-
tológica se projeta assim de diferentes formas: presença
fícil e intrigante, a leitura da obra de Heidegger, tendo
perdida (melancolias), momentânea (manias), vazia (es-
em vista sua formação científico-médica. De forma que,
A r t i g o
177
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011

Virgínia Moreira
ainda que houvesse sido desestimulado por colegas que
nômenos normais e patológicos do existir humano (. .) tem
designavam a Heidegger de nazista (que Boss argumen-
como intuito ver sem deformações aquilo que se mostra a
ta serem calúnias), em 1947 entrou em contato por carta
nós do si-mesmo” (Boss & Condrau, 1997, p. 26).
com Heidegger de quem se tornou amigo pessoal, se cor-
A concepção Daseinanalítica de Boss parte da ob-
respondendo ao longo de cerca de 30 anos.
servação de que o homem nunca se encontrou primor-
Durante dez anos, a partir de 1959, Boss deu início
dialmente sozinho, subsistindo sozinho; o homem pode
à coordenação de uma série de seminários ministrados
se relacionar de diferentes modos, mas não pode não se
por Heidegger em sua casa em Zollikon, na Suíça, para
relacionar; mesmo a indiferença é um modo de relação;
cerca de 70 psiquiatras e estudantes de psiquiatria. Estes
os homens estão sempre e primordialmente co-existindo
seminários tornaram-se famosos nos meios psiquiátri-
perto das mesmas coisas de um mesmo mundo, contri-
co e psicológico clínico, pois se constituiu em momento
buindo primariamente em comum, embora cada um a seu
único em que Heidegger mais profundamente descreve
modo, para manter aberto este mundo, o que se constitui
sua Analítica do Dasein para um público de psiquiatras,
no caráter fundamental de ser-com-o-outro primordial
e não de filósofos (o que, conta Boss, era de interesse de
(Boss & Condrau, 1997). Ou seja, o existencial ser-com-
Heidegger que visava a um maior público que o filosófi-
o-outro é central, ainda que Boss também dê atenção aos
co). Estes seminários, bem como as cartas trocadas entre
outros existenciais descritos por Heidegger tais como a
Medard Boss e Martin Heidegger foram publicados no
temporalidade, a espacialidade, a disposição, o cuidado
livro Seminários de Zollikon, cuja edição em português,
(Sorge), a queda e o ser para a morte. Boss retoma assim,
em 1976, se deveu à iniciativa do médico e psicoterapeu-
o mais ao “pé da letra” possível, as idéias de Heidegger em
ta brasileiro, Solon Spanoudis, quem, por sua vez, troca-
Ser e Tempo, onde o grande filósofo distingue, no Dasein,
ra cartas com Boss convidando-o a participar de alguns
os planos ôntico (plano relacionado à elucidação da exis-
seminários no Brasil, a partir de 1973.
tência do Dasein) e ontológico, que é a apresentação das
É interessante observa r como a origem da
estruturas existenciais do ser, dimensões fundamentais
Daseinsanalyse de Boss se diferencia da de Binswanger,
constituintes do Dasein que Heidegger chamará de “exis-
no sentido de que o que moveu Boss ao encontro com
tenciais”. O ôntico se refere ao ente, enquanto o ontológi-
Heidegger foi um interesse pessoal e não teórico, a partir
co diz respeito ao ser (Heidegger, 1989).
de sua própria vivência de tédio durante a guerra (tema so-
Com base no existencial ser-com-o-outro a
bre o qual Heidegger escrevera). Enquanto Binswanger foi
Daseinsanalytik de Heidegger, retomada por Boss, en-
antes de tudo levado a penetrar no pensamento desse fi-
tende a existência humana como uma abertura estendida
lósofo por um ‘impulso puramente científico’ e não, como
e transparente, tanto no sentido temporal quanto espacial,
Freud, por um interesse de ordem terapêutica, foram so-
para tudo aquilo que vem ao seu encontro no mundo. A
bretudo preocupações terapêuticas que determinaram a
essência do existir humano é ser esta “clareira”, que con-
escolha de Boss. Esperava em primeiro lugar que as re-
siste meramente em um poder “ver”, experienciar, o que
centes considerações filosóficas de Heidegger lhe fossem
vem ao seu encontro (Heidegger, 1989).
úteis no domínio da terapêutica (Boss & Condrau 1997,
p. 26). O artigo de autoria de Boss, publicado em 1997
na Revista da Associação Brasileira de Daseinsanalyse,
3.2 A Inspiração Daseinsanalítica na Psicopatologia
onde ele faz uma apresentação pessoal da Analítica do
Dasein de Heidegger é intitulado “Encontro com Boss”
Ao contrário de Binswanger, Boss nunca chegou (nem,
(Boss, 1997).
aparentemente era esta sua intenção) a propor uma te-
oria de psicopatologia. No entanto, parece possível di-
zer que seus escritos, particularmente o artigo Análise
3.1 A Daseinsanalyse de Boss
Existencial – Daseinsanalyse: como a daseinsanalyse en-
trou na psiquiatria,
escrito em co-autoria com seu assis-
Descontente com os fundamentos da psiquiatria
tente G. Condrau, a partir do qual desenvolvemos este
tradicional e, de início, estimulado pelos trabalhos
tópico neste artigo, mostram que ele realizou curtos “en-
de Binswanger, Boss se voltou para o pensamento de
saios” do que poderia vir a ser chamado uma “psicopato-
Heidegger, desenvolvendo todo o seu trabalho, ao longo
logia de inspiração daseinsanalítica”. Nesta perspectiva,
dos anos que se seguiram, em torno da sua Analítica do
“o modo de ser-doente só pode ser compreendido a par-
Dasein. Acreditava que a psicopatologia muito se enrique-
tir do modo de ser-sadio e da constituição fundamental
ceria por um pensamento que não permitia a colocação da
do homem normal, não perturbado, pois todo modo de
distinção cartesiana sujeito-objeto e que, por outro lado,
ser-doente representa um aspecto particular de determi-
aproximava a medicina da psicologia. Por isso conside-
nado modo de ser-são” (Boss & Condrau 1997, p. 29). Na
rava que a Daseinsanalyse não deveria ser considerada
medida em que entende que a essência fundamental do
simplesmente mais uma escola: “É, antes de tudo e pri-
homem sadio caracteriza-se por suas possibilidades de
A r t i g o
mordialmente uma nova abordagem do conjunto dos fe-
relação na abertura livre de seu mundo – a “clareira” – o
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011
178

A Contribuição de Jaspers, Binswanger, Boss e Tatossian para a Psicopatologia Fenomenológica
modo de ser-doente poderá ser compreendido como uma
tédio, de sua vida (. .) Freqüentemente estes doentes ten-
limitação dessas possibilidades.
tam durante muito tempo mascarar seu desespero se en-
Boss & Condrau (1997) subdividem o modo de ser-do-
torpecendo, seja pelo trabalho, pelas distrações ou pelas
ente em: 1) Ser doente caracterizado por uma perturba-
drogas”. (Boss & Condrau 1997, p. 31).
ção evidente da corporeidade do existir humano; 2) Ser-
Esta observação, ainda que se refira à realidade de pelo
doente caracterizado por uma perturbação pronunciada
menos cerca de 40 anos atrás, parece muito característica
da espacialidade do seu ser-no-mundo; 3) Modo do ser-
da nossa sociedade contemporânea da epidemia da de-
doente caracterizado por uma limitação da disposição
pressão (Moreira, 2002). Este distúrbio da abertura para
própria à essência da pessoa; e 4) Modos de ser-doente
mundo do Dasein é descrito por Boss & Condrau (1997)
concernentes a limitações na realização do ser-aberto e da
como o tédio, em que o homem ainda que esteja aberto
liberdade. Ainda que cada um destes modos de ser-doen-
para o mundo enquanto ente, não o está como ser, ou seja,
te faça referência a um existencial específico do Dasein,
não deixa que lhe cheguem mensagens do mundo, não
descrito em Ser e Tempo enquanto dimensões fundamen-
se deixa tocar, permanecendo fundamentalmente indi-
tais do ser-aí, formam, todos juntos, uma estrutura total
ferentes a tudo. Para estas pessoas o tempo é comprido,
e indivisível. Assim, se um deles é perturbado em sua
o que quer dizer que no tédio é principalmente a tempo-
realização, as outras dimensões, como parte do todo, so-
ralidade que é afetada, não existindo futuro verdadeiro
frerão igualmente as conseqüências.
ou passado rico de experiências, nem mesmo presente
Esta questão é esclarecida por Boss & Condrau (1997)
que tenha algum sentido.
com um exemplo sobre o primeiro modo de ser-doente,
Ainda que todos estes modos de ser-doente apresen-
relativo à corporeidade do existir humano:
tem uma perturbação da realização do caráter fundamen-
tal do ser-humano que é seu ser-livremente-no-mundo,
(. ) qualquer modo da corporeidade faz parte a tal
ao mesmo tempo em que lhe revela o mundo, para Boss
ponto e tão diretamente do ser-no-mundo do homem,
& Condrau (1997) a esquizofrenia deve ser considerado
isto é, de sua existência, que qualquer redução toca
o modo de ser-doente mais humano e, ao mesmo tempo,
sempre e imediatamente este ser-no-mundo e, por
mais desumano:
isso mesmo, todas as suas possibilidades de relação
com o mundo. Assim, uma fratura na perna constitui
Justamente porque aqui se manifesta abertamente
primordialmente uma redução da possibilidade exis-
uma grave perturbação fundamental do ser humano,
tencial de se aproximar ou de se afastar daquilo que
isto é, em seu ser-aberto esta doença mais do que qual-
se oferece ao nosso encontro no mundo, independen-
quer outra coisa lança uma luz sobre a natureza mais
temente, aliás do fato dos sofrimentos provocados por
profunda de nosso existir e por isso mesmo sobre sua
uma fratura reduzirem consideravelmente a abertura
fragilidade. A esquizofrenia pode ser considerada uma
para o mundo de um ‘da-sein’, não lhe deixando mais
perturbação específica do ‘poder-existir-o-ser-aberto’
que um pequeno número de interesses (p. 30).
conforme a essência do ser-aí (p. 31).
Boss & Condrau (1997) citam outros exemplos na
Existiria no esquizofrênico uma dupla incapacidade:
mesma linha do citado da fratura, agora no domínio da
de poder se engajar totalmente no que se mostra na aber-
psicopatologia. Para compreender uma paralisia histéri-
tura do seu existir e de preservar seu si-mesmo capaz de
ca, dizem eles, a Daseinsanalyse não precisa recorrer à
manter uma relação livre com o que aparece.
“invenção de desejos insconscientes” [e aqui, como em
alguns outros momentos deste artigo, os autores são ex-
O esquizofrênico perde sua liberdade existencial no
plícitos em sua crítica a Freud]:
momento em que como ser-aí, enquanto possibili-
dade de responder aos numerosos significados e às
Sem que seja necessário recorrer a hipóteses metap-
diversas solicitações do que aparece em seu mundo,
sicológicas, qualquer paralisia histérica pode ser di-
se sobrecarrega a tal ponto que ele não é mais capaz
retamente compreendida como uma perturbação que
de responder ao que aparece como o fazem todas as
afeta a possibilidade de realizar na corporeidade uma
pessoas ao seu redor. Ele não é mais capaz de resistir à
certa relação com o que se apresenta no mundo, isto
dissolução de seu ser na esfera de seu mundo tornado
é, como uma perturbação que consiste em interdições
vasto demais (Boss & Condrau 1997, p. 32).
estranhas à pessoa” (Boss, & Condrau, 1997, p. 30).
Isto explicaria o fato deste modo de ser-doente apa-
No mesmo artigo os autores assinalam que o modo de
recer, mais freqüentemente, na puberdade ou em mu-
ser-doente pela redução dos existenciais “disposição” “e
lheres depois da maternidade quando as exigências em
o ser-aberto”, relacionadas às distimias depressivas são
relação ao outro se tornam mais fortes, para um “deixar
cada vez mais freqüentes: “Hoje encontra-se cada vez mais
aproximar-se” entre adultos do sexo oposto ou para o
pessoas sofrendo de uma opressão vaga, do absurdo e do
devotamento do amor materno. Boss & Condrau (1997)
A r t i g o
179
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011

Virgínia Moreira
defendem a idéia de que ninguém pode ser considerado
Heidegger, carecem de maior profundidade e sistemati-
esquizofrênico e que a esquizofrenia não pode ser con-
zação. Além disso, o pensamento de Heidegger é infini-
siderada uma doença em si-mesma. Mais conveniente
tamente mais amplo que os existenciais, aos quais Boss
seria se perguntar:
parece se aferrar. Neste sentido, mesmo tendo claro que
mais pesquisas sobre este assunto necessitariam ser fei-
Esquizofrênico diante de qual situação relacional
tas, talvez seja possível arriscar dizer que Loparic (2002)
acima de suas forças? (. .) O caráter patológico destes
tinha razão. Só que, no caso de Binswanger, se ele não
doentes reside no fato de lhes faltar uma possibilidade
conseguiu “se apropriar adequadamente” da Analítica do
de existir em relação aos seres sãos. Falta-lhes acentu-
Dasein heideggeriana, acabou criando novas vertentes: a
adamente a capacidade de assumir as possibilidades
Análise Existencial e a Psicopatologia Fenomenológica.
constitutivas do seu ser-aí para tornar-se si-mesmo
No caso de Boss, a questão parece mais complicada, me-
livre e autônomo cuja abertura para o mundo possa
recendo pesquisas mais extensas que possam vir a escla-
se manter firme face a tudo que a eles se oferece. (. .)
recer melhor esta questão.
Assim, pode-se dizer que [os esquizofrênicos] existem
em grande parte fora deles mesmos. São tão pouco
4. arthur tatossian: uma psicopatologia Contempo-
capazes de assumir as suas possibilidades num ser-
rânea do Lebenswelt
si-mesmo autônomo que somente podem sentir o que
se mostra a eles como algo estranho e imposto de fora.
Arthur Tatossian (1929-1995) nasceu em Marseille, na
É por isso que tão freqüentemente têm a impressão
França, filho de uma família de emigrantes armênios, o
de que o que a eles se oferece é ditado por ‘vozes’ ex-
que segundo Jeanne Tatossian – sua esposa –, teve reper-
teriores e que tudo o que fazem e pensam é pensado
cussões profundas na sua personalidade tímida e sempre
por outra pessoa (pp. 32-33).
discreta. Foi o que poderia ser chamada de “uma crian-
ça superdotada”, dormia poucas horas por noite e usava
Em outras palavras, as assim chamadas alucinações
as outras horas para trabalhar (Tatossian & Samuelian,
no esquizofrênico seriam fruto de uma total impossibi-
2006). De formação médica, dedicou-se a neurologia e,
lidade de ser-si-mesmo autônomo. Da mesma forma que
posteriormente a psiquiatria, sendo seus artigos mais pro-
nos esquizofrênicos, Boss & Condrau (1997) vêem nos
fundos os fenomenológicos (Darcourt, 2006). Ao longo
neuróticos obsessivos uma perturbação da liberdade
de sua carreira ocupou vários cargos, tanto na docência
existencial, de caráter defensivo tal como ocorre nas es-
da psicopatologia, como de chefias de serviços médicos.
quizoidias ou no autismo: “De fato, o que existe de mais
Trabalhou no Hospital de Marseille em 1952 e em 1959
oposto à liberdade do que a obsessão?” (p, 33). No entan-
se tornou Chefe do Serviço de Neuropsiquiatria. Ocupou,
to, os autores assinalam que a realização do ser-aberto e
ainda, vários outros cargos, entre os quais o de Médico-
do ser-livre nos neuróticos obsessivos jamais será atin-
Chefe da Rede de Hospitais de Marseille e encarrega-
gida da mesma maneira que nos esquizofrênicos; eles ja-
do do curso de Psicologia na Faculdade de Medicina de
mais são absorvidos completamente pelo percebido nem
Marseille, em 1961.
se perdem, enquanto ser-humano, totalmente nele como
Além de artigos e capítulos de livros deixou três pu-
ocorre nos esquizofrênicos.
blicações na França: Psychiatrie Phénomenologique, obra
Na medida em que Boss desloca o entendimento da
póstuma que reúne seus primeiros textos fenomenológi-
doença para a compreensão da experiência do ser-doente, cos praticamente desconhecidos visto que ele os publica-
considera, então, a psicopatologia como redução ou per-
va em revistas locais ou não os publicava; La vie en fau-
da das possibilidades constitutivas dos modos do exis-
te de mieux, um livro sobre a depressão, de linguagem
tir humano enquanto Dasein. Assim, no ser-doente por
menos acadêmica e mais acessível que, segundo Jeanne
uma perturbação na corporalidade teremos, por exemplo,
Tatossian1, Arthur Tatossian não valorizava muito; e
as doenças psicossomáticas ou a conversão histérica; na
Phénomenologie des Psychoses, publicado em português
espacialidade teremos a agorofobia; no humor teremos a
pela Editora Escuta em 2006.
mania e a depressão, na realização do ser aberto teremos
Mas, se Tatossian, após sua morte prematura aos 66
a esquizofrenia (Boss & Condrau, 1997).
anos, não deixou mais que três livros publicados (que se
Ainda que Medard Boss seja considerado o autor na
superam em número pela densidade de seu texto), cha-
área da psiquiatria que se manteve mais próximo da pro-
ma a atenção o número de pessoas – ex-alunos e colegas
posta heideggeriana (Gonçalves, Garcia, Dantas & Ewald,
dele na universidade ou no Hospital de La Timone, onde
2008), Loparic (2002) insiste no “fracasso da escola suíça”
dirigiu o Serviço de Psiquiatria e de Psicologia Médica a
(referindo-se a Boss e a Binswanger) no que se refere à uti-
partir de 1980, além, é claro, de Jeanne Tatossian – que
lização apropriada da Analítica do Dasein de Heidegger
pela psiquiatria. Para além desta discussão, é possível
1 Algumas das informações aqui relatadas como sendo de autoria de
observar que as interessantes observações de Boss sobre
Mme Tatossian, esposa de Arthur Tatossian, foram relatadas em
conversas informais quando da ida da autora em visita a Marseille,
A r t i g o
os modos de ser-doente, com base nos existenciais de
no outono de 2001.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011
180

A Contribuição de Jaspers, Binswanger, Boss e Tatossian para a Psicopatologia Fenomenológica
o admiravam em sua enorme sensibilidade humana, fato
melhor a fazer é reconfortá-lo em vez de elaborar hi-
que pode ser observado nos prólogos e prefácios de seus
póteses, certamente muito sedutoras, mas pouco úteis
livros, que não apenas mencionam a obra, mas o homem.
na prática clínica cotidiana (Tatossian & Samuelian,
Ele foi reconhecido não apenas pelo seu papel desempe-
2006, p. 354-355).
nhado no pensamento fenomenológico como na prática
psiquiátrica do seu cotidiano clínico. Nunca quis ser con-
A preocupação em desenvolver uma psicopatologia
siderado um mestre nem criar escolas, pois achava que a
da clínica e para a clínica é central no pensamento de
fenomenologia já se “vivia” e não poderia se resumir em
Tatossian. Logo no início de Fenomenologia das Psicoses
receitas (Tatossian & Samuelian, 2006). A possibilidade
ele explicita sua posição:
de reunir esta sensibilidade, juntamente com sua grande
capacidade de trabalho (tinha o hábito de dormir quatro
Talvez o presente estudo se justifique por apresentar,
horas por noite, trabalhando durante as outras horas),
sem pretensão de originalidade, mas com a preocu-
além de sua reconhecida genialidade (vide, por exemplo, o
pação da fidelidade a uma visão de conjunto a mais
fato de ter aprendido alemão sozinho a fim de ler os origi-
completa possível, o quadro da fenomenologia psiqui-
nais de Husserl, Heidegger e outros autores alemães para
átrica tal como ela tem sido praticada pelos psiquiatras
a sua tese de Doutorado em Medicina, de 1957, intitula-
e não como poderia ou deveria sê-lo a partir de tal
da Étude Phénomenologique d’un cas de esquizophrenie
filosofia (Tatossian, 2006, p. 23).
paranöide, publicado postumamente no livro Psychiatrie
Phénomenologique
, em 1997, faz do pensamento de Arthur
E mais adiante:
Tatossian uma psicopatologia fenomenológica da clíni-
ca – sua preocupação prioritária era a pessoa em sofri-
Se ele [o psiquiatra] deseja atingir a experiência pro-
mento, o paciente; para a clínica – entendia que o que de
priamente fenomenológica da doença mental, não
mais útil a fenomenologia poderia oferecer à psiquiatria
pode se isolar com o filósofo transcendental em sua
seria “uma comunicação compreensiva com o Outro”
torre de marfim. Ao trabalho especulativo sobre a
(Tatossian & Samuelian, 2006, p. 354).
literatura especializada, que foi o método de Merleau-
Ponty e de outros também, deve preferir obrigatoria-
mente o comércio direto com o que está em questão:
4.1 Uma Psicopatologia Fenomenológica da Clínica e
a loucura e o louco (Tatossian, 2006, p. 29).
para a Clínica
A preocupação primordial de Tatossian com a clínica
Um aspecto que salta aos olhos ao leitor da obra de
leva-o a se posicionar criticamente em relação ao “qua-
Arthur Tatossian é a enorme facilidade com que ele pas-
drunvirato fenomenológico dos anos 1920” – Binswanger,
seia através das obras dos vários autores da fenomenolo-
Minkowski, Straus e Von Gebsattel –, criticando a
gia: Husserl, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty, Scheler,
Binswanger, um de seus constantes interlocutores, por
bem como autores que contribuem diretamente para
suas habituais e, em sua opinião, excessivas exposições
a tradição fenomenológica em psicopatologia: Jaspers,
teóricas e análises com considerações metodológicas.
Binswanger, Minkowski, Blankenburg, Tellenbach, Von
Acreditava que Minkowski, Straus e Von Gebsattel per-
Gebsattel, Van Den Berg, Kimura, entre outros.
maneciam mais próximos da experiência clínica, o que
Seus escritos consistem em um constante diálogo
também acontecia na psiquiatria mais recente, onde ape-
com estes representantes da fenomenologia, o que faz de
sar da via seguida por Binswanger, seria a imbricação
sua obra uma psicopatologia fenomenológica contempo-
mais íntima entre metodologia e análise de casos clíni-
rânea, na medida em que integra em um só texto, em um
cos que predominava (Tatossian, 2006).
momento histórico um pouco mais avançado – segunda
Da mesma forma, Tatossian critica o que ele cha-
metade do século XX até a atualidade – grandes nomes
ma de “reviravolta fenomenológica” do pensamento de
da fenomenologia. A partir deste diálogo crítico com al-
Binswanger que, havendo partido do Dasein de Heidegger
guns dos clássicos da psicopatologia fenomenológica,
para pensar a psicopatologia, como que retrocede à feno-
Tatossian escreve uma psicopatologia fenomenológica
menologia da consciência de Husserl. Referindo-se a obra
mais amadurecida, em que:
de Binswanger, Melancolia e Mania, afirma: “A análise
existencial de Heidegger permanece, sem dúvida, como
A fenomenologia utilizada em psiquiatria não é a
o afirma no prefácio, o ponto de partida, mas se apaga no
banal aplicação de uma teoria filosófica, mas antes,
corpo do trabalho diante da fenomenologia de Husserl,
uma forma de ‘questionar’ e de compreender o doente
sob a sua forma mais técnica” (Tatossian, 2006, p. 172).
mental; que realiza uma fenomenologia que sabe dis-
Para Tatossian, distanciar-se do Dasein como horizonte
tinguir sintoma de fenômeno e tomando consciência
metodológico da clínica, traz graves e profundas implica-
da importância do ‘modo de ser-no-mundo’ (. .) não
ções, dado que significa perder de vista a idéia dos esta-
esquecendo que o doente é um ser que sofre e que o
dos psíquicos enquanto transformação da estrutura onto-
A r t i g o
181
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011

Virgínia Moreira
lógica primordial do ser-no-mundo, independente de um
em sua unicidade sendo, assim, o lugar da vida primá-
modo de ser patológico. Na fenomenologia transcendental,
ria do indivíduo, caracterizado essencialmente por sua
os estados psíquicos estariam explicitamente presentes
familiaridade – o meu mundo – um horizonte interno da
enquanto doença mental em sua constituição:
experiência. “Os conteúdos podem variar de uma socie-
dade a outra e neste sentido há os Lebenswelten, mas a
A passagem da Daseinsanalyse à fenomenologia
forma do Lebenswelt é única (. .) É porque ‘meu’mundo é
transcendental comporta, assim, ir de uma atitude
sempre assim ‘nosso’mundo, um mundo intersubjetivo,
profundamente impregnada pela historicidade huma-
um mundo comum” (Tatossian, 2006, p. 88).
na a uma outra totalmente a-histórica e, mais grave, de
O Lebenswelt, aqui, é ainda o mundo correlativo do
uma perspectiva que, com Heidegger, teria superado a
mundo natural, mas agora no nível da experiência pré-
distinção sujeito/objeto a uma outra que não a supera
intencional, não mais no nível intencional e conceitual tal
mais, já que fala de doenças. A solução é sem dúvida
como descrito no jovem Husserl. O Husserl tardio revela
que a perspectiva da fenomenologia não exclui aquela
as estruturas pré-predicativas da experiência:
da Daseinsanalyse (Tatossian, 2006, p. 173).
O Lebenswelt é o mundo percebido por baixo das
Ou seja, trata-se de pensar em termos de uma comple-
construções do pensamento. O eidos está presente
mentaridade entre as propostas de Husserl e de Heidegger
aqui, mas não como essência fechada, inata e fixada,
para se pensar a psicopatologia.
mas como estrutura de sentido aberta, histórica e,
portanto, de validade forçosamente transitória, as-
sintótica da experiência humana vivida (Tatossian,
4.2 O Lebenswelt como Foco na Psicopatologia Feno-
2006, p. 88-89).
menológica Contemporânea
Neste sentido, na medida em que se encontra no domí-
Tatossian (2006) entende que o último Husserl quis
nio do pré-reflexivo, não cabe a distinção entre conscien-
mostrar a capacidade da fenomenologia de incorporar a
te e inconsciente. Para Tatossian (2006), a psicopatologia
existência e o que havia sido colocado por Heidegger em
deve visar o Lebenswelt do doente em duas dimensões de
Ser e Tempo. Para isto desenvolveu mais amplamente o
sua experiência: por um lado trata-se de uma experiên-
conceito de Lebenswelt que, por sua vez irá, posteriormen-
cia pré-teórica e pré-objetiva que temos diante do doente
te, caracterizar a fenomenologia existencial de Merleau-
e, por outro, parte da questão de como se constitui um
Ponty “e que interessa à psicopatologia fenomenológi-
Lebenswelt particular que se imprime sobre seu vivido,
ca em sua referência simultânea a Husserl e Heidegger”
sua experiência, sua ação, sua forma de se apresentar no
(p. 87). Merleau-Ponty, um representante contemporâ-
mundo. O Lebenswelt
neo do pensamento fenomenológico, tem o conceito de
Lebenswelt como fio condutor de todo o seu pensamento
(. .) existe como mundo concreto e cotidiano, é sempre
ambíguo (Bidney, 1989).
individual, é sempre ‘meu’mundo, sendo também
Para além de uma complementaridade da Fenome-
totalmente ‘nosso’ mundo porque [é] impregnado de
nologia e da Daseinsanalyse, defendida por Kuhn,
historicidade e intersubjetividade (. .) o Lebenswelt
Tatossian (2006) vai, então, preferir a pista deixada por
não pode ser compreendido como pura derrelição e
Husserl e desenvolvida por Merleau-Ponty: o Lebenswelt.
implica a entrada em cena da estrutura de projeto de
Cita a Bröekman para quem a análise heideggeriana se-
ser humano” (Tatossian, 2006, p. 207).
ria uma análise do Lebenswelt e a Merleau-Ponty, em
Fenomenologia da Percepção quando este afirma que
tudo em Heidegger havia partido de uma indicação de
4.3 O Tempo Vivido
Husserl, o Lebenswelt. Com base no desenvolvimento
deste conceito é que Tatossian justifica a “reviravolta” de
O conceito de Lebenswelt é utilizado ao longo da
Binswanger à fenomenologia husserliana: “É por isso que
Fenomenologia das Psicoses, seja na descrição e com-
a fenomenologia psiquiátrica atual, impulsionada pelo
preensão das diferentes enfermidades, seja no diálo-
próprio Binswanger se orientou em direção a Husserl em
go com outros autores da psicopatologia fenomenológi-
sua obra tardia. .” (p. 85).
ca. Diretamente ligada ao vivido no Lebenswelt é que a
Segundo Tatossian (2006), o Lebenswelt, tal como con-
questão da temporalidade ocupou um lugar de destaque
ceituado nos textos do último Husserl – da Experiência e
no pensamento de Tatossian, sem que com isso ele se
Julgamento e da Krisis – significa uma realidade primária
descolasse das outras dimensões do vivido humano tal
da nossa experiência imediata, o mundo das significações
como espacialidade, corporalidade, abertura ao mundo
tal como ele se apresenta à ação humana. Este mundo é,
e assim por diante.
antes de tudo, o mundo do indivíduo humano, ou seja, é
A temporalidade esteve intimamente relacionada a
A r t i g o
o segmento da existência humana vivida pelo indivíduo
sua própria clínica, onde Tatossian deu especial aten-
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011
182

A Contribuição de Jaspers, Binswanger, Boss e Tatossian para a Psicopatologia Fenomenológica
ção a esta questão, sempre muito atento à forma como
diálogo com os autores clássicos da fenomenologia da pri-
o tempo era vivenciado por seus pacientes. Este tema –
meira metade do século XX, ele atualiza esta vertente na
amplamente desenvolvido em Binswanger, Minkowski
medida em que procura desenvolver seu pensamento em
e Tellenbach – fez com que ele estivesse em constante
torno do conceito de Lebenswelt. Cria-se com Tatossian
diálogo com estes autores. O tempo vivido, seja para o
uma psicopatologia fenomenológica contemporânea.
indivíduo doente ou sadio, não é o tempo mensurável,
que pode ser medido objetivamente – “o tempo do mun-
do exterior ao sujeito” –, mas é o tempo imanente ao su-
Considerações finais
jeito, o tempo dele. Para Tatossian (2006), os indivíduos
“normais” tem o tempo dominado pela noção de devir, de
A psicopatologia fenomenológica não pode se dar de
futuro, enquanto que o indivíduo doente vivencia altera-
outra forma que não seja a existencial. É impossível uma
ções no tempo vivido: o melancólico, por exemplo, vive,
psicopatologia fenomenológica transcendental, pois esta
passivamente, uma estagnação do tempo pela inibição do
não é uma ciência natural, que pode ter um método ei-
devir e a impossibilidade de antecipações, ficando preso
dético transcendental puro, tal como era o projeto do
ao passado; o maníaco também vivencia esta mesma es-
primeiro Husserl, mas uma ciência do empírico, do ou-
tagnação embora ativamente, como que querendo ante-
tro, do ser-no-mundo, ou do Lebenswelt. Como bem lem-
cipar o futuro, e assim por diante.
bra Merleau-Ponty, no prefácio da “Fenomenologia da
O tempo vivido é o tempo do Lebenswelt: imanente
Percepção”: a essência está na existência. Este é o eixo
e transcendente, consciente e inconsciente, singular e
central que, de alguma maneira, atravessa o pensamento
universal. E, nesse sentido, é fundamento de um modo
de cada um destes quatro grandes nomes da psicopatolo-
de ser-no-mundo sadio ou patológico:
gia fenomenológica.
Karl Jaspers, ao introduzir o método fenomenológico
No homem normal o primado do futuro faz do vivido
em seu trabalho de descrever e compreender uma psico-
temporal um vivido de poder – poder de transformar
patologia geral inaugura uma nova área do saber – a psi-
o mundo pela ação, e a si mesmo pelo alargamento
copatologia – que a partir de então se preocupará tanto
da pessoa. A imobilização do tempo vivido tem por
com a realidade subjetiva quanto com a realidade objetiva
corolário a perda da categoria do possível – não como
de pessoas que sofrem com transtornos mentais. Ludwig
possibilidade lógica, vazia, mas como possibilidade
Binswanger, com sua daseinsanalyse, que passou a se
concretamente ‘minha’, como capacidade (p. 127).
chamar análise existencial, inaugura a tradição da psi-
copatologia fenomenológica, cuja preocupação primor-
Segundo Tatossian & Samuelian (2006) a significa-
dial não é mais o psíquico ou a doença, mas o homem.
ção particular que Tatossian dá ao tempo vivido permite
Medard Boss desenvolve, ou pelo menos dá os primeiros
compreender sua tolerância e paciência em relação aos
passos, na direção de uma psicopatologia mais puramen-
outros, o que repercutiu na sua qualidade de relação com
te inspirada no Dasein de Heidegger. Finalmente, Artur
seus pacientes. Para ele:
Tatossian, a partir do diálogo com os filósofos e psiquia-
tras representantes da tradição fenomenológica em psi-
(. .) o tempo é a escola da experiência, experiência do
quiatria, descreve uma psicopatologia fenomenológica
fenômeno. A identidade do sujeito não é mais que o
contemporânea do Lebenswelt.
equilíbrio entre identidade do eu e identidade do papel;
Quatro grandes nomes, quatro contribuições singula-
é, portanto, um equilíbrio entre a constituição do outro
res à psicopatologia fenomenológica existencial.
por si e a constituição de si pelo outro. Se esse equilíbrio
não é atingido, ou se subitamente é posto em dúvida,
a vida cotidiana não pode ser vivida senão como uma
Referências
impostura evidente, e os distúrbios do comportamento
aparecem (. .) É, portanto, nesta situação paradoxal em
Bauchesne, H. (1993). Histoire de la Psychopathologie. Paris,
que se encontra colocado o sujeito que ele deve cons-
PUF.
truir o mundo fora dele, que lhe é ao mesmo tempo
Bidney, D. (1989). Phenomenological Method and the
imanente e transcendente (Tatossian, 2006, p. 356).
Anthropological Science of the Cultural-Life. Em M.
Natanson, Phenomenology and the Social Sciences.
É neste sentido que a psicopatologia fenomenológica
Evanston, Northwestern University Press.
de Arthur Tatossian não é uma explicação, mas um “ver”
da experiência psiquiátrica, sendo em si empírica e apri-
Binswanger, L. (1970). Analyse existencielle et psychanalyse
freudienne. Paris: Gallimard.
órica. A contribuição singular do pensamento de Arthur
Tatossian tem um duplo sentido: aliado ao fato de, por se
Binswanger, L. (1971a). Introduction. Em L. Binswanger,
encontrar em um momento histórico posterior, Tatossian
Introduction à l’analyse existentielle [pp. 39-47]. Paris : Les
ter tido a possibilidade de construir seu pensamento no
Éditions de Minuit.
A r t i g o
183
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011

Virgínia Moreira
Binswanger, L. (1971b). Fonction Vitale et histoire intérieure de
Loparic, Z. (2002). A semântica transcendental de Kant.
la vie. Em L. Binswanger, Introduction à l’analyse existen-
Campinas: Unicamp.
tielle [pp. 49-77]. Paris: Les Éditions de Minuit.
Mattar, C. M. & Novaes de Sá, R. (2008). Os sentidos de “análise”
Binswanger, L. (1971c). Analyse de la Phenomenologie. Em L.
e “analítica” no pensamento de Heidegger e suas implica-
Binswanger, Introduction à l’analyse existentielle [pp. 79-
ções para a psicoterapia. Estudos e Pesquisas em Psicologia
117]. Paris: Les Éditions de Minuit.
(UERJ), 8 (2), 189-200.
Binswanger, Ludwig (1971d). Analyse Existentielle et
May, R. (1988). A descoberta do ser. Rio de Janeiro: Rocco.
Psychotherapie. In L. Binswanger, Introduction à l’analyse
existentielle
(pp. 149-157). Paris, Les Éditions de Minuit.
Moreira, V. (2002). Psicopatologia crítica. In V. Moreira & T.
Sloan. Personalidade, ideologia e psicopatologia crítica
Binswanger, L. (1977). El caso de Ellen West: estudio antropo-
[pp. 109-248]. São Paulo, Escuta.
lógico-clínico. Em Rollo May, E. Angel, & H. Ellenberger
(Eds). Existencia [pp. 288-434]. Madrid: Gredos.
Moreira, V. (2010). Possíveis contribuições de Husserl e
Heidegger para a clínica fenomenológica. Psicologia em
Boss, M. (1976). Solidão e comunidade. Daseinsanalyse – Revista
Estudo (Maringá), 15(4), 723-731.
da Associação Brasileira de Daseinsanalyse, 2, 25-45.
Pereira, M. (2001). Sobre os fundamentos da psicoterapia de
Boss, M. (1997). Encontro com Boss. Daseinsanalyse – Revista
base analítico-existencial, segundo Ludwig Binswanger.
da Associação Brasileira de Daseinsanalyse, 2, 5-21.
Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental,
4
(1), 137-142.
Boss, M. & Condrau, G. (1997). Daseisanalyse: como a Daseinsa-
nalise entrou na psiquiatria. Daseinsanalyse – Revista da
Rodrigues, A. C. T. (2005). Karl Jaspers e a abordagem fenome-
Associação Brasileira de Daseinsanalyse, 2, 23-35.
nológica em psicopatologia. Revista Latinoamericana de
Psicopatologia Fundamental, 8
(4), 754-768.
Cunha, A. (1997). Dicionário Etimológico Nova Fronteira. Rio
de Janeiro, Nova Fronteira.
Tatossian, A. (2006). Fenomenologia das psicoses. São Paulo:
Escuta.
Darcourt, G. (2006). Prefácio à segunda edição francesa. Em
Arthur Tatossian, Fenomenologia das Psicoses [pp. 19-22].
Tatossian, J. & Samuelian, J.-C. (2006). Pósfacio da segunda
São Paulo: Escuta.
edição francesa. Em Arthur Tatossian. Fenomenologia das
Psicoses
[pp. 347-357]. São Paulo: Escuta.
Fédida, P. (1998). De uma psicopatologia geral a uma psicopa-
tologia fundamental. Nota sobre a noção de paradigma.
Van den Berg, J. H. (1994). O paciente psiquiátrico esboço de
Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental,
uma psicopatologia fenomenológica. Campinas: Editorial
1 (3), 107-121.
Psy.
Freire, J.C. (2008). O lugar do outro na daseinsanalyse de
Verdeaux, J. & Kuhn, R. (1971). Glossaire. Em L. Binswanger.
Binswanger. Estudos e Pesquisas em Psicologia (UERJ),
Introduction à l’analyse existentielle [pp. 27-37]. Paris : Les
8(2), 261-271.
Éditions de Minuit.
Gonçalves, R., Garcia, F., Dantas, J. & Ewald, A. (2008). Merleau-
Widlöcher, D. (1996). Les nouvelles cartes de la psychanalyse.
Ponty, Sartre e Heidegger: três concepções de fenomenolo-
Paris: Odile Jacob.
gia, três grandes filósofos. Estudos e Pesquisas em Psicologia
(UERJ), 8 (2), 396-346.
Heidegger, M. (1989). Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes.
Virginia Moreira - Psicoterapeuta, Doutora em Psicologia Clínica
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Pós-Doutora em
Heidegger, M. (2001). Seminários de Zollikon. Petrópolis:
Antropologia Médica pela Harvard University. É Professora Titular
Vozes.
da Universidade de Fortaleza e Affiliated Faculty da Harvard Medical
School. Endereço para correspondência: APHETO – Laboratório de
Jaspers, K. (1987). Psicopatologia geral. Rio de Janeiro: Atheneu
Psicopatologia e Psicoterapia Humanista Fenomenológica Crítica.
(Original publicado em 1913).
Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade de Fortaleza.
Av. Washington Soares, nº1321 – Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail:
Jaspers, K. (2005). A abordagem fenomenológica em psico-
virginiamoreira@unifor.br; virginia_moreira@hms.harvard.edu
patologia. Revista Latinoamericana de Psicopatologia
Fundamental, 8
(4), 769-787 (Original publicado em 1912).
Kuhn, R. & Maldiney, H. (1971). Préface. Em L. Binswanger,
Recebido em 30.03.2011
Introduction à l’analyse existentielle [pp. 7-24]. Paris: Les
Aceito em 25.07.2011
Éditions de Minuit.
A r t i g o
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 172-184, jul-dez, 2011
184

A Clínica Psicológica Infantil em uma Perspectiva Existencial
a ClíniCa pSiColÓgiCa infantil em
uma peRSpeCtiva exiStenCial1
The children’s psychological clinic in an existential perspective
La clínica psicológica de niños en una perspectiva existencial
ana maria lopez Calvo de Feijoo
Resumo: Neste artigo, tentaremos responder aos questionamentos acerca da viabilidade de uma clínica psicológica com base na
filosofia da existência. Iniciamos assinalando aspectos que apontam para a possibilidade de uma clínica psicológica infantil em
uma perspectiva existencial. Para tanto, consideraremos que o que está em questão na criança, ou seja, seu caráter de indeter-
minação, de liberdade e de cuidado, em nada difere do adulto. E que os aspectos essenciais na postura do clínico são a atitude
fenomenológica e a preocupação libertadora. Desta forma, o psicólogo clínico, prescindindo de qualquer posicionamento teórico
e da respectiva categorização acerca do comportamento infantil, pode acercar-se do fenômeno tal como esse se apresenta.
Palavras-chave: Clínica infantil; Fenomenologia; Filosofia da existência; Heidegger.
Abstract: In this article we will try to show a child psychological clinic is possible under the existential perspective. So, for
this we will start by considering that what is at issue in the child, i.e. their character of indetermination, freedom and care dif-
fers nothing from adult. And that the essential aspects of posture are clinical phenomenological attitude and liberating con-
cern. Thus, the clinical psychologist - besides any theoretical position and categorization about child’s behavior - can get closer
to the phenomenon as it presents itself.
Keywords: Child clinics; Phenomenology; Philosophies of existence; Heidegger.
Resumen: En este artículo intentaremos mostrar elementos que hacen viable la clínica psicológica en una perspectiva existen-
cial. Por lo tanto, vamos a empezar por considerar lo que está presente en el niño, es decir, su carácter de indeterminación y
libertad que en nada difiere del adulto. Y que los aspectos esenciales de la postura clínica son la actitud fenomenológica y la
preocupación libertadora. Así, el psicólogo clínico, sin cualquier posicionamiento teórico y sin la categorización del comporta-
miento infantil, se acerca del fenómeno tan como éste se presenta a él.
Palabras clave: Clínica com niños; Fenomenología; Filosofías de la existencia; Heidegger.
introdução
de sua viabilidade. Importante aqui é trazer como esses
filósofos – mais especificamente Heidegger –, interpre-
Apresentar a clínica psicológica em uma perspectiva
tam temas tais como ser-aí, indeterminação, liberdade e
existencial consiste em uma tarefa desafiadora na medi-
responsabilidade. E, ainda, de que modo eles dialogam
da em que muitos estudiosos da psicologia consideram
polemicamente com as classificações diagnósticas muito
a relação da Filosofia com a Psicologia algo improvável.
próprias da modernidade.
Por esse motivo, consideramos que, muito mais do que
Para a realização de nossa tarefa, primeiramente, te-
convencer os nossos leitores da viabilidade desta rela-
remos que nos deslocar das teorias psicológicas tradi-
ção, devemos problematizá-la. Porém, como não só esta-
cionais acerca do desenvolvimento da personalidade e
beleceremos um diálogo entre a filosofia da existência e
da aprendizagem da criança, e nos reconduzirmos ao fe-
a Psicologia, mas também traremos à discussão a clínica
nômeno da experiência infantil tal como ela se mostra.
psicológica e a infância, consideramos que primeiramen-
Esse modo de reconduzir-se ao fenômeno denomina-se
te, teremos muito mais elementos a serem clarificados,
Fenomenologia.
para depois pensarmos na viabilidade da clínica psico-
Para exercitarmos uma outra visada sobre a experiên-
lógica existencial na primeira etapa da vida. A tarefa
cia em questão, traremos alguns esclarecimentos sobre
então, para ser executada, dependerá de seguir um per-
o modo como os filósofos da existência, por meio de um
curso até podermos dispor dos elementos necessários à
posicionamento fenomenológico, discutem e posicionam
problematização da proposta e a consequente discussão
o ser da criança. Os três filósofos da existência mais dis-
cutidos – Kierkegaard, Heidegger e Sartre – partem da
1 Trabalho apresentado ao II Congresso Sul Brasileiro de Fenomeno-
noção de que a existência acontece desde o início pelo
logia & II Congresso de Estudos Fenomenológicos do Paraná (2-4 de
junho de 2011), Universidade Federal do Paraná (UFPR).
seu caráter de indeterminação e negatividade, daí o fato
A r t i g o
185
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 185-192, jul-dez, 2011

Ana M. L. C. Feijoo
da liberdade, da angústia e do desespero serem consti-
o risco iminente de traduzir o pensamento filosófico em
tutivos do existir. E, já ao nascer, a indeterminação traz
termos de mais uma disciplina. E como tal, acabar por
em si essas outras condições. Logo, a criança – desde seu reduzir as reflexões filosóficas em um produto palpável,
nascimento – constitui-se, respectivamente como espírito
intercambiável e técnico. Mas, se não é isso, o que que-
(Kierkegaard), como ser-aí (Heidegger) ou como para-si
remos? Como fazer para que não aconteçam essas redu-
(Sartre). Ou ainda, em uma abertura, indeterminação e
ções? Devemos manter-nos, com muito esforço, no cam-
negatividade que estarão presentes em toda a sua existên-
po de questionamentos da clínica psicológica e não no
cia. É no decorrer de sua vida que a criança tomará para
das certezas. Assim, mantemo-nos em um espaço em que
si o seu modo de ser, em sua incompletude e sempre em
não importa o numérico, os resultados, as informações e
jogo com as determinações do mundo.
as teorias. Importa o deixar-se corresponder ao essencial
A partir da filosofia da existência, buscamos o que
em uma clínica infantil.
acontece frente à indeterminação e negatividade da exis-
Por fim, despenderemos de todo esforço para apre-
tência. Já que nada a princípio determina o homem, como
sentar os fundamentos da filosofia da existência, com
ele se constitui? Como ele se determina? Trata-se então
um maior detalhamento das considerações heideggeria-
de uma tabula rasa? Para desenvolver essas questões,
nas, tentando não recair em uma disciplina ou em uma
teremos que trazer à baila a discussão acerca do caráter
nova técnica que nos diga como devemos proceder para
de imanência da existência, da co-originalidade homem/
obtermos resultados efetivos e eficazes. Para tanto, ini-
mundo, de ter de ser em abertura, em que o existente
ciaremos apresentando aquilo o que caracteriza uma fi-
torna-se responsável por constituir-se no mundo, desse
losofia da existência.
ser que é responsável pela sua existência. Iniciaremos,
A filosofia da existência consiste em não partir de
para isto, com esclarecimentos sobre a noção de inten-
pressupostos de que a constituição do homem já está
cionalidade tal como introduzida e amplamente estuda-
apriori dada, seja pela constituição biológica, psíquica ou
da por Husserl e de seus desdobramentos em Heidegger
pelos condicionamentos ambientais. Nesses três pressu-
com a noção de ser-aí. Por fim, trataremos de que modo
postos, o homem, já ao nascer, apresenta-se passivo frente
acontecem na facticidade, os processos de atribuição de
a estas determinações. A filosofia existencial defende o
identidade, e de como tal procedimento acaba por resul-
caráter de indeterminação da existência, a partir do que
tar, em primeiro lugar, em escapar do caráter de negati-
esta se constitui. Logo, é no existir, em sua articulação
vidade e indeterminação.
homem/mundo que a existência acontece. Este modo de
Embora o homem tenda a escapar a sua negativida-
articular à existência humana é expressa na máxima de
de e indeterminação, buscando uma identidade, ao mes-
Sartre (1943/1997) de que “a existência precede a essên-
mo tempo tenta escapulir da identidade que o outro lhe cia”; afirmativa esta que, mesmo criticada por Heidegger
atribui – por um clamor de sua liberdade. Esses proces-
(1947/1987), não deixa de tornar clara a situação de inde-
sos identificatórios acabam por alicerçar as categori-
terminação da existência.
zações e os diagnósticos tão frequentes na atualidade.
Diagnósticos que muitas vezes aliviam a angústia frente
à indeterminação, mas retira do homem a responsabili-
o método fenomenológico e a investigação do Ser
dade pelos seus atos e escolhas. Por fim, além do mundo
da Criança
passar a justificá-los, também os tutela. Essa discussão
em Heidegger (1927/1989) vai dirigir-se ao modo que ele
Heidegger (1947/1987), ao tecer considerações acer-
interpreta a lida com os utensílios. Dado como esta se
ca do sentido da existência nos primeiros anos de vida,
dá por meio das determinações dos objetos, tendemos
assume uma atitude fenomenológica para discorrer so-
a nos compreender do mesmo modo que compreende-
bre o ser-aí da criança. Para tanto, vai suspender toda e
mos aquilo que manuseamos, logo também como se nos
qualquer pressuposição teórica - seja da Psicologia ou da
constituíssemos por meio de determinações e sentidos
Biologia - acerca do comportamento infantil. E assim po-
previamente dados.
der deixar que o sentido do fenômeno se dê no próprio
Após esclarecermos as questões acerca da constitui-
campo de mostração deste fenômeno. Husserl (1952/ 2007)
ção da existência, discutiremos a viabilidade de uma clí-
vai denominar este posicionamento referente àquilo que
nica psicológica existencial com crianças. Sabemos que
se mostra de atitude antinatural. Esta consiste em re-
Heidegger (1987/2001) apenas refere-se à clínica psicológi-
duções fenomenológicas, exercício que requer um esfor-
ca nos Seminários de Zollikon. Mas, por outro lado, sabe-
ço incessante para alcançar o fenômeno, deixando para
mos também que a tentativa de articular a Fenomenologia
trás todas as pressuposições sobre o mesmo. Ainda de
hermenêutica com a clínica psicológica data dos meados
Husserl, Heidegger manteve a tese de que a consciência
do século XX, com dois proeminentes psiquiatras: Ludwig
não pode ser tomada a partir de uma concepção de que
Binswanger e Medard Boss, que mesmo pouco estudados
esta se constitui como substância e de que se encontra
(principalmente, aqui no Brasil), jamais foram esqueci-
espacial e temporalmente determinada. Husserl confere à
A r t i g o
dos. A questão que se impõe consiste em perguntar sobre
consciência uma imanência, logo por seu caráter de inten-
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 185-192, jul-dez, 2011
186

A Clínica Psicológica Infantil em uma Perspectiva Existencial
cionalidade, encontra-se sempre ‘dirigida a’. .Heidegger
alma; esta apenas se torna inimaginável se ambos os
denomina então de Dasein (ser-aí) a este campo de ima-
elementos não se reunirem em um terceiro. O terceiro
nência onde a existência se dá.
é o espírito. No estado de inocência, o homem não é
A Psicologia dispõe de diferentes teorias do desenvol-
apenas um animal e, finalmente, e se alguma vez o
vimento infantil que muitas vezes servem de base para
fosse, em qualquer instante de sua existência, nunca
a compreensão do modo de ser da criança por meio dos
se tornaria homem. Assim o espírito já está presente,
critérios de normalidade e ajustamento, podendo-se assim
ainda que em um estado de imediatidade, de sonho.
prescrever os comportamentos inadequados, desajusta-
(Kierkegaard, 1842/2010, p. 47)
dos, enfim fora dos padrões estabelecidos pelo numéri-
co ou qualitativo. Assumir uma postura fenomenológi-
O pensador dinamarquês responde prontamente a per-
ca frente ao fenômeno consiste em suspender qualquer
gunta que ele mesmo colocou: “Qual é, portanto, a relação
posicionamento ontológico, seja da ciência ou do senso
do homem com a potência ambígua? Qual é a relação do
comum sobre as coisas, fenômenos. Sem qualquer posi-
espírito com ele mesmo e com sua condição? A relação
cionamento ontológico prévio acerca do comportamento é a angústia.” (ibid, p. 47) Para este filósofo, aquilo que
das crianças, é possível assim se aproximar daquele modo
confere humanidade ao homem é a presença do espírito,
que se mostra em sua expressão singular.
síntese do eterno e do temporal, do finito e infinito, dos
possíveis e do necessário, mesmo que de início esse se
encontre adormecido.
o Caráter de indeterminação da existência: Cuidado
Heidegger – na mesma linha de pensamento de
e liberdade
Kierkegaard – em Ser y tiempo (1927/1989) já afirma que
as estruturas existenciais não são estruturas ônticas, e
Cabe esclarecer que liberdade, na perspectiva exis-
nesse sentido elas podem ser encontradas em qualquer
tencial, diz respeito ao fato da indeterminação da exis-
experiência de mundo do ser-aí. Isto não diz respeito
tência, o que torna o homem responsável por aquilo que
apenas à caracterização do ser-aí europeu desenvolvi-
fizer de si. A indeterminação, a liberdade e a angústia
do, mas tanto ao que se refere ao ser-aí infantil, como
são temas presentes nos três grandes representantes da
ao ser-aí dos povos primitivos; o que estará em questão
filosofia, que se voltam para a existência, anteriormente
é o ser-aí humano. E a base do ser-aí humano é seu cará-
mencionados. Kierkegaard (1842/2010) refere-se à posição
ter essencialmente histórico. E, por mais que Heidegger
psicológica de liberdade como sendo a posição que o ho-
(1929/2008) afirme que as estruturas existenciais se mos-
mem se apresenta frente a sua indeterminação e respec-
tram mais claramente no homem primitivo ou no aborí-
tiva angústia. À tentativa de escapar da mobilização da
gine, por conta da simplicidade da vida desses homens,
angústia, Kierkegaard denomina de posição psicológica
as estruturas históricas existenciais estão presentes em
de não-liberdade, na qual o homem tenta a qualquer preço
seu caráter de aí em todos os homens, em todas as épo-
posicionar-se como se ele fosse determinado por algo que
cas, lugares ou fases de desenvolvimento de suas vidas.
transcende seu existir. Heidegger (1927/1989) denomina
E é a partir deste caráter que o ser-aí conquista o poder-
essa situação de cuidado, que consiste em tomar o ser-aí
ser que ele é.
como aquele que sempre tem de ser, e assim ele tem de
Sartre (2005/1939), em seu conto “A infância de um
assumir a tutela por sua existência. Sartre (1943/1997) diz
chefe”, deixa clara a sua defesa ao caráter de indetermi-
que estamos fadados à liberdade. Logo, a criança, ser-aí,
nação e liberdade presentes no percurso de vida do prota-
para-si que desde sempre é um existente, não prescinde
gonista do conto, Lucien Fleurier. O filósofo traz o modo
de seu caráter de indeterminação, liberdade e responsa-
como Lucien vai traçando a sua existência, do princípio
bilidade por sua existência e a tentativa de fugir dessa
ao fim. O marcante nesse trajeto é que sempre ele tem
condição é o que muitas vezes mobiliza a criança e seus
de escolher frente àquilo que o mundo lhe apresentava,
pais a buscarem psicoterapia.
mostrando que a determinação está ausente. A tarefa de
A liberdade e a responsabilidade na perspectiva exis-
Lucien consiste em determinar-se por si mesmo por meio
tencial dizem respeito ao caráter de indeterminação da
das referências da sua situação.
existência e ao fato de que qualquer que seja a etapa da
Agora vale ressaltar como acontece esse constituir-se,
vida, cada um tem de cuidar de sua existência. Os fi-
já que a criança ao nascer já se constitui na relação com o
lósofos da existência apontam para a indeterminação
mundo. Cabe perguntar como isto é possível, se a criança
como o caráter mais próprio do existir. Kierkegaard, em
nada sabe, nada conhece. Não haveria uma determina-
O conceito de angústia, esclarece a situação de indeter-
ção biológica, que a levaria a sobreviver, conduzindo-a
minação do homem como marca da existência humana.
a alimentar-se? Ou ela não sobreviria caso não tivesse a
A este respeito, diz:
presença de outros homens? Estas questões foram ampla-
mente debatidas na década de 50 e 60, quando o menino
O surgimento da angústia condensa o fulcro de toda
Victor, abandonado em uma selva, nos primeiros anos de
a questão. O ser humano é uma síntese de corpo e
vida, foi encontrado em Eveyron, na França. A partir de
A r t i g o
187
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 185-192, jul-dez, 2011

Ana M. L. C. Feijoo
então, todos os posicionamentos teóricos - sejam inatistas
Porém foi Husserl que trouxe o como poderíamos
ou empiristas - tentaram comprovar suas teses, por meio
utilizar um modo de alcançar o fenômeno em sua mo-
daquilo que no comportamento de Victor evidenciaria e
bilidade estrutural, na existência mesma. Dois aspectos
comprovaria as premissas das teorias racionalista e em-
desenvolvidos por Husserl em sua Fenomenologia foram
pirista. A primeira que os fundamentos do humano são
fundamentais para o desenrolar das filosofias da exis-
inatos e a segunda que são aprendidos.
tência – assim denominadas por retomarem o aspecto
As filosofias da existência surgem em uma tentati-
fáctico da existência humana. São eles: a noção de inten-
va de se deslocar das discussões epistemológicas, que se
cionalidade e a atitude antinatural. E é a partir dessas
interessam pela origem, pelas determinações iniciais.
duas concepções que tanto Heidegger quanto Sartre vão
Kierkegaard em La enfermidad mortal (1849/2008, p. 33),
proceder as suas ontologias.
ao tratar da constituição do eu, refere-se ao desespero:
Para Heidegger, pensar no ser-aí das crianças requer,
O homem é espírito, mas o que é o espírito? O espírito
primeiramente, esclarecer de que modo se dá este ente
é o eu. Mas o que é o eu? O eu é uma relação que se rela-
em seu primeiro momento de vida. Em uma interpreta-
ciona consigo mesmo. Dito de outra maneira: é o que na
ção existencial, partimos da noção de que, desde o iní-
relação faz com que a relação se relacione consigo mes-
cio, a criança, ser-aí, é um ente que tem o caráter de in-
ma. O eu não é a relação, mas o fato de que a relação se
determinado, exposto, jogado, lançado para fora dele. Ao
relaciona consigo mesma. O homem é uma síntese de in-
tomar a existência como se constituindo pela indetermi-
finitude e finitude, de temporal e de eterno, de liberdade
nação, deslocamo-nos de qualquer tentativa de posicio-
e necessidade, em uma palavra, é uma síntese.2
nar o homem a partir de determinações biológicas ou so-
Kierkegaard nesse trecho deixa claro que é na relação
ciais para aproximarmo-nos assim da existência mesma.
que a existência se constitui, daí o fato da liberdade e da
Com isto, a ênfase acontece na intencionalidade, espaço
responsabilidade que cada um carrega com relação a sua onde a existência acontece. Logo, já que a existência se
existência. A relevância e importância dada ao existir em
constitui nesse espaço, a que Husserl denominou inten-
detrimento a qualquer posicionamento apriorístico sobre
cionalidade, nada aprioristicamente pode ser considera-
a constituição do homem são, marcadamente, explicita-
do como constituindo o homem que não seja ele mesmo
das por Kierkegaard, a quem devemos a retomada do as-
na esfera do existir.
pecto sensível da existência humana, a que denominou
com estádio estético, também marcante da experiência
infantil.; tanto que no seu texto A rotação dos cultivos,
a desconstrução das teorias identificatórias
que conta da obra O lo uno o lo otro (1842/2006), referin-
do-se a tal experiência, recomenda – do lugar do conse-
Para referir-se ao modo identificatório em que o ho-
lheiro esteta – que quem procura uma babá nunca deve
mem moderno tenta se posicionar, Kierkegaard utiliza-se
contratá-la pelas suas características éticas. Explica-se:
da denominação de estádio, estádio em que a existência é
a moça vai ser muito fiel aos horários e ao cumprimen-
tomada de acordo com um processo normativo. Heidegger,
to do estabelecido, porém vai entediar a criança. A boa
em Ser y tiempo, diz que, no início e na maioria das vezes,
babá, diz através do pseudônimo esteta, é aquela que, en-
o ser-aí se toma como coisa e assim se compreende. Isso
tregue ao caráter sensível da brincadeira, sabe distrair a
acontece porque se considera do mesmo modo em que
criança, de modo que, quando esta se encontrar tomada
se dá a sua lida com os objetos a sua volta, na ocupação.
pelo tédio na intranquilidade que lhe é própria, possa
Ao tomar-se com um ente presente à vista, logo com de-
distrair-se com as brincadeiras da babá e, assim, rapida-
terminações e identificações dadas em si mesmo, acaba
mente possa se afastar do entediar-se próprio à repetição
por esquecer seu caráter de poder-ser e acredita que, do
do existir. Essa situação de fuga do tédio e da repetição
mesmo modo que os objetos, ele possui características e
vai estar presente, segundo o filósofo dinamarquês du-
funções previamente determinadas. No entanto, o ser-aí
rante todas as etapas da existência humana.
não se deixa aprisionar, apresentando sempre duas possi-
As considerações de Kierkegaard sobre a existência,
bilidades – a de clarificação e a de obscurecimento de seu
embora pautadas em observações atentas e ricas em de-
ser. E Sartre (1943/1997) refere-se ao modo como o homem
talhes, davam-se por meio de um gesto fenomenológico,
busca uma identidade e ao mesmo tempo a considera o
ou seja, não considerando as teorias e os sistemas que
seu inferno, já que é o fato do olhar do outro que o torna
tentavam, já em sua época, elaborar sistematicamente o
um em-si. Esse filósofo relata com riqueza de detalhes o
acontecimento da vida. Kierkegaard tentava acompanhar
percurso de Lucien Fleurier em sua existência, no conto
as experiências e descrevê-las a partir do modo como ele
A infância de um chefe (1939/2005). Lucien, logo de iní-
as apreendia. Dizia que o caráter universal das experiên-
cio, ao confundirem-no com uma menina, questiona-se:
cias humanas poderia ser encontrado em suas expressões
“Serei uma menina ou um menino?”. Este, entre outros
singulares (1959/1966).
trechos, deixa claro como a criança se define a partir do
mundo. No final, já homem, Lucien diz precisar de um
A r t i g o
bigode para parecer um chefe. E pelo caráter do indeter-
2 Tradução livre da autora.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 185-192, jul-dez, 2011
188

A Clínica Psicológica Infantil em uma Perspectiva Existencial
minado da existência e a tentativa de sair da situação da
consistirá em suspender qualquer interpretação acerca
indeterminação é que as categorizações se enraizam em
do que está acontecendo com a criança trazida ao con-
todas as especialidades, sejam médicas ou psicológicas. É
sultório. Assim, poder-se-á acompanhar o fenômeno no
preciso cuidado para não nos deixarmos conduzir por tais
seu modo de revelar-se, ou seja, na sua própria mobili-
rótulos, que obscurecem a visada daquilo que se mostra.
dade estrutural.
Aliás, a clínica existencial vai logo de início retirar de seu
Em uma atitude natural, acredita-se que a criança
campo de visão todos os rótulos, diagnósticos e categori-
deva ficar sempre na tutela do adulto, e que a este com-
zações que provêm tanto das disciplinas científicas como
pete toda a responsabilidade pelas escolhas da criança.
do senso comum, numa postura frente ao fenômeno que
Desta forma, nós estamos correspondendo ao horizonte
Husserl denominou de atitude antinatural.
histórico em que nos encontramos, o qual interpreta o
Em síntese, a clínica psicológica infantil com funda-
primeiro momento de vida como uma situação natural-
mentos existenciais requer primeiramente uma postura
mente frágil, não cabendo à criança nenhum compromis-
fenomenológica, suspendendo todos os posicionamen-
so com sua existência, desonerando-a de sua responsa-
tos teóricos – seja da psicologia do desenvolvimento, da
bilidade, transferida aos pais ou aos adultos próximos a
personalidade, da aprendizagem ou qualquer outro. Em
ela. Os adultos, de um modo geral, também neste mes-
segundo lugar, cabe dizer que liberdade e responsabi-
mo horizonte, tendem a assumir a tutela, sem nem mes-
lidade na perspectiva existencial dizem respeito ao ca-
mo refletirem acerca do modo como se relacionam com
ráter de indeterminação da existência e ao fato de que,
a criança. E ainda, temendo que a criança fique sozinha,
qualquer que seja a etapa da vida, cada um tem de cui-
tentam, a qualquer preço, distraí-la, por variados e dife-
dar de sua existência. Tomar a existência como se cons-
rentes modos. E por não conseguirem sustentar a criança
tituindo pela indeterminação, consiste em deslocar-se
no seu silêncio, acabam assumindo para si mesmos todo
de qualquer tentativa de posicionar o homem, no caso, a
o cuidado e tutela, deixando assim que a criança acabe
criança, a partir de determinações biológicas ou sociais.
por acreditar que não cabe a ela mesma a responsabili-
E, por fim, para pensar em uma clínica fenomenológico-
dade por sua existência. E o medo da solidão e a não res-
existencial infantil, é preciso partir da ideia de que desde
ponsabilidade por sua existência acaba acompanhando-a
o início a criança é este ente que, por se constituir pela
não só na primeira etapa da vida, mas em todas as suas
indeterminação, exposto, jogado, lançado para fora dele,
etapas. É isso que Kierkegaard vai considerar as sequelas
livre de determinações, é marcada pelo caráter de poder
da existência e Sartre vai denominar de má-fé.
ser e ter de ser.
Adotar uma atitude fenomenológica na clínica psico-
lógica implica em não fazer ou pensar o que naturalmen-
te se faz ou se pensa. Junto à criança, o profissional não
a Clínica psicológica com Crianças
assumirá no lugar dela o seu cuidado, ou seja, a respon-
sabilidade pelo seu existir. E assim, desprovido de um
Como anteriormente explicado, a atitude fenomenoló-
modo de pensar como naturalmente se pensa, o psicó-
gica consiste em abandonar todas as teorias e técnicas em
logo pode questionar o que naturalmente se toma como
Psicologia, que determinam caminhos e procedimentos.
verdade pronta e acabada. Nisso consiste o seu ofício. E,
Duas situações deixam evidente a importância de assu-
ao assumir um posicionamento fenomenológico, o clíni-
mirmos tal postura. A primeira situação consiste em ver
co estará sempre presente e, ao mesmo tempo, deixando
a criança a partir dos diagnósticos previamente dados.
parecer à criança que ele está ausente. Desta forma, per-
Aproximar-se fenomenologicamente da situação consiste
mite que a criança, entregue a si mesma, o mais demora-
em reconduzir aquilo que é apresentado, de forma a não
damente possível, possa ter uma experiência de perma-
se deixar conduzir pelo que previamente já foi posiciona-
necer consigo mesma e, assim, desvele-se no seu caráter
do. A segunda seria partir do princípio de que a criança
de ter de cuidar de si e poder-ser. A postura antinatural
não pode jamais assumir a responsabilidade pelas suas
consiste em poder dar um passo atrás, deixando a criança,
ações e situações. Já a postura antinatural, na clínica,
no momento clínico, na tutela por si mesma. Ao recuar,
consistiria em acompanhar a criança, porém, deixando
pode-se acompanhar as determinações oriundas do seu
que ela mesma tutele as suas decisões e escolhas.
comportamento, a partir da sua própria tutela. Heidegger
Assim, a primeira situação consiste quando a criança
(1927/1989) denomina esse modo de acompanhar o outro
chega ao consultório, portando todos os rótulos e deter-
de preocupação por anteposição ou libertadora.
minações de seus problemas que, normalmente, a esco-
Para esclarecer o que foi dito até aqui e exemplificar a
la e os pais, dentre outros, já atribuíram, como diagnós-
postura fenomenológica em uma situação de atendimento
tico e as interpretações do que vem acontecendo. Com
clínico infantil, apresentaremos fragmentos de um caso
esta configuração previamente determinada, o fenômeno
clínico. Neste caso, a atenção volta-se para a criança em
propriamente dito desaparece, dando lugar a uma con-
seu modo próprio de comportar-se, deixando-a que ela
figuração do real previamente dada, com determinações
se mostre por si mesma. E, ao mesmo tempo, confiar no
também já dadas. Uma atitude fenomenológica na clínica
caráter de indeterminação do seu ser que lhe confere a
A r t i g o
189
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 185-192, jul-dez, 2011

Ana M. L. C. Feijoo
libertação de todos os diagnósticos estabelecidos, seja
trata de uma cleptomania. Assim os comportamentos do
pela Psiquiatria, pela Psicologia ou pelo senso comum. menino se transformam em sintomas. E o conjunto des-
E nisso consistem a liberdade e responsabilidade desta
ses sintomas são o suficiente para deduzir que se trata de
criança. Mantê-la em liberdade, entregando-a a sua pró-
uma compulsão. A criança e seus comportamentos de-
pria tutela, ou seja, à sua responsabilidade, é a própria
saparecem, dando lugar a uma categoria de diagnóstico,
relação psicoterápica. Deixá-la caminhar por si mesma,
que fala por si mesmo.
sem tentar desonerá-la desta tarefa de diferentes modos,
Outra atitude natural foi assumida pela mãe, ao in-
é o caminho no qual a criança perde a tutela do adulto, terpretar a ação da criança como uma tentativa de cha-
mas pode ganhar a si mesma, ao assumir o seu cuidado
mar a atenção. Aqui não é mais a voz da ciência que dá
por si próprio, a sua tutela. O adulto, ao mesmo tempo,
o veredicto, mas a do senso comum. Deste modo, o furto
sem preocupar-se ao modo substitutivo, tem sob os olhos
teria sido motivado por algo que se encontrava por trás
o que está acontecendo.
do ato, no caso, “chamar a atenção”. Segundo esta visão,
No caso apresentado a seguir, os dados foram trocados
não caberia mais a Antônio o compromisso com sua ação,
a fim de garantir o sigilo da criança atendida. Antônio
estava totalmente justificado. Já o pai caracteriza a situ-
tinha sete anos quando sua mãe procurou acompanha-
ação como ilícita. Assim, uma vez identificado por uma
mento psicológico para ele. A primeira entrevista foi com
classificação psiquiátrica, pelo senso comum ou pela con-
ambos os pais por ser importante que os dois trouxessem
travenção, não era mais Antônio que pegava as coisas dos
a questão de Antônio e o modo como vinham lidando com
outros e sim aquilo com que o passaram a identificar.
aquilo que se apresentava. Além disto, os dois deveriam
A postura fenomenológica implica em deslocar-se das
estar de acordo com o acompanhamento psicológico, com-
interpretações comumente atribuídas, assumindo uma
prometendo-se a comparecer quando solicitados.
atitude antinatural com relação à questão que se apre-
Os pais de Antonio procuram psicoterapia, por in-
senta, ou seja, tomando o modo de ser da criança em sua
dicação de um psiquiatra, preocupados com o fato de
expressão singular. Na postura antinatural, o psicólogo
a criança estar “pegando coisas dos outros”. O médico
clínico suspende o “diagnóstico” dado pela mãe e pelo
dissera que se tratava de uma cleptomania. A mãe co-
médico. Ao voltar-se para o fenômeno em sua mobilidade
locara em dúvida o diagnóstico médico, acrescentando
estrutural, importa o sentido que Antônio dá a sua expe-
que Antônio só queria chamar a atenção dos pais. Tenta,
riência. A visada sobre o fenômeno que se apresenta não
assim, justificar o comportamento do filho usando uma
se dá a partir de nenhum pressuposto em tese acerca do
determinação psíquica. Ela mostra-se bastante aflita com
que possa ser uma “compulsão a furtar coisas” e a aten-
a situação e inicia: “Antônio vem pegando coisas dos ou-
ção clínica volta-se para a criança em seu modo próprio
tros. (chora). Isto me preocupa muito, porém acho que ele
de comportar-se. Permite-se que a criança se mostre por
está querendo chamar a atenção, estamos precisando fi-
si mesma, deixando–a livre para si mesma, para assim
car mais próximos dele, sempre muito preocupados com
poder assumir a sua liberdade e responsabilidade.
o trabalho e outras coisas e acho que Antônio vai ficando
Em uma clínica fenomenológica, a criança será rece-
meio esquecido. Por isso, vim aqui te pedir ajuda, todos nós
bida a partir daquilo que vai acontecer na relação, neste
precisamos ser ajudados, as coisas andam meio confusas.”
momento estabelecida. Para tanto, vai-se suspender todo
Ao dizer que o menino só queria chamar a atenção dos
e qualquer pressuposto que anteriormente se fez presen-
pais, retira-lhe a responsabilidade de seu ato e coloca-o
te, inclusive no relato dos pais. Para exemplificar este
na tutela do psíquico. O pai também dá uma interpreta-
modo de proceder clinicamente, apresentaremos um tre-
ção a partir de sua experiência e em uma atmosfera afe-
cho desse atendimento:
tiva de irritabilidade com a situação: “Eu só quero saber
Antônio: Eu queria contar um problema. Pedro vai ter
porque Antônio está me agredindo. João (o irmão) é total-
a festa de aniversário dele, só que vai ser na casa dele.
mente diferente, um garoto exemplar, faz tudo como deve
Eu não tenho vontade de ir, sabe? Eu não quero ir à festa,
ser feito (. .) Eu digo sempre para Antônio: ‘João, o irmão,
tem muita gente que rouba e também tem um pequeno
é um exemplo a ser seguido’. Agora, se ele insistir em me
probleminha: acusam a pessoa de uma coisa que ela não
provocar, se não mudar, se continuar a ter atos ilícitos, eu
fez. Alex rouba as coisas dos outros. Eu desconfio também
não vou mais querer saber dele. Se continuar me agredin-
da Flávia, ela também pega as coisas dos outros. Mas não
do, eu vou esquecer que ele existe.” O pai deixa claro que,
é só isso não, tem outro problema: meu pai vai sair com
caso o menino não modifique a situação, ele suspenderá
João, e eu também quero ficar com meu pai, sair com os
a sua tutela, pois não aceita um ato ilícito.
dois. Psicóloga: Então você tem dois motivos para não
Apenas com esse breve trecho, podemos refletir sobre
querer ir à festa.
como se dá uma atitude fenomenológica frente à questão
Antônio: Tem outro, tenho medo de não controlar.
apresentada pelo médico e pelos pais. O médico, em uma
Psicóloga: Tem medo de não controlar o quê?
“atitude natural”, tende a classificar o comportamento da
Antônio: A vontade. (silêncio)
criança pelas características que constam nos manuais
Psicóloga: Vontade de que, Antônio?
A r t i g o
de Psicopatologia e conclui, a partir dos sintomas, que se
Antônio: De pegar as coisas dos outros. Eu não quero
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 185-192, jul-dez, 2011
190

A Clínica Psicológica Infantil em uma Perspectiva Existencial
pegar, mas eu olho a coisa e me dá muita vontade, vontade
rece ser o caminho pelo qual a criança perde a tutela do
mesmo. Também tenho medo que Flávia coloque coisas na
adulto, mas ganha a si mesma. Deixá-la sozinha, consi-
minha bolsa e depois me culpe. Ela já fez isso, guardou no
go mesma, nesta abordagem, é uma arte que consiste em
meu estojo o lápis de Bruna. Bruna sentiu a falta do lápis,
estar sempre presente, sem mostrar a criança que se está
aí eu coloquei o lápis na mesa de Bruna, só que ela me viu
ali. E assim permitir que a criança por si própria possa
colocando o lápis e eu me defendi, disse que tinha sido a
aproximar-se, entregue a si mesma o mais demoradamen-
Flávia que tinha colocado no meu estojo, só que ninguém
te possível, de uma experiência de si mesma.
acreditou, ficou todo mundo olhando para mim.
Antônio fica calado, parecendo triste, abaixa a ca-
Considerações finais
beça, põe a mão no rosto, parecia estar chorando.
Repentinamente, levantou a cabeça e fitou-me por um
Com o desenvolvimento da temática acerca da clíni-
longo tempo). Na tentativa de mobilizá-lo e tentar com-
ca psicológica em uma perspectiva existencial, pudemos
preender o que estava acontecendo, falei:
afiançar que a filosofia da existência traz aspectos for-
mais que criam um espaço de articulação de uma práxis
Psicóloga: Parece que essa situação te deixa muito
clínica por diferentes motivos. O primeiro deles é que as
triste.
filosofias da existência retomam o que as filosofias mo-
Antônio: E vou ficar muito sozinho.
dernas haviam abandonado, ou seja, a existência mes-
Psicóloga: E como é ficar sozinho para você?
ma tal como acontece em seu campo de imanência. Esse
Antonio: (permanece em silêncio) Não ter ninguém
projeto de voltar-se à imanência foi ineditamente apre-
por perto, nunca vivi isto, tenho medo, ficar sozinho no
sentado por Husserl. Esse filósofo deslocou-se da noção
recreio.
de consciência como algo encapsulado, que se encontra
localizado em uma interioridade e com sentidos e deter-
Assumindo uma atitude fenomenológica, a psicóloga
minações dados em si mesmo, tomando, então a consci-
não interveio, nem se colocou como alguém que, desde
ência como algo que acontece em um espaço relacional,
o início, já sabia qual era o problema. Caso partisse de
logo imanente. Ele refere-se então à intencionalidade, que
diagnósticos ou de teorias acerca do “problema”, criaria
passou a ser o elemento fundamental, mesmo que com di-
obstáculos à apresentação do fenômeno. Na situação de
ferentes acepções das filosofias da existência. Heidegger
Antônio seria, por exemplo, destinar-lhe uma identidade
e Sartre deram continuidade ao projeto de retomada da
de cleptomaníaco e insistir para que ele falasse no tema,
existência, cada um a seu modo, mas preocupados com
buscando rapidamente o que determinava esse compor-
a facticidade onde o existir acontece. Esse mesmo movi-
tamento. Assim, entregue a si mesmo, pode ver as conse-
mento foi acompanhado pela Psicologia que, primeira-
quências do modo como vinha se comportando, só a ele
mente, seguindo o projeto moderno, tomou o psíquico em
cabendo a decisão do que iria ou não fazer.
todas as suas denominações como algo da ordem de uma
Partir do diagnóstico que lhe havia sido previamen-
interioridade que se relaciona com o exterior. Ao surgir
te conferido, seria dar-lhe uma identidade que, além de
uma Psicologia Fenomenológica, a pretensão também é
retirar-lhe o seu caráter de poder ser, também o desone-
de pensar o psíquico como algo imanente, co-originário
raria de sua escolha. Assim, todo o seu modo de ser seria
ao mundo e, portanto, não passível de ser determinado,
justificado por tal identidade, não cabendo a ele a sua tu-
nem localizado em uma interioridade.
tela. Retirar o caráter de poder ser de sua existência, por
Pensar a Psicologia a partir das filosofias da existên-
um procedimento identitário, constitui-se em um cami-
cia consiste em assumir o caráter de indeterminação que
nho de acesso fácil, porém pode acabar por sedimentar
não pressupõe mais uma essência, seja ela qual for, que
um determinado modo de ser. Esse processo é discutido
precede a existência. Consiste, ainda, em aceitar a árdua
com muita pertinência em Sartre (2001) ao referir-se a
tarefa de não ter como prever, nem garantir nenhum re-
todo percurso do personagem Lucien Fleurier até tornar-
sultado, dado o caráter de abertura e consequente liber-
se um chefe, tal como já havia sido decidido pelos seus
dade em que a existência sempre se encontra.
pais, muito antes dele nascer.
Articular uma proposta de clínica infantil com base
A atenção fenomenológica consiste em abandonar
na filosofia existencial torna-se possível ao tomar a crian-
toda e qualquer identidade estabelecida para a criança,
ça na mesma perspectiva em que se toma o adulto. Trata-
seja com relação a um diagnóstico, expectativa familiar
se de pensar a existência em sua imanência, qualquer
ou social, entre outros modos. Em uma postura fenome-
que seja a etapa de vida em que nos encontramos. Logo,
nológica, cabe então ao psicólogo deixar a criança em li-
importa é que, aquele que tenta evitar a sua condição de
berdade e entregá-la a sua própria tutela, ou seja, à sua liberdade, abertura e indeterminação, possa assumir-se
responsabilidade. Trata-se, sem dúvida, de uma tarefa de-
como um ser de possibilidades, logo, em liberdade para
licada. No entanto, deixá-la caminhar por si mesma sem
dizer sim e não às determinações inseridas no horizonte
tentar desonerá-la desta tarefa, de diferentes modos, pa-
histórico em que se encontra.
A r t i g o
191
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 185-192, jul-dez, 2011

Ana M. L. C. Feijoo
Referências
Kierkegaard, S. (1959/1966). Ponto de vista explicativo da mi-
nha obra como escritor. Porto: Edições 70.
Heidegger. M. (1929/2008). Introdução à filosofia. São Paulo:
Martins Fontes.
Kierkegaard, S. (1842/2006) O lo uno o lo otro: un fragmento de
vida. Madri: Editorial Trotta, v. 1.
Heidegger. M. (1927/1989). Ser y tiempo. Madrid: Editorial
Gredos.
Sartre. J.P. (1939/2005). A infância de um chefe. In: O muro.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira
Heidegger. M. (1987/2001). Seminários de Zollikon. Petrópolis,
RJ: Vozes.
Sartre. J.P. (1943/1997). O ser e o nada. Petrópolis: Vozes.
Heidegger. M. (1947/1987). Carta sobre o humanismo. Lisboa:
Guimarães editores.
Ana Maria lopez Calvo de Feijoo - Doutora em Psicologia, Professor-
Heidegger. M. (1929/2006). Os conceitos fundamentais da me-
Adjunto da Graduação e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia
tafísica: mundo, finitude e solidão. Rio de Janeiro: Forense
Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Endereço
Universitária.
Institucional: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Departamento
de Psicologia Clínica, Instituto de Psicologia. Rua São Francisco
Husserl, E.(1952/ 2007). La filosofia como ciencia restricta. La
Xavier, 524 (Maracanã). CEP 20550.013. Rio de Janeiro/RJ. E-mail:
Plata: Terramar.
ana.maria.feijoo@gmail.com.br
Kierkegaard, S. (1842/2010). O conceito de angústia. Petrópolis:
Vozes; São Paulo: Editora Universitária São Francisco.
Recebido em 15.03.11
Kierkegaard, S. (1849/2008). La enfermidad mortal. Madri:
Aceito em 22.09.11
Editorial Trotta.
A r t i g o
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 185-192, jul-dez, 2011
192

A (Pouco Conhecida) Contribuição de Brentano para as Psicoterapias Humanistas
a (pouCo ConHeCida) ContRiBuição de BRentano
paRa aS pSiCoteRapiaS HumaniStaS1
The (Little Known) Contribution of Brentano for Humanistic Psychotherapies
La (Poco Sabida) Contribución de Brentano para las Psicoterapias Humanistas
georges daniel janja BloC Boris
Resumo: Este texto se propõe a discutir, entre aqueles vinculados à fenomenologia, o estranho fato de que, ao contrário do que
ocorre em relação a Husserl, Heidegger, Sartre ou Merleau-Ponty, poucos parecem reconhecer a importante contribuição de Franz
Brentano para as psicoterapias humanistas. Embora não fosse psicólogo, Brentano se dedicou à Psicologia e, como precursor da
fenomenologia, foi um desbravador de questões fundamentais que, atualmente, perpassam as bases epistemológicas e filosóficas
das abordagens fenomenológicas e humanistas em psicoterapia. Assim, o texto aborda sua teoria da intencionalidade, a Psicolo-
gia do Ato e a Filosofia do Presente como contribuições significativas à prática das psicoterapias humanistas.
Palavras-chave: Fenomenologia; Brentano; Psicoterapias humanistas; Psicologia.
Abstract: This text is proposed to discuss, between those who are linked to phenomenology, the strange fact of that, in contrast
of what happens to Husserl, Heidegger, Sartre or Merleau-Ponty, few of them seem to recognize the important contribution of
Franz Brentano for humanistic psychotherapies. Although he was not a psychologist, Brentano was dedicated to psychology
and, as a precursor of phenomenology, he was a pioneer of fundamental questions that, currently, cross the epistemological and
philosophical bases of phenomenological and humanistic approaches in psychotherapy. Thus, the text discusses his theory of
intentionality, the Act-Psychology and the Philosophy of the Present as meaningful contributions to the practice of humanis-
tic psychotherapies.
Keywords: Phenomenology; Brentano; Humanistic psychotherapies; Psychology.
Resumen: Este texto se propone a discutir, entre los que se vinculan à la fenomenología, el hecho extraño de que, al contrario
de lo que sucede en relación a Husserl, Heidegger, Sartre y Merleau-Ponty, pocos parecen reconocer la contribución importan-
te de Franz Brentano para las psicoterapias humanistas. Aunque él no era psicólogo, Brentano estuvo dedicado a la psicología
y, como precursor de la fenomenología, era un pionero de cuestiones fundamentales que, actualmente, cruzan las bases epis-
temológicas y filosóficas de los enfoques fenomenológicos y humanistas en la psicoterapia. Así, el texto discute su teoría de la
intencionalidad, la Psicología del Acto y la Filosofía del Presente como contribuciones significativas a la práctica de las psico-
terapias humanistas.
Palabras-clave: Fenomenología; Brentano; Psicoterapias humanistas; Psicología.
Os objetivos dos esforços que acabamos de descrever
essência de toda investigação científica. (. .) As aná-
não são nem os últimos, nem os supremos objetivos
lises que seguem mostrarão que mesmo um trabalho
de uma elucidação fenomenológica do conhecimen-
epistemológico tão modesto terá que superar ainda
to em geral. Por mais extensas que sejam as nossas
uma enorme quantidade de dificuldades, ou melhor,
análises, o domínio extraordinariamente frutífero do
terá ainda quase tudo a fazer.
pensar e do conhecer mediatos permaneceu quase
Husserl, em Investigações Lógicas (1900-1901/1980)
completamente não elaborado; a essência da evidên-
cia mediata e de seus correlatos ideais continua sem
uma elucidação suficiente. Ainda assim, acreditamos
introdução
que as nossas pretensões não foram insignificantes, e
esperamos ter desnudado os mais básicos e, por sua
Franz Clemens Honoratus Hermann Brentano era
própria natureza, primeiros fundamentos da crítica do
alemão e lecionou em Würzburg e na Universidade de
conhecimento. É preciso fazer uso, também na crítica
Viena. Em 1864, foi ordenado padre, mas questionou a
do conhecimento, daquela modéstia que pertence à
doutrina da infalibilidade papal, abandonando a Igreja
em 1873. Sua Filosofia era nitidamente empírica em seu
1 Trabalho apresentado ao II Congresso Sul Brasileiro de Fenomeno-
método. Os trabalhos mais importantes de Brentano estão
logia & II Congresso de Estudos Fenomenológicos do Paraná, de 2 a
4 de junho de 2011, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em
voltados ao campo da Psicologia, por ele definida como
Curitiba.
ciência dos fenômenos psíquicos ou da consciência. Os
A r t i g o
193
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 193-197, jul-dez, 2011

Georges D. J. B. Boris
objetos de seus estudos não foram, porém, os estados,
consciência, o que, então, viria a se tornar um dos pa-
mas os atos e processos psíquicos. Segundo ele, o fenô-
drões básicos para toda análise fenomenológica a partir
meno psíquico se distingue dos demais por se referirem
da Psicologia do Ato de Brentano (Spiegelberg, 1963). O
sempre a um objeto, bem como a um conteúdo de cons-
conceito de intencionalidade é, na verdade, um problema
ciência, por meio de mecanismos puramente mentais. À
entre Brentano e a fenomenologia. De fato, ele, posterior-
Psicologia, caberia, então, investigar os diversos modos
mente, desistiu do termo “intencional” porque acreditava
pelos quais a consciência institui suas relações com os
que a sua opinião tinha sido mal interpretada. Portanto,
objetos nela existentes, descrevendo a natureza de sua
Brentano não usa a expressão “intencionalidade”, mas
relação, bem como o modo de existência de tais objetos.
“in-existência intencional” para distinguir os fenômenos
Seu trabalho mais importante publicado em vida foi A
psíquicos dos fenômenos físicos. A cor vermelha é um fe-
Psicologia Segundo o Ponto de Vista Empírico, de 1874.
nômeno físico, mas, ao se relacionar com a consciência,
Foi o mestre de Edmund Husserl, sendo um dos precur-
torna-se um fenômeno psíquico (Münch, 1997).
sores da fenomenologia. Ele é mais conhecido por rein-
troduzir o conceito escolástico da intencionalidade na
Filosofia e proclamá-la como a marca característica dos
2. a Psicologia do Ato de Brentano
fenômenos psíquicos. Seus ensinamentos, especialmen-
te sua Psicologia descritiva, influenciaram o movimento
Brentano criou um sistema filosófico que era uma sín-
fenomenológico no século XX. O significado das contri-
tese do aristotelismo, do cartesianismo e do empirismo
buições de Brentano para a Filosofia e a Psicologia con-
inglês. Este sistema foi modificado de diferentes formas,
temporâneas é ainda estranhamente subestimado. A fe-
muitas vezes altamente originais, por seus discípulos,
nomenologia seria inconcebível sem ele. Ele foi o mestre
entre os quais, um dos mais importantes foi Edmund
de Husserl, influenciando, também, Scheler e Heidegger.
Husserl. Em contraposição a Hegel e seus companheiros
Seu método tem uma notável semelhança, em muitos as-
idealistas, a Escola de Brentano foi muito bem sucedida
pectos, com os procedimentos do empirismo dos dias de
em associar a sua obra filosófica aos modernos desenvol-
hoje (Crisholm & Simons, 1998).
vimentos no campo das ciências, sobretudo na Psicologia
e na Lingüística. Os alunos de Brentano foram respon-
sáveis pela fundação não apenas de novos movimentos
1. a teoria da intencionalidade
filosóficos, como a fenomenologia, mas, também, novas
perspectivas de investigação científica, tais como as teo-
A primeira preocupação de Brentano no campo da
rias da Gestalt (Smith & Burkhardt, 1991). Como filósofo,
Psicologia era encontrar uma característica que separas-
Brentano discordou das teses do empirismo clássico, do
se os fenômenos psicológicos dos físicos. Foi a partir de
racionalismo e do criticismo kantiano; como psicólogo,
tal tentativa que ele desenvolveu sua doutrina célebre da
rejeitou a tese associacionista do conteúdo da consciência
intencionalidade como componente determinante dos fe-
como algo permanentemente real, assim como as idéias
nômenos psicológicos. O termo “intencionalidade” é de
de Wundt sobre a consciência como um epifenômeno,
crucial importância: todo fenômeno psíquico é carac-
reduzido aos seus aspectos fisiológicos. Neste sentido,
terizado por aquilo que os escolásticos da Idade Média
Brentano denominou sua perspectiva de Psicologia do
chamavam de in-existência (ou existência em, dentro de)
Ato, argumentando que os fenômenos psíquicos consti-
intencional de um objeto na consciência, ou o que pode-
tuem atividades, não conteúdos. Seu método era empíri-
ríamos chamar de referência (Beziehung) a um conteú-
co, mas não experimental, como propunha o empirismo
do, ou, ainda, de direcionamento (Richtung) a um objeto.
clássico inglês. Afirmava que a Psicologia, à semelhan-
Aqui, “in-existência intencional” significa, literalmente,
ça das ciências da natureza, devia partir da percepção
a existência de uma ‘intentio’ dentro do que pretende ser,
e da experiência, sendo a percepção interna seu princi-
como se encaixado nele. Ou seja, referência a um objeto
pal recurso metodológico. As idéias de Brentano exerce-
é, portanto, a característica decisiva e indispensável do
ram forte influência nas Filosofias fenomenológicas de
psíquico: na representação (Vorstellung), algo é represen-
Husserl, de Scheler e de Heidegger. Embora questionas-
tado; no julgamento, algo é confirmado ou rejeitado; no
se os determinismos biológico e psicológico, não retor-
desejo, desejamos algo ou alguém etc. Tal “in-existência
nou à Psicologia como estudo da alma nem à Filosofia
intencional” é peculiar somente aos fenômenos psíqui-
especulativa. Negava a possibilidade de levar o psiquis-
cos. Os fenômenos físicos não apresentam nada parecido,
mo ao laboratório, mas propunha que ele fosse abordado
sendo caracterizados, por outro lado, como a falta de tal
de forma empírica, não experimental, abandonando a
referência. Portanto, podemos definir os fenômenos psí-
introspecção como método, já que ela implicava em ob-
quicos como aqueles que contêm objetos em si mesmos.
servação interna, pois aos fenômenos psíquicos cabia a
Também deve ficar claro que os fenômenos psicológicos
percepção interna. Tal proposta está claramente descri-
de Brentano são sempre atos ou processos, pois envolvem
ta em seu livro A Psicologia do Ponto de Vista Empírico
A r t i g o
as experiências dos sujeitos, bem como seus estados de
(Brentano, 1874/1973):
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 193-197, jul-dez, 2011
194

A (Pouco Conhecida) Contribuição de Brentano para as Psicoterapias Humanistas
al como as ciências da natureza, a Psicologia repousa
e, portanto, rigorosa (Penha, 1985). Brentano recomen-
sobre a percepção e a experiência. Mas seu recurso
dou a Husserl que participasse, em 1886, dos cursos, em
essencial é a percepção interna de nossos próprios
Halle, do filósofo e psicólogo Stumpf, seu aluno e cola-
fenômenos psíquicos, consistindo em uma represen-
borador direto, onde Husserl se interessou pela percep-
tação, um julgamento. O que é prazer e dor, desejo e
ção e pela imaginação, analisando criticamente os fun-
aversão, esperança e inquietação, coragem e desen-
damentos introspectivos e experimentais da Psicologia
corajamento, decisão e intenção voluntária, nunca o (Depraz, 2007). Ao publicar sua primeira obra, Filosofia
saberíamos se a percepção interna de nossos próprios
da Aritmética, em 1891, Husserl deduziu que teria que
fenômenos não nos lho ensinasse (p. 29).
retornar à tese de Brentano de que toda representação
objetiva está fundamentada numa representação psíqui-
Brentano considerava a consciência um substrato sin-
ca pré-mental (Capalbo, 2001).
tético de representações, sensações, imagens, lembranças
e esperanças, denominando-as todas de vivências de fe-
nômenos psíquicos, e, portanto, intencionados. São atos
3. Brentano: uma Filosofia do Presente nas psicote-
mentais que se referem a objetos exteriores. A intenciona-
rapias Humanistas
lidade constitui a propriedade essencial da vida conscien-
te, indicando uma direção ou tensão da consciência para
Poucos sabem, mas a Filosofia do Presente, que afirma
o objeto. A consciência, na Psicologia do Ato de Brentano,
que os fenômenos ocorrem aqui e agora e que o presente
difere da consciência cartesiana, que se desdobra sobre
é a única experiência possível (Boris, 1994), nasceu de
si mesma, enquanto, para Brentano, ela tende sempre a
Brentano, senão exclusivamente, pelo menos numa parte
algo no mundo; assim, denominava-a de consciência in-
decisiva. Neste sentido, para Ramón (2006),
tencional. A intencionalidade, como a principal caracte-
rística da consciência, modifica a noção de experiência
(. .) os postulados da Psicologia brentaniana não estão
como estrutura e conteúdo. A consciência intencional
menos presentes na Psicologia da Gestalt, de forma
constitui uma atividade na qual os fatos físicos diferem
geral, e, de forma muito mais nítida, na chamada
dos fatos psicológicos, denominados de fenômenos por
Gestalterapia. Essa influência explica-se pelo fato de
Brentano. Os fenômenos psíquicos constituem experiên-
Stumpf (1884-1936) ter sido aluno e colaborador de
cias intencionais, ocorrendo como representações, juízos
Brentano (p. 341).
e fenômenos emocionais. Assim, as idéias de Brentano
deram início a uma Psicologia que busca as propriedades
acrescentando que
da consciência por meio da experiência interna. A partir
da sistematização de sua teoria, surgiram a Psicologia da
(. .) o método de centrar-se na descrição imediata dos
Gestalt, a perspectiva lewiniana e a Psicologia fenomeno-
fenômenos das experiências vividas, preconizado
lógica, ou seja, toda a Psicologia cuja ênfase recai sobre
pela Fenomenologia e que teve muita influência
a consciência e sua característica fundamental: a inten-
sobre os teóricos da Gestalt, antes de ser sistema-
cionalidade (Feijoo, 1999).
tizado por Husserl, já havia sido propugnado por
Em 1874, ao mesmo tempo em que publicava A
Brentano (p. 341).
Psicologia do Ponto de Vista Empírico, Brentano foi de-

signado professor na Universidade de Viena. Lá, perma-
Assim, nas psicoterapias humanistas, trabalhar fe-
neceu até 1895. Gozava de grande popularidade entre
nomenologicamente significa que a experiência única e
os estudantes, entre os quais estavam Sigmund Freud
imediata de nossos pacientes precede toda tentativa de
e o filósofo Edmund Husserl. Freud assistiu suas aulas
classificação ou de julgamento. Neste sentido, importa
por pelo menos dois anos, exatamente na época em que
mais que ele descreva sua experiência do que qualquer
Brentano publicou seu famoso livro de 1874, no qual
tentativa nossa, por mais brilhante que possa parecer, de
seu equacionamento entre o físico e o psíquico, o psi-
interpretá-la (Ribeiro, 1994). Desta forma,
cossomático, é mais salientado. O que Freud retirou de
Schopenhauer foi, provavelmente, através de Brentano
Brentano propõe é que, ao estudar, por exemplo, a
(Cobra, 2001). Em 1884, Husserl, matemático de forma-
esquizofrenia, não basta apenas conhecer suas bases
ção, despertou seu interesse pela Filosofia sob a influ-
genéticas e fisiológicas. O saber científico do trans-
ência decisiva de Brentano, seu mestre, influência con-
torno deve incluir também sua dimensão psicológica,
firmada por Husserl, num texto de 1932: “sem Brentano
ou seja, o saber ou significado de ser esquizofrênico
eu não teria escrito uma única linha de Filosofia” (con-
vivenciado por cada sujeito esquizofrênico. Os frutos
forme citado por Maciel, 2003, p. 28). Brentano se opu-
da chamada abordagem fenomenológica da psicopato-
nha à Psicologia experimental, objetiva e mensurante de
logia, defendida entre outros por Jaspers, Binswanger
Wundt. Distinguia a Psicologia da Filosofia, propondo
e Rogers, confirmam de forma irrefutável a tese bren-
uma Psicologia empírica, tanto subjetiva quanto objetiva
taniana (Ramón, 2006, p. 344).
A r t i g o
195
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 193-197, jul-dez, 2011

Georges D. J. B. Boris
Nas psicoterapias humanistas que têm como base a
é o modo de atingir a realidade, assim como ela é
fenomenologia, o psicoterapeuta busca que as pessoas se
(p. 47). [. .] Assim, podemos deduzir que “(. .) o ato
deparem com a diferença entre o que é percebido e sen-
psicoterapêutico se converte, então, em um ato cria-
tido na situação presente e o que são resíduos do passa-
tivo, numa busca a dois, se converte numa procura
do. As abordagens humanistas privilegiam a percepção
paciente de descrever, de compreender e analisar a
imediata, tratando tanto o que é vivido subjetivamente
realidade como vem ao meu encontro” (p. 57).
no presente quanto o que é objetivamente observado,
considerando-os dados reais e importantes, o que con-
trasta com as abordagens que tratam o que o paciente ex-
Considerações finais
periencia como meras aparências e usam a interpretação
para buscar um pretenso significado verdadeiro (Yontef,
De acordo com Granzotto & Granzotto (2007), há uma
1998). Neste sentido, endosso a posição de Granzotto &
ampla gama de influências exercidas pelo criador da
Granzotto (2010) de que,
Psicologia do Ato, em especial no que se refere à Gestalt-
Terapia, mas, também, sobre diversas áreas da ciência
(. .) para Brentano, tão importante quanto explicar,
psicológica. Neste sentido, em outra obra (Granzotto &
com base em um modelo associacionista ou reflexivo,
Granzotto, 2010), consideram que a fenomenologia é uma
como opera o intelecto na constituição dos objetos, é
postura ética, por meio da qual se privilegia a descrição
descrever quais as ‘intenções’ (ou de que maneira os
daquilo que se mostra desde si mesmo: mais precisamen-
sentimentos e as ações) orientam o intelecto (p. 37).
te, as Gestalten. Da mesma forma, destacam que a feno-
menologia husserliana passou por muitas transformações
Destaque-se que tais “intenções” nada têm a ver com
desde a ideia de intencionalidade de Brentano, e, a partir
o sentido corriqueiro que atribuímos ao termo: “(. .) a no-
dela, podemos detectar diversas repercussões nas psico-
ção brentaniana de intencionalidade não implica a pré-
terapias humanistas.
via concepção de algum objeto, [mas] apenas a antevisão
Para Fonseca (2008), a Gestalt-Terapia tem raízes muito
de um objeto possível” (p. 37). Neste sentido, podemos
claras na fenomenologia, na Filosofia da vida de Nietzsche
compreender a importância das “intuições” do psicote-
e, particularmente (pelo menos para os fins deste traba-
rapeuta no trabalho de facilitação da awareness de seus
lho), no empirismo de Brentano: “a raiz da Gestalt-Terapia
pacientes.
é Brentano, ou melhor, é o empirismo fenomenológico de
A vivência imediata representa o momento de contato
Brentano”. Para ele, Brentano e Nietzsche são as princi-
com a realidade, contendo a chave do passado e do futu-
pais raízes não apenas da Gestalt-Terapia, mas, também,
ro e podendo responder às questões mais sutis de como
da perspectiva de Heidegger.
o tempo se concretiza e o espaço se temporaliza: trata-
Assim, portanto, espero que, a partir desta breve ex-
se do fenômeno (Ribeiro, 1994). Neste sentido, mais do planação, possamos perceber mais claramente que, ape-
que afirmar que as psicoterapias humanistas trabalham
sar das variadas posições e do questionamento da influ-
com o presente, prefiro considerar que elas sempre par-
ência da fenomenologia sobre as diversas psicoterapias
tem dele, num processo de “presentificação” que atualiza
humanistas, um ponto comum é apontado com frequên-
tanto o passado quanto o futuro.
cia: na criação de tais abordagens, a principal raiz é o
Para adotar uma atitude verdadeiramente fenomeno-
empirismo de Brentano.
lógica, ou seja, para que possa fazer intervenções des-
critivas sem a priori, é imprescindível que o psicotera-
peuta humanista mantenha suas crenças, seus valores e
Referências
suas necessidades entre parênteses, o que implica numa
suspensão de seu juízo, tanto na compreensão quanto
Aguiar, L. (2005). Gestalt-Terapia com Crianças: teoria e práti-
na condução da situação psicoterápica. Neste sentido,
ca. Campinas: Livro Pleno.
o psicoterapeuta humanista convida o paciente a des-
Boris, G. D. J. B. (1994). Noções básicas de fenomenolo-
crever sua experiência, a expandir suas fronteiras e a
gia. Insight. Psicoterapia (São Paulo). v. 46, pp. 19-25,
alcançar novos significados para o experiencia no pre-
novembro.
sente da situação psicoterápica e em sua própria vida
(Aguiar, 2005). Ribeiro (1985) assim descreve o objetivo
Brentano, F. (1973). Psychology from an Empirical Standpoint.
da fenomenologia:
Trad. Antos Rancurello, Linda McAlister. London:
Internacional Library of Philosophy (originalmente publi-

cado em 1874).
(. .) ela procura descrever a experiência do modo como
ela acontece e se processa. Para tanto é preciso, como
Maciel, J.C. (2003). Franz Clemens Brentano e a Psicologia.
diz Husserl, colocar a realidade entre parênteses,
Em Maria Alves de Toledo Bruns & Adriano Holanda
suspendendo todo e qualquer juízo. Não afirmar,
(Orgs). Psicologia e Fenomenologia: reflexões e perspec-
tivas
[pp. 27-40]. Campinas: Alínea Editora.
A r t i g o
nem negar, mas antes abandonar-se à compreensão
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 193-197, jul-dez, 2011
196

A (Pouco Conhecida) Contribuição de Brentano para as Psicoterapias Humanistas
Capalbo, C. (2001). Fenomenologia e Ciências Humanas. Rio de
Perls, F. S. (2002). Ego, Fome e Agressão: uma revisão da teo-
Janeiro: Âmbito Cultural.
ria e método de Freud. São Paulo: Summus (originalmente
publicado em 1969).
Chisholm, M. & Simons, P. R. (1998). Brentano, Franz Clemens.
In: Routledge Encyclopedia of Philosophy. London: Edward
Ramón, S. P. (2006). A importância da Act-Psychology de Franz
Craig Ed.
Brentano. Psicologia: Reflexão e Crítica (Porto Alegre). 19
(2): 340-345.
Cobra, R. Q. (2001). Franz Brentano. Brasília: http:/ www.cobra.
pages.nom.br. Acesso em 25 de maio de 2011.
Ribeiro, J. P. (1985). Gestalt-Terapia: refazendo um caminho.
São Paulo: Summus.
Depraz, N. (2007). Compreender Husserl. Rio de Janeiro:
Vozes.
Ribeiro, J. P. (1994). Gestalt-Terapia: o processo grupal. Uma
abordagem fenomenológica da teoria do campo e holística.
Feijoo, A. M. L. C. de (1999). A influência das idéias de Brentano
São Paulo: Summus.
na Psicologia fenomenológico-existencial. In: Jornal
Existencial On Line. Edição Especial. Caderno de Temas

Smith, B. & Burkhardt, H. (1991). Introduction. In: Handbook
Existenciais. http:/ www.existencialismo.org.br/. Acesso
of Metaphysics and Ontology (Analytica) [pp. XXI-XXII].
em 24 de maio de 2011.
Munique: Philosophia Verlag.
Fonseca, A. H. L. da (2008). Entrevista com Afonso Fonseca.
Spiegelberg, H. (1963). The Phenomenological Movement. The
Realizada no Instituto de Gestalt Terapia e Atendimento
Hague: Martinus Nijhoff.
Familiar. IGT na Rede. Rio de Janeiro: 5 (8), 24.03.2008.
Disponível em: http://www.igt.psc.br/ojs/viewarticle.
Yontef, G. M. (1998). Processo, Diálogo e Awareness: ensaios em
php?id=189. Acesso em 30 de maio de 2011.
Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus.
Granzotto, M. J. M. & Granzotto, R. L. M. (2007). Fenomenologia
e Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus.
Georges Daniel Janja Bloc Boris - Psicólogo, Mestre em Educação
Granzotto, M. J. M. & Granzotto, R. L. M. (2010). Seminário
e Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
de Fenomenología y Terapia Gestalt. Albacete, Espanha:
Professor do Programa de Pós-Graduação da Universidade de
fevereiro.
Fortaleza (UNIFOR). Coordenador do Laboratório de Psicopatologia
e Psicoterapia Humanista-Fenomenológica Crítica
- APHETO.
Husserl, E. (1980). Investigações Lógicas: sexta investigação.
Psicoterapeuta fenomenológico-existencial, supervisor de estágios
Elementos de uma elucidação fenomenológica do conhe-
em Psicologia Clínica, formador de psicoterapeutas em Gestalt-
cimento. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural. Coleção Os
Terapia. Endereço Institucional: Universidade de Fortaleza. Avenida
Pensadores (originalmente publicado em 1900-1901).
Washington Soares, 1321 (Bairro Edson Queiroz). CEP 60811-905.
Fortaleza/CE. E-mail: geoboris@uol.com.br; geoboris@unifor.br
Münch, D. (1997). Franz Brentano. In: Embree, L. et alii (eds.).
Encyclopedia of Phenomenology [pp. 74-75]. Dordrecht:
Kluwer.
Recebido em 15.06.11
Penha, J. da (1985). O que É Existencialismo. 4. ed. São Paulo:
Primeira Decisão Editorial em 08.09.11
Abril Cultural/Brasiliense. Coleção Primeiros Passos.
Aceito em 10.12.11
A r t i g o
197
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 193-197, jul-dez, 2011

Fernanda Alt; Carolina M. Campos & André Barata
difiCuldadeS, deSafioS e poSSiBilidadeS
paRa uma ClíniCa SaRtReana
Difficulties, Chal enges and Possibilities for a Sartrean Clinic
Dificultades, Retos y Posibilidades para una Clínica Sartreana
Fernanda alT
Carolina mendes Campos
andré BaraTa
Resumo: Refletir sobre a possibilidade de uma clínica fenomenológico-existencial é ainda hoje um grande desafio para os pro-
fissionais e estudiosos deste campo. Por se tratar de um trabalho que parte da filosofia, este se revela por vezes mais árduo, ao
se mostrar carente de pressupostos psicológicos. No entanto, esta carência, longe de ser um impedimento, abre espaço para pen-
sarmos em uma clínica desembaraçada das amarras cientificistas e positivistas que impregnaram a psicologia desde o seu nasci-
mento. Frente a essa possibilidade, destacamos dentre as filosofias fenomenológicas e existenciais a de Jean-Paul Sartre, devido
à constante preocupação presente em sua extensa obra de considerar criticamente as teorias psicológicas. É diante deste pano-
rama que pretendemos, neste artigo, levantar algumas considerações sobre o desafio de pensar e realizar uma psicologia feno-
menológico-existencial, tendo em vista a importância de sustentar o caráter crítico do qual ela é oriunda. Para tal, discutimos o
problema da “importação” de conceitos por via de noções fundamentais do pensamento de Sartre, como liberdade e má-fé.
Palavras-chave: Fenomenologia; Existencialismo; Psicologia clínica; Liberdade; Má-fé.
Abstract: Reflecting on the possibility of a phenomenological-existential clinical is still a great challenge for professionals and
scholars of such field. Because it is a work that stems from philosophy, it sometimes proves to be more difficult, as it shows to
have a lack of psychological assumptions. However, this gap, far from being an impediment, opens our minds up for thinking
about a clinical cleared of its scientistic and positivist ties that have permeated psychology since its birth. Faced with this pos-
sibility, we highlight among the existential and phenomenological philosophies the one of Jean-Paul Sartre, owing to his con-
stant concern during his extensive work to critically consider psychological theories. It is before this scenario that we intend
in this article to raise some considerations about the challenge of thinking and realizing an existential-phenomenological psy-
chology keeping in mind, at the same time, the importance of preserving the critical character of which it is originated. To this
end, we discussed the problem of the “importation” of concepts by considering some fundamental notions of Sartre’s thought,
like freedom and bad faith.
Keywords: Phenomenology; Existentialism; Clinical psychology; Freedom; Bad faith.
Resumen: Reflexionar sobre la posibilidad de una clínica fenomenológica-existencial es todavía un gran desafío para los profe-
sionales y estudiosos en este campo. Teniendo en cuenta que este es un trabajo que parte de la filosofía, esto a veces resulta ser
más difícil, por mostrar la carencia de los presupuestos psicológicos. Sin embargo, esta carencia, lejos de ser un impedimento,
deja un espacio abierto para pensarnos en una clínica libre de las amarras del cientificismo y del positivismo que ha impregna-
do la psicología desde su nacimiento. Ante esta posibilidad, destacamos entre las filosofías existenciales y fenomenológicos a
de Jean-Paul Sartre, debido a la constante preocupación presente en su extensa obra de considerar críticamente las teorías psi-
cológicas. Es en este contexto que pretendemos en este artículo plantear algunas consideraciones sobre el desafío de pensar y
realizar una psicología existencial-fenomenológica teniendo en cuenta la importancia de sustentar el carácter crítico de lo cual
proviene. Con este fin, hemos discutido el problema de la “importación” de conceptos a través de las nociones fundamentales
del pensamiento de Sartre, como la libertad, y la mala fe.
Palabras Clave: Fenomenología; Existencialismo; Psicología clínica; Libertad; Mala fe.
introdução
zamentos metodológicos, práticos e conceituais, seja na
referência a uma metodologia fenomenológica, já por si
Considerar as possibilidades de uma clínica fenome-
mesma plural, seja na inspiração numa atitude existen-
nológico-existencial continua, hoje, a ser um desafio para
cial que nem sempre, porém, é entendida no sentido de
os profissionais e estudiosos no campo da psicologia clí-
um existencialismo, seja, enfim, na origem destas pers-
nica. A princípio, esse desafio parece se anunciar pelo
pectivas não no campo da psicologia clínica, mas no da
A r t i g o
fato de estarmos nos referindo a uma zona de entrecru-
filosofia. Tal entrecruzamento nos confronta com os ris-
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 198-204, jul-dez, 2011
198

Dificuldades, Desafios e Possibilidades para uma Clínica Sartreana
cos e dificuldades que sempre resultam do diálogo in-
todológico que pudesse servir de base para uma prática
terdisciplinar, das suas articulações e apropriações, com
clínica. Apesar de discordar de alguns dos pressupostos
migrações conceituais não raras vezes equívocas, bem
fundamentais da psicanálise freudiana como, por exem-
como da árdua tarefa de fazer a ponte entre o plano da
plo, a postulação da hipótese do inconsciente, esta forma
teoria psicológica e o da prática clínica.
de abordagem das questões relativas ao homem é a prin-
Aliás, a problemática não segue apenas na direção
cipal inspiração para o projeto levado a cabo por Sartre
de entrada para o campo da psicologia clínica. Já dentro
de uma psicanálise existencial. Tal projeto o ocupará
deste campo, têm sido tantas as abordagens, cambian-
ao longo de sua obra de forma recorrente e significati-
do aspectos, inspirações e filiações, que se torna difícil
va, desde O ser e o nada até O idiota da família, aliando
o mapeamento exato das suas diferenças e, talvez mais
às suas críticas metapsicológicas à psicanálise empírica
importante, das suas expectativas face ao que o pensa-
uma permanente preocupação metodológica, em particu-
mento fenomenológico e existencial pode trazer à prática
lar no que diz respeito à fundamentação de um método
clínica na psicologia. Apesar da ingenuidade de algumas
de compreensão do homem.
formulações adotadas pelos psicólogos americanos que,
O fato de podermos identificar no rastro da obra de
há mais de meio século, avançaram com a perspectiva
Sartre um “caminho a seguir” em vista de uma clínica
de uma psicologia e de uma psicoterapia existenciais,
psicológica de recorte sartriano, dentro do círculo das
Rollo May (1960) já advertia sabiamente que era “duvido-
abordagens fenomenológico-existenciais, não suprime as
so que tenha sentido falar-se de um ‘psicólogo ou psicote-
dificuldades teóricas e metodológicas a serem enfrenta-
rapeuta existencial’, em contraposição a outras escolas
das. No intuito de trilhar esse caminho de Sartre deve-
(p. 17). E explicitava em seguida o seu pensamento nos
mos, de início, voltar brevemente nossa atenção para sua
seguintes termos:
crítica a uma psicologia que ainda carregava a marca do
espírito de seu tempo: legitimar-se como ciência empíri-
Existencialismo não é um sistema de terapia, mas
ca, ao lado de outras ciências empíricas como a física e
uma atitude para com a terapia. Muito embora tenha
a química, alicerçadas na ideia de um método científico
conduzido a muitos avanços na técnica, não é um
natural. Para que a psicologia pudesse alcançar semelhan-
conjunto de técnicas por si mesmas, mas é um inte-
te status, era necessário desenvolver um método particu-
resse pela compreensão da estrutura do ser humano e
lar cientificamente equivalente, valendo-se das mesmas
sua experiência que deve sustentar todas as técnicas
ideias positivistas das ciências da natureza. Deste modo,
(May, 1960, p. 17-18).
a psicologia tomou de “empréstimo” de outras discipli-
nas já legitimadas um molde previamente elaborado, no
Esta exigência de “compreensão da estrutura do ser
qual deveria se encaixar com o máximo de exatidão. Os
humano e sua experiência”, no quadro de uma “atitude”
problemas subseqüentes deste “empréstimo”, feito pelas
existencial face à terapia não autoriza a sua dogmatização
ciências humanas em geral, foram muito bem explora-
num receituário de técnicas. Fazer prevalecer a atenção
dos por pensadores como Wilhelm Dilthey e Edmund
crítica sobre os esquematismos generalizadores e abstra-
Husserl, ao afirmarem a necessidade de demarcar as ci-
tos e sobre os determinismos é um dos aspectos mais no-
ências compreensivas, nelas incluindo-se a psicologia e
táveis nas reflexões que Jean-Paul Sartre produziu quer
todas as disciplinas visando à compreensão do humano,
sobre a psicologia, quer sobre a psicanálise.
das ciências naturais e da sua epistemologia baseada no
O presente artigo anima-se deste propósito tão sartria-
princípio da explicação causal.
no de atenção crítica, mas precisamente tomando como
Prosseguindo esta linha de demarcação, Sartre, por
objeto algumas das noções mais celebrizadas (e também
sua vez, imprime o seu cunho crítico aos problemas de
por isso muitas vezes simplificadas) que o existencialis-
fundamentação epistemológica da psicologia. Sua in-
ta cunhou ao longo da sua reflexão. Em concreto, propo-
tenção, aliás, vai além da mera crítica epistemológica ao
mos discutir, com este artigo, a “importação” de noções
modelo naturalista positivista ao oferecer pressupostos
sartreanas como as de liberdade e má-fé para o âmbito
da fenomenologia de Husserl como alternativa para uma
da clínica fenomenológico-existencial.
psicologia, conforme podemos observar em Esboço para
No itinerário da obra de Sartre encontramos reflexões
uma teoria das emoções ou em A transcendência do ego.
marcantes, a partir de uma abordagem fenomenológica,
No Esboço, Sartre (2007) demonstra que o problema da
para uma psicologia da imaginação e das emoções, bem
psicologia está em estabelecer suas premissas a partir dos
como de uma descrição das estruturas psíquicas dos es-
fatos isolados, o que significa que ela busca “encontrar”
tados e qualidades do Ego. Além das importantes con-
na experiência dos fatos o seu objeto sem definir ante-
tribuições para uma psicologia fenomenológica, no sen-
riormente o que seria este objeto. Sabemos que este “ob-
tido que Edmund Husserl atribuía a esta nova discipli-
jeto” pesquisado pela psicologia é o homem, e esta falta
na, Sartre também sustenta uma longa interlocução com
de definição anterior acaba, segundo Sartre (2007), por
Sigmund Freud, indicação de uma ambição sua de ir além
transformar a idéia de homem em uma abstração, em um
de especulações teóricas e desenvolver um esboço me-
conceito vazio. Para os psicólogos, tal definição aparece
A r t i g o
199
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 198-204, jul-dez, 2011

Fernanda Alt; Carolina M. Campos & André Barata
como resultado dos fatos pesquisados que, agrupados e
cas da psicologia do seu tempo, aliás muito inspirado
classificados, oferecem empiricamente suas característi-
no movimento de Husserl, não converte a sua psicologia
cas. Assim, a psicologia parte, de acordo com o filósofo,
numa psicologia crítica no sentido em que se contentas-
de uma pretensa posição “neutra” diante de seu objeto
se com o exame das suas condições de possibilidade, à
de estudo, como se o pesquisador pudesse encontrar o
maneira de um tribunal da razão kantiano. Em terceiro
“homem” ao final da investigação e não o colocasse em
lugar, e na sequência do ponto anterior, importa deixar
questão desde o início, esquecendo-se de que ele mesmo
claro que a psicologia fenomenológica, e a fenomenologia
pertence à realidade que estuda: “eles (psicólogos) querem
em geral, não são ciências apriorísticas que constituem
estar diante de seu objeto como o físico diante do dele
o seu conhecimento independentemente da experiência.
(Sartre, 2007, p. 13). Por conseqüência, o psicólogo acaba
Bem pelo contrário, é lema central da fenomenologia o
por retirar de sua investigação aquilo que mais interessa
retorno às coisas mesmas, às coisas na sua concreta apa-
ao fenomenólogo: a significação.
rição, imersas na sua significação integral. Por último, e
Para a fenomenologia, “todo fato humano é por exce-
concluindo estas sequências de observações, a psicologia
lência significativo” (Sartre, 2007, p. 25), e por esta razão
fenomenológica é uma ciência de fatos. Evidentemente,
o ponto de partida deverá ser um estudo dos fenômenos
não uma ciência de fatos empíricos positivos, dados no
e não dos fatos empíricos positivos, isto é, partir da re-
seu recíproco isolamento e explicados através de uma
lação da consciência intencional com o mundo. No caso
lógica causal conferida externamente, a partir da cons-
da emoção, por exemplo – estudada pelo psicólogo como
tatação e generalização de correlações, mas uma ciência
fato psíquico –, a psicologia fenomenológica deverá fazer
de fatos relativos à consciência, fatos dotados de signifi-
uma dupla interrogação ao fenômeno:
cação a esclarecer fenomenologicamente, tal qual se dão
à consciência, seu fato primeiro e absoluto.
Assim, o fenomenólogo interrogará a emoção sobre
a consciência
ou sobre o homem, perguntar-lhe-á
A fenomenologia é um estudo científico e não crí-
não apenas o que ela é, mas o que tem a nos ensinar
tico da consciência. O seu procedimento essencial
sobre um ser do qual uma das características é jus-
é a intuição. A intuição, segundo Husserl, põe-nos
tamente ser capaz de se emocionar. E, inversamente,
na presença da coisa. Deve entender-se que a feno-
interrogará a consciência, a realidade humana sobre
menologia é, portanto, uma ciência de fato e que os
a emoção: o que deve ser então uma consciência para
problemas que ela põe são problemas de fato, como
que a emoção seja possível, talvez até para que seja
aliás se pode ainda perceber considerando que Hus-
necessária? (Sartre, 2007, p. 25).
serl a denomina uma ciência descritiva. Os problemas
das relações do Eu com a consciência são, portanto,
Trata-se de uma questão de ponto de partida, de uma
problemas existenciais. (…) Esta consciência já não é
atitude inicial. A psicologia positivista parte do pressu-
um conjunto de condições lógicas, é um fato absoluto
posto de que o mundo de alguma forma está dado e que o
(Sartre, 1994, p. 45).
esforço consiste em estudar com rigor os fatos empíricos
positivos para que deles brotem as verdades. Como diz
Estas são as bases constituintes da psicologia fenome-
Sartre (2007), esta psicologia positivista estuda o homem
nológica que Sartre propõe nos seus primeiros ensaios e
da mesma forma que o botânico analisa e classifica as
que servem de apoio para o desdobramento de seu pensa-
plantas, procurando enquadrar o humano em categorias
mento existencial como um todo, cujas idéias principais
taxonômicas e leis naturais. Em contrapartida, a atitude
são: 1) a radicalização do princípio de intencionalidade
fenomenológica, ao buscar as significações, convida a
– retirando à consciência qualquer possibilidade de ser
psicologia a “dar um passo atrás” e interrogar, a relação mais do que o movimento de fuga em direção às coisas;
do homem com o mundo.
2) a assunção do ser da consciência como liberdade – re-
Posto isto, é importante evitar quatro confusões recor-
tirando-lhe a possibilidade de ser determinada por algo
rentes acerca do estatuto que Sartre se propõe conferir à mais além dela mesma; 3) a descrição da estrutura me-
psicologia fenomenológica, mas desde logo clarificadas
ta-estável da consciência – como ser que é o que não é e
nas primeiras páginas de A Transcendência do Ego. Em
não é o que é; 4) a descrição da angústia como apreen-
primeiro lugar, tal psicologia fenomenológica apresenta-se
são reflexiva da própria condição livre e indeterminável
como uma disciplina científica, dotada da mesma ambi-
da consciência, 5) a má-fé como uma conduta de fuga à
ção de rigor e objetividade que quaisquer outras ciências
angústia, procurando o descanso de um determinismo,
apregoem para si – longe de se tratar de uma psicologia
seja o das condições sociais, seja o de um inconsciente
anti-científica ou contra o discurso científico, a aposta
e suas pulsões, seja o de qualquer outro expediente que
da psicologia fenomenológica consiste em pensar a ciên-
vise alijar as responsabilidades pelas próprias escolhas.
cia de uma maneira diferente da do cientificismo e do
Assim, se vai costurando aquilo que com inteira legiti-
positivismo redutor. Em segundo lugar, o fato de Sartre
midade se pode designar por psicologia fenomenológico-
A r t i g o
começar por um exame crítico das bases epistemológi-
existencial sartreana, nela podendo incluir-se as bases
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 198-204, jul-dez, 2011
200

Dificuldades, Desafios e Possibilidades para uma Clínica Sartreana
para o projeto que Sartre inicia em O Ser e o nada de uma
Feijoo (2009) ressalta a constante e complicada tentativa
psicanálise existencial, bem como das suas perspectivas
de junção, na psicologia, das filosofias da existência ao
sobre as relações concretas com o outro.
pensamento humanista. No caso de Sartre, pensamos
Contudo, aquela vontade de fazer ciência que ani-
que essa mistura é acentuada pelo próprio autor que dá o
mou, na esteira de Husserl, a psicologia fenomenológica
nome de “O Existencialismo é um Humanismo” a uma de
nas obras iniciais de Sartre, não pode ser sobrestimada
suas conferências que viria a se tornar um de seus textos
no quadro do pensamento do existencialista. Pelo con-
mais lidos. Em tal conferência, ele explica que o termo
trário, é crucial compreender em que medida tal ambi-
“humanismo” se aplica em dois sentidos distintos. O pri-
ção “científica” deve ser situada e subordinada, ainda
meiro sentido “toma o homem como meta e como valor
que não superada, se se quiser tomar, em todo o seu al-
superior” (Sartre, 1987, p. 21), o que acaba por gerar um
cance, as consequências do pensamento de Sartre para
tipo de culto da “humanidade”, na qual ela é vista como
uma clínica psicológica. Com efeito, a postura científica,
admirável e louvável, conduzindo a uma visão viciada
elaborada de dentro de uma disciplina científica, esgo-
de homem e a um humanismo solipsista. Esta concep-
ta-se diante da necessidade de remontar do plano do co-
ção não se assemelha a do existencialismo sartriano, já
nhecer, de algum modo sempre já derivado, ao plano das
que nela o homem nunca é tomado como meta, como um
relações de ser. No essencial, é essa a crítica que Sartre
modelo vangloriável, que é pronto e fechado em si, “pois
dirige a Husserl. De outro modo, algo fundamental para
ele (homem) está sempre por se fazer” (Sartre, 1987, p.
uma clínica psicológica como a compreensão das rela-
21). Se o homem está “por se fazer”, ele é busca por me-
ções concretas entre os homens veria as suas possibili-
tas fora de si, em um movimento incessante que expres-
dades anular-se. Além disso, o projeto de uma psicaná-
sa sua indissociável relação com o mundo. O sentido de
lise sartreana, justamente porque existencial, perderia a
“humanismo” que Sartre sustenta remete assim a para-
sua maior originalidade se se deixasse enredar na ideia
doxal condição da existência, na qual o homem só se faz
de uma psicanálise científica. Não está em causa, com
homem perdendo-se fora de si.
isto, tornar impertinente a questão de um método, mas
Talvez Sartre tenha sentido a urgência de privile-
a sua configuração como um método pensado através de
giar o “humano” em toda a sua concretude no bojo do
requisitos científicos de aplicabilidade repetida, previsi-
pensamento fenomenológico-existencial, por considerar
bilidade, fiabilidade, etc. O movimento que leva Sartre de
que seus precursores deram ou excessiva importância à
uma psicologia fenomenológica à afirmação de uma onto-
questão do conhecimento ou um “passo a mais” na crí-
logia fenomenológica não pode, portanto, ser entendido
tica ao subjetivismo, deixando assim o olhar relativo ao
simplesmente como continuação de um fazer científico
homem ora embaçado pela poeira racional da teoria, ora
num campo disciplinar delimitado através da definição
perdido em relação à experiência mais concreta e coti-
de um objeto de estudo e aplicação de uma metodologia
diana. Neste sentido, o esforço de Sartre é o de recuperar
para o investigar.
este “homem-no-mundo” entendido, por sua vez, como
Evidentemente, da investigação ontológica sartreana
radicalmente distinto do homem exultado no centro do
resulta um “saber” que caracterizará a clínica fenome-
pensamento humanista.
nológico-existencial e que moldará escolhas no relacio-
Na psicologia, esta distinção entre os “humanismos”
namento terapêutico. Por exemplo, que nenhum a prio-
se torna essencial, visto que o humanismo clássico se en-
ri, nenhuma abstração, deve interpor-se na compreensão
contra na base de uma teoria psicológica que enveredou
das relações inter-pessoais. Tal como a existência pre-
para o desenvolvimento de uma prática que permanece
cede a essência, também a ontologia da relação precede
ligada a pressupostos de ordem da natureza humana, afas-
qualquer ciência da relação. Tal “saber” que precede a
tando-se da formulação básica das teorias existenciais,
“ciência” deverá incorporar, e assim caracterizar distin-
na qual “a existência precede a essência”. Apesar de tal
tivamente, uma clínica fenomenológico-existencial que
diferença de pressupostos, muitas leituras se formaram
se reclame sartreana.
na tentativa de manter essa conexão entre o existencia-
lismo e o humanismo. Isso se faz notar na própria deno-
minação corrente de “Psicologia Humanista Existencial”,
o problema da “importação” de Conceitos filosóficos muito em voga principalmente a partir da segunda meta-
na psicologia
de do século XX. A abordagem “Humanista Existencial”
surge como uma tentativa de transpor noções da filosofia
De acordo com Ana Maria Feijoo (2009), não são pou-
fenomenológica e existencial aos princípios da Psicologia
cas as indagações em torno do que seria uma psicologia
clínica, fato que pode ser observado, por exemplo, em al-
fenomenológico-existencial, especialmente quando se
gumas leituras entusiasmadas, mas igualmente precipi-
trata de pensar uma prática clínica. Em meio a mal-en-
tadas, do pensamento de Sartre por parte de psicólogos
tendidos e confusões entre correntes de pensamentos, humanistas norte-americanos. Esse movimento suscita,
também não são poucas as dificuldades a serem trans-
até hoje, dúvidas quanto aos problemas das “importa-
postas. Dentre os percalços inerentes a este caminho,
ções” dos conceitos filosóficos, visto que nesta proposta
A r t i g o
201
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 198-204, jul-dez, 2011

Fernanda Alt; Carolina M. Campos & André Barata
é inevitável pôr a serviço da psicologia centrada numa
do ser dos possíveis, do eu, da temporalidade, e da ipsei-
essência de pessoa humana um pensamento que visa
dade” (p. 58). Desta forma, devido ao amplo desafio de
justamente desconstruí-la. Em outras palavras, a aborda-
produzir uma prática na zona de encontros (ou desencon-
gem “Humanista Existencial” se utiliza de noções como
tros) entre a psicologia e a filosofia, devemos caminhar
angústia, desamparo, desespero e liberdade de modo a
de modo a evitar uma busca “apressada” por definições
diluí-las em um escopo teórico mais amplo, no qual es-
provenientes da ontologia que seriam “importadas” e “di-
tas são acrescidas de ideias chaves da psicologia clássica
luídas” em um escopo psicologizante transformando-as
como as de saúde/doença, cura, processo terapêutico e,
em normatizações.
sobretudo, ideias humanistas de difícil compatibilidade
Tal risco se evidencia, a nosso ver, principalmente em
com o pensamento fenomenológico-existencial como as relação às noções sartreanas de liberdade e má-fé que, por
de pessoa interior, potencialidade e atualização, cresci-
se apresentarem como os jargões de base de um pensa-
mento interior e natureza humana.
mento amplamente difundido, acabam por ser interpre-
Por estas razões, é certo que o humanismo implicado
tadas de forma confusa. Na psicologia, isso se expressa
na terapia centrada na pessoa de Carl Rogers, referência
em uma leitura que faz equivaler liberdade e vontade, e
maior da psicologia humanista, só enganadoramente pode
de acordo com a qual a psicoterapia passa a servir como
encontrar fundamento filosófico, caso dele carecesse, no
um espaço de reflexão que visa promover uma atitude
pensamento existencial de Sartre, ou mesmo, num senti-
voluntariamente responsável sobre as livres escolhas.
do mais amplo, no pensamento fenomenológico tout court
Ora, em tal interpretação a existência se reduz àquilo
– “Uma psicoterapia centrada na pessoa é incompatível
que “quero (reflexivamente) ser”; as escolhas são encara-
com uma psicoterapia fenomenológica” (Moreira, 2009,
das como enganosas ou autênticas no intuito de direcio-
p. 36). Isto não significa, porém, que sejam improceden-
narem as mudanças a serem tomadas responsavelmente
tes todas e quaisquer aproximações entre humanismo e
pelo sujeito. Esta é, contudo, uma interpretação que se
fenomenologia, ou ainda, entre humanismo e existencia-
afasta consideravelmente do espírito e da letra do pen-
lismo. São, a este propósito, dignas de nota as leituras do
samento de Sartre.
próprio trabalho rogeriano que testemunham uma mu-
Com efeito, a liberdade sartreana em nada se equivale
dança de perspectiva em sua prática clínica, já não ten-
à vontade, pelo contrário; segundo ele, a vontade não é
do a “pessoa como centro”, mas visando “para além da
senão uma anunciadora do que a liberdade já escolheu:
pessoa”, designadamente a “relação cliente-terapeuta” e
“Quando delibero, os dados já estão lançados (. .) Quando
de “campo em comum” (Moreira, 2009, p. 35-36).
a vontade intervém, a decisão já está tomada, e a vonta-
A tentativa de evitar uma simples “importação” de
de não tem outro valor senão o de anunciadora” (Sartre,
termos filosóficos, mantendo ao mesmo tempo as possibi-
2001, p. 557). Escolhemos simplesmente porque somos
lidades abertas para uma prática clínica parece traduzir-
liberdade, esta é uma condição ontológica de nosso ser,
se no desafio da psicologia fenomenológico-existencial
que significa a nossa não determinação por uma natureza
ainda hoje. Se seguirmos o caminho de Sartre, surpre-
substancial. Tal condição de não-natureza determinante
endentemente ainda tão pouco explorado, podemos com-
indica, por si só, que cada traço do existir é uma escolha,
preender que para que essa clínica seja possível é preci-
ou, nas palavras de Sartre:
so, primeiramente, dar “um passo atrás” e reencontrar o
solo ontológico donde se constitui fenomenologicamente
O homem é livre porque não é si mesmo, mas pre-
uma psicologia. Isto implica em desimpregná-la de suas
sença a si. O ser que é o que é não poderia ser livre.
bases cientificistas e normativas e tomar o homem não
A liberdade é precisamente o nada que é tendo sido
mais pela perspectiva de uma subjetividade solipsista,
no âmago do homem e obriga a realidade-humana a
abstração de si mesmo, mas pela prerrogativa primeira
fazer-se em vez de ser (. .) para a realidade-humana ser
da fenomenologia que aponta para uma relação indisso-
é escolher-se (Sartre, 2001, p. 545, grifo do autor).
ciável entre o homem-e-seu-mundo.
A possibilidade de articulação de uma prática clíni-
Logo, devemos pensar mais originariamente, a saber,
ca a partir de Sartre deve, portanto, levar em conside-
devemos “pensar contra” a tendência natural de atribuir-
ração este esforço de pensar mais originariamente, ou
mos um caráter reflexivo à escolha, a qual nos joga rapi-
seja, na atenta consideração das fontes fenomenológi-
damente na interpretação de uma liberdade voluntarista
cas de investigação psicológica. Pautados nesta atitude,
que “escolhe o que quer ser”. Para Sartre (2001), o ideal
podemos tomar as noções desenvolvidas por Sartre em
da vontade é um ideal reflexivo que nos conduz ao “sen-
torno da psicologia como um projeto que ultrapassa sua
tido da satisfação que acompanha um juízo como ‘fiz o
própria postulação metodológica de psicanálise existen-
que quis’” (p. 558). A escolha fundamental da liberdade
cial. Camila Gonçalves (2006) ressalta que a psicanálise
sartreana é anterior a reflexão, é irrefletida e espontânea,
sartreana deve também abarcar toda a análise ontológi-
constitutiva dos próprios caminhos da reflexão. Isto in-
ca presente em O Ser e o Nada, que envolve descrições
dica uma principialidade e autonomia do irrefletido em
A r t i g o
acerca “da contingência, da facticidade, do ser do valor,
Sartre, como destaca Pedro Alves (1994), posto que “no
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 198-204, jul-dez, 2011
202

Dificuldades, Desafios e Possibilidades para uma Clínica Sartreana
seio da vivência irrefletida, se consuma já um saber ate-
O homem que nunca está pronto pode somente “brincar
mático de si que é independente e autônomo relativamen-
de ser” toda vez que esboça definir para si uma identida-
te à consciência reflexiva” (p. 11). Em outras palavras,
de fechada. Do mesmo modo que a moral só faz sentido
esse saber atemático da vida irrefletida se dá pelo que
a uma realidade humana inacabada também a má-fé só é
Sartre denominou de cogito pré-reflexivo, uma relação
possível ao ser que nunca é capaz de coincidir totalmente
primeira da consciência consigo mesma, que se escolhe
consigo mesmo: “se eu fosse triste ou covarde assim como
anteriormente e independentemente de qualquer reflexão.
o tinteiro é tinteiro, sequer seria concebível a possibili-
Escolhas irrefletidas e espontâneas não representam, as-
dade de má-fé” (Sartre, 2001, p. 113). Assim, a má-fé não
sim, uma eleição de si alienada e irresponsável, mas ape-
se trata de um modo de ser “errado” ou uma escolha fal-
nas um movimento original. A responsabilidade existen-
sa, e sim de uma possibilidade sempre em aberto e volta
cial em Sartre se aproxima a noção de cuidado (sorge) de
e meia realizada pelo homem, isto é, atalhos inevitáveis
Heidegger, na qual mesmo o descuido é compreendido
em seu percurso existencial.
como uma forma de ser cuidado. Isso também vale para
Aliás, toda interpretação do fenômeno da má-fé ar-
a responsabilidade sartreana, já que mesmo decidindo
risca incorrer num equívoco se não for feita a partir de
sobre mim de forma irrefletida ainda assim sou respon-
uma perspectiva ontológica, que é a que Sartre desenvol-
sável pelo que escolho, não havendo necessidade de um
ve em O ser e o nada, e se, pelo contrário, se fixar, des-
recurso de segundo grau (reflexão), para que a responsa-
de logo, num plano moral, de considerações normativas,
bilidade entre em jogo.
sobre o que se deve e o que não se deve fazer (Anderson,
Dentro desta mesma perspectiva podemos considerar
1993). De outro modo, seriam, por exemplo, ininteligí-
que também a noção de má-fé corre o risco de ser inter-
veis os momentos em que Sartre considera até a sinceri-
pretada equivocamente e, dessa forma, acabar submetida
dade como uma forma de má-fé. Por outro lado, importa
a uma chave interpretativa redutora. Aliás, a própria de-
distinguir dois âmbitos: um, persistente, em que pode-
nominação má-fé conduz facilmente a uma interpretação
mos falar de uma escolha original de má-fé, e que assim
de cunho moralista, visto que pode soar como uma adje-
estruturará todo o projeto de ser como projeto de má-fé;
tivação que remete a algo ruim, disfuncional. Por conse-
outro, transitório, em que ambas, a má-fé e a boa-fé são
guinte, tal olhar pode transformar a compreensão deste
proporcionadas pela própria disposição meta-estável da
fenômeno em um rígido campo de julgamento entre es-
consciência, podendo uma converter-se facilmente na
colhas certas e erradas. Contudo, há, de fato, uma moral
outra consoante a conveniência das escolhas projetadas
em Sartre. Porém, ela não se aproxima do que podemos
(Catalano, 1985). Na verdade, neste sentido transitório,
considerar como uma moral dita tradicional, que articula
a má-fé pode bem ser indispensável para que uma cons-
em seu bojo valores como Bem e Mal. Só pode existir uma
ciência se determine inteiramente a ser as escolhas que
moral em Sartre se a situarmos como uma moral que se
faz, vencendo o impasse da angústia (Barata, 2005). Em
estabelece na e pela liberdade e, neste contexto, Bem e
suma, o sentido profundo da má-fé se traduz brilhante-
Mal não podem ser tomados como valores objetivos da-
mente nas palavras de Gerd Bornheim (2007): “a realidade
dos a priori e sequer podem ser pensados apartados da
humana nunca está realmente em casa, e quando pensa
atividade inventiva de uma liberdade que cria valores e
que está, incide em má-fé. O homem se habita perpetua-
doa sentido ao mundo. Simone de Beauvoir (2005) afir-
mente como um estranho” (p. 126).
ma que é próprio de toda moral tradicional considerar
Pretendemos ter explorado aqui, justamente, algumas
a vida humana como uma partida que se pode ganhar ou
dificuldades e constantes fontes de mal-entendidos que,
perder, e ensinar ao homem o meio de ganhar (p. 25). A
por vezes, acabam nos levando a leituras normatizantes,
principal diferença entre os princípios estruturantes da
distorcendo, assim, os significados de noções caras ao
Moral – tradicional e sartreana – se dá, justamente, no
pensamento sartriano. Como vimos, essas confusões se
ponto de partida: a concepção de homem. Como resume
dão, principalmente, quando ocorre uma simples “im-
muito bem Beauvoir:
portação” de conceitos da filosofia à psicologia, retirando
dos mesmos sua riqueza de origem. Contudo, esses im-
Não se propõe moral a um Deus; é impossível propô-
passes não representam um impedimento ao diálogo in-
la a um homem se o definirmos como natureza, como
terdisciplinar entre tais áreas, mas apenas dificuldades
dado; as morais ditas psicológicas ou empíricas
a serem trabalhadas que indicam, muito pelo contrário,
não logram constituir-se a não ser introduzindo
possibilidades necessárias para quem deseja compreen-
subrepticiamente alguma falha no seio do homem-
der o homem fora dos determinismos e dos reducionis-
coisa que elas primeiramente definiram (Beauvoir,
mos herdados pela psicologia desde o seu nascimento no
2005, p. 16).
auge do positivismo. Além do mais, percebemos que um
olhar atento a esses temas aponta para um necessário de-
Partindo, então, da concepção de homem pelo viés sar-
lineamento da relação da psicologia fenomenológica de
triano nos deparamos com uma realidade humana que é
Sartre com a questão da ciência e do humanismo. Este
liberdade, que se define por sua perpétua incompletude.
mesmo olhar atento é que nos guia, portanto, a pensar
A r t i g o
203
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 198-204, jul-dez, 2011

Fernanda Alt; Carolina M. Campos & André Barata
as dificuldades, desafios e possibilidades de uma clínica
Beauvoir, S. de (2005). Por uma moral da ambigüidade. Rio de
com inspiração sartreana.
Janeiro: Nova Fronteira.
Resulta de todas essas considerações, que o ponto de
Bornheim, G. (2007). Sartre: metafísica e existencialismo. São
partida adotado pelo psicólogo revela-se essencial para
Paulo: Perspectiva.
definir de que forma as relações podem ser articuladas no
espaço clínico. Partindo da ontologia proposta por Sartre
Catalano, J. (1985). A commentary on Jean-Paul Sartre’s Being
e de seu projeto de psicanálise existencial não podemos
and Nothingness. Chicago: Midway Reprint.
ansiar “corrigir” o homem em suas escolhas em busca
Feijoo, A.M.L.C. (2009) Clínica psicológica: filosofia e praxis.
de um processo terapêutico que potencialize uma atitu-
Em A.M.L.C.Feijoo (Org.). Psicologia clínica e filosofia [p.
de mais “livre” e saudável. Quando buscamos pensar a
41-72]. Belo Horizonte: Fundação Guimarães Rosa.
prática clínica a partir de Sartre devemos compreender,
a princípio, que para o homem que está em vias de se
Gonçalves, C. (2006). Sartre e a psicanálise contemporânea.
Dois Pontos (UFPR/UFSCar), 3 (2), p. 53-67.
fazer, que escapa a toda e qualquer lei de causalidade e
determinismo, não existem explicações e caminhos pré-
Moreira, V. (2009). Clínica Humanista-Fenomenológica –
vios a serem alcançados. Longe de uma visão de natureza
Estudos em psicoterapia e psicopatologia clínica. São Paulo:
humana, de uma liberdade voluntarista e de uma má-fé
Anna Blume.
sentenciadora,o que existe são possibilidades de ser que
Sartre, J-P. (1987). O Existencialismo é um humanismo. Nova
podem ser mais bem conhecidas e que, assim, colaboram
Cultura: São Paulo.
para revelar esta perpétua escolha que o homem tem que
fazer de si. Também, a fenomenologia nos mostra que a
Sartre, J-P. (1994) A transcendência do Ego: esboço de uma des-
atitude de mover-se em direção a algo é constitutiva do
crição fenomenológica. Lisboa: Colibri.
próprio fenômeno. Portanto, compreendemos que sem
Sartre, J-P. (2001). O Ser e o Nada: ensaio de ontologia fenome-
este movimento de dar “um passo atrás”, convite da feno-
nológica. Petrópolis: Vozes.
menologia à psicologia, esta última corre o risco de pro-
duzir relações que, ao invés de abrir um campo de pos-
Sartre, J-P. (2007). Esboço para uma teoria das emoções. Porto
sibilidades de ser para aqueles que estão “em questão” na
Alegre: L&PM.
relação clínica, acaba por enclausurá-los em suas próprias
verdades inquestionáveis. Desta forma, os contornos que
circunscrevem uma relação clínica com base sartreana
Fernanda Alt - Psicóloga clínica, Mestre em Psicologia Social pela
estão ainda por serem definidos, mas precisamos, antes
UERJ, e graduada em Psicologia pela PUC-Rio. Foi professora substituta
de tudo, libertar essa relação das tendências aprisiona-
da UFRJ e atualmente dá aulas sobre existencialismo na Especialização
em Psicologia Clínica do IFEN e em outros cursos de especialização.
doras, que reduzem nossa visão de homem a simples es-
Endereço Institucional: Rua Barão de Pirassununga, 62 – Tijuca, Rio
quemas teóricos. Por fim, seguindo uma inspiração sar-
de Janeiro – RJ. E-mail: fernandaalt@gmail.com
trean, propomos que o objetivo de tal psicologia clínica

deve ser entendido como aquilo que possa tornar a vida
Carolina Mendes Campos - Psicóloga clínica, Doutoranda em
Psicologia da Puc-Rio, Mestre em Psicologia também pela PUC-Rio
humana, de alguma forma, mais possível.
e Professora da Especialização em Psicologia Clínica do Instituto
de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro (IFEN).

Endereço Institucional: Rua Barão de Pirassununga, 62 – Tijuca, Rio
Referências
de Janeiro – RJ. E-mail: carolinamendescampos@gmail.com

André Barata - Professor da Universidade da Beira Interior (UBI)
Alves, P. (1994). Irrefletido e reflexão: observações sobre uma
em Portugal, além de filósofo com doutoramento em filosofia
tese de Sartre. Em Jean-Paul Sartre, A transcendência do
contemporânea pela Universidade de Lisboa. Foi professor visitante
Ego: esboço de uma descrição fenomenológica [p. 9-41].
do Instituto de Psicologia da UERJ. É autor de livros e artigos
Lisboa: Colibri.
sobre filosofia e fenomenologia. Seus últimos títulos são “Mente e
consciência - ensaios de filosofia da mente e fenomenologia” (2009) e
Anderson, T.C. (1993). Sartre’s Two Ethics – From Authenticity
“Sentidos de liberdade” (2007). Endereço Institucional: Universidade
to Integral Humanity. Chicago: Open Court.
da Beira Interior, Faculdade de Artes e Letras, Rua Marquês d’Ávila e
Bolama, 6200-001 Covilhã, Portugal. E-mail: abarata@ubi.pt
Barata, A. (2005) Liberdade e má-fé: avaliação de dois conceitos
da filosofia de Sartre. Em P.Alves, J.M.Santos & A.Franco
de Sá (Eds.). Humano e Inumano – A dignidade do Homem e
Recebido em 04.02.11
Novos Desafios [p. 395-404]. Lisboa: Phainomenon/Estudos
Primeira Decisão Editorial em 06.08.11
de Fenomenologia.
Aceito em 03.10.11
A r t i g o
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 198-204, jul-dez, 2011
204

Uma Análise Existencialista para um Caso Clínico de Transtorno Obsessivo Compulsivo
uma análiSe exiStenCialiSta paRa um CaSo ClíniCo
de tRanStoRno oBSeSSivo CompulSivo1
An Existential Analysis for a Case of Obssessive Compulsive Disorder
El análisis existencial para un caso deTrastorno obsesivo-compulsivo
Sylvia mara pires de FreiTas
Resumo: O presente relato de experiência se refere ao desvelamento do Projeto de Ser de uma mulher de 35 anos, que apresenta
um quadro de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), experienciado pela mesma como um evento ahistórico, singular, des-
conectado de uma possível construção com o social, e entendendo-o como de sua única responsabilidade. Sendo histórico, dia-
lético e social, o homem sartreano deve ser compreendido em toda trama de sua existência, assim, os pensamentos obsessivos
e os comportamentos compulsivos, apresentados pela cliente, apesar de poderem ser identificados tais como descritos no DMS
IV, anunciam uma existência inundada pela vivência contraditória entre o Ser-para-si e o Ser-para-o-outro. A estrutura deste
relato busca seguir a metodologia para a compreensão terapêutica do Projeto de Ser da cliente, segundo a Psicologia Clínica de
base sartreana, a qual engendra o caminho de conscientização sobre os fundamentos e nexos das ações do sujeito, favorecendo
reflexões sobre os fatores que constituem seu Projeto de Ser, e assim sua apropriação pelo mesmo.
Palavras-chave: Psicoterapia existencialista; Transtorno obsessivo compulsivo; Projeto de ser.
Abstract: This experience report provides readers the unveiling of Project Being a woman of 35 years, which presents a nosolog-
ical of Obsessive Compulsive Disorder (Ocd), experienced the same event as an ahistorical, singular, disconnected from a pos-
sible construction with the social, and understanding it as your sole responsibility. As historical, dialectical and social Sartrean
man must be understood in any plot of his existence, so the obsessive thoughts and compulsive behaviors presented by the cli-
ent, although they can be identified as described in the DMS IV, announce a flooded existence the contradictory experience of
Being-for-itself and Being-for-the-other. The structure of this report seeks to follow the methodology for the design of therapeu-
tic understanding of Being customer, according to the Clinical Psychology of Sartre’s base, which generates the path of aware-
ness about the foundations and links the actions of the subject, encouraging reflection on the factors that Project constitute its
being, and thus its appropriation for the same.
Keywords: Existential psychotherapy; Obsessive compulsive disorder; Project self.
Resumen: Este informe proporciona a los lectores la experiencia con la presentación del Proyecto Ser una mujer de 35 años,
que presenta una nosológica del trastorno obsesivo compulsivo (Toc), experimentó el mismo evento como un singular ahistó-
rica, desconectado de una posible construcción con lo social, y la comprensión como de su exclusiva responsabilidad. Como
histórico, el hombre sartreano dialéctico y social debe ser entendida en cualquier parcela de su existencia, por lo que los pen-
samientos obsesivos y comportamientos compulsivos presentada por el cliente, aunque se pueden identificar como se descri-
be en el IV DMS, anunciar una existencia inundado la experiencia contradictoria del ser-para-sí y el ser-para-el-otro. La es-
tructura de este informe trata de seguir la metodología para el diseño de la comprensión terapéutica de ser cliente, de acuerdo
con la Psicología Clínica de la base de Sartre, que genera el camino de la conciencia acerca de los fundamentos y los enlaces
de las acciones del sujeto, fomentando la reflexión sobre los factores que proyecto constituye su ser, y por lo tanto su apropia-
ción para el mismo.
Palabras-clave: La psicoterapia existencial; Trastorno obsesivo-compulsivo; Proyecto libre.
introdução
mais como uma provocação para mostrar como é fácil
reduzirmos nosso olhar à existência de uma pessoa, por
Apesar de o título deste artigo colocar em relevo uma
meio de uma classificação diagnóstica.
nomenclatura referente a um quadro nosológico (DSM
Em nosso empreendimento, o sujeito será compre-
IV e CID-10), a análise compreensiva do caso clínico
endido em sua totalidade, sendo a unidade nosológica
não se fecha nos sintomas que configuram o Transtorno
integrada a toda dimensão da existência deste, que tam-
Obsessivo Compulsivo (TOC). Esta nomenclatura serve
bém se constitui pelo quadro sadio. A análise terá como
base a Psicanálise Existencial sartreana, tal como propõe
1 Palestra proferida na mesa redonda do I Congresso Sul-Brasileiro de
Schneider (2002; 2011).
Fenomenologia & I Congresso de Estudos Fenomenológicos do Paraná,
realizado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba,
O destaque dado ao quadro nosológico, objetivou tam-
de 04 a 07 de junho de 2011.
bém evidenciar o momento em que a cliente procurou a
A r t i g o
205
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 205-214, jul-dez, 2011

Sylvia M. P. de Freitas
terapia. Schneider (2011, p. 190) coloca, tendo como base
em Busca da Compreensão do projeto de Ser
o argumento de Jaspers (1979), que:
O projeto de Sartre (1943/1999; 1960/2002), no desvela-
[. .] a questão psicopatológica fundamental é o desen-
mento do empreendimento humano, transcendeu os três
volvimento de uma personalidade, horizonte em que
principais pensadores que deram base para sua teoria: (1)
ela deve ser compreendida. Pode ocorrer que certa
O Eu transcendente de Husserl (1901/1988) perde o sen-
sintomatologia, a princípio específica, vá aos poucos tido, haja vista que para Sartre, a consciência é “despro-
se apoderando da existência inteira e acorrentando a
vida de conteúdos formais e materiais” (Cahet, 2008, p.
personalidade.
04), inclusive de um Eu. Sendo este constituído pelo ato
reflexivo, o Eu sartreano reside no mundo, logo é um Eu
Sendo assim, ao encontrar-me com Sol2 pela primeira
transcendido. Somente pela consciência da sua criação
vez, percebi sua existência inundada pelos pensamentos
de seu Eu, na relação com o mundo, que o homem pode
obsessivos e ações compulsivas, mas apesar deste desta-
assumir a responsabilidade pelas suas escolhas, pelo seu
que, também mostrava questionamentos que denuncia-
Projeto de Ser; (2) a busca pela compreensão do Ser on-
vam senso crítico sobre sua situação.
tológico heideggeriano, para Sartre deve ser focada no
Os pensamentos obsessivos e os comportamentos
Para-si e suas condutas, construído pela relação dialéti-
compulsivos, como todos os outros atos do sujeito, de-
ca entre subjetividade e objetividade e; (3) na proposta
vem ser visados em suas finalidades e não como uma
marxista de conhecer o homem concreto que transforma
soma de manifestações. Em cada ato há o fundamento
o mundo. Sartre ao invés de “[. .] descrever a realidade a
da inteireza do sujeito. Conhecendo como transcende a
partir de categorias universais (economia, modo de pro-
tensão entre mundo concreto e o simbólico, uma vez que
dução, classe social)” (Schneider, 2002, p. 118), resgata
homem e mundo se dialogam fazendo-se mutuamente,
o indivíduo na relação com o coletivo. A concretude da
é que podemos chegar a seu projeto fundamental. Em
existência individual e social se dá, para Sartre, através
cada síntese sua história singular e a da humanidade
da interdependência do diálogo entre ambos.
são construídas.
Através dessas e outras superações, o homem sartre-
É pelo método sartreano que proponho compartilhar
ano possui características de um Ser histórico, dialético
com o leitor mais uma maneira de investigar, compre-
e também social, visto que a singularidade não se opõe
ender e elucidar o mundo de uma pessoa cujo projeto
à coletividade e vice versa. Cada ato do sujeito circuns-
de ser foi construído sob os fundamentos das relações
creve os contextos familiar, social, cultural, econômico,
dualistas entre o certo e errado e do perfeito e imper-
político, intelectual, bem como a história da humanidade
feito. E na vivência do conflito entre o que deve ser e
é construída através de cada escolha singular que tece
o que é, mostra algumas ações impregnadas pela preo-
com todas as outras a trama do universal. Assim, atra-
cupação com a necessidade de convencer-se de que seu
vés de sua antropologia podemos compreender a práxis
Ser corresponde ao ideal imposto na infância e, dian-
que tem em seu bojo a conversão do processo existencial
te a experiência duvidosa sobre a veracidade do mes-
e do histórico.
mo, compele-se a agir de maneira a aliviar a angústia
Quiçá, por uma concepção dicotomizada do indi-
da possibilidade de não Ser, com isso desenvolve com-
víduo e do coletivo, corroborada também pelas teorias
portamentos identificados como Transtorno Obsessivo
sociais que se opõem a concepção de indivíduo das te-
Compulsivo (TOC).
orias psicológicas, por sua vez construídas sob a influ-
Entre o Ser conforme os modelos apreendidos e o
ência da atmosfera liberalista e neoliberalista, é que
que é, o sujeito se perde na contradição contida nas in-
ainda esbarramos na incompreensão do Ser dialético.
formações interiorizadas: deve ser não sendo o que é.
Mas mesmo assim, realizando uma leitura dialética,
Não conseguindo ser o que não é, confirma o ser não
neste próprio movimento de oposição, a verdade cons-
perfeito, mas experiencia essa vivência sob o manto
truída por uma parte dependeu da verdade já construí-
da culpa.
da historicamente pela outra, como ponto de referência
Para melhor compreender a metodologia utilizada
para a refutação.
para a realização da análise do caso em questão, situa-
Ao descartarmos a compreensão dialética, negamos o
rei brevemente o método sartreano para investigação da
diálogo entre o homem e o mundo, bem como contribuí-
realidade humana, como já coloquei anteriormente, con-
mos com o impedimento de uma das atitudes, que pode-
forme elucidado por Schneider (2002; 2011).
mos considerar como um dos pilares da teoria sartreana:
o assumir a responsabilidade por nossas escolhas.
Sendo a consciência sempre intencional (de e para al-
guma coisa), todos os nossos atos são livres, solitários e a
nós cabe responder por eles. A liberdade de nossas esco-
lhas e consequentes ações nelas fundamentadas,
2 Por questão ética, referir-me-ei a cliente por este pseu-
A r t i g o
dônimo.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 205-214, jul-dez, 2011
206

Uma Análise Existencialista para um Caso Clínico de Transtorno Obsessivo Compulsivo
[. .] por mais alienada que seja[m], sempre transforma[m]
o diagnóstico nos seja útil para entendermos alguns com-
o mundo. Isto porque o que caracteriza o homem é
portamentos à luz da teoria, ele (diagnóstico) por si, nunca
a sua transcendência, pois ele ‘sempre faz alguma
refletirá o sentido dado pelo sujeito à sua existência.
coisa daquilo que fizeram dele’, mesmo que ele não se
Buscarei a seguir, apresentar a biografia de Sol, uma
reconheça na sua ação. Ainda que alienados, somos
vez que, segundo Schneider, as biografias possibilitam
sujeitos de nossa história. Essa transcendência, que
faz o sujeito ir além daquilo que lhe é determinado
[...] a compreensão rigorosa do ser dos seus bio-
pela materialidade, pela sociedade, é o que Sartre
grafados, [...] devem expor um homem enquanto
denomina de projeto [grifos da autora] (Schneider,
totalizações, e não como um conjunto fragmentário
2002, p. 120).
de comportamentos, emoções, desejos [. .], colocam
o sujeito concreto, através de um movimento de
Resumindo: as verdades são os projetos singulares/
compreensão, no qual busca esclarecer as condições
universais construídas no percurso histórico da humani-
epocais, culturais, sociais, familiares, além das subje-
dade, através das relações dialéticas estabelecidas entre
tivas, psicológicas, que possibilitam a seu biografado
indivíduo/mundo, indivíduo/coletividade, subjetividade/
chegar a ser quem ele foi e como chegou a sê-lo, não
objetividade. São criadas a partir da liberdade da ação
abrindo mão do movimento, constante da análise em-
individual que, ao se apropriar das diversas verdades ob-
preendida, entre sujeito e a objetividade, movimento
jetivas do mundo, escolhe assimila-las, sufocar-se nelas
dialético este produtor do psíquico [grifos da autora]
ou rejeita-las (Schneider, 2002).
(Schneider, 2011, pp. 234-235).
Para compreender o projeto de Ser de uma pessoa,
temos que considerar as condições reais que circundam
Sendo assim, estruturada de acordo com o objetivo
sua existência concreta, situada e definida durante toda
da Psicanálise Existencial sartreana, através da biogra-
sua história, através de contextos objetivos que podem
fia de Sol, buscarei mostrar “o nexo existente entre os
oferecer-lhe possibilidades e limitações. Por sua vez, os
diversos comportamentos, gostos, gestos, emoções, ra-
obstáculos e facilidades, também assim serão significa-
ciocínio do sujeito concreto, ao extrair o significado que
dos de acordo com o projeto de Ser.
salta de cada um desses aspectos em direção a um fim”
Sartre (1960/2002) propõe o método progressivo-re-
(Schneider, 2011, p. 233). Para tal feito, é necessário lan-
gressivo para se realizar a compreensão do projeto de
çar mão do método comparativo ao buscar os nexos exis-
Ser de uma pessoa. Um método heurístico que permite,
tentes entre esses aspectos de um indivíduo em situação
progressivamente, nos aproximar da história do sujei-
e com o método compreensivo ou sintético chegar “à in-
to. Partindo de suas experiências, tomamos uma atitude
tuição do psíquico, atingida por dentro” (Jaspers, 1979
compreensiva para perceber o sentido dado por ele a cada
apud Schneider, 2011, p. 234), e assim elucidar o Projeto
um de seus atos. Comparando as unidades de sentido en-
fundamental que dá sentido ao conjunto.
tre estes, chegamos ao seu projeto fundamental.
No entanto, por uma questão didática, apresentarei a
Tal método se faz importante, já que:
biografia, num primeiro momento, descrita “por fora” (ib-
dem, p. 235), de maneira narrativa, para depois apresentá-
[. .] o homem deve ser encontrado inteiro em todas
la através de uma análise compreensiva da relação dialé-
as suas manifestações. O modo de vida, os trajes, a
tica que Sol trava com a objetividade, tal como proposto
postura política e moral, a fala, etc, remetem sempre
por Sartre (1997) em sua Psicanálise Existencial.
ao projeto do indivíduo, que, como vimos, é fruto
das condições materiais, sociais históricas em que
ele está inscrito (objetivo) e da sua apropriação ativa
apresentando (estaticamente) Sol
por parte do sujeito (subjetivo). A compreensão da
realidade humana passa, portanto, pelo movimento
Sol é uma mulher de 35 anos, casada há quatro, com
dialético de compreensão entre o objetivo e o subjetivo
nível superior, sem filhos. Mostra investimento em sua
(Schneider, 2002, p. 121).
aparência. É uma mulher cuidadosa com seu corpo, apa-
rentando menos idade do que tem. Usa roupas e acessó-
Diante o exposto, os diagnósticos psiquiátricos tradi-
rios descontraídos que acompanham a moda. Trabalha
cionais recortam a existência do indivíduo. Sendo defini-
em uma lanchonete como vendedora.
dos a partir de alguns comportamentos que expressam a
Filha do meio de uma família católica praticante,
leitura da média abstraída de um coletivo, desconsidera
classe média alta. Os pais estão aposentados. Todos os
a minoria excluída dessa média, bem como a singulari-
irmãos, o marido e o pai possuem nível superior. O pai
dade no diálogo com o mesmo. Reduzir ao diagnóstico a
sempre supriu financeiramente as necessidades e desejos
compreensão do projeto de Ser, é desconsiderar a cons-
da família. Apóia a educação dos filhos em uma moral
trução dialética, histórica e social do sujeito. É restringir
tradicional. Morou longe dos pais enquanto fez faculda-
o processo existencial, tornando-o estanque. Mesmo que
de e depois que se casou.
A r t i g o
207
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 205-214, jul-dez, 2011

Sylvia M. P. de Freitas
1º momento: demarcando o fenômeno (o psicodiag-
Devido aos comportamentos obsessivo-compulsivos,
nóstico)
identificados como clássicos de quem apresenta TOC,
segundo sua descrição dos mesmos e, principalmente
Neste instante, buscaremos delimitar o fenômeno de
porque percebi a dificuldade de escuta devido sua an-
acordo com a sua atualidade, uma vez que, de acordo com
siedade, solicitei que procurasse um médico homeopata
Schneider (2011, p. 270), “no caso da clínica, a definição
de minha confiança que, por ser flexível em sua atuação
clara da sintomatologia e do quadro psicopatológico do
profissional, poderia diagnosticar a necessidade de inter-
paciente, ou seja, a elaboração do psicodiagnóstico [. .] é
venção medicamentosa e o tipo (alopático ou homeopáti-
que definirá os rumos da intervenção”.
co) e/ou de outro tipo de encaminhamento médico. Este,
após consultar Sol, prescreveu Lexapro4, iniciando, em
janeiro de 2011, com um comprimido ao dia.
na primeira Sessão
Esta ocorreu em dezembro de 2010. Sol relatou que há
em algumas Sessões Seguintes: Contando Sua His-
dois anos começou a ter pensamentos constantes de que
tória...
poderia fazer mal às pessoas e de que poderia contami-
nar os objetos. Após conversar com alguém, ou mesmo,
A Infância
somente ao olhá-las, se angustiava por pensar que poderia
ter falado ou feito alguma coisa que lhe causasse algum
Ao solicitar-lhe para contar sua história, desde sua in-
mal. Diante este tipo de pensamento obsessivo, tirava a
fância, Sol a inicia lembrando de uma fala de sua mãe:
dúvida com marido ou, se possível com a própria pessoa,
mas “não sossegava enquanto não perguntava a alguém
“[. .] ela disse que quando eu era bebê, chorava muito.
sobre as consequências de suas ações”3.
Por não saberem o motivo, meus pais me levavam
Quanto aos pensamentos de possível contaminação,
aos médicos e benzedeiras, mas nenhum conseguiu
como trabalha lidando com comida, lavava constante-
encontrar uma explicação. Eu não ficava com outra
mente as mãos, abria a torneira com o braço e tocava na
pessoa sem ser eles. Diante essa experiência, minha
tampa do lixo somente com luvas “para não contaminar
mãe dizia que Deus a livrasse de ter outro filho. Isso
os objetos e a comida”, e assim poder prejudicar alguém.
me faz sentir uma pessoa problemática para meus
A preocupação obsessiva com o ter feito alguma coisa
pais, como um patinho feio da família”.
errada, também se dava, por exemplo, em ter colocado
alguma coisa na comida que servia.
Quando terminou a licença maternidade, a mãe re-
Além destes comportamentos, também pensava que
tornou ao seu trabalho. O pai trabalhava durante o dia
poderia ter deixado alguma coisa ligada, acessa ou aber-
e fazia faculdade no período noturno, em uma cidade
ta em casa e no trabalho, fazendo diversas vezes o ritual
próxima, ficando Sol e seu irmão aos cuidados de uma
de verificação.
empregada “que gostava muito. Era como uma segunda
Por isso, sua vida social estava muito pobre, tinha
mãe, pois cuidava da gente e morava também conosco”.
medo de sair porque “no dia seguinte fica pensando no
Nos finais de semana “adorava ir dormir na casa da em-
mal que pode ter feito a alguém”. Alegou apresentar mui-
pregada e dos meus avós paternos, mesmo sabendo que
to sono, dormindo quando “não tinha que realizar suas
tinha a oportunidade de ficar com meus pais”.
obrigações”. Neste momento mencionou que achava es-
Quando começou ir à escola, chorava muito. O pai tinha
tar com Transtorno do Pânico, justificando seu suposto
que ficar com ela esperando que entrasse. Disse não gostar
diagnóstico devido a sua ansiedade e ao medo de sair
muito de estudar e “não entender porque chorava”.
de casa.
No que tange às brincadeiras, preferia brincar na rua,
Relatou que tinha uma coisa ruim dentro de si (co-
subir nas árvores, dançar “em cima da mesa”. Não gosta-
locando a mão no peito), que “queria arrancar isso”, não
va de brincar com bonecas, ou de qualquer brincadeira
sabendo definir o que era. Intuí que Sol estava falando
“monótona”. Preferia aquelas que lhe fizessem “sentir-se
da vivência da angústia, mas pensei também que, como
em liberdade. Nunca fui uma pessoa caseira, desde pe-
nunca deve ter se permitido refletir sobre tal vivência,
quena adorava liberdade”. Gostava também de nadar,
desconhecia do que se tratava.
de andar de carrinho de rolimã. Brincava mais com seu
Queixou-se que depois que casou o dinheiro ficou
escasso, limitando suas possibilidades. Sente-se sozinha
quando está em casa, pois está longe da família, o mari-
4 ESCITALOPRAM (antidepressivo da classe dos inibido-
do trabalha e estuda o dia todo.
res de serotonina. Indicado para tratamento e prevenção
de recaídas ou recorrência da depressão, TP, com ou
sem agorafobia, Transtorno de Ansiedade Generaliza-
3 Optei por intercalar o texto com falas da cliente, para
da, Transtorno Obsessivo Compulsivo e Fobia social).
A r t i g o
melhor compreensão de suas vivências.
Outros nomes comerciais: Cipralex e Exodus.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 205-214, jul-dez, 2011
208

Uma Análise Existencialista para um Caso Clínico de Transtorno Obsessivo Compulsivo
irmão do que com a irmã. Considera que esta era prote-
Como seu intuito era sair com amigos, sem com-
gida pelo pai. “Hoje dizem que sou muito ciumenta, mas
promissos sérios, começou a namorar somente aos 20
não tive a proteção dele. Tudo que faço, para eles é erra-
anos com um rapaz que a “fazia meio de boba”, pois
do, isso me frustra muito. .”.
como tinha que retornar cedo para casa, ele voltava “às
Com relação às tarefas que exigiam maior discipli-
baladas depois que me deixava em casa”. Aos sábados
na: estudou piano até os seis anos, fez pintura em pano
a preteria em função do jogo de futebol com amigos.
e estudou balé durante dois anos, pois “minha mãe era
Com a mãe do namorado tinha uma boa ligação, sen-
contra eu fazer balé, em função dos gastos que se tinha
do cúmplices por esta também não aceitar as atitu-
com as festividades no final do ano”.
des do filho e torcer pelo namoro. Terminaram quan-
Em suas relações de amizade, nunca foi de ter mui-
do Sol mudou-se para a cidade que faria o cursinho.
tos amigos, preferindo brincar mais sozinha. Mencionou
Atualmente são amigos.
que em brincadeiras em grupos, sempre tinha um “líder
Na nova cidade estudava e festava, “uma nova expe-
que queria ser o melhor, isso me irritava muito! Eu era
riência de vida, sem pai e mãe para encher o saco. Saía
muito briguenta e tinha dificuldade em ceder. Dois bicu-
e não tinha hora para voltar”. Após um ano de faculda-
dos não se beijam”. Os pais a comparavam com o irmão
de conheceu seu atual marido. Diz ter sido “amor à pri-
que tinha muitos amigos. Quando ia para festinhas em
meira vista” e sempre achou que seria com ele que iria
casa de amigos, sentia-se o “patinho feio”, pois ninguém
se casar. “Sempre gostei dele”. Naquela época ficavam
a tirava para dançar.
juntos esporadicamente, pois ele “nada queria comigo,
Apesar de se perceber “mulecona” durante a infân-
só queria festar”.
cia, mencionou a vaidade com sua aparência, desde pe-
Arrumou um namorado que “era meu oposto, não gos-
quena. Usava roupas de adulto, brincos grandes, gostava
tava de festar, era estudioso, bonzinho, meus pais o ama-
de ler revista de moda. Inspirava-se nas tias mais novas,
vam”, mas Sol não. Sente que se acomodou no namoro,
desejando logo crescer para poder se vestir como adulto,
intuindo ser porque a família gostava dele.
sem as críticas da mãe, que não a deixava usar este tipo
Durante a faculdade “festava muito… curtia muito…
de vestimenta e acessórios por ser nova.
Foram dois anos de festa, festa, festa, resultado: reprovei!
Nunca foi aluna exemplar, chegando a reprovar de sé-
Como estava namorando e tinha que estudar, dei uma
rie, mas seus pais “tinham noção de que não tinha condi-
parada com as festas”. No último ano da faculdade vol-
ção de ir prá frente. Sabiam que não gostava de estudar.”
tou a “festar”, mas o namorado não gostava, “ele tirava
A mãe a castigava, não deixando fazer as coisas que gos-
o telefone do gancho, me proibia de sair. Uma amiga que
tava como ir ao clube e nadar.
morava comigo falava que eu era doida. .”. Terminou de-
pois de um tempo que retornou à casa dos pais.
Namorou outro rapaz que os pais não aceitaram, “eu
A Juventude
tinha que pagar tudo pra ele, emprestar-lhe dinheiro.
Ele me fazia de tonta, apesar de gostar ainda dele. Acho

Aos dez anos mudou-se para outra cidade. Para Sol
que queria ajudá-lo”. Ele terminou com ela quando ar-
tudo era novidade, considerando “uma época muito boa”.
rumou outra namorada. Com o tempo “fui enxergando
Aos 15 anos começou a sair à noite com amigos, tendo
quem ele era”.
que voltar mais cedo que esses devido ao horário estabe-
Após se formar, o pai não quis que trabalhasse, mas
lecido pelos pais, uma vez que para eles “tudo tem o seu
que fizesse um estágio. Assim o fez e recebia uma mesada
tempo”. Não entendia o real motivo do limite dado, por-
“gorda” do pai. Ficou um tempo sem namorar, até quando
que “nada de errado faria”.
o seu antigo amor à primeira vista ligou. Conversaram
Começou a sair com o irmão e seus amigos, e “se acha-
pelo telefone por umas três vezes durante um mês e re-
va” sendo amiga dos amigos de seu irmão. Por vezes dizia
solveram se casar neste ínterim. “Meus pais sabiam que
que ia dormir na casa de uma amiga para estudar, mas
sempre gostei dele”, mas ficaram receosos, uma vez que
saía para “as baladas”. Expressou de maneira saudosis-
para casar teria que se mudar para a cidade dele. O atu-
ta: “Que época boa que não volta mais!”.
al marido, na época ligou para os pais justificando suas
reais intenções com o casamento. Os pais conversaram
com os pais dele para se certificarem. Como seus pais
A Adultez
nunca aceitaram que fossem morar junto, tiveram que se
casar formalmente. Sol conheceu os sogros uma sema-
Na época que fez o cursinho “só tinha o interesse em
na antes do casamento e o marido, os pais de Sol, cinco
festar”. Mencionou que, de sua turma, ninguém passou
dias antes.
no vestibular. Estava ansiosa para se mudar para a outra
Mencionou nunca ter se arrependido dessa decisão,
cidade onde faria mais um ano de cursinho e prestaria o
pois disse que sempre gostou dele. Os pais não acredita-
vestibular novamente. Justifica por assim sair das vistas
vam que poderia dar certo. Para estes, Sol tinha tudo em
dos pais e ter sua liberdade.
casa e a mudança seria radical. Atualmente:
A r t i g o
209
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 205-214, jul-dez, 2011

Sylvia M. P. de Freitas
“[. .] meus pais amam meu marido. Minha mãe trata-
Experienciando o TOC como se fosse duas pessoas
va bem o namorado da minha irmã e passou a tratar
numa só, uma ré e a outra o juiz, podemos chegar a um
da mesma maneira meu marido. Ela não tem meio
psicodiagnóstico que descreve uma pessoa, no momen-
termo, gosta ou não gosta. A maneira como ela trata
to, tendo a sua existência absorvida por este conflito,
as pessoas é o parâmetro para saber se gosta ou não.
mas que busca ansiosamente dar fim nesta batalha, só
Ela não faz questão de agradar, mas quando gosta
que, por não ter apropriado seu projeto de Ser, não sabe
faz de tudo!”
a quem entregará o troféu de vencedor: se ao réu ou ao
juiz. Portanto, o projeto terapêutico engendra o caminho
Casou-se, gosta do marido, “ele é uma ótima pessoa”,
para que ambos saiam de cena, dando lugar a uma sínte-
dá o respaldo financeiro, mas não como os pais. Ele acre-
se em que a avaliação de seus atos seja balizada a partir
dita que ela pode fazer várias coisas sozinha, sem depen-
de seu próprio crivo e não alienada em projetos alheios,
der dele. No início teve dificuldades porque não conse-
ou seja, que se torne “sujeito de seu ser” (Schneider,
guia trabalhar na sua área. Disse não ter nascido para
2011, p. 271).
fazer serviços domésticos. No 1º ano de casada fez cur-
Destarte, até que tal intento seja alcançado, veremos
so de inglês, mas estava sem dinheiro. Não conseguindo
a seguir, “as variáveis fundamentais na constituição dos
serviço em sua área, foi trabalhar em uma franquia de
impasses psicológicos [de Sol], compreendidos no hori-
comida. “O primeiro dia foi a morte. Tendo diploma su-
zonte da sua personalidade” (ibdem, p. 270), ou seja, como
perior, estava eu ali servindo as pessoas”.
Sol se sabe, a partir de sua dinâmica psicológica constru-
Este foi seu primeiro trabalho depois de casada, em
ída através do diálogo que trava com o mundo.
cujo ambiente de trabalho, sentia-se todo o momento con-
trolada, por haver câmeras e qualquer suspeita de que os
funcionários façam algo errado são chamados à atenção,
2º momento: elaboração da problemática – possibi-
correndo o risco de demissão.
litando a Compreensão terapêutica
Após alguns meses nessa empresa, Sol começa a de-
senvolver os pensamentos obsessivos de que estava fa-
O homem sartreano sendo corpo/consciência (em-
zendo alguma coisa errada e de que poderia prejudicar
si-para-si) é um homem em relação: “entre consciên-
alguém, bem como os comportamentos relacionados ao
cia e corpo, relação com o mundo que o cerca, relação
excesso de limpeza e verificação exagerada e repetitiva
com a exterioridade” (Schneider, 2011, p. 213). Como
dos ambientes e de suas ações para com os outros.
ser-no-mundo, sua intencionalidade está voltada sem-
Mencionou que a vida de casada sempre foi uma roti-
pre para o exterior. Assim, sua consciência estabelece
na, mas tem que acompanhar o marido. Na adolescência,
relação com a materialidade. Nascemos num mundo
os pais bancavam tudo e agora tem que correr atrás.
já posto, que se nos apresenta com uma história dada
Há dois meses, já em psicoterapia, Sol foi demitida
e com condições materiais pré-existentes ao nosso
desse emprego, pela armadilha de ter seguido instruções
nascimento.
de sua chefia superior que foram contra as normas da em-
Sol nasceu na metade da década de 70, no berço de
presa. Tal atitude embasada no medo de colocar limites a
uma família católica, com padrões rígidos de criação, os
tal instrução e ser demitida, não garantiu sua permanên-
quais se confrontavam com um Zeitgeist5 de transição de
cia no emprego, desprotegendo-a, quando os superiores
valores culturais e econômicos. O Brasil, apesar de ainda
descobriram a transgressão das normas.
estar sob a ditadura militar do então Presidente Ernesto
Ao comunicar seus pais que fora demitida, ainda
Geisel, vivenciava o auge do movimento feminista, a eclo-
“tive que ouvir de minha mãe a pergunta sobre o que eu
são dos movimentos musicais de rock in roll, do início
tinha feito de errado e que estava com vergonha de mim!”.
da era Dancing Days, com o surgimento das discotecas
Ficou alguns dias desempregada, e conseguiu emprego e do movimento punk. Na moda as vestimentas e adere-
em outra lanchonete onde se encontra trabalhando até
ços aparecem com muitas cores e brilhos. A calça boca
o momento.
de sino, sapato plataforma, saltos altos e finos com meia
Podemos observar, através do sucinto relato da his-
lurex, ou seja, a moda Psicodélica foi de encontro a tudo
tória de Sol, que não há como não considerar que a
que era tradicional. Para sobreviver a esse movimento de
mesma apresenta um quadro nosológico de TOC. No contracultura, os padrões das famílias tradicionais ne-
entanto, através deste quadro, Sol nos anuncia como cessitavam enrijecer.
lida com a contradição entre sua responsabilidade e o
Quanto à condição financeira estável da família, po-
julgamento do outro, que a coloca em cheque. Através deria ser beneficiada também pelo período de crescimen-
dos comportamentos obsessivo-compulsivos parece to econômico que o Brasil passava. Sol então, ao nascer
mostrar como vivencia a angustiante batalha entre as
e durante parte de sua infância, se deparou com uma
suas reais ações, como por exemplo, a de que não ter
exterioridade que mostrava um contexto de abertura de-
feito mal a alguém, ou mesmo ter apagado a luz e a dú-
A r t i g o
vida sobre estas.
5 Espírito da época.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 205-214, jul-dez, 2011
210

Uma Análise Existencialista para um Caso Clínico de Transtorno Obsessivo Compulsivo
mocrática, mas no familiar, em contraponto, ocorria um
num movimento do futuro para o passado, condição da
recrudescimento dos padrões de educação.
consciência intencional projetar-se no futuro, ascender
Como toda relação do homem é dialética (interioriza-
o passado e realizar as escolhas no presente, sintetizan-
ção do exterior e exteriorização do interior), Sol se apro-
do assim, passado, presente e futuro. No entanto, essa
priou da segurança financeira de maneira conflitante: se
temporalização real, antropológica nem sempre é expe-
por um lado tinha a segurança financeira oferecida pelo
rimentada desta maneira pelo sujeito. Este geralmente
pai, por outro se sentia culpada por depender deste, posto
entende o passado como determinante de seu presente
que as possibilidades dadas para usufruir o que desejava e futuro, tornando assim, uma temporalização aparente
eram também colocadas com cobranças.
(Schneider, 2011).
No tocante às regras impostas em sua criação, não via
Sol teve seu futuro praticamente delineado pela sua
sentido em algumas, inclusive a de ter que sair das fes-
criação. Como deveria agir, ter e ser fora predefinido pe-
tas mais cedo que seus amigos. Sol se sentia culpada por
los projetos dos pais, contudo, não a estimularam a arris-
poder fazer coisas erradas aos olhos dos pais, sem saber
car e aprender, do seu jeito e no seu tempo, o como fazer.
o fundamento deste prejulgamento.
Aprendeu que devia ser responsável no que faz, mas o fu-
O projeto dos pais com relação ao filho ideal foi ex-
turo tornou-se ameaçador, ansiógeno, quando deve criar
teriorizado por estes através de ações que Sol deveria
saídas, haja vista que, para Sol, no passado estas eram
desempenhar: estudar, fazer faculdade, estagiar após se
criadas por outro. Diante o nada do vazio, paralisa-se,
formar ao invés de trabalhar, chegar mais cedo em casa,
dorme, tem preguiça, e assim age para recusar o risco. Da
usar roupas adequadas para sua idade, ter amigos como
mesma maneira ansiógena lida com o pensamento de ter
seu irmão, namorar um rapaz com o perfil traçado pela
feito algum mal aos outros ou ter deixado algo por fazer
família, enfim, tal projeto foi interiorizado por Sol como
e que pode trazer algum dano, na verdade, não ao outro,
aquele que limitava sua espontaneidade, sendo assim,
mas a ela. No caso do Toc, precisa assegurar-se, através
vivenciar suas escolhas sem julgamentos, somente lon-
do outro, que seu futuro não está ameaçado, quando lhe
ge dos pais. Prazer e diversão somente nesta última situ-
pergunta se fez algo de errado.
ação, porém, continuava financiada por eles. O prazer e
Só podemos nos conhecer através do outro. Assim a
as obrigações são entendidos por Sol de maneira dicotô-
criação do nosso Eu perpassa antes o olhar alheio. Na sua
mica, sem haver um diálogo entre eles, somente na base
relação com o outro, Sol o percebe como seu juiz, seu
financeira.
inferno. Sendo o outro quem define os caminhos a serem
A relação com o corpo, outra condição constituti-
trilhados no percurso das obrigações e compromissos,
va da existência, faz-se importante mencionar. O corpo
tornou-se dependente desses para não correr risco, mas,
não deve ser entendido de maneira cartesiana, separado
paradoxalmente, os outros também são os que limitam
da consciência. Ambos integram-se6, totalizando o Ser.
sua liberdade relacionada ao prazer e diversão. Estabelece
É por meio do corpo que mediamos nossa relação com
então, uma relação conflituosa com os outros: estes são
o mundo.
interiorizados como protetores-castradores e não como
Schneider (2011) menciona que Van Den Berg (1981)
limitadores-possibilitadores.
sustenta duas maneiras de o sujeito relacionar-se com o
De acordo com a maneira como trava a relação com
corpo: o corpo como ser-para-o-outro e o corpo que sou
o outro, a sua com o TOC se dá fundamentada através
(corpo ser-para-si). No primeiro, o corpo é visto de fora,
de um Eu dividido. Vivencia um estranhamento com re-
é o corpo alienado ao ponto de vista dos outros, é o cor-
lação aos seus pensamentos sobre fazer mal a alguém.
po abstrato, e o segundo, o corpo concreto, aquele que
Apesar de ter os pensamentos obsessivos, sabe que não
vivencio enquanto espontaneidade por ser meu instru-
fez e que não fará mal se não quiser. O mesmo ocorre
mento no mundo e meta de minhas ações.
com os comportamentos de verificação dos ambientes,
A maneira como Sol fala de seu corpo, mostra-nos
de lavar as mãos e de questionar as pessoas se a fez al-
interiorizá-lo a partir do olhar do outro. Sentia-se gordi-
gum mal. Tem a compulsão, faz, mas sabe que não há
nha e feia na infância, tendo como fundamento a crença
necessidade.
de que os meninos não gostavam dela. Atualmente cui-
Tal vivência pode ocorrer porque ter conhecimen-
da de sua aparência, faz regime, pois ainda percebe seu
to de algo não significa ter consciência reflexiva de.
corpo de maneira distorcida, sendo sempre mais avanta-
O Eu só surge diante a consciência reflexiva, uma vez
jado do que é. No entanto, interessante compreender que
que somente ela posiciona o Eu no mundo, sendo as-
em alguns comportamentos relacionados ao Toc, o corpo
sim, podemos desvelar o projeto de Ser de Sol, através
sujo é apropriado como o corpo ser-para-si.
de suas ações, as quais não mostram uma consciência
A relação que travamos com a temporalidade tam-
reflexiva do Eu que, por sua vez, de maneira irreflexi-
bém deve ser visada. Sabemos que o existencialismo
va, se sabe sendo.
compreende que os acontecimentos históricos são criados
6 Corpo/Consciência = Somos.
A r t i g o
211
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 205-214, jul-dez, 2011

Sylvia M. P. de Freitas
desvelando o projeto de Ser: o eu alienado
mas ainda não posicional do Eu (Sartre, 1965; Bertolino
et al, 1998 citados por Schneider, 2002, p. 339), Sol re-
Conforme podemos compreender a dinâmica psico-
flete que os pais criaram para ela o projeto de filha per-
lógica de Sol, esta por se saber sendo impotente, inca-
feita, mas paradoxalmente, para atingirem o projeto de
paz, limitada intelectualmente, medrosa, preguiçosa,
serem pais perfeitos, uma vez que para serem pais bons,
feia, má, rejeitada, mas responsável: (1) projeta ser uma
precisam ter filhos problemáticos. “Meus pais me deixa-
pessoa com segurança financeira, mas financiada pelo
ram dependente, impotentes, limitada ao traçarem meus
Outro (no caso atual, o marido); (2) por meio do traba-
caminhos, buscarem solucionar meus problemas, me ban-
lho busca ser reconhecida pela sua honestidade e res-
cando financeiramente.”
ponsabilidade, não suportando dúvidas sobre sua ido-
Colocou que sua educação foi direcionada para a
neidade; (3) idealiza ser amada como uma boa filha.
obediência, o que gera passividade e infantilidade. Não
Pela culpa em omitir seus erros e fracassos dos pais, dá
a deixaram arriscar e assumir as consequências de suas
satisfações de sua vida para eles, o que ratifica seu sen-
escolhas, “até porque o que eu escolheria poderia ir con-
timento de rejeição quando eles a julgam e; (4) mantém
tra os valores deles. Só que me criticam também por não
o corpo sob excessivo cuidado (corpo abstrato) para ser
arriscar. Parece não haver saída na relação com eles, ou
bonita para o Outro. Mas, por estar magra, continua re-
sou do jeito que eles querem ou não tenho valor!”.
cebendo críticas.
No tocante as suas relações amorosas, acredita que
Vemos aí um Projeto de Ser-para-o-outro, cujo Eu fra-
para seu pai nenhum homem seria tão bom para ela quan-
cassado foi interiorizado pelo olhar do outro. Sem passar
to ele, mas que atualmente conseguem aceitar seu marido
pelo seu senso crítico, a fim de poder escolher com mais
e ver que este é bom. Até aqui Sol posiciona o Outro no
reflexividade sobre o que criaram para ela, Sol aceitou
mundo, mas é necessário que realize uma reflexão críti-
e assentou este Eu. Mesmo que apresente em alguns de
ca, posicionando seu Eu para si.
seus comportamentos uma tentativa de libertação deste,
o faz com culpa, expondo-se e interiorizando as críticas,
uma vez que a maneira como tenta se livrar deste fardo,
Reflexão Crítica
não é de maneira transcendente, mas em oposição, apa-
recendo para o outro como um confronto que também
Intervindo durante o processo psicoterapêutico, de
o ameaça.
maneira a mostrar-lhe suas escolhas diante esse mundo
Diante esta compreensão, o trabalho com Sol foi
que se deparou, até o momento, Sol conseguiu apropriar-
encaminhado para que a mesma pudesse apropriar-se
se de algumas escolhas que faz, fundamentadas em seu
desse Eu que se sabe sendo, construído no modo como Projeto de Ser, questionando-as e redimensionando-as,
estabeleceu relação com a realidade. Sem a consciên-
a saber: (1) no tocante às satisfações que dá aos seus pais
cia reflexiva deste, impossível responsabilizar-se como
sobre seus erros e fracassos, atualmente têm consciência
também construtora do mesmo e assim poder redimen-
de que é uma mulher adulta e casada, que não precisa
sionar seu Ser.
dar-lhes essa obediência, mas que para isso, precisa ser
Veremos a seguir como ocorreu este processo de re-
independente financeiramente, não emprestando mais di-
dimensionamento até o momento.
nheiro deles. “Meu pai não aceita que eu o pague, diz que
estou com pouco dinheiro, mas assim eu crio uma dívida

Redimensionando o projeto de Ser
afetiva”; (2) quanto as suas relações com o outro, inclu-
sive no trabalho, não permite mais que a hierarquia seja
Reflexão Espontânea ou Cúmplice
justificativa para tratarem-na mal. “Não é porque é meu
superior que tem o direito de falar do jeito que fala. Que

Como coloca Schneider (2002, p. 168):
aponte meus erros, mas não precisa ser sem educação”
e; (3) sobre o TOC, coloca que está melhorando. “Consigo
Um homem escolhe-se em uma dada estrutura de
não voltar atrás para verificar se está tudo desligado em
escolha; a escolha não é, portanto, gratuita, deter-
casa. Se eu tenho a certeza que desliguei, saio, mesmo
minada unicamente por seu desejo de sujeito, mas
com o coração apertado. Estou duvidando menos do que
é uma escolha a partir das possibilidades que se lhe
faço”. Atualmente Sol toma um comprimido do Lexapro,
apresentam e frente às quais ele não pode deixar de
três vezes na semana.
escolher.
Em busca desta elucidação do Projeto de Ser, a
psicoterapia encaminha-se com o propósito de ajudar
A estrutura de escolha com que Sol se deparou du-
Sol a conscientizar-se de que nossa existência não é
rante sua infância, foi a de uma criança que não corres-
determinada, mas sim construída. Os resultados da
pondeu às expectativas do perfil de filha já desenhado
nossa relação com o mundo escrevem a nossa histó-
pelos seus pais antes mesmo dela nascer. De uma maneira
ria, portanto, podemos também escrevê-la de maneira
A r t i g o
irreflexiva, que posiciona as coisas e pessoas no mundo,
não alienada.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 205-214, jul-dez, 2011
212

Uma Análise Existencialista para um Caso Clínico de Transtorno Obsessivo Compulsivo
um Ser em Construção: Considerações finais
e prazer, excluindo aqueles relacionados aos compromis-
sos e obrigações, Sol paradoxalmente, enquanto festava,
Diante todo o exposto, acompanhamos, mesmo que de
perdia a admiração dos pais, projeto também a ser con-
maneira breve, a história de uma mulher sufocada por um
quistado por ela. Pelo lado dos pais, que a viam incapaz
projeto de ser construído mesmo antes de sua existência.
de agir com responsabilidade e ter sucesso em seus em-
A maneira dicotômica como interiorizou o mundo,
preendimentos, cobriam financeiramente os prejuízos
oportunizou vivências contraditórias entre perfeição x
causados.
imperfeição, certo x errado, dependência x independên-
Mesmo tendo a imagem de Sol como uma pessoa ima-
cia, maturidade x imaturidade, alienação x liberdade.
tura e incapaz, os pais, ao buscarem consertar financei-
Filha de pais cujo projeto de filhos perfeitos é defini-
ramente suas ações inconsequentes, oportunizando a Sol
do por aquele que não dá trabalho, mas orgulho, Sol fra-
e aos outros dois filhos as condições objetivas para que
cassa desde seu nascimento, não se mostrando um bebê
nada os faltassem, e indicando o melhor caminho a ser
“bonzinho”. Ao chorar frequentemente, sem que o moti-
seguido, mostram o projeto de Ser pais a ser perseguido
vo fosse descoberto, nem pelos especialistas, começou a
e mantido, circunscrito num projeto social.
tirar a tranquilidade dos pais no sucesso de terem uma
Vemos até aqui a trama da história de Sol tecida pela
filha que correspondesse suas expectativas.
sua e por várias outras mãos, bem como ajudava a escre-
Frustrando o projeto inicial que fizeram para ela,
ver também a história dos pais, da família e da socieda-
opostamente, os pais interiorizaram a imagem da filha
de, tal como coloca Schneider (2002, p. 120):
imperfeita. Quiçá, a mãe ao contar-lhe o episódio de sua
história sobre seu choro, Sol tenha percebido a decepção
O homem faz a história, ao mesmo tempo em que é
em sua fala e o quanto dera trabalho para os pais e os
feito por ela. Eis o processo dialético que engendra
deixara impotente. Perceber-se irreflexivamente, como
a realidade sócio-cultural. No entanto, é preciso
uma criança problemática, por não fazer nada certo se-
assinalar que a história não está em meu poder, ela
gundo os pais, fez sentir-se o patinho feio da família e
me escapa.
não amada por eles.
Destarte, no decorrer de sua infância e adolescência,
Se por um lado tinha como ponto de referência os
os comportamentos da filha problemática passam a ser
modelos impostos para se debater, por outro Sol não
foco de controle dos pais. Normas de conduta compõem a
aprendera, nem foi ensinada a criar saídas alternativas.
cartilha da boa educação de Sol e a culpa, o instrumento
Padrões predefinidos e caminhos orientados ajudaram
de controle e manipulação. Sufocada pelos limites im-
Sol a estabelecer seu ponto de referência no mundo, in-
postos à sua liberdade, Sol busca experienciá-la de ma-
clusive seu Eu real fora baseado empiricamente na opo-
neira opositiva ao projeto dos pais. Mas nessa busca por
sição do ideal imposto, e afetivamente na ausência do
ações orientadas somente pela liberdade ontológica, Sol
reconhecimento de sua capacidade. Um Eu paradoxal-
não tinha consciência de que suas escolhas ratificavam
mente construído através das faltas: dos impedimentos
o Ser diferente e problemático definido por eles. A cada
de se expressar como desejava, da incapacidade de obter
ação diferente do que se esperava dela, um olhar que a
sucesso, do afeto que envolve a admiração. Foi assim que
julgava e punia pelo seu fracasso em ser um modelo a ser
Sol conhecia seu Eu: impotente, limitado, incapaz, fra-
seguido. Foi através das repetições dos empreendimentos
cassado, errado, acomodado, dependente dos pais, mas
de ambos os lados, que a relação dependente entre Sol e
não admirado e não amado.
seus pais se sintetizou.
Com relação ao TOC, Sol o experiencia como um even-
A tese dos pais, que compreendia os seus padrões de
to ahistórico, singular, desconectado de uma possível
conduta, foi um dos focos a ser combatido por Sol, mas
construção com o social. Compreendendo como um even-
ao buscar transcendê-la, o fazia negando o ser em situa-
to isolado, de sua única responsabilidade e que reforça
ção, não compreendendo que:
seu projeto de Ser uma pessoa que faz coisas erradas, Sol
busca em sua família de origem o apoio de sua cura.
O homem é condenado à liberdade, numa perspectiva
Mais uma vez a família é acionada para proteger as
ontológica, pois não pode deixar de escolher; no sen-
ações de Sol, agora diante algo inusitado e desconheci-
tido antropológico, contudo, ele nunca é inteiramente
do, que os deixam impotentes, como sempre devem ter
livre, pois como diz Sartre na Questão de Método, “a
se sentido na criação desta. Como na época que chorava
alienação está no ápice e na base”, quer dizer, o homem
quando era bebê, a família procura ajuda de um especia-
nunca será inteiramente desalienado, já que sua condi-
lista, no caso o psicoterapeuta.
ção de ser-com-os-outros o coloca sempre em poder dos
Partindo da história de Sol, de seu projeto de Ser, o
demais [grifo da autora] (Schneider, 2002, p. 168).
trabalho realizado em psicoterapia visa, de uma manei-
ra geral, a ajudá-la a apropriar-se do projeto fundamental
Assim, ao direcionar a possibilidade da experiência
que criou para si, buscando altera-lo ou não, mas a partir
livre somente aos contextos que compreendem diversão
de seu próprio crivo.
A r t i g o
213
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 205-214, jul-dez, 2011

Sylvia M. P. de Freitas
Os caminhos percorridos para a conquista deste obje-
Referências
tivo mais amplo envolvem alguns outros mais específicos,
tais como: (1) a compreensão de quais valores embutidos
Cahet, H.J.P. (2008). Sartre: aspectos de noção de consciência.
no projeto dos pais, fundados numa forte moral religiosa,
Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Santa
de uma família patriarcal com certo tom de preceitos ma-
Catarina, Florianópolis, Santa Catarina.
chistas, fazem sentido para ela, como aqueles que deseja
Husserl, E. (1988). Elementos de uma elucidação fenomenológi-
descartar; (2) o reconhecimento da diferença entre as pre-
ca do conhecimento. In HUSSERL, E. Investigações lógicas:
ocupações e medos fundados em situações reais, objetivas
sexta investigação: elementos de uma elucidação fenome-
e aquelas apoiadas em situações somente imaginárias e
nológica do conhecimento. São Paulo: Nova Cultural. (pu-
subjetivas; (3) a compreensão do nexo de suas ações que
blicado originalmente em 1901).
se enquadram no diagnóstico tradicional de TOC, com
Sartre, J-P. (1997). O Ser e o Nada. Ensaios de ontologia feno-
seu Projeto de ser; (4) a consciência de que precisará criar
menológica. Rio de Janeiro: Vozes. (Publicado original-
saídas alternativas para situações em sua vida, ao invés
mente em 1943).
de esperá-las prontas, conhecendo seus valores como
ponto de apoio para essas escolhas, e que isso também
Sartre, J-P. (2002). Crítica da razão dialética. Rio de janeiro:
DP&A. (Publicado originalmente em 1960).
envolvem riscos, mas que mostrará através de ações mais
maduras e protetoras de si, por estarem situadas na sín-
Schneider, D. R. (2002). Novas Perspectivas para a Psicologia
tese de suas limitações e possibilidades, podendo assim
Clínica - um estudo a partir da obra “Saint Genet: comédien
responsabilizar-se mais facilmente por elas.
et martyr” de Jean-Paul Sartre. Tese de Doutorado, Pontifícia
Observo que nos caminhos da psicoterapia que esta-
Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.
mos construindo juntas, a liberdade que antes era vivida
Schneider, D. R. (2011). Sartre e a psicologia clínica. Edufsc:
por Sol como se fosse errada, chegando a considerar-se
Florianópolis, SC.
“muito doida”, hoje é compreendida como uma “loucu-
ra com responsabilidade”,
uma vez que também em suas
diversões, escolhia de maneira consciente não transgre-
dir alguns fundamentos da moral que embasa os valores
Sylvia Mara Pires de Freitas - Psicóloga. Mestre em Psicologia
Social e da Personalidade (PUC/RS). Especialista em Psicologia
paternos, por concordar com estes.
do Trabalho (CEUCEL/RJ). Formação em Psicologia Clínica na
Conseguiu também perceber, que o estranhamento
abordagem existencial (NPV/RJ). Docente dos cursos de Psicologia
que sentia com relação aos pensamentos obsessivos era
da Universidade Estadual de Maringá (UEM/PR) e da Universidade
o mesmo que sentia diante a falta de sentido de algumas
Paranaense (UNIPAR/PR). Endereço: Av. Colombo, 5.790 - Bloco 118
(DPI). Jardim Universitário. Maringá. Paraná. CEP 87.020-900. E-mail:
regras impostas pelos pais, como, por exemplo, ter que
sylviamara@gmail.com
chegar às 22h em casa, enquanto suas amigas poderiam
continuar se divertindo, sabendo que ela não iria fazer
nada que abonasse sua conduta, mas mesmo assim jul-
Recebido em 03.07.11
gava-se errada, como já dito anteriormente.
Aceito em 16.11.11
Por fim, reconhece agora, que na vida há também li-
mites e regras, obrigações e compromissos, e a maneira
como deve lidar com elas requer sintetiza-las as suas pos-
sibilidades. E assim, vamos construindo nossos encon-
tros psicoterapêuticos.
A r t i g o
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 205-214, jul-dez, 2011
214


...............
s

s
s
i
c
o


c
l
á

s
x
t
o

t
e



Sobre o Conceito de Sensação
textoS CláSSiCoS
SoBRe o ConCeito de SenSação1
José ortega y gasset
(1913)
Por ainda ser sumariamente escassa a produção na-
tor em questão se ocupa especialmente de um desses
cional [Espanha] de temas com sentido filosófico, estarei
conceitos: a sensação. Passa, então, a revisar certas defi-
ocupando essa seção da Revista de Libros com trabalhos
nições típicas da sensação como um elemento psíquico.
estrangeiros, com mais freqüência que em outras revis-
Tais definições vêm de Ebbinghaus, de Fr. Hillebrand,
tas. Dessa maneira, espera-se que o leitor possa, em torno
de Wundt, etc.
de um ano, colocar essas notas como índice da situação
A primeira definição encontrada é o que Hoffmann
em que se encontra a presente filosofia, pelo menos en-
chamou de “sensação pura”. Segundo Ebbinghaus são
quanto afeta os problemas superiores e decisivos. A oca-
sensações aqueles conteúdos da consciência “produzi-
sião é propícia. Assistimos um renascimento daquilo que
dos imediatamente na alma por excitações exteriores,
Schopenhauer chamava de “necessidade metafísica” do
sem intermediários específicos, em especial sem expe-
homem. Para as pessoas educadas em pleno século XIX é
riências; puramente à mercê da estrutura inata dos ór-
incompreensível esse retornar novíssimo e vigoroso, por-
gãos materiais de uma parte e, por outra, a maneira ori-
que talvez só tenha sido no século X que a Europa chegou
ginal da alma reagir frente os impactos nervosos”. Em
a uma mínima pressão filosófica dessa forma. Contudo,
tal definição, tem-se a sensação como algo que, segundo
quiseras ou não, esse fenômeno se apresenta com carac-
ela mesma, não poderia estar na consciência real de um
terísticas indubitáveis.
indivíduo adulto. Nessa consciência adulta todo o con-
Deixando para uma outra ocasião o estudo desse fenô-
teúdo se apresenta fundido nas experiências (recorda-
meno que, em verdade, serviu de tema de uma das con-
ção, imagens, etc.). Segundo essa concepção, a maioria
ferências populares dadas por mim em Ateneo, no ano
de tais sensações “puras”, só poderá existir na consciên-
1912; hoje, limito-me a dar conta da parte crítica da tese
cia do recém-nascido. Com essa observação, parece cla-
de doutorado abaixo citada2.
ro que se trata de uma hipótese análoga aos átomos da
O senhor Hoffmann foi discípulo de Edmund
física. Assim, a “sensação pura” constitui um objeto ide-
Husserl3, professor de Gotinga. Com isso fica dito qual o
al, construído por reflexão metódica, com o fim de fazer
propósito geral de seu trabalho. A influência – cada vez possível a explicação da gênese psíquica. Porém, longe
maior – da “fenomenologia” sobre a psicologia tende a
de colocá-la presente na consciência real, por ser isso um
separar, de modo mais radical e salutar, a descrição da
problema inconcluso, ou seja, um x a determinar assinto-
explicação.
maticamente. Na acepção de Hoffmann, esse conceito de
Na psicologia atual e em Wundt mesmo, por exemplo,
sensação é necessário para a psicologia genética, contudo
coexistem de forma confusa duas ciências muito dife-
carece de sentido para a psicologia descritiva (é curioso,
rentes: uma que trata de descrever e classificar os fenô-
não obstante, que o defensor mais extremo da psicologia
menos da consciência; e a outra, de construir de forma puramente descritiva – Paul Natorp – nos beneficiou com
causal o mundo psíquico. A diferença de ambas é total,
um conceito parecido de sensação em sua “Introdução à
principalmente se sua diferenciação não for apenas uma
Psicologia” de 1888. Eu espero que na nova edição, cujo
questão formal. Os conceitos psicológicos primários são
segundo tomo ainda não apareceu, ele ofereça de certo
intransferíveis de uma ciência para outra; porém, quan-
modo uma correção).
do se esquece isso, perde-se todo valor e precisão. O au-
Enquanto isso o conceito wundtiano de sensação, na
opinião de Hoffmann, resume-se, como “estado simples,
1 Texto publicado originalmente nas séries de artigos da Revista de
puramente intenso e qualitativo que pode segregar-se
Libros (Madrid), no ano de 1913.
pela análise das diversas percepções sensíveis”. Desse
2 “Estudos sobre o conceito de sensação” (Untersuchungen über dem
modo, a sensação resulta em um elemento da consciên-
Empfindungsbegriff), por Heinrich Hoffmann, Archiv für die gesamte
cia real que por sua natureza elementar não se dá, claro,
Psychologie, tomo XXVI, cadernos 1 e 2, 1913.
3 Grifos nossos (Nota do Editor).
separado e por si mesmo; mas se dá na mera descrição
T e x t o s C l á s s i c o s
217
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 217-223, jul-dez, 2011

José Ortega y Gasset
da imediatez originária da consciência. Não é como as
psicólogos a opinião contrária a Wundt, segundo a qual
sensações do recém-nascido; conteúdo da consciência
só o vermelho, o amarelo, o verde e o azul são simples.
que se define por características completamente opos-
Isso mostra que o tema é muito discutível.
tas aos possuídos pela nossa consciência atual, mas na
Pareceria muito mais discutível se tivéssemos espaço
mera redução dessa e já não sujeito à análise. A simpli-
aqui para referirmos os trabalhos admiráveis de Jaensch
cidade ou irredutibilidade de uma análise maior cons-
e Katz, que tem influenciado Hoffmann, mesmo que só
titui a sensação, segundo Wundt (se entende, deixando
citemos o segundo. Em suma, Hoffmann, reconhece tam-
de lado todo o âmbito sentimental da consciência). Se o bém que o conceito de “sensação simples” é útil para a
conceito de Ebbinghaus era genético, construtivo e hi-
psicologia. No entanto, não pôde se contentar com esses
potético, o de Wundt satisfaz aos propósitos da psicolo-
conceitos, porque “representam mais uma meta que um
gia descritiva, mantendo-se na imanência do esponta-
ponto de partida para a investigação e, consequentemen-
neamente dado.
te, tem que se começar a teoria da sensação com forma-
Até aqui o estudo de Hoffmann não nos oferece nada
ções sensíveis”, mais complexas “que sejam susceptíveis
de novo. No entanto, é digna a leitura de suas considera-
de precisa determinação”.
ções porque servem, por exemplo, para chegar à escassez
Com isso, encerra Hoffmann seu trabalho crítico, e
do pensamento de Wundt. À parte de certas dificuldades
inicia a sua descrição fenomenológica da percepção visu-
internas na concepção dos elementos psíquicos sustenta-
al, segundo os graus de maior e menor complexidade para
das pelo famoso psicólogo – que segundo mostrarei em
chegar a um novo termo, “intimidade sensível” – das sinn-
outro lugar, são maiores das que encontram Hoffmann –,
liche Erlebnis – e detendo-se, sem dizer formalmente, até
é sabido que a exposição de Wundt é de uma pobre cla-
um ponto que está por trás da “sensação” procurada.
reza e de grave imprecisão de fundo.
A tese a que nos referimos é um grato produto da no-
Hoffmann procede com um extremo empirismo, não
víssima tendência que se tem tido no centro de Gotinga.
pretendendo formar um conceito genético de sensação.
Por isso vale a pena expor e discutir seu método e suas
Ao contrário, sustenta que para chegarmos ao conceito de
conclusões, reunindo frente aos comentários de certa
sensação seria preciso estudar isoladamente cada classe
amplitude, todo um grupo de obras recentes, nascidas
de fenômenos sensíveis. Assim, postula que a definição
do mesmo ou parecido espírito. Fica, pois, intacto o tema
e o método definidos por Wundt satisfazem nas ditas original de Hoffmann, que poderíamos intitular assim:
representações sonoras, mas não nas visuais. Naquelas,
o conceito fenomenológico da sensação.
chegamos efetivamente aos conteúdos “relativamente
Quando percebemos algo e, aqui o percebido é o que
independentes”, como Wundt propõe: o som simples,
nos interessa: vivemos definitivamente o ato da percep-
relativamente simples nada mais, mesmo que ainda se
ção. Dito de outra maneira: no momento de uma percep-
integrem à intensidade e qualidade. Certo de que esses
ção tal que nos interessa, também irá se constituir em
dois componentes do som simples são absolutamente
nossa consciência outros atos – por exemplo, de querer,
abstratos; ou dito de outro modo, que o fundamento de
de sentir, e ainda, de pensar – ademais, o ato de perce-
sua distinção pertence a um princípio abstrato toto co-
ber. Contudo, o foco de nossa atenção passa somente por
elo, diferente daquele que chegamos de um acorde aos
este último, que se ergue no centro de nossa vida men-
últimos sons simples.
tal. Essa preferência da atenção por um ato determinado
A facilidade de abstrair o som “simples” dos comple-
em cada instante é o que expressamos ao dizer: vivemos
xos não se repete nas visuais. Ainda, não entendendo
definitivamente esse ato.
bem o que Wundt chama “sensações luminosas incolo-
Mas quando julgamos, quando dizemos, por exem-
res”, pergunta-se: em que consiste a simplicidade de uma
plo: “isso é branco”, nos encontramos com um ato com-
cor? O critério da impossível redução a elementos mais
plexo, cujos elementos são díspares. Há nele um puro
simples não é tão seguro aqui como era na ordem para-
ato de predicação pelo qual afirmamos a “brancura” do
lela ao acústico. Fala-se de quatro cores fundamentais.
“isso”. Contudo esse ato de predicação é impossível sem
Seriam essas as verdadeiras sensações visuais? Wundt
outros atos em que nos é dado a “brancura” e o “isso” ao
afirma que na consciência imediata – e dessa só se fala
que nos referimos. Nesse exemplo que tomamos o “isso”
descritivamente – as cores fundamentais não se dife-
significa um objeto visual presente, portanto, algo que
renciam das cores de transição. O laranja é tão simples
só pode estar frente a nós, mediante um ato perceptivo.
como o vermelho ou o amarelo. Wundt se separa – mais
Já a “brancura”, ao contrário, só pode chegar aos nossos
ainda do que Hoffmann parece notar – de seu critério de
olhos por um ato perceptivo, mas também por um ato me-
simplicidade e o substitui pelo de “saturação”. As cores
ramente imaginativo ou talvez por um ato de fantasia4.
simples são os gesaettigten Farben [cores saturadas]. E,
Percepção, imaginação e fantasia são três classes de atos
no entanto, indo do vermelho ao amarelo, percebemos
que se reúnem em uma classe única, principalmente se
nesse último um processo de combinação até seu triun-
as colocarmos em relação com o ato predicativo. Frente
fo, de modo que as cores, entre o vermelho e o amarelo,
4 Refiro-me ao tema, hoje muito discutido, da fantasia de cores em
T e x t o s C l á s s i c o s
nos pareçam compostas. Por isso é tão comum entre os
cegos de nascimento.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 217-223, jul-dez, 2011
218

Sobre o Conceito de Sensação
a esses atos, temos aqueles mais comuns cuja função é
Por exemplo, limitando a existência de uma espécie de-
“presentificar” simplesmente os objetos. Os chamaremos
terminada, o homem. Essa proposição vale para todo ser
de atos “presentativos”. A predicação não é um ato pre-
capaz de julgar. Não expressa uma conexão fática como
sentativo, porém supõe inevitavelmente esse ato. É, por-
expressa a lei da gravidade. Não nos diz sobre as condi-
tanto, o juízo um ato de segundo grau que se funda em
ções do espaço e tempo (que são fáticas) a que está sub-
atos presentativos ou de primeiro grau. E ainda: o juízo é
metida um juízo. Ao contrário, proclama uma necessi-
uma estrutura de atos em que há um ato fundado e atos
dade absoluta: a de que é impossível ter um juízo sem
básicos ou fundantes.
um ato de presentificação, seja de quem julga, seja esse
Agora bem, essa unidade de atos de diversos graus
um homem ou Deus.
traz consigo uma relação funcional entre eles que se ma-
Tampouco se trata de uma lei dedutiva. Não parti-
nifestam, por um lado, enquanto atendo ao ato superior
mos de um conceito de juízo, de um juízo geral para
– nesse caso a predicação –, também vivo nele e só nele
encontrar ele mesmo, como Kant diria, analiticamente,
me dou conta, não dando conta dos outros atos concomi-
na exigência de fundar-se em outros atos. Na dedução,
tantes. No entanto, não há dúvidas que os realizo; não há
o caso particular não deriva conhecimento. Somos nós,
duvidas de que constituem nesse instante minha consci-
que frente à indução, dizemos: não necessitamos de um
ência, como pode fazê-lo o ato superior. Do mesmo modo,
ato real e presente de juízo, porque ele e só ele traz a lei. .
quando a visão de algo me irrita dou-me conta do objeto
Não é do conceito de juízo que extraímos a lei, senão do
como objeto de minha irritação e não como simples ob-
juízo mesmo, de um juízo qualquer que verificamos ou
jeto de minha visão.
fingimos verificar.
Todo o juízo, dizíamos, se funda em atos presenta-
O caso não é tão estranho como pudera parecer à pri-
tivos. Todavia, os atos presentativos são independentes
meira vista. A visão de algo colorido já basta para estabe-
e não se fundam em outros atos mais simples ainda? A
lecer essa lei: “Não há cor sem extensão sobre aquilo que
questão, como podemos perceber, tende a dispor um con-
se estenda”. Agora bem, o conceito “cor” e o conceito “ex-
junto íntegro de atos da consciência em uma escala que
tensão”, por si mesmos, não possibilitariam nunca essa
cada grau supõe o antecedente como fundamento. De um
lei. Por outro lado, essa lei não se apóia em minha visão
lado encontraríamos uma classe de situações da consci-
enquanto essa seja um fato – como a lei da gravidade se
ência em que é essencial a dualidade de elementos: atos
apóia no fato bruto da situação dos astros no espaço. Não,
definitivos ou aos que atendemos primariamente; e atos
a verdade é que eu não posso separar a cor da extensão:
periféricos (periféricos a respeito ao que fixo a atenção)
isso não depende de minha constituição fática, de meu
cujos atos àqueles se fundam. Do outro lado, aparece com
real poder ou não poder. Não sou eu quem tem poder ou
toda agudeza o problema se há outro tipo de situação da
desejo poder: a lei expressa é que a cor não pode liber-
consciência em que esta se coloque constituída por um
tar-se da extensão.
só ato. O tipo anterior parecia mais essencial a essa, ou
Indução e dedução são métodos indiretos de obter
seja, a funcionalidade entre ato central e ato periférico. proposições verdadeiras. Os termos expressam isso com
Dir-se-ia que a consciência consiste em uma dinâmica
claridade: a verdade é por esses métodos, induzida ou
entre uma zona de atenção e uma zona de desatenção:
deduzida, nunca vista. Toda proposição, mediante o al-
como se para dar-se conta de algo fosse forçoso ter outro
cance, funda sua certeza, eventualmente, nas leis for-
“algo” sem se dar conta disso.
mais que a lógica estabelece para a indução ou dedução
Para resolver a dificuldade e fixar a essência dos
no geral. De modo que, embora a proposição indutiva
atos mais simples sobre o qual se ergue o complexo edi-
se refira aos objetos materiais – os ópticos, por exemplo
fício de nossa consciência integral, convém, pois, trazer
–, sua verdade procede da subordinação ao observado
a análise precisa do ato presentativo mais importante:
em conceitos puramente lógicos. Como em Stuart Mill,
a percepção. Mas, antes, duas palavras sobre o método
que todas as verdades indutivas dependem da verdade
dessa análise.
do axioma (?) e proclama a uniformidade no curso da
De propósito deixamos esse lugar para responder à
Natureza. O axioma cujo qual é muito mais um capri-
pergunta: o que é fenomenologia? O que acabamos de tra-
cho de Stuart Mill, quanto mais uma louvável esperan-
tar é um exemplo de fenomenologia, por isso será mais
ça. Disso resulta que nossas afirmações sobre um obje-
fácil edificarmos uma definição. A propósito: “todo juí-
to físico não extraem seu valor cognoscível do que ele
zo é um ato de segundo grau que se funda em atos pre-
mesmo é, senão de uma complicação entre o que dele
sentativos”, isso possui um valor legal. É uma lei. Mas
possuímos e o axioma geral da indução. O axioma, sem
de onde chega esse valor, lei? Para obtê-la não necessi-
hesitar, perturba todas as afirmações sobre os objetos
tamos investigar muitos atos reais de juízo, basta ape-
concretos.
nas como nos colocaremos diante de um. Não se trata,
O mesmo acontece com a dedução. Também aqui a
pois, de uma lei indutiva, de uma lei empírica; só vale
verdade de uma proposição objetiva se obtém abandonan-
para fatos observados ou, pelo menos, dentro de um es-
do o objeto que se trata, apoiando-se em outras propo-
paço de experiência limitada pelas condições de fato.
sições que se consideram como verdades provadas. Isso
T e x t o s C l á s s i c o s
219
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 217-223, jul-dez, 2011

José Ortega y Gasset
não significa dizer que indução ou dedução não sejam
em atitude natural e espontânea, chamamos o poder de
métodos científicos suficientes: significa simplesmente
execução daqueles.
dizer que não se pode com eles pretender a dignidade de
Suponhamos agora que, ao ponto de ter efetuado em
métodos primários na obtenção da verdade.
nossa consciência, por assim dizer, de boa fé e natural-
A proposição: “estou vendo uma mesa com livros e
mente, um ato de percepção se flexiona sobre si mesma e,
papéis” não deriva sua verdade de nada que não seja o es-
em lugar de viver na contemplação do objeto sensível, se
tado objetivo mesmo que se faz referência. A proposição
ocupa agora em contemplar sua percepção mesma. Essa,
se limita a descrever em expressões uma objetividade pa-
com todas suas conseqüências executivas, com toda sua
tente, imediata, não inferida. O perigo da alucinação não
afirmação de que algo real há em sua frente, ficará, por
põe em risco sua verdade, porque não falo de um objeto
assim dizer, em suspensão. Sua efetividade não será de-
como existindo à parte e independente de minha visão,
finitiva, será só efetiva como “fenômeno”. Notemos que
senão do que vejo, enquanto vejo.
esta reflexão da consciência sobre seus atos: 1º) não os
Portanto, essa proposição supõe em mim a capaci-
perturba, a percepção é o que está antes, só que agora –
dade de dar-me conta dos estados objetivos individuais:
como diz Husserl de maneira esboçada – está posto “en-
essa capacidade se chama percepção, imaginação. ., na
tre parênteses”; 2º) não se pretende explicá-los, senão que
experiência em geral ou intuição individual5. Por essa
descrever o que meramente se vê, da mesma maneira que
intuição é dado um objeto individual, ou seja, um objeto
a percepção não explica o objeto, somente a presencia na
presente, frente a mim em um momento do tempo e em
perfeita passividade.
algum lugar do espaço. A mesa que falávamos é um ob-
Pois bem, todos os atos de consciência e todos os ob-
jeto individual, porque é um objeto que eu tenho agora,
jetos desses atos podem ser “colocados entre parênteses”.
só agora; aqui e só aqui frente a mim.
O mundo “natural” inteiro, a ciência enquanto sistema de
Em todo objeto individual há, portanto, dois elemen-
juízos efetuados de “maneira natural”, tudo fica reduzido
tos: o primeiro, o que o objeto é: a mesa, com sua forma
a fenômeno. E não significa aqui fenômeno no que Kant
e cor, etc.; e outro elemento é a observação de sua exis-
sugere, por exemplo, com algo substancial por trás dele.
tência, aqui e agora. O segundo elemento é o que faz de
Fenômeno é aqui simplesmente o caráter virtual que ad-
um objeto um fato. Como o tempo flui e as relações es-
quire tudo, quando seu valor efetivo natural passa a ser
paciais variam isso leva o objeto ser fato junto a que o
contemplado, em postura espetacular e descritiva, sem
envolve externamente e, por isso, se diz que frente a nós
atribuir-lhe o caráter definitivo. Essa descrição pura é a
só se dão coisas absolutamente fugazes; uma incessan-
Fenomenologia.
te mudança. Contudo, isso é um erro: em toda intuição
A Fenomenologia é descrição pura das essências como
individual pode-se abstrair algo desse elemento que o
é a matemática. O tema cujas essencialidades a fenome-
individualiza e converte em fato o objeto, ficando o que
nologia descreve é tudo aquilo que constitui a consciên-
se abstrai isento das narrações têmporo-espaciais, inva-
cia6. Definição semelhante aproxima de uma maneira
riável, eterno.
perigosa a fenomenologia da psicologia. E, efetivamente,
Meu ato de visão da mesa transcorre: a mesa mate-
as primeiras investigações de Husserl – ainda sem saber
rial – motivo de minha visão – corrompe-se, mas o ob-
ter chegado à fórmula clara – padeceram de uma inter-
jeto “mesa que eu vejo agora” é incorruptível e isento de
pretação psicológica. Husserl mesmo em sua obra de 1900
vicissitudes. Talvez minha recordação dela seja obscura
Investigações Lógicas – fala equivocadamente da feno-
e confusa, mas a mesa que vi, tal e como a vi, constitui
menologia como uma “psicologia descritiva”. Tratava-se
um objeto puro e idêntico a si mesmo. Não é um objeto
de um novo território de problemas que o próprio fun-
individual, mas sim sua essência. A intuição individual,
dador não podia ainda abarcar de uma só vez. Contudo,
chamada na experiência, converte-se sempre em intuição
fica evidente que a nova ciência não é psicologia, se por
essencial. Vejamos como:
psicologia entendermos, segundo o uso, uma ciência des-
Há uma “maneira natural” de efetuar os atos da cons-
critiva empírica ou uma ciência metafísica.
ciência, quaisquer que sejam esses atos. Essa maneira
A fenomenologia separa-se das formas usuais na psi-
natural se caracteriza pelo valor de ação que têm es-
cologia, porque se ocupa exclusivamente das essências
ses atos. Assim, a “atitude natural” no ato de percepção
e não das existências. Em geral, a psicologia trata do fato
consiste em aceitar, existindo diante de nós, uma coisa
da psique humana, como a astronomia do fato dos cor-
pertencente a um âmbito de coisas que consideramos
pos celestes. A existência da consciência humana é um
efetivamente como reais e que chamamos de “mundo”.
suposto constitucional sem a qual a psicologia careceria
A atitude natural no juízo A é B, consiste em crermos
de sentido. Ao contrário, esse suposto é só necessário
resultantemente que existe um A que é B. Quando ama-
para que existam fenomenólogos, mas é indiferente para
mos, nossa consciência vive sem reservas no amor. Nessa
a constituição da fenomenologia. Cabe, com certeza, uma
eficácia dos atos, quando nossa consciência vive os atos
fenomenologia particular da consciência humana. É o que
5 Edmund Husserl, em “Idéias para uma Fenomenologia Pura e uma
6 Edmund Husserl, em “Idéias para uma Fenomenologia Pura e uma
T e x t o s C l á s s i c o s
Filosofia Fenomenológica”.
Filosofia Fenomenológica”, § 75.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 217-223, jul-dez, 2011
220

Sobre o Conceito de Sensação
com maior veemência nos interessará – mas, como será
converter-se-á em um ciência pura e exata. Ou seja, um
possível isso sem uma fenomenologia geral?
triângulo é puramente o que pensamos que ele é; o que
Do que foi dito até aqui, e se meditarmos um pouco,
é como consciência.
deixamos de estabelecer uma distância inequívoca entre
Na fenomenologia, a consciência é o plano da objeti-
fenomenologia e psicologia. Por isso, cabe fazer uma bre-
vidade primária em que tudo esgota seu ser no aparecer
ve observação que acentue sua diferença. A consciência
(phainómenon), mas não como um fato têmporo-espacial
humana – de que trata a psicologia – é, digamos com in-
e nem como realidade de uma função biológica ou psico-
genuidade, um objeto bastante específico, ou seja, mais
física ligada a uma espécie, mas sim, como “consciência
específico que aquela “razão sã” e aquele “entendimen-
de”. Assim, para concluir essa brevíssima introdução do
to são e natural” que se costumava falar em épocas mais
que entendemos por fenomenologia, citemos um exem-
felizes que a nossa. Porque a adição de “humana” traz
plo, seguindo a concepção de Husserl.
uma prudente intenção limitativa, que falta, se falarmos
O brilho metálico é uma evidente peculiaridade lu-
simplesmente “consciência”. Temos, pois, adiante dois
minosa que percebemos envolvendo um objeto de prata.
elementos heterogêneos que aspiram formar unidade de
Um físico estudará o porquê as combinações não paten-
uma coisa: consciência-humana.
tes, não-manifestas, produzem esse fenômeno. O psicó-
Com efeito, por consciência entendemos aquela ins-
logo estudará por quais mecanismos psicofisiológicos
tância definitiva que de uma ou outra maneira constitui
chegamos a essa percepção. O físico, assim, busca num
o ser dos objetos. Se nosso interesse ao falar de “consci-
lado do fenômeno “brilho metálico” a constituição da
ência humana”, como acontece em toda linhagem de po-
coisa material que dele se manifesta. O psicólogo busca
sitivismo, consiste em limitar estritamente a qualidade
a gênese desse fenômeno na realidade da psique indivi-
de ser e não-ser, reduzindo-a às perfeitas relatividades,
dual. Ambos partem do fenômeno, porém, o abandonam
necessitamos pelo menos que o objeto limitado – todos
pelos objetos reais, isto é, objetos científicos, produtos de
aqueles que envolvemos para mediarmos – não seja um
uma operação racional construída. No caso, o fato está
ser relativo e de qualidade limitada. De maneira que o
em entendermos sobre o que é o “brilho metálico” mes-
relativismo e antropologismo mais extremo exijam um
mo; ou de outro modo, que classes de cores e em que dis-
sentido do termo consciência ilimitado e absoluto– pro-
posição, etc., temos que vê-los, para que vejamos “brilho
va da contradição íntima em que aqueles vivem –, den-
metálico”. Em suma, convém fixar a essência dele, do
tro do qual se constituirá, como objeto entre nós, o objeto
que vejo enquanto, e só enquanto vejo. Parece coisa ób-
“consciência humana”. Esse sentido é o que tem o termo
via e supérflua? Então, ensaie uma definição para esse
consciência na expressão “consciência de”: “consciência
fenômeno e verá como esta tarefa é extremamente peno-
de” branco, da figura, da existência, etc.
sa. Provavelmente não se tem dado uma descrição satis-
Quando Descartes supôs que todas nossas predica-
fatória de coisa tão trivial. Se a tivéssemos à mão, pos-
ções sobre as coisas padecem de erro; ainda, quando se
suiríamos a definição da “consciência de” brilho metá-
coloca entre parênteses toda objetivação transcenden-
lico, a qual valeria a pena ao humano, sobretudo, para o
tal, toda afirmação ou negação de algo como realidade,
infra-humano e sobre-humano. Todo sujeito, divino ou
adverte-se que nem por isso tem-se concluído o âmbito
mundano, para quem o brilho existe, perceberá da mes-
íntegro do ser. Que anuladas pela dúvida todas as nossas ma maneira o essencial.
proposições transcendentais, continuam possuindo uma
Como vemos, a fenomenologia goza de uma aborda-
constância, um ser absoluto tomadas como meras cogita-
gem invejável, digna de prestígio histórico, sem arreba-
tiones. Na cogitatione, na consciência, chegam todos os
tar novidade. Todo clássico idealismo – Platão, Descartes,
objetos de uma vida absoluta. O ser real, o ser transcen-
Leibniz, Kant – partiram de tal princípio fenomenológico.
dente poderá ser de outro modo que como eu penso que Os objetos são, antes que reais ou irreais, objetos, ou seja,
ele é, mas o que eu penso é tal e como eu penso, seu ser
presenças imediatas frente à consciência. O que faz a fe-
consiste precisa e exclusivamente no ser pensado. Assim,
nomenologia ser inédita consiste em interromper o mé-
o real tem dois lados: o que dele aparece na consciência,
todo científico no plano do imediato e patente enquan-
o quê se manifesta e, ademais, aquilo que não se mani-
to tal do vivido. O erro a ser evitado radica que, sendo a
festa. Assim, um corpo físico é essencialmente uma du-
pura consciência o plano das vivências7– a objetividade
alidade, porque não pode manifestar-se; se aparece em
três dimensões, somente em uma série e sucessivas co-
7 Edmund Husserl em “Idéias para uma Fenomenologia Pura e uma
gitationes (que nesse caso chamaremos percepções) par-
Filosofia Fenomenológica”, § 75. Aproveito essa ocasião para pedir
auxílio em uma questão terminológica aos que se interessam pela
ciais – agora de um lado, depois do outros, etc. No en-
filosofia espanhola se, como creio, filosofia espanhola significar só
tanto, como tem profundidade, tem um interior que vai
a filosofia explicada em vocábulos e que sejam para os espanhóis
se manifestando em séries de percepções até o infinito;
plenamente significativos. O caso que agora me refiro trata de um
curioso problema que hoje tem conquistado atenção de toda a filoso-
de sorte que, o que do corpo físico é como realidade in-
fia alemã e, contudo, faz poucos anos – que não chegam a cinqüenta
tegral, nunca obter-se-á por completo a evidência, por ser
– que tivemos pensadores alemães que buscaram ou compuseram
fenômeno e consciência. E é por isso que a física nunca
uma palavra nova que vou expressar. Essa palavra, Erlebnis, foi in-
troduzida, segundo penso, por Dilthey. Depois de dar muitos rodeios
T e x t o s C l á s s i c o s
221
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 217-223, jul-dez, 2011

José Ortega y Gasset
primária e envolvente –, quer circunscrever-se dentro de
Antes de qualquer avanço, Hoffmann distingue entre
uma classe parcial de objetos como sendo a realidade. A
o que chama “coisa” o físico e o que pensamos no cotidia-
realidade é “consciência de” a realidade; mal pode, por
no. A “coisa” do físico é um composto de átomos, por defi-
sua vez, ser a consciência uma realidade. Bem, isso por-
nição, imperceptíveis, dotada de qualidades, que em rigor
que a psicologia considera a “consciência humana” como
também são imperceptíveis. Algo, portanto, indisponível
uma realidade que nasceu em um dia determinado e em
para a percepção; um ente só racionalmente abstrato. As
um ponto do espaço sobre o feixe do real. Porém, sem
chamadas “qualidades secundárias” são atribuídas pela
esquecer que não é o que tem na consciência, mas o que física, não às coisas; mas sim seu influxo mecânico sobre
tem de humana quem faz daquela unidade um tema de
nossos órgãos do sentido. Ao contrário disso: “quando na
estudo realista. A mecânica é uma parte da pura consci-
vida ordinária falamos de coisas, entendemos algo corpó-
ência, cuja verdade e não-verdade, juntamente com seus
reo que completa o espaço (o aparente, não o geométrico),
juízos, raciocínios, etc., é completamente alheia a toda a
que tem essa ou aquela situação frente às outras coisas,
determinação tempo-espacial. Como poderá ser um pro-
que em seu interior, assim como nas diversas partes de
blema para uma psicologia realista? Não o é, com efeito,
sua superfície possui tal cor; a que atribuímos certa re-
nem poderia sê-lo; tal equivaleria a estudar a influência
sistência contra a pressão; um certo grau de dureza, de
da gravitação nas leis do xadrez. O que se pode estudar
polimento ou aspereza, etc. ” A física parte dessas proprie-
na psicologia é: por que o corpo da mecânica ideal, a
dades, arrebatando umas, adicionando outras, chegando
“consciência de” a mecânica se atualiza no corpo vivo
a formar o que Hoffmann chamou de “coisa atômica”, em
de um inglês em tal data exata. Não, pois, a consciência
oposição a “coisa sensível”. Essa “coisa sensível” é o conte-
mesma, mas a entrada e saída dos conteúdos da consci-
údo da percepção plena. Essa coisa existente agora entre
ência em um corpo ou, o que me é indiferente em uma
nós no espaço em que percebemos, de tal e qual forma,
alma, em uma realidade, é tema da psicologia explicati-
com um interior e um exterior.
va. Para a fenomenologia fica o campo literalmente ili-
Aqui se impõe uma nova distinção analítica. É in-
mitado das vivências.
dubitável que no ato de percepção plena percebemos as
Terminando aqui esta breve informação, voltemos à
coisas como corpos, isto é, como cheias, não constituídas
questão da memória em Hoffmann. Os “graus da sensi-
por meras superfícies. E, contudo, em cada momento, os
bilidade visual” são os temas principais de Hoffmann. O
sentidos manifestam só superfícies. De modo que a per-
seu propósito consiste em delimitar as distintas formas
cepção já nos surge como síntese de duas formas de cons-
de “consciência de” uma coisa – entendendo por coisa o ciência distintas: aquela em que nos dá a coisa superficial
que vulgarmente se entende – o que constitui a percep-
e aquela em que pensamos o interior da coisa. Hoffmann
ção real. Ou de outro modo: quais são os elementos que
abandona o problema de como isso que chamamos o in-
se dão ante um sujeito para que este perceba uma coisa.
terior das coisas se apresenta frente a nós e limita a ques-
Os elementos que se buscam não têm de entender-se ge-
tão às propriedades superficiais da coisa. Como, por ou-
neticamente, senão descritivamente.
tra parte, refere-se só à percepção visual, designando o
É certo que esse propósito fica reduzido à mais mo-
correlato8 dessa como “coisa real visual”.
desta proporção. Hoffmann limita-se a perseguir o que
Um exemplo disso está em qualquer objeto alheio,
um sentido – a visão – aporta à percepção. Ele propôs,
remoto a nosso tato. Um corpo cúbico colocado a alguns
antes de tudo, chegar a um conceito claro do último ele-
metros de distância nos oferece três de suas superfícies,
mento perceptivo: a sensação. Veremos como fica esse
de forma que não coincide nunca com a que atribuímos
último empenho.
à coisa real cubo. Variando nossa orientação e distância
a respeito dele, muda-se a forma, o tamanho, a cor, etc.;
durante anos, esperando esbarrar em algum vocábulo já existente em
contudo, nós sempre percebemos como cubo. A “coisa
nossa língua e suficientemente apto para transcrever aquela, tenho
real visual” consiste, assim, em uma série de visões so-
constantemente abandonado e passado a buscar uma nova. Trata-se
do que se segue em frases como: “viver a vida”, “viver as coisas”,
bre a coisa com certa continuidade que nos representa a
que adquire no verbo “viver” um curioso sentido. Sem deixar seu
permanência de um idêntico objeto. E, é essencial para
valor declarante tomar uma forma transitiva, significando aquele
que todos entendam o que é coisa real, que essa série de
gênero de relação imediata em que entra ou pode entrar o sujeito
com certas objetividades. Pois bem, como chamar cada atualização
visões, de experiências, seja literalmente infinita. Não
desta relação? Eu não encontro outra palavra que “vivência”. Tudo
podemos esgotar os pontos de vista das quais cabe ver
aquilo que chega com tal imediatez a meu eu, que entra formando
a coisa que, segundo Hoffmann, Kant chamaria de uma
parte dele, é uma vivência. Como o corpo físico é uma unidade de
átomos, assim também o eu ou corpo cônscio é uma unidade de
idéia, pois se trata de um conceito limite.
vivências. Como toda palavra nova, reconheço que esta pode soar
mal. No entanto, ela já existe em composições como convivência,
sobrevivência, etc. e outras análogas. Estou certo que o dicionário
8 Todo ato de consciência é referência a um objeto por meio do “in-
acadêmico não traz essas formas compostas, o que me faz temer se
tencional” do ato. O correlato do ato não é o objeto – por exemplo, o
será um pouco exótica. Solicito, pois, aos filólogos, que se interes-
sol de que falo –, senão aquele “objeto imanente”, aquele “sentido”
sem por essa consulta. Por enquanto não se encontra outro termo
pelo qual penso, referindo-se ao sol. O correlato da percepção é o
melhor, assim continuarei usando “vivência” como correspondente
percebido, não o objeto transcendente a mim. Essa distinção, acaso
T e x t o s C l á s s i c o s
a Erlebnis.
difícil, não pode ser aqui explanada.
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 217-223, jul-dez, 2011
222

Sobre o Conceito de Sensação
Se subtrairmos o que na percepção declaramos como
Prossegue Hoffmann fazendo observações interes-
presente – o que em verdade não está – teremos uma sé-
santes sobre o gênero de dependência entre as variações
rie de visões efetivas que não nos dará adequadamente a
de tamanho visual e as variações das imagens da retina.
coisa real, mas sim, o que a toda hora estamos tomando
Ao meu entender, essa consideração não interessa ao pro-
como coisa real. Se eu dou uma volta inteira ao redor de
blema fenomenológico, prosseguindo o tema memória de
uma cadeira, uma série contínua de imagens se desen-
Hoffmann que trago nesse extrato. Só para referir sobre
volve em mim, chegando a formar um círculo fechado.
isso, quando ele fala da sensação, reproduzo suas con-
Posso chamar isso de coisa real? É certo que não. Essa
clusões. Ao afastar-se uma coisa da pupila, diminui-se
série concluída não é mais que uma mínima parte do
o tamanho natural da coisa visual em menor grau que o
que posso apreender sobre o objeto. Se, a partir da dis-
tamanho métrico das imagens na retina. Por conseguin-
tância que mantive ao girar em torno da cadeira não se
te, não há correspondência estrita, há relativa interde-
mostraram os veios, a aspereza, etc., da madeira, essas
pendência entre a base fisiológica e a imagem. Assim,
propriedades podem aparecer se me aproximar. A nova
cabe que, tendo o mesmo tamanho a imagem na retina,
distância me permitirá obter uma nova série concluída.
o tamanho visual varia. Tome-se uma pena de escrever:
Que privilégio pode-se atribuir a uma dessas séries sobre
coloque-a a 30 ou 40 centímetros de distância e apare-
as outras pretendendo ser ela a real?
cerá em seu tamanho natural. Conservado-a na mesma
Essas coisas obtidas são, portanto, uma série concluída
distância, coloque de fundo a janela e acomode a visão ao
de visões, algo que parece adequar-se ao que chamamos
molde desta. A pena aparecerá, então, bem maior.
realidade, mas que não é. Hoffmann chama essa série con-
Ficam, então, outros constituintes fenomenológicos da
cluída de “coisas visuais” (Sehding), seguindo a termino-
“coisa visual” ainda mais importantes: a figura e a cor9.
logia de Jean Hering, em oposição às reais. Com respeito
a essas, aquelas são verdadeiramente presentes na visão.
Tudo o que não seja “coisa visível” da “coisa real”, pertence
ao que podemos chamar de fator ideal da percepção.
Nota Biográfica
Assim por exemplo: o tamanho. Um tamanho deter-

José ortega y Gasset (1883-1955) foi um filósofo espanhol,
minado é propriedade que atribuímos muito caracteristi-
que atuou como ativista político e jornalista. Formou-se
camente a cada coisa. Não falo do tamanho métrico, que
na Universidade Central de Madri em 1904, seguindo para
seria o da “coisa atômica”, mas do tamanho aparente que
a Alemanha, período caracterizado pela primeira etapa de sua
geralmente atribuímos a um objeto. Agora bem, as árvores
filosofia. Nesse período recebe a influência da escola de Marburg e da
Fenomenologia de Edmund Husserl. Já insatisfeito com o neokantismo,
do final de uma rua têm menor “tamanho visual” que as
o encontro com a fenomenologia de Husserl foi um “feliz sucesso”. Em
primeiras mais próximas. Um copo é grande se estiver a
1923, fundou a Revista de Occidente, revista que ficou responsável por
um metro de distância; menor se estiver a alguns metros.
publicar, traduzir e comentar grandes autores do pensamento filosófico.
Por outro lado, o “tamanho visual” varia segundo os indi-
Durante a ditadura espanhola, exila-se na Argentina, contribuindo
também para a difusão da Fenomenologia na América Latina. Regressa
víduos. Hoffmann fala que para quem está na lua cheia no
à Espanha em 1948, porém, logo em 1955, falece acometido de um
zênite, ao diâmetro rígido pode-se atribuir meio metro.
câncer. Autor prolífico, discorreu sobre temas diversos, entre filosofia,
Qual é, então, o tamanho da “coisa real”. Entre os vá-
história, política, arte, dentre outros. De sua vasta obra, destacam-
rios que vimos, tomamos um e fazemos dele o tamanho.
se: Investigaciones Psicológicas (curso de 1915–1916, mas publicado
somente em 1982); El tema de nuestro tiempo (1923); ¿Qué es filosofía?
Hoffmann chama esse tamanho de “tamanho natural”.
(1928–29, curso publicado postumamente em 1957); Kant (1929-31);
Cada coisa tem “uma zona de distância” na qual nos pa-
¿Qué es conocimiento? (publicado em 1984, refere-se a três cursos
rece mais ela mesma. O tamanho que nessa zona de dis-
entre 1929, 1930 e 1931, que tinham como títulos, respectivamente:
tância se oferece é elevado à norma. Não se pode marcar
“Vida como ejecución (El ser ejecutivo)”, “Sobre la realidad radical”
e “¿Qué es la vida?”); La rebelión de las masas (1929); Misión de la
uma determinação geral a respeito de qual seria essa zona.
Universidad (1930); Ensimismamiento y alteración. Meditación de la
Só cabe dizer que os limites dela estariam entre a dis-
técnica (1939). Suas obras completas foram publicadas em Madrid
tância mais próxima que permite tomar a visão integral
(Editorial Alianza/ Revista de Occidente), em doze volumes, entre
dos objetos e suas partes e a mais distante que conserva
1946-1983. Recentemente, o Editorial Taurus (junto com Santillana
Ediciones Generales) e a Fundación José Ortega y Gasset, reeditaram
o tamanho que nessa mais próxima apresentava.
suas obras completas em dez volumes (2004-2010).
Uma curiosa complicação vem ao encontro. As par-
tes de uma casa – um tijolo, por exemplo – não são vistas
por mim em seu “tamanho natural” quando vejo a casa
Tradução: Prof. Dr. Tommy Akira Goto
inteira em seu “tamanho natural”. Nos objetos de mag-
(Universidade Federal de Uberlândia)
nitude considerável, o tamanho natural não é uma sim-
Revisão Técnica: Prof. Dr. Adriano Holanda
ples soma de tamanhos naturais de suas partes. É possí-
(Universidade Federal do Paraná)
vel, sem dúvida, reunir uma parte sobre a outra em seu
tamanho natural e obter assim um tamanho do todo que
seja a soma. Nesse exemplo da casa, isso seria um produto
construtivo e não o tamanho visual do objeto.
9 No final desse artigo se dizia: “Continuará”, porém não teve conti-
nuação (Nota do Tradutor).
T e x t o s C l á s s i c o s
223
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 217-223, jul-dez, 2011



..........


t
e
s
e
s


e
e
s

t
A
ç
õ

D
i
s
s
e
r



A Ambiguidade na Fenomenologia da Percepção de Maurice Merleau-Ponty (2007)
diSSeRtaçõeS e teSeS
Título:
A Ambiguidade na Fenomenologia da Percepção de Maurice Merleau-Ponty
Autor:
Leandro Neves Cardim
Instituição:
Universidade de São Paulo (USP)
Programa:
Programa de Pós-Graduação em Filosofia (Doutorado)
Banca:
Franklin Leopoldo e Silva (Orientador)

Débora Cristina Morato Pinto (UFSCar)

Eduardo Brandão (USP)

Luiz Damon Moutinho (UFPR)

Márcio Suzuki (USP)
Defesa:
14 de junho de 2007
Resumo:
Este trabalho retoma de alguns tópicos da Fenomenologia da percepção de Maurice
Merleau-Ponty. O rastreamento da ambigüidade fecunda da percepção (inerência vital
e intenção racional) permite a avaliação precisa dos limites da primeira fase desta
filosofia. Ela retoma os métodos clássicos de investigação – explicativo e reflexivo
– em uma espécie de oscilação ritmada do interior destes dois pólos. Ao fazer isto,
o filósofo se inscreve no interior da tradição que ele procura criticar, herdando,
assim, os seus pressupostos dicotômicos permanecendo, portanto, no interior de
uma filosofia da consciência que estabelece uma correlação estrita entre o sujeito
e o objeto. Na verdade, a prometida relação do interior termina por se revelar uma
espécie de justaposição. Mas, uma vez advertidos pelo próprio filósofo de que o livro
em questão não é uma psicologia, e sim ontologia, vale a pena retomar alguns tópicos
que nos ajudem a vislumbrar aquilo que desde 1945 permanecia válido em relação
ao ser: a percepção nos inicia em um estudo de algo que está aquém da relação de
conhecimento. São precisamente estes pontos que tentamos matizar com o intuito de
retificar minimamente a ótica da filosofia da consciência e chamar a atenção para uma
espécie de pensamento que nos ensina certas formulações que em princípio poderiam
ser entendidas como simplesmente abstratas, mas que, desde que as aproximemos
das experiências concretas, na verdade, não o são. Em outras palavras, as descrições
empreendidas por Merleau-Ponty devem ser retomadas e recolocadas no horizonte de
uma investigação ontológica que se preocupe com a verdadeira situação do homem,
mas também com o sentido que elas guardam para um leitor atual já prevenido da
excessiva centralidade do sujeito ou da consciência que predomina na Fenomenologia
da percepção.
Palavras-chave: Percepção, Ambigüidade, Fenomenologia, Ontologia, Merleau-Ponty.
Abstract:
The present work considers some topics of Maurice Merleau-Ponty’s Phenomenology
of perception. The search for the fecund ambiguity of perception (vital inherence
and rational intention) contributes to the precise evaluation of the limits of the
first moment of that philosophy. It resumes the classical methods of investigation –
explicative and reflexive – in a sort of rhythmic oscillation inside those two poles.
Doing that, the philosopher turns to be part of the tradition he was to criticize,
retaking the dichotomous assumptions of it. Thus, he continues to be inside of a
philosophy of consciousness which establishes a strict correlation between subject
and object. Actually, the so-called interior relation turns to be a sort of juxtaposition.
However, once we are prevented by the author that the book considered is not a work
of psychology, but rather an ontology one, it is worth reconsidering some topics that
help us understand what since 1945 has been valid to the being: perception takes us
D i s s e r t a ç õ e s e T e s e s
227
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 227-228, jul-dez, 2011

Leandro N. Cardim
to something that is before the relation of knowledge. That are the points we wanted
to consider aiming to correct the view of the philosophy of consciousness and to
draw attention to a sort of thinking which inform us of some formulations which
at first could be taken merely as abstract ones, but in fact they are not, as long as
we get close to concrete experiences. That is to say that the descriptions carried on
by Merleau-Ponty must be reconsidered and replaced in an ontological investigation
which is concerned with the actual situation of man, but also with sense for a present
reader who is aware of the excessive centrality of the subject or the consciousness in
the Phenomenology of perception.
Keywords:
Perception; Ambiguity; Phenomenology; Ontology; Merleau-Ponty.
Texto Completo: http://www.fflch.usp.br/df/site/posgraduacao/2007_doc/doc_leandroCardim_07.pdf
D i s s e r t a ç õ e s e T e s e s
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 227-228, jul-dez, 2011
228

A Clínica da Urgência Psicológica: Contribuições da Abordagem Centrada na Pessoa e da Teoria do Caos (2003)
diSSeRtaçõeS e teSeS
Título:
A Clínica da Urgência Psicológica: Contribuições da Abordagem Centrada na Pessoa
e da Teoria do Caos

Autor(a):
Márcia Alves Tassinari
Instituição:
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
Programa:
Programa de Pós-Graduação em Psicologia (Doutorado)
Banca:
Élida Sigelmann (Orientadora - UFRJ)

Rogério Christiano Buys (Centro de Psicologia da Pessoa)

Ana Maria Lopez Calvo Feijoo (UERJ)

Vera Engler Cury (PUC-Campinas)

Henriette Tognetti Penha Morato (USP)
Defesa:
19 de Dezembro de 2003
Resumo:
Este estudo é um desdobramento das questões suscitadas na dissertação de
mestrado em relação à fertilidade e potencialidade dos atendimentos em Plantão
Psicológico, propondo uma clínica da urgência psicológica fundamentada na
Abordagem Centrada na Pessoa e nos novos paradigmas da ciência, especialmente
na Teoria do Caos. A inspiração básica surgiu a partir da reflexão em relação aos
ruídos no processo psicoterápico, isto é, em relação ao alto índice de absenteísmo
e de abandono precoce (até a terceira sessão), entendendo-se essas interferências,
de início, como descontinuidade do processo de mudança psicológica. O presente
trabalho envolve quatro movimentos. Inicialmente, apresenta-se a nova modalidade
de atenção psicológica, através do surgimento, desenvolvimento e aplicação em
diferentes contextos do Serviço de Plantão Psicológico. No sentido de buscar as
dimensões significativas que permeiam esses recentes trabalhos, entrevistaram-
se quatro plantonistas que explicitaram suas principais vivências e aprendizagens
significativas em cinco contextos: institucional para adolescentes, jurídico,
institucional militar, escolar e clínico. Esses depoimentos foram literalizados
e analisados qualitativamente, através de uma das modalidades de análise
fenomenológica, objetivando-se esboçar um fio condutor processual. O segundo
movimento oferece a fundamentação teórica utilizada nos atendimentos em Plantão
Psicológico, a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), através de sua contextualização,
evolução, desenvolvimento e inserção no cenário brasileiro. Os principais conceitos
que norteiam as atividades da ACP são contemplados com ênfase no postulado
central, a tendência Atualizante/Formativa e na condição da consideração positiva
incondicional, consideradas balizadores essenciais no acolhimento da urgência
psicológica, no momento exato da necessidade. A questão da promoção da saúde
é incluída como referencial potente na compreensão do sofrimento humano. Em
função da incompletude do paradigma mecanicista e da necessidade de fundamentar
a importância do momento inicial do processo de mudança psicológica, introduz-se
o terceiro movimento, apresentando-se as principais idéias dos novos paradigmas da
ciência. Priorizam-se as propostas da Teoria do Caos em sua intenção de trabalhar
com fenômenos complexos que apresentam dependência em relação às condições
iniciais. Utilizam-se as ênfases desse paradigma emergente como potente metáfora
para compreender de que maneira esse momento inicial pode ser significativo a
longo prazo, trazendo alterações de perspectivas, muitas vezes deflagradas em
uma única consulta psicológica. O caráter de vanguarda da ACP é explicitado,
mostrando-se que ela já estava inserida nesse novo paradigma, especialmente a
partir da ampliação da tendência Atualizante para Tendência Formativa, proposta
D i s s e r t a ç õ e s e T e s e s
229
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 229-231, jul-dez, 2011

Márcia A. Tassinari
por Carl Rogers no final da década de 70. Outras reflexões a respeito da utilização
da Teoria do Caos e da Complexidade em Psicologia são também referendadas. A
parte central compõe o quarto movimento, apresentando uma clínica da urgência
psicológica como sendo a intenção básica dos atendimentos em Plantão Psicológico.
Para tal, são apresentadas outras modalidades de atenção psicológica a curto prazo,
com as diferentes denominações e fundamentações teóricas que ocupam-se também
de receber pessoas em crise, em momentos de emergência ou urgência. A expressão
urgência psicológica foi escolhida para minimizar o viés psicopatologizante,
orientando essa clínica para a promoção da saúde em qualquer circunstância. Nesse
movimento apresentam-se pesquisas sobre os resultados das psicoterapias de curta e
longa duração, explicitando as controvérsias, limitações e possibilidades das mesmas,
o que convida a repensar em outras modalidades de atendimento psicológico para
além do consultório. A título de conclusão, são esboçadas s principais reflexões
que este estudo estimulou, especialmente em relação a inserção da Psicologia nas
instituições e comunidades, bem como sugestões para a formação do psicólogo como
agente social de mudança.
Palavras-chave:
Abstract:
This study unfolds the questions aroused within the master dissertation regarding
the fertility and potentiality experienced at the Psychological Emergency Attendance,
aiming for its theoretical foundation in the Person-Centered Approach as well
as in the new science paradigms, especially Chaos Theory. The basic inspiration
comes from consideration on psychotherapy noises, which are high levels of
dropouts, absenteeism and psychotherapy interruption (up to the third session). It
is understood that these interferences break the psychological change process. This
thesis encompasses four movements. It begins with the new psychological attention
through the Psychological Emergency Attendance’s start point, development and
different contexts applications. Trying to grasp the meaningful dimensions that
permeate these recent works, four professionals were interviewed. They expressed
their meaningful inner experiences and learning within five contexts: adolescents’
institutional, juridical, military’s institutional, school and clinic. Their interviews
were edited and received qualitative treatment through one kind of phenomenological
analyses aiming to draw a process line thread. The second movement offers an
overview of the Person-Centered Approach (PCA), the theoretical foundation frame
of reference, as well as its contextualization, evolution, development and insertion
in the Brazilian scenario. The main PCA concepts that inspires all of its applications
are presented with a special emphasis on the Actualizing/Formative Tendency
and the unconditional positive regard condition, regarded as the core frame in
the psychological urgency welcoming. The health promotion issue is included as
a powerful reference to understand the human suffering. Due to the mechanicist
paradigm insufficiency and also from the urgency to deepen the understanding of
the psychological change initial moment, the study unfolds the third movement,
presenting the new sciences paradigms main ideas. Here it is stressed the Chaos
Theory proposals in its intention to deal with complex phenomena which present
dependence on their initials conditions. The emergent paradigm main notions
are displayed as potent metaphors to understand how the initial moment can be
meaningful in the long term, which may account for perspectives changes even
during only one psychological session. The PCA vanguard characteristic is justified
specially from the Actualizing extended to the Formative Tendency conception,
proposed by the late Carl Rogers during the 70’s. Different proposals using Chaos
Theory and Complexity Thought in Psychology are also referred to. The central part
of this project constitutes its fourth movement, introducing a psychological urgency
clinic as the Psychological Emergency Attendance main goal. To achieve that, it is
presented many psychological treatments features with their different names and
theoretical bases, since they are also utilized with people under crisis, emergency
D i s s e r t a ç õ e s e T e s e s
and urgency complaints. The expression psychological urgency was purposely
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 229-231, jul-dez, 2011
230

A Clínica da Urgência Psicológica: Contribuições da Abordagem Centrada na Pessoa e da Teoria do Caos (2003)
chosen to minimize the psychopathological bias, guiding this clinic to the health
promotion under any circumstances. Here it is also presented research on long
and brief psychotherapy outcome, making explicit their controversies, limitation
and possibilities, which is an invitation to address new psychological attendance
modalities, beyond the private practice office. As a tentative conclusion from this
study, a couple of reflections are drawn, specially regarding the Psychology insertion
in institutions and communities, as well as suggestions to the professional training
of Psychologists as social change agents.
Keywords:
Texto Completo: http://teses.ufrj.br/IP_D/MarciaAlvesTassinari.pdf

http://www.encontroacp.psc.br/teses.htm
D i s s e r t a ç õ e s e T e s e s
231
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 229-231, jul-dez, 2011



.....
ã
o
A
ç

l
i
c
b

p
u

A

p
A
r

s
A
m
r
N
o



Normas de Publicação da Revista da Abordagem Gestáltica
noRmaS de puBliCação da ReviSta
da aBoRdagem geStáltiCa
A REVISTA DA ABoRDAGEM GESTÁlTICA, edita-
dologia, resultados e discussão dos dados. O manuscrito
da pelo Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-
deve ter entre 12 e 20 laudas.
terapia de Goiânia (ITGT), foi criada com o objetivo
Estudo teórico – análise de fatos e idéias publicados so-
de ser um veículo de publicação preferencialmente da
bre um determinado tema. Busca achados controvertidos
Abordagem Gestáltica, bem como daquelas abordagens
para crítica e apresenta sua própria interpretação das in-
que se fundamentam em bases teórico-científicas e filosó-
formações. O manuscrito deve ter entre 12 e 20 laudas.
ficas dentro das perspectivas humanistas e existenciais,
Relato de experiência – estudo de caso, contendo
além das pautadas na Fenomenologia. As suas diretrizes
análise de implicações conceituais ou descrição de proce-
são definidas pela Editoria e pelo Conselho Editorial, dos
dimentos ou estratégias de intervenção, incluindo evidên-
quais participam psicólogos, filósofos e profissionais das
cia metodologicamente apropriada de avaliação de eficá-
áreas da saúde e educação.
cia, de interesse para a atuação de psicólogos em diferen-
Assim, sua linha editorial procura privilegiar refle-
tes áreas. O manuscrito deve ter entre 12 e 20 laudas.
xões – numa perspectiva multiprofissional e interdisci-
Estudo monográficoapresenta trabalho desenvolvi-
plinar – em torno dos seguintes temas: a) Gestalt-terapia do em atividade acadêmica pelo autor, como especializa-
e Abordagem Gestáltica; b) Psicologia Humanista e
ção, mestrado ou doutorado. Limitado a 10 laudas.
Existencial; c) Psicologias e Psicoterapias de orientação
Ensaio – interpretação original de algum tema que
Fenomenológica e Existencial; d) Fenomenologia pura e
contribua criticamente para o aprofundamento do conhe-
aplicada; e) Pesquisa Qualitativa e Fenomenológica.
cimento. Limitado a 5 laudas.
Serão aceitos para apreciação artigos centrados na
Resenha – análise de obra recentemente publicada
pesquisa e na produção do conhecimento relativos às
(no máximo há dois anos). Limitada a 5 laudas.
abordagens citadas, que remetam à reflexão crítica da
Resenha (textos clássicos) – análise de obra conside-
atuação do psicólogo ou de outros profissionais que as
rada relevante para a abordagem, publicada há mais de
utilizam no seu exercício profissional. Poderão ser arti-
dez anos. Limitada a 5 laudas.
gos teóricos ou empíricos, que envolvam temáticas rela-
Ressonância – comentários e/ou réplicas de publi-
cionadas à saúde, educação, humanidades, filosofia ou
cações de números anteriores deste periódico. Limitada
ciências sócio-antropológicas, refletindo assim a pers-
a 5 laudas.
pectiva holística da abordagem gestáltica.
Perfil – breve biografia de pessoa que tenha contri-
buído para o desenvolvimento da abordagem gestáltica,
humanista, existencial ou fenomenológica. Limitado a
1. informações gerais
5 laudas.
Notícias – registro de fatos ou eventos relacionados à
Os manuscritos serão submetidos à apreciação do
comunidade gestáltica. Limitada a 3 laudas.
Conselho Editorial para realização de parecer técnico
Resumo de tese e dissertação – conforme apre-
(em número mínimo de dois pareceres por proposta, ou
sentado na tese/dissertação defendida. Limitado a uma
mais, quando necessário). A editoria da revista lançará
lauda.
mão (caso necessário) de especialistas convidados – na
qualidade de consultores ad hoc – que poderão sugerir
modificações antes de sua publicação.
2. instruções para publicação
A editoração da Revista da Abordagem Gestáltica as-
segura o anonimato dos autores e dos consultores durante
Os manuscritos submetidos à publicação devem ser
o processo de avaliação. Serão consideradas a atualidade inéditos e destinarem-se exclusivamente a esta revista,
e a relevância do tema, bem como a originalidade, a con-
não sendo permitida a sua apresentação simultânea em
sistência científica e o atendimento às normas éticas.
outro periódico. Todos os trabalhos serão submetidos a
Os trabalhos deverão ser originais, relacionados à
uma avaliação “cega”, por – no mínimo – dois pareceris-
psicologia, filosofia, educação, ciências da saúde e só-
tas, pares especialistas na temática proposta.
cio-antropológicas, e se enquadrarem nas categorias que
Os manuscritos deverão ser enviados via e-mail (re-
se seguem:
vista@itgt.com.br), conforme especificações disponíveis
no site da revista (www.revistagestalt.com.br). Deverá ser
Relato de pesquisa – relato de investigação concluída encaminhado também um mini-currículo contendo as se-
ou em andamento, com uso de dados empíricos, meto-
guintes informações: nome completo do(s) autor(es), afi-
N o r m a s
235
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 235-239, jul-dez, 2011

Normas de Publicação da Revista da Abordagem Gestáltica
liação institucional, títulos e/ou cargos atuais, endereço
nhamento à direita. O nome do autor da epígrafe deverá
eletrônico e endereço para correspondência.
aparecer em itálico, seguido da referência da obra.
Não serão admitidos acréscimos ou alterações após o
d) Resumo e Palavras-chave - deverão ser redigidos
envio dos manuscritos para o Conselho Editorial, salvo
em português, inglês e espanhol, em parágrafo único,
os sugeridos por este.
espaçamento interlinear simples, fonte 10, com até 200
As opiniões emitidas nos trabalhos, bem como a exa-
palavras. As palavras-chave (descritores), de três a cinco
tidão e adequação das Referências Bibliográficas são de
termos significativos, deverão remeter ao conteúdo fun-
exclusiva responsabilidade dos autores.
damental do trabalho. Para a sua determinação, consultar
A publicação dos trabalhos dependerá da observân-
a lista de Descritores em Ciências da Saúde - elaborada
cia das normas da Revista da Abordagem Gestáltica e
pela Bireme e/ou Medical subject heading – comprehen-
da apreciação do Conselho Editorial, que dispõe de ple-
sive medline. Todas as palavras deverão ser escritas com
na autoridade para decidir sobre a conveniência da sua
iniciais maiúsculas e separadas por ponto e vírgula.
aceitação, podendo, inclusive, apresentar sugestões aos
Incluir também descritores em inglês (keywords) e espa-
autores para as alterações necessárias.
nhol (Palabras-clave).
Quando a investigação envolver sujeitos humanos, os
e) Estrutura do manuscrito - os trabalhos referen-
autores deverão apresentar no corpo do trabalho uma de-
tes a pesquisas e relatos de experiência deverão conter
claração de que foi obtido o consentimento dos sujeitos
introdução, objetivos, metodologia, resultados e conclu-
por escrito (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido)
são. O trabalho deverá ser redigido em linguagem clara
e/ou da instituição em que o trabalho foi realizado
e objetiva. As palavras estrangeiras e os grifos do autor
(Comissão de Ética em Pesquisa). Trabalhos sem o cum-
deverão vir em itálico.
primento de tais exigências não serão publicados.
f) Adotar a seguinte padronização de palavras
Os autores serão notificados sobre a aceitação ou a re-
- Gestalt-terapia ou Gestalt-terapia, gestalt-terapeu-
cusa de seus artigos, os quais, mesmo quando não forem
ta, Abordagem Gestáltica, Psicologia da Gestalt ou
aproveitados, não serão devolvidos.
Gestalt-Psychologie. Verificar excesso de espaço entre as
palavras.
g) Subtítulos - deverão ser colocados sempre no ali-
3. formas de apresentação dos manuscritos
nhamento da margem esquerda do manuscrito, em ne-
grito, apenas com as letras iniciais de cada palavra em
A Revista da Abordagem Gestáltica adota normas
maiúsculas.
de publicação baseadas no Publication Manual of the
h) Ilustrações - figuras, quadros, tabelas, desenhos
American Psychological Association (APA) – 5ª edição,
e gráficos deverão ser indicados em números arábicos,
2001.
com legenda em letras maiúsculas, título em minúscu-
Os manuscritos deverão ser preferencialmente redi-
las, sem grifo.
gidos em português. A critério do Conselho Editorial,
i) Nomenclaturas e Abreviaturas - usar somente as
também serão aceitos manuscritos redigidos em inglês,
oficiais. O uso de abreviaturas e de siglas específicas ao
francês ou espanhol.
conteúdo do manuscrito deverá ser feito com sua indica-
Os trabalhos deverão ser digitados em Programa
ção entre parênteses na primeira vez em que aparecem
Word for Windows, em letra Times New Roman, tama-
no manuscrito, precedida da forma por extenso.
nho 12, espaçamento interlinear de 1,5 e margens de
j) Notas de rodapé - deverão ser numeradas em or-
2,5 cm, em papel formato A4, perfazendo o total máxi-
dem crescente e restritas ao mínimo indispensável.
mo de laudas, de acordo com o tipo de publicação dese-
l) Citações - deverão ser feitas de acordo com as nor-
jada (ver Informações gerais), observadas as seguintes
mas da APA (5ª edição, 2001). Em caso de transcrição in-
especificações:
tegral de um texto com número inferior a quarenta pala-
a) Cabeçalho - é recomendado que o título do artigo
vras, a citação deverá ser incorporada ao texto entre aspas
seja escrito em até doze palavras, refletindo as principais
duplas, em itálico, com indicação, após o sobrenome do
questões de que trata o manuscrito. O título deverá ser
autor e a data, da(s) página(s) de onde foi retirado. Uma
redigido em caixa alta, fonte 14, centralizado e em ne-
citação literal com quarenta ou mais palavras deverá ser
grito. A seguir, devem vir, em itálico, centralizados e em
destacada em bloco próprio, começando em nova linha,
fonte 12, os títulos em inglês e espanhol.
sem aspas e sem itálico, com o recuo do parágrafo ali-
b) Os nomes completos dos autores deverão apa-
nhado com a primeira linha do parágrafo normal. O ta-
recer abaixo do título, em fonte 12, letra versalete, com
manho da fonte deve ser 12, e o espaçamento interlinear
alinhamento à direita, indicando, após as Referências
1,5, como no restante do manuscrito. A citação destacada
Bibliográficas, em nota explicativa, a titulação dos auto-
deve ser formatada de modo a deixar uma linha acima e
res, local de atividade e e-mail (se houver).
outra abaixo da mesma
c) Epígrafe - deverá ser apresentada em letra normal,
m) Referências Bibliográficas - denominação a ser
N o r m a s
em espaçamento interlinear simples, fonte 10, com ali-
utilizada. Não use Bibliografia. O subtítulo Referências
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 235-239, jul-dez, 2011
236

Normas de Publicação da Revista da Abordagem Gestáltica
Bibliográficas deverá estar alinhado à esquerda. As refe-
Citações de trabalho discutido em uma fonte secun-
rências deverão seguir normas da APA (5ª edição, 2001).
dária
A fonte deverá ser formatada em tamanho 12, espaçamen-
to interlinear 1,5, sempre em ordem alfabética Deixe um
Caso se utilize como fonte um trabalho discutido em
espaço extra entre uma citação e a próxima. Utilize o re-
outro, sem que o texto original tenha sido lido (por exem-
cuo “deslocamento”. Verificar se todas as citações feitas
plo, um estudo de Flavell, citado por Shore, 1982), deverá
no corpo do manuscrito e nas notas de rodapé aparecem ser usada a seguinte citação: “Flavell (conforme citado por
nas Referências Bibliográficas e se o ano da citação no
Shore, 1982) acrescenta que estes estudantes. .”
corpo do manuscrito confere com o indicado na lista
Na seção de Referências Bibliográficas, informar ape-
final.
nas a fonte secundária (no caso Shore, 1982), com o for-
n) Anexos - usados somente quando indispensáveis
mato apropriado.
à compreensão do trabalho, devendo conter um mínimo
de páginas (serão computadas como parte do manuscri-
to) e localizados após Referências Bibliográficas.
Citações de obras antigas reeditadas
a) Quando a data do trabalho é desconhecida ou mui-
4. tipos comuns de citação no manuscrito
to antiga, citar o nome do autor seguido de “sem data”:
“Piaget (sem data) mostrou que. .” ou (Piaget, sem data).
Citação de artigo de autoria múltipla
b) Em obra cuja data original é desconhecida, mas
a data do trabalho lido é conhecida, citar o nome do au-
a) dois autores
tor seguido de “tradução” ou “versão” e data da tradução
O sobrenome dos autores é explicitado em todas as
ou da versão: “Conforme Aristóteles (tradução 1931)” ou
citações, usando “e” ou “&” conforme a seguir: “O método
(Aristóteles, versão 1931).
proposto por Siqueland e Delucia (1969)” ou “o método foi
c) Quando a data original e a consultada são diferen-
inicialmente proposto para o estudo da visão (Siqueland
tes, mas conhecidas, citar autor, data do original e data
& Delucia, 1969)”
da versão consultada: “Já mostrava Pavlov (1904/1980)”
ou (Pavlov, 1904/1980).
b) de três a cinco autores
O sobrenome de todos os autores é explicitado na pri-
meira citação: “Spielberger, Gorsuch e Lushene (1994)
Citação de comunicação pessoal
verificaram que”. Da segunda citação em diante, só o so-
brenome do primeiro autor é explicitado, seguido de “et
Este tipo de citação deve ser evitada, por não ofere-
al.” e o ano: “Spielberger et al. (1994) verificaram que”. Se
cer informação recuperável por meios convencionais.
houver uma terceira citação no mesmo parágrafo, omita
Se inevitável, deverá aparecer no texto, mas não na se-
o ano: “Spielberg et al. verificaram”
ção de Referências Bibliográficas, com a indicação de
Caso as Referências e a forma abreviada produzam
“comunicação pessoal”, seguida de dia, mês e ano. Ex.:
aparente identidade de dois trabalhos em que os co-auto-
“C. M. Zannon (comunicação pessoal, 30 de outubro de
res diferem, esses são explicitados até que a ambigüidade
1994).”
seja eliminada. Os trabalhos de Hayes, S. C., Brownstein,
A. J., Haas, J. R. & Greenway, D. E. (1986) e Hayes, S. C.,
Brownstein, A. J., Zettle, R. D., Rosenfarb, I. & Korn, Z.
5. Seção de Referências Bibliográficas
(1986) são assim citados: “Hayes, Brownstein, Haas et al.
(1986) e Hayes, Brownstein, Zettle et al. (1986).
Organize por ordem alfabética dos sobrenomes dos
Na seção de Referências Bibliográficas, os nomes de
autores. Em casos de referência a múltiplos estudos do
todos os autores devem ser relacionados.
mesmo autor, organize pela data de publicação, em ordem
cronológica, ou seja, do estudo mais antigo ao mais recen-
c) de seis ou mais autores
te. Referências com o mesmo primeiro autor, mas com di-
Desde a primeira citação, só o sobrenome do primei-
ferentes segundos ou terceiros autores, devem ser organi-
ro autor é mencionado, seguido de “et al.”, exceto se esse
zadas por ordem alfabética dos segundos ou terceiros au-
formato gerar ambiguidade, caso em que a mesma solução
tores (ou quartos ou quintos. .). Os exemplos abaixo auxi-
indicada no item anterior deve ser utilizada: “Rodrigues
liam na organização do manuscrito, mas certamente não
et al. (1988).”
esgotam as possibilidades de citação. Utilize o Publication
Mais uma vez, na seção de Referências Bibliográficas
Manual of the American Psychological Association (2001,
todos os nomes são relacionados.
5ª edição) para suprir possíveis lacunas.
N o r m a s
237
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 235-239, jul-dez, 2011

Normas de Publicação da Revista da Abordagem Gestáltica
Exemplos de tipos comuns de referência
Vasconcelos, L. A. (1983). Brincando com histórias infantis:
uma contribuição da Análise do Comportamento para o de-
Relatório técnico
senvolvimento de crianças e jovens (2ª ed.). Santo André:
ESETec.
Birney, A. J. & Hall, M. M. (1981). Early identification of chil-
dren with written language disabilities (relatório n. 81-1502).
Capítulo de livro
Washington, DC: National Education Association.
Blough, D. S. & Blough, P. (1977). Animal psychophysics. Em W.
Trabalho apresentado em congresso, mas não
K. Honig & J. E. Staddon (Orgs.), Handbook of operant behav-
publicado
ior (p. 514-539). Englewood Cliffs, N. J.: Prentice-Hall.
Haidt, J., Dias, M. G. & Koller, S. (1991, fevereiro). Disgust, disre-
Livro traduzido em língua portuguesa
spect and culture: moral judgement of victimless violations
in the USA and Brazil
. Trabalho apresentado em Reunião
Se a tradução em língua portuguesa de um trabalho em
Anual (Annual Meeting) da Society for Cross-Cultural
outra língua é usada como fonte, citar a tradução em por-
Research, Isla Verde, Puerto Rico.
tuguês e indicar ano de publicação do trabalho original.
Trabalho apresentado em congresso com resumo Salvador, C. C. (1994). Aprendizagem escolar e construção de co-
publicado em publicação seriada regular
nhecimento. (E. O. Dihel, Trad.) Porto Alegre: Artes Médicas
(Trabalho original publicado em 1990).
Tratar como publicação em periódico, acrescen-
tando logo após o título a indicação de que se trata de
No texto, citar o ano da publicação original e o ano
resumo.
da tradução: (Salvador, 1990/1994).
Silva, A. A. & Engelmann, A. (1988). Teste de eficácia de um
Artigo em periódico científico
curso para melhorar a capacidade de julgamentos corre-
tos de expressões faciais de emoções [Resumo]. Ciência e
Informar volume do periódico, em seguida, o número
Cultura, 40 (7, Suplemento), 927.
entre parêntesis, sobretudo quando a paginação é reini-
ciada a cada número.
Trabalho apresentado em congresso com resumo
publicado em número especial
Doise, W. (2003). Human rights: common meaning and differ-
ences in positioning. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 19(3),
Tratar como publicação em livro, informando sobre
201-210.
o evento de acordo com as informações disponíveis em
capa.
Obra no prelo
Todorov, J. C., Souza, D. G. & Bori, C. M. (1992). Escolha e deci-
Não deverão ser indicados ano, volume ou número de
são: A teoria da maximização momentânea [Resumo]. Em
páginas até que o artigo esteja publicado. Respeitada a
Sociedade Brasileira de Psicologia (Org.), Resumos de co-
ordem de nomes, é a ultima referência do autor.
municações científicas, XXII Reunião Anual de Psicologia
(p. 66). Ribeirão Preto: SBP.
Conceição, M. I. G. & Silva, M. C. R. (no prelo). Mitos sobre
a sexualidade do lesado medular. Revista Brasileira de
Teses ou dissertações não-publicadas
Sexualidade Humana.
Costa, L. (1989). A família descasada: interação, competên-
Autoria institucional
cia e estilo. Estudo de caso. Dissertação de Mestrado,
Universidade de Brasília, Brasília.
American Psychiatric Association (1988). DSM-III-R,
Livros
Diagnostic and statistical manual of mental disorder (3a
ed. revisada). Washington, DC: Autor.
a) primeira edição:
Artigos consultados na mídia eletrônica
Féres-Carneiro, T. (1983). Família: diagnóstico e terapia. Rio
de Janeiro: Zahar.
Sanches, M. & Jorge, M.R. (2004). Transtorno Afetivo
Bipolar: Um enfoque transcultural, Revista Brasileira
de Psiquiat r ia
[on li ne]. Vol. 26, supl.3, p. 54-
b) obra reeditada:
56. Acesso em 05 de julho de 2006, em http://www.
scielo.br/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-
Franco, F. de M. (1946). Tratado de educação física dos meninos.
44462004000700013&lng=pt&nrm=iso.
N o r m a s
Rio de Janeiro: Agir (originalmente publicado em 1790).
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 235-239, jul-dez, 2011
238

Normas de Publicação da Revista da Abordagem Gestáltica
6. direitos autorais
acompanhado de permissão escrita do detentor do direi-
to autoral do trabalho original, para reprodução especi-
ficada na Revista da Abordagem Gestáltica. Tal permis-
Artigos publicados na Revista da Abordagem Gestál-
são deve ser endereçada ao autor do trabalho submetido
tica
à apreciação.
Em nenhuma circunstância, a Revista da Abordagem
Os direitos autorais dos artigos publicados pertencem
Gestáltica e os autores dos trabalhos publicados poderão
à Revista da Abordagem Gestáltica. A reprodução total
repassar a outrem os direitos assim obtidos.
dos artigos dessa revista em outras publicações, ou para
quaisquer outros fins, está condicionada à autorização
escrita do Editor da Revista da Abordagem Gestáltica.
7. endereço para encaminhamento
Pessoas interessadas em reproduzir parcialmente os ar-
tigos por ela publicados (partes do texto que excederem
Toda correspondência para a revista deve ser ende-
500 palavras, tabelas, figuras e outras ilustrações) deve-
reçada para:
rão obter permissão escrita dos autores.
Editor
Reprodução parcial de outras publicações
Revista da Abordagem Gestáltica
Manuscritos submetidos à apreciação que contiverem
Instituto de Treinamento e Pesquisa
partes de texto extraídas de outras publicações deverão
em Gestalt-terapia de Goiânia (ITGT)
obedecer aos limites especificados para garantir a origi-
Rua 1.128 nº 165 - St. Marista
nalidade do trabalho submetido. Recomenda-se evitar a
Goiânia-GO CEP: 74.175-130
reprodução de figuras, tabelas e desenhos extraídos de
outras publicações.
Comunicações rápidas podem também ser efetuadas
O manuscrito que contiver reprodução de uma ou
por telefone (62) 3941.9798 ou fax (62) 3942.9798 – ou pelo
mais figuras, tabelas e desenhos extraídos de outras
endereço eletrônico: revista@itgt.com.br. Outras informa-
publicações só será encaminhado para análise, se vier
ções podem ser obtidas no site: www.itgt.com.br
N o r m a s
239
Revista da Abordagem Gestáltica – XVII(2): 235-239, jul-dez, 2011